Éteram aprendeu cedo que o mundo não perdoa sobreviventes.
Aos sete anos, conheceu a fome. Aos oito, o frio que rasga os ossos. Aos nove, o som do próprio estômago implorando por algo que não vinha. Aos dez, já não sentia pena.
Aos quinze, conheceu Apari.
Ela não pediu permissão.
Invadiu o que restava do abrigo dele — uma carcaça de construção abandonada —, silenciosa como um animal acostumado à miséria. Roubou o último pedaço de pão duro que ele guardava havia dias e comeu ali mesmo, com uma fome indecente, quase obscena.
Os cabelos eram fios ondulados, densos e embolados. Algumas migalhas haviam ficado presas neles, como se até o corpo dela se recusasse a desperdiçar qualquer coisa.
Éteram ficou olhando.
Tempo demais.
Apari percebeu.
A lâmina voou antes de qualquer palavra existir.
O que restava da faca cortou o rosto dele — não fundo, não fatal, só o bastante para ensinar.
Uma gota de sangue escorreu devagar.
Ele não se moveu.
Apenas a viu desaparecer pela janela.
E, pela primeira vez em muito tempo, seu coração bateu.
Forte.
Vivo.
Determinou-se a encontrá-la novamente.
Passou a esperar.
Deixou a janela aberta — podre, frágil, convidativa. Um convite silencioso para quem soubesse reconhecer armadilhas ou simplesmente não tivesse escolha.
Duas semanas.
Nada.
Então fez o que sabia fazer: cozinhou.
Roubou pouco de muitos lugares. Nunca o bastante para ser notado.
Acendeu fogo sob uma porta de ferro torta, apoiada em tijolos quebrados, e transformou-a num fogão improvisado. Preparou coelho defumado, marinado com o pouco de tempero que conseguira encontrar.
Deixou a gordura pingar e chiar sobre o metal quente, soltando um cheiro denso, quase agressivo.
Abriu a janela.
O vento entrou como uma lâmina, atravessando o casaco furado e mordendo sua pele.
Ainda assim, ele manteve a abertura.
A fumaça subiu espessa, visível no ar gelado da noite.
O cheiro faria o resto.
Naquela noite, quase desistiu.
Fechou a janela, deitou-se e aceitou o vazio.
Mas o vazio não veio.
Uma sombra dançava sobre seu rosto quando acordou.
Não era ameaça.
Era presença.
Depois veio o som: carne sendo rasgada, mastigação úmida, respiração pesada — alguém comendo como se cada segundo importasse.
Éteram não se moveu.
Não precisava ver.
Saber bastava.
Aquilo o preencheu de uma forma errada.
Uma semana depois, repetiu.
E de novo.
E de novo.
Apari nunca agradecia.
Às vezes, deixava um osso limpo perto da porta. Em outras, levava o prato consigo e devolvia a tigela na noite seguinte, raspada até o fundo.
Era o bastante.
Os pratos ficaram mais complexos, mais pessoais: macarrão com curry, carne com ovos cozidos, batatas recheadas com frango e creme.
Éteram começou a separar os melhores pedaços antes mesmo de terminar o preparo.
Apari passou a chegar antes de a comida esfriar.
Naquela noite, ela fez um remendo melhor.
E então veio o erro.
Abobrinha recheada com camarão.
Memória do tio.
Memória que matou.
O som começou normal: mastigação, pressa, fome.
Então mudou.
Um engasgo seco.
Outro.
Metal raspou contra a porta improvisada.
O ferro vibrou.
Alguma coisa caiu com um impacto pesado.
Depois veio o cheiro.
Não de comida.
De tecido queimando.
Éteram abriu os olhos.
Apari estava caída sobre a porta de ferro, o corpo inclinado para a frente. O casaco, gasto e cheio de remendos, havia pegado fogo com a gordura que ainda fervia sobre a chapa.
Uma chama subia pela manga.
Outra alcançava seus cabelos.
Ela não gritava.
As mãos estavam fechadas no próprio pescoço.
O rosto começava a inchar.
Os olhos procuraram os dele, arregalados, sem acusação — apenas pânico.
Éteram se lançou.
Agarrou-a e puxou com força, arrastando-a para fora da chapa.
