Éteram finalmente recebeu seu salário depois de um mês inteiro de trabalho.

Junto com as moedas, veio uma segunda informação: dali em diante, ele estaria oficialmente no livro de dispensas e receberia seu pagamento semanalmente, em vez de uma vez por mês.

Éteram estranhou.

— Por que esperaram tanto dessa vez?

O responsável pelo pagamento deu de ombros.

— Não sabia se ia gostar de você. E não gostamos de rabiscar o livro.

Éteram ergueu uma sobrancelha.

— Significa que você gostou de mim?

— É o que parece, não?

Agradecido, Éteram voltou para casa quase saltitando. Três moedas de bronze por semana.

Não era muito.

Para ele, entretanto, parecia uma fortuna.

Apari o recebeu com um sorriso e levantou o papel que carregava consigo. Havia números, desenhos e pequenas anotações espalhadas por toda parte.

— A gente finalmente vai pode ver os preços dos lugares que anotei.

— Sim, minha rosa. Mas vamos com calma, como combinamos, certo?

— Sim, sim. Anda logo.

Éteram se sentou ao lado dela.

— Eu recebi um vírgula dois pratas. Isso só faz a vírgula andar…

Algo cutucou suas costas.

— Au! O que foi?

— Você tá falando em números de novo. Fala em palavras pra eu entender.

Éteram suspirou.

— Ah… Desculpa, minha rosa. Vou lhe explicar.

— Eu recebi quatro semanas de uma vez só, tudo bem?

— Sim. Isso eu sei.

— Pois bem. Para não carregar uma sacola gorda de dinheiro, que chamaria atenção pelo tamanho e pelo som, usamos a moeda de prata depois de dez moedas de bronze. Uma prata vale dez cobres. Entende?

Apari fez que sim, embora claramente ainda estivesse mais interessada no papel.

— Pode misturar prata e cobre numa compra normal?

— Sim. É completamente normal. Nós não fazemos isso porque somos pobres. Eu mesmo nunca consegui ter uma.

Apari olhou para as moedas.

— Agora que você falou… Nunca sobra dinheiro. A gente sempre gasta tudo e ainda falta.

— Volta pra aula. Nosso sistema evita grandes volumes. Então seguimos uma forma que sempre aumenta um zero. Uma prata vale dez cobres, um ouro vale dez pratas e um rei vale cem ouros.

Éteram pensou por um instante.

— Se não me engano, começamos a usar esse sistema quando um rei começou a diminuir a grossura das moedas para produzir mais dinheiro.

— Porque assim e não dez em tudo?

— Não sei. Só sei que o rei quis assim.

Ele fez uma pausa.

— “O rei é tudo!” Esqueceu?

Apari revirou os olhos.

— Eu não ligo pras essas merdas. Não ligo pro rei. Você é meu rei.

Éteram perdeu o sorriso.

— Calma aí, rosa.

Ele olhou para a porta antes de continuar.

— Não fala isso em voz alta. E nunca diga isso em público. A gente pode ser morto se qualquer guarda ficar sabendo. Ou até mesmo se uma mentira surgir. Se isso acontecer, tudo o que fizemos até aqui pode rolar com nossas cabeças.

Apari fez uma careta.

— “O rei é tudo”. Entendi, saco… Continua. Vamos ver os dinheiros pra casa.

— Deixe-me ver suas anotações.

Apari entregou o papel.

Éteram franziu a testa para os desenhos.

— O que é isso ao lado do dois?

— É uma casa.

O sorriso de Apari apareceu antes mesmo de ela terminar.

— A mais barata que eu consegui achar na cidade. Tem cozinha e quarto. O banheiro é dividido com todo mundo que aluga o lugar. Deve ter mais umas três famílias naquela construção.

Éteram apontou para outro desenho.

— Então deduzo que isso seja uma maçã. Uma maçã não custa cinco bronzes, então deve ser comida, certo?

Apari abriu um sorriso.

— Isso aí, meu rei. Tá aprendendo.

Éteram continuou olhando para o papel por alguns segundos.

— Você é impossível.

— O quê?

— Nada. Só… obrigado por fazer isso.

Apari sorriu.

— De nada.

Éteram encostou sua testa na dela por um instante.

— Agora vamos descobrir quanto tempo falta para termos nosso lugar.

Apari voltou a olhar para o papel, mas seu sorriso não desapareceu.

— Hehe… Apari.

— Sim, eu. Fala.

— A gente vai ter um lugar de verdade, não vai?

— Vai.

— E aí a gente pode fazer o que quiser?

— Desde que não seja ilegal.

Apari riu.

— Chato.

Éteram voltou a olhar para os números.

— Precisamos economizar.

— Eu sei.

— E não podemos gastar tudo só porque agora temos dinheiro.

— Eu sei.

— E…

— Éteram.

— Sim?

— Cala a boca e continua vendo as casas.

Éteram sorriu.

— Como quiser, minha rosa.

Apari voltou a se inclinar sobre o papel.

Pela primeira vez, aqueles números não pareciam apenas números.

Pareciam um caminho a ser lapidado, porém a realidade é mórbida.

— Apari temos um problema, se oque você escreveu está correto não temos dinheiro pra pagar aluguel e comida, se escolher um fica sem o outro ambos não dá.
— Como assim porque ?
— Não é óbvio, eu não ganho suficiente pra alimentar nos dois.