Outono

Éteram aprendeu cedo que o mundo não perdoa sobreviventes.

Primeiro, conheceu a fome. Depois, o frio que parecia atravessar os ossos e permanecer ali, mesmo quando a temperatura melhorava. Aprendeu a reconhecer o som do próprio estômago implorando por alguma coisa que não vinha, a aproveitar alimentos que outras pessoas sequer considerariam comida e a dormir com um olho aberto quando encontrava um lugar suficientemente protegido da chuva.

A piedade desapareceu em algum momento desse aprendizado. Não se lembrava exatamente de quando. Também não sentia falta dela.

Seu abrigo ficava numa construção abandonada, esquecida entre edifícios que haviam resistido melhor ao tempo. Pouco restava das paredes originais. O teto tinha aberturas suficientes para deixar passar a chuva, e a madeira apodrecida de uma das janelas ameaçava desabar sempre que o vento soprava com mais força. Era miserável. Mas era seu.

Éteram havia encontrado maneiras de torná-lo habitável. Empilhara pedras para bloquear as maiores frestas, espalhara tecidos velhos sobre o chão e improvisara uma pequena área onde podia cozinhar. Seus pertences cabiam em poucos cantos. Conhecia a posição de cada um e percebia imediatamente quando alguma coisa estava fora do lugar.

Foi assim que descobriu que alguém havia entrado. O pão desaparecera. Não era um pão particularmente bom. Estava duro, ressecado nas bordas e tão difícil de mastigar que ele pretendia amolecê-lo em água antes de comer. Ainda assim, era o último alimento que possuía. Encontrou a ladra agachada perto da parede, devorando-o. Apari não pediu permissão.

Segurava o pão com as duas mãos e arrancava pedaços grandes demais para mastigar confortavelmente. Comia depressa, sem qualquer preocupação com as migalhas que lhe caíam sobre a roupa ou com o desconhecido que acabara de surpreendê-la.

Seus cabelos eram ondulados, densos e tão embaraçados que alguns fios pareciam resistir ao próprio peso. Havia sujeira entre eles, além de pequenas migalhas que tinham ficado presas durante a refeição. A roupa era um amontoado de tecidos desgastados, remendados tantas vezes que se tornara difícil identificar onde terminava uma peça e começava outra.

Éteram permaneceu imóvel. Apari levou mais um pedaço à boca. Ele olhou para o pão. Depois para ela. Não sabia exatamente por que ainda não tentara recuperar sua comida. A fome já o fizera brigar por coisas muito menores. Qualquer pessoa que entrasse naquele abrigo sem permissão normalmente receberia uma pedra ou, no mínimo, uma ameaça.

Entretanto, havia alguma coisa naquela maneira desesperada de comer que o impedia de se mexer.

Ela estava com mais fome do que eu.

A conclusão não o deixou particularmente satisfeito. Apari percebeu que estava sendo observada. Interrompeu a mastigação. Seus olhos encontraram os dele. Durante um instante, os dois permaneceram absolutamente imóveis. Éteram abriu a boca. Não conseguiu dizer nada. Apari se moveu primeiro.

A lâmina atravessou o pequeno espaço entre eles antes que ele tivesse tempo de reagir. Sentiu alguma coisa fria tocar seu rosto. Depois, uma ardência. O que restava da faca lhe abrira um corte na bochecha. Não era profundo, mas bastou para que uma gota de sangue escorresse lentamente até seu queixo. Éteram levou a mão ao ferimento.

Olhou para os dedos avermelhados. Quando ergueu os olhos novamente, Apari já estava se afastando. Ela recuperou a faca, agarrou o último pedaço de pão e se lançou pela janela. A madeira estalou sob seu peso. Uma das partes podres se desprendeu e caiu no chão. Éteram deu dois passos em sua direção. Parou.

Do lado de fora, a garota desapareceu entre as construções, deixando apenas algumas marcas sobre a terra úmida. Ele permaneceu diante da janela durante muito tempo. O sangue continuava escorrendo. O rosto ardia. Seu último pão havia desaparecido. Qualquer pessoa sensata estaria furiosa. Éteram começou a sorrir.

Havia alguma coisa errada com aquilo. Sabia perfeitamente. Mas fazia tanto tempo que o mundo não lhe provocava nada além de fome, cansaço e indiferença que até aquela dor parecia extraordinária. Seu coração batia depressa. Forte. Vivo. Passou o polegar sobre o ferimento e examinou novamente a janela.

Ela pode voltar.

A ideia permaneceu com ele durante o restante do dia. E, na manhã seguinte, tomou uma decisão. Encontraria uma maneira de fazê-la voltar.


Primeiro, esperou. Deixou a janela aberta, embora o vento entrasse diretamente por ela e tornasse as noites ainda mais desagradáveis. Retirou os pedaços de madeira que dificultavam a passagem e afastou alguns dos objetos espalhados pelo chão. A abertura continuava podre e frágil. Mas estava suficientemente convidativa.

Na primeira noite, Éteram permaneceu acordado até o frio se tornar insuportável. Na segunda, dormiu perto da parede, de onde conseguiria ouvir qualquer pessoa que entrasse. Na terceira, colocou um pedaço de comida próximo à janela. Um rato chegou primeiro. Éteram o expulsou. Na manhã seguinte, encontrou o alimento exatamente onde o deixara.

A janela permaneceu aberta. Os dias passaram. Nada. Às vezes, ele se surpreendia olhando para a abertura enquanto fazia alguma tarefa. Em outras ocasiões, acordava com um barulho e se levantava imediatamente, apenas para descobrir que o vento havia derrubado alguma coisa. A garota não voltou. Duas semanas. Nenhum sinal.

Éteram começou a considerar a possibilidade de que ela nunca mais aparecesse. Talvez tivesse encontrado outro abrigo. Talvez tivesse deixado aquela parte da cidade. Talvez estivesse morta. Essa última possibilidade o incomodou.

Não havia razão para isso. Não sabia quem ela era, de onde vinha ou sequer se voltaria a reconhecê-lo caso se encontrassem novamente. Conhecia apenas sua fome, sua faca e uma habilidade impressionante para desaparecer por janelas. Ainda assim, continuou esperando. Até que percebeu o problema. Não havia mais comida.

Aquela garota entrara em seu abrigo por um único motivo. Ele passara duas semanas deixando uma janela aberta, mas não lhe oferecera qualquer razão para atravessá-la novamente. Sentado diante da fogueira apagada, Éteram começou a rir da própria estupidez. Então fez o que sabia fazer. Cozinhou.


Éteram conhecia os lugares onde podia conseguir alimentos sem precisar enfrentar seus proprietários. Roubava pouco de muitos estabelecimentos.

Um pedaço de carne de um comerciante distraído. Algumas raízes de uma cesta esquecida. Temperos retirados em pequenas quantidades, distribuindo os furtos entre diferentes armazéns para que ninguém percebesse imediatamente o prejuízo. Não era particularmente forte. Também não era tão rápido quanto gostaria.

Por isso, aprendera que a discrição costumava ser mais útil do que a coragem. Naquela manhã, conseguiu um coelho. O animal estava preparado para venda quando o encontrou, pendurado entre outras peças de carne. Esperou até que o comerciante se afastasse e o retirou sem interromper o passo. Só começou a correr quando dobrou a esquina.

Voltou para o abrigo carregando a presa sob o casaco. Passou boa parte da tarde trabalhando. Primeiro, limpou uma velha porta de ferro que encontrara abandonada algum tempo antes. A chapa estava torta e enferrujada nas bordas, mas ainda possuía uma superfície suficientemente lisa para cozinhar. Apoiou-a sobre tijolos quebrados e alimentou o fogo por baixo.

Depois começou a preparar a carne. Havia conseguido um pouco de tempero, algumas ervas e gordura suficiente para impedir que o coelho ressecasse imediatamente sobre o ferro quente. Esfregou os ingredientes na carne, deixou-a absorver o tempero e aproximou-a lentamente do calor. A gordura começou a escorrer.

Cada gota que atingia a chapa provocava um chiado, seguido por uma pequena nuvem de fumaça aromática. Éteram virou a carne. Esperou. Virou novamente. A superfície adquiriu uma tonalidade mais escura, enquanto a gordura derretida carregava o cheiro dos temperos por todo o abrigo. O estômago dele protestou. Éteram o ignorou. A comida não era para ele.

Ou, pelo menos, não inteiramente. Quando julgou que o cheiro já estava suficientemente forte, aproximou-se da janela. Abriu-a. O vento entrou imediatamente. Atravessou seu casaco furado, apagou uma das pequenas chamas e espalhou cinzas pelo chão. Éteram praguejou.

Alimentou novamente o fogo e apoiou a janela com um pedaço de madeira, impedindo que se fechasse. A fumaça encontrou a abertura. Escapou para a rua. O cheiro da carne assada a acompanhou. Éteram se afastou alguns passos e observou o resultado.

Se conseguia sentir o aroma daquele lado do abrigo, imaginou que alguém faminto também conseguiria percebê-lo do outro lado da parede. Sorriu. O cheiro faria o restante do trabalho.


A noite chegou. A carne esfriou. O fogo começou a enfraquecer. Éteram permaneceu sentado perto da chapa, esperando ouvir algum movimento do lado de fora. Nada. O vento atravessava a janela, roubando o pouco de calor que conseguira acumular durante a tarde. Depois de algum tempo, seus dedos começaram a ficar dormentes. Olhou para a comida.

A ideia de guardar tudo para uma pessoa que provavelmente nunca mais apareceria começou a lhe parecer ridícula. Seu estômago concordou. Éteram arrancou um pequeno pedaço da carne. Comeu. Estava boa. Isso tornou a espera ainda mais desagradável. Quando a madrugada se aproximou, desistiu.

Retirou a madeira que mantinha a janela aberta e a encostou cuidadosamente. A estrutura era tão velha que bastava um empurrão para voltar a abri-la. Acrescentou um pouco de lenha à fogueira, cobriu-se com seus tecidos e se deitou. A última coisa que viu antes de adormecer foi a comida abandonada sobre a chapa.

Que desperdício.

Não soube quanto tempo havia dormido. Acordou porque alguma coisa estava diferente. Uma sombra se movia sobre seu rosto. Não era a sombra irregular da fogueira. Havia alguém entre ele e as chamas. Éteram permaneceu imóvel. Então ouviu. Carne sendo arrancada. Mastigação apressada.

Uma respiração pesada, interrompida ocasionalmente pelo esforço de engolir antes que o alimento terminasse de ser mastigado. Abriu os olhos apenas o suficiente para enxergar. Apari estava agachada diante da chapa.

Comia como se esperasse que alguém aparecesse a qualquer momento para arrancar a refeição de suas mãos. Segurava a carne com força e mantinha o corpo ligeiramente inclinado, numa posição que lhe permitiria fugir sem perder tempo. A faca descansava perto de sua perna. Éteram percebeu que estava sorrindo. Fechou os olhos imediatamente. Não queria assustá-la.

Também não queria que soubesse que ele havia preparado tudo aquilo esperando sua visita. Permaneceu deitado, ouvindo. O som de cada pedaço arrancado da carne lhe provocava uma satisfação difícil de explicar. Não precisava observá-la. Saber bastava.

Pela primeira vez em muito tempo, alguém estava comendo naquele abrigo sem que ele precisasse dividir a própria refeição por obrigação. E aquela pessoa havia voltado porque quis. Ou porque estava faminta. Éteram decidiu que, por enquanto, não precisava descobrir qual das duas possibilidades lhe agradava mais.


Uma semana depois, repetiu. Preparou outra refeição, abriu a janela e deixou a comida perto do fogo. Apari apareceu novamente. Dessa vez, Éteram percebeu quando ela entrou. A madeira da janela rangeu discretamente. Alguma coisa tocou o chão. Depois, silêncio. Ele continuou deitado. Esperou. Finalmente, ouviu os passos se aproximarem da comida.

Na manhã seguinte, encontrou apenas os restos da refeição. Apari havia desaparecido. Não deixara qualquer explicação. Éteram começou a preparar a próxima. E depois outra. A rotina se estabeleceu sem que nenhum dos dois precisasse reconhecê-la. Apari nunca agradecia.

Às vezes, deixava um osso completamente limpo perto da porta. Em outras, levava a tigela consigo e a devolvia na noite seguinte, raspada até o fundo. Certa manhã, Éteram encontrou o recipiente apoiado sobre a janela. Uma das bordas estava lascada. Havia sido limpo com tanto cuidado que parecia mais apresentável do que quando ele o deixara ali.

Segurou a tigela contra a luz. Não havia uma única migalha.

— Bom saber que gostou — murmurou.

O vento respondeu. Ele levou o recipiente para perto da fogueira. Não sabia se Apari ouvira alguma de suas palavras nas noites anteriores. Tampouco sabia se ela realmente acreditava que ele permanecia dormindo durante todas aquelas visitas. Suspeitava que não. Mas nenhum dos dois parecia interessado em acabar com aquela mentira.


Os pratos começaram a mudar. Éteram passou a dedicar mais tempo ao preparo das refeições. Quando conseguia farinha e alguns temperos, fazia macarrão com curry. Em outras ocasiões, preparava carne acompanhada de ovos cozidos ou batatas recheadas com frango e creme. Nem sempre possuía os ingredientes necessários. Substituía o que faltava. Improvisava.

Experimentava temperos que conseguia roubar em pequenas quantidades dos armazéns. Algumas refeições ficavam boas. Outras, nem tanto. Certa noite, preparou uma mistura tão salgada que precisou acrescentar água várias vezes antes de conseguir comê-la. Ainda assim, deixou uma porção para Apari. Na manhã seguinte, encontrou a tigela vazia.

Éteram observou o recipiente durante algum tempo.

— Você realmente come qualquer coisa.

Passou a separar os melhores pedaços antes mesmo de terminar o preparo. Não percebeu imediatamente quando começou a fazer isso. Simplesmente se habituou a reservar a carne mais macia, o ovo que não havia se rompido durante o cozimento e as partes menos queimadas da comida.

Quando a refeição ficava pronta, colocava essas porções na tigela que deixaria próxima à janela. Comia o restante. A diferença lhe pareceu perfeitamente razoável. Afinal, Apari precisava ter algum motivo para continuar voltando. Com o passar das noites, ela começou a aparecer mais cedo.

Éteram percebeu pela maneira como a janela se movia enquanto ainda estava terminando de cozinhar. Na primeira ocasião, fingiu não ouvir. Na segunda, deixou uma porção pronta antes do horário habitual. Na terceira, encontrou-a esperando do lado de fora.

Apari estava agachada sobre uma parte da estrutura, protegida do vento pela parede. Ao perceber que havia sido descoberta, levou imediatamente a mão à faca. Éteram levantou as duas mãos. Uma delas segurava uma colher.

— Ainda não está pronto.

Ela olhou para a comida. Depois para ele.

— Não perguntei.

— Só estou avisando.

Apari permaneceu imóvel durante alguns segundos. Então se afastou da janela. Éteram voltou para a chapa. Pouco depois, ouviu a madeira ranger novamente. Quando se virou, ela estava dentro do abrigo. Sentada perto da saída. Observando a comida. Éteram decidiu não comentar. A partir daquela noite, passou a preparar as refeições um pouco mais cedo.


Havia algo curioso na maneira como Apari se comportava quando pensava que ele não estava prestando atenção. Ela não se aproximava de seus pertences. Não tocava nas ferramentas nem nos poucos objetos guardados perto da parede. Também parecia evitar qualquer coisa que não estivesse claramente separada para ela. Entretanto, observava tudo.

As rachaduras do teto. As pedras que sustentavam a chapa. As frestas das paredes. Uma noite, Éteram deixou o casaco próximo à fogueira para secar. A manga estava rasgada havia algum tempo. Não era um buraco particularmente grande, mas o suficiente para que o vento encontrasse o braço sempre que ele saía. Pretendia remendá-la. Nunca encontrava tempo.

Na manhã seguinte, quando pegou o casaco, percebeu que alguma coisa estava diferente. A manga havia sido costurada. Os pontos eram pequenos, irregulares e um pouco apertados, mas aproximavam suficientemente as bordas do tecido para impedir a entrada direta do vento. Éteram passou os dedos sobre o remendo. Depois olhou para a janela.

Apari já tinha ido embora. Ele experimentou o casaco. O trabalho não estava bonito. Estava melhor do que qualquer remendo que ele próprio conseguiria fazer. Sentou-se perto da fogueira e examinou novamente a costura. Não havia recebido agradecimentos por nenhuma das refeições. Também nunca os pedira.

Mesmo assim, passou um bom tempo olhando para aquela manga. Naquela noite, separou para Apari a melhor porção de carne que conseguiu preparar.


A refeição seguinte deveria ter sido especial. Éteram encontrara camarões entre as mercadorias de um comerciante e conseguira levar alguns sem despertar suspeitas. Era um ingrediente raro em sua cozinha improvisada. Havia muito tempo que não conseguia preparar alguma coisa com aquele sabor. A descoberta lhe trouxe uma lembrança. Seu tio. A cozinha aquecida.

O cheiro de cebola refogando. Uma berinjela recheada com camarão, servida em ocasiões especiais, acompanhada de comentários intermináveis sobre como ele deveria aprender a apreciar uma boa refeição. Éteram ficou alguns instantes parado com os ingredientes nas mãos. Não possuía berinjela. Havia conseguido abobrinhas. Serviriam.

Passou parte da tarde preparando o recheio. Limpou os camarões, picou os ingredientes que possuía e improvisou o tempero com o que ainda restava de suas reservas. Cortou as abobrinhas e retirou parte do interior para acomodar a mistura. O cheiro começou a preencher o abrigo enquanto o recheio cozinhava. Éteram experimentou uma pequena porção.

Acrescentou mais tempero. Experimentou novamente. Não estava igual à comida de seu tio. Nem poderia estar. Mas, por alguns segundos, o sabor lhe devolveu alguma coisa que julgava perdida. Continuou trabalhando até que o prato estivesse pronto. Quando terminou, examinou o resultado com uma satisfação incomum.

As abobrinhas estavam macias. O recheio havia adquirido uma cor dourada, e parte da gordura escorria lentamente sobre a superfície quente. Separou a melhor porção. Deixou-a sobre a chapa. Depois abriu a janela. O cheiro escapou para a rua. Éteram se sentou perto da fogueira, tentando decidir se deveria comer sua parte imediatamente ou esperar.

Acabou experimentando mais um pedaço. Estava bom. Muito bom.

Ela vai gostar.

Sorriu. Não havia como saber que aquela seria a última vez que sentiria satisfação ao preparar aquela receita.


Apari chegou durante a noite. Éteram já havia se deitado, embora a fogueira continuasse acesa. A chapa de ferro permanecia quente, e a gordura acumulada nas bordas ainda estalava ocasionalmente. Ouviu a janela ranger. Depois, os passos. Apari se aproximou da comida. Éteram permaneceu quieto. O primeiro som foi familiar.

Um pedaço de alimento sendo retirado do prato. Mastigação. Outra mordida. Ele fechou os olhos. Esperou. Então ouviu alguma coisa diferente. Um engasgo seco. Éteram abriu os olhos. Apari estava inclinada sobre a chapa. Uma das mãos segurava o próprio pescoço. O prato havia escorregado para perto da borda. Ela tentou inspirar.

O som que saiu de sua garganta não se parecia com uma respiração. Éteram se sentou imediatamente.

— Apari?

Ela não respondeu. Seu rosto começava a inchar. Os olhos estavam arregalados, e sua outra mão procurava algum apoio sobre o ferro. Éteram se levantou.

— O que foi?

Apari tentou respirar novamente. Não conseguiu. O prato caiu. O impacto contra a chapa espalhou gordura quente sobre a superfície, e a manga do casaco dela tocou uma das chamas. O tecido começou a queimar. Éteram demorou um instante para compreender o que estava vendo. Primeiro, uma pequena chama. Depois, outra.

O fogo encontrou uma parte ressecada da roupa e subiu rapidamente pelo braço. Apari tentou se afastar. Perdeu o equilíbrio. Caiu parcialmente sobre a chapa. O ferro vibrou sob seu peso. Uma das pedras que o sustentavam se deslocou. Éteram se lançou na direção dela. Agarrou-a pela roupa e puxou com tanta força que os dois quase caíram.

O calor atravessou suas mãos. Apari se debateu. Ele tentou segurá-la.

— Para! Você está pegando fogo!

Ela não parecia ouvi-lo. Suas mãos permaneciam fechadas sobre o pescoço. Éteram arrancou o tecido em chamas