O calor queimou suas mãos, mas ele não soltou.
Rasgou o manto preso ao pescoço dela e arremessou o tecido em chamas para longe.
Apari se debateu contra ele.
Tentou respirar.
Não conseguiu.
Ele a segurou com mais força, sem saber se a estava salvando ou machucando.
A garganta dela produzia um ruído baixo, interrompido, quase animal.
Ele não sabia o que fazer.
Essa era a pior parte.
O peito apertou.
Pela primeira vez em anos, sentiu medo.
Não morra.
Não morra.
Ele não disse.
Não tinha voz para isso.
Apenas ficou, segurando-a, enquanto o corpo dela lutava e, depois, cedia.
A respiração voltou aos poucos, irregular e áspera.
Apari não morreu.
A manhã seguinte
Ao amanhecer, acordou com o corpo pesado e a garganta em chamas.
Cada respiração doía, como puxar ar através de vidro quebrado.
O gosto na boca era amargo, salgado, errado.
Ela vestia outro casaco.
O seu havia virado cinzas.
A memória veio em fragmentos: comida, gosto estranho, sufoco, calor, mãos, lágrimas.
Lágrimas.
Apari franziu o rosto.
Não eram as dela.
A faca ainda existia, enterrada nas cinzas.
Ela a pegou, fechou a janela e só então olhou para Éteram.
Ele estava encolhido perto da fogueira apagada, abraçando as próprias pernas.
Os dedos, avermelhados e levemente queimados.
O rosto, cansado e vulnerável.
Patético.
Vivo.
Ele acordou com um espirro.
Um lampejo da noite anterior atravessou sua mente.
Virou-se rápido e parou.
Apari estava acordada, faca em mãos, olhar frio.
Éteram respirou fundo.
O alívio apareceu antes que ele pudesse escondê-lo.
— Você é masoquista?
— Como? — ele perguntou, confuso.
— Gente que gosta de ver os outros sofrerem sem ganhar nada com isso.
A faca apontava para ele.
Éteram levantou as mãos devagar.
— Não… foi sem querer. Eu não sabia. Não tinha como saber. Eu não queria que você morresse. — A voz falhou. — Se quiser me matar, eu entendo.
Ele abaixou as mãos, fechou os olhos e esperou.
Nada.
— Não. — Ela baixou um pouco a faca. — Não te dou perdão. E também não vou te matar. Não sei se consigo. — Respirou fundo; doeu. — Você sabia que eu vinha. Então por que continuou? E ainda piorando… camarão?
Ele demorou a responder.
— Porque eu gostava.
— Gostava de quê?
— De saber que você não ia dormir com fome.
Sem hesitação.
Sem vergonha.
Errado.
Ela apertou a faca.
— Vão te matar.
— Talvez.
— Você rouba coisa demais. Coisa cara.
— Eu vario os lugares. Tem vários armazéns. Vai demorar.
Ela o encarou.
— E o que você ganha com isso?
— Nada.
O silêncio ficou mais pesado.
— Então por quê?
Éteram olhou para o chão.
— Porque é melhor do que não sentir nada.
Aquilo a irritou mais do que deveria.
— Não sou puta.
— Eu sei.
— Não te devo nada.
— Eu sei.
— Se você encostar em mim…
— Eu não vou.
Direto.
Sem espaço para dúvida.
Ela poderia ir embora.
Tinha forças, uma faca e a rua.
Também tinha o frio.
Ali havia comida, calor e alguém que não exigia nada.
O que tornava tudo pior.
— Se você tentar qualquer coisa… qualquer coisa… — disse ela, em voz baixa.
— Eu sei.
— Eu pinto as paredes com seu sangue.
— Eu sei.
Apari guardou a faca junto ao corpo.
— Eu fico até a neve parar.
Éteram assentiu.
— Certo.
Ela ficou.
Não por confiança.
Não por perdão.
Talvez nem por fraqueza.
Ficou porque, às vezes, sobreviver exigia aceitar o tipo errado de companhia.
Inverno
Nos dias seguintes, aprenderam uma rotina sem combinar nada.
Apari buscava água.
Éteram procurava comida.
Ela reclamava quando ele voltava tarde.
Ele fingia não ouvir quando ela roubava o cobertor durante a noite.
Uma vez, ela encontrou três batatas escondidas sob o colchão improvisado.
— Você está guardando comida de mim?
— Estou guardando comida.
— É diferente?
— É.
Ela comeu duas e deixou a terceira no mesmo lugar.
Quando Éteram voltou, a batata tinha desaparecido.
Ele não perguntou.
E quando o inverno acabou, ela ainda estava lá.
Primavera
Com a chegada da primavera, depois de um inverno inteiro de silêncio, algumas decisões deixaram de poder ser adiadas.
— Você realmente vai embora?
Éteram não olhou para ela.
Apenas se sentou, como se a pergunta não tivesse peso.
— Você já respira. A neve parou, mas…
— Eu não fico no mesmo lugar por muito tempo — ela o interrompeu.
Apari retirou o casaco e o dobrou com cuidado demais para alguém como ela.
— Já consigo respirar. Não tem mais comida. — Estendeu o tecido. — Não tenho motivo para ficar.
Ele demorou a pegá-lo.
— Entendi… — disse, por fim, sem firmeza. — Se é assim, tudo bem. Pode voltar, se quiser.
Ela não respondeu.
A faca já estava com ela.
A janela, não.
Apari saiu pela porta sem olhar para trás.
No cair da noite, o silêncio apodrecia o lugar.
Éteram permaneceu diante da fogueira morta.
O vento já não atravessava as paredes como antes, mas o frio continuava ali.
Dentro dele.
— O vento não sopra mais como antes… então por que ainda sinto tanto frio? — murmurou para ninguém. — Não estou com fome, mas me sinto fraco. Tão frágil. Tão…
— Patético?
A voz surgiu antes da figura.
Éteram ergueu os olhos.
Apari estava encostada na porta.
Neve derretida escorria das botas.
O cabelo estava bagunçado pelo vento.
Três pães, embrulhados em papel, estavam presos entre o braço e o peito.
Ela se aproximou sem pedir licença.
— Você ainda está exatamente onde eu deixei. — Tocou a testa dele. A mão estava fria. — Hm. Não está quente. Só parece um cadáver.
Colocou os pães ao lado da parede.
— Trouxe comida.
Éteram observou os pães por alguns segundos antes de conseguir olhar para ela.
— Por que voltou?
— Porque eu quis. — Ela deu de ombros. — E porque eu posso.
Os olhos dela desceram até o rosto abatido dele.
— Agora é você quem mal consegue respirar.
Um sorriso pequeno surgiu no canto de sua boca.
Perigoso.
— Não sabia que era tão gentil — ele murmurou.
— Não sou.
A resposta veio depressa demais.
Apari caminhou até a fogueira apagada e chutou um pedaço de madeira.
— Perguntei uma coisa a alguém antes de voltar.
Éteram ergueu os olhos.
— “Algumas coisas são tão raras e espontâneas que parecem mentira. Não deixe escapar.”
O olhar dele vacilou pela primeira vez.
— “Roube ou mate, mas não perca. Porque certas coisas não podem ser compradas.”
Apari ficou imóvel.
— Seu tio?
Ele assentiu devagar.
— Ele dizia isso nos meus aniversários. Sempre servia berinjela recheada com camarão.
O silêncio veio pesado depois disso.
— Ah… — Ela desviou os olhos. — Então aquele dia…
— “Não te dou perdão. Nem vou te matar. Não sei se tenho forças.” — Um sorriso cansado apareceu no rosto dela. — Foi isso que você disse.
Ela clicou a língua, irritada.
— Você lembra demais.
— Acho que não como há três dias… — Éteram encostou a cabeça na parede. — Pode pegar um para mim?
— Quatro. — Ela o corrigiu enquanto pegava um dos pães. — E isso é realmente patético.
Apari se ajoelhou diante dele e empurrou o pão contra sua mão.
— Consegue ao menos comer sozinho?
— Se eu disser que não… você me daria na boca?
O silêncio durou apenas um instante, curto e perigoso.
Então Apari sorriu.
Naquela madrugada fria de primavera, até mesmo aquele lugar miserável pareceu um pouco mais quente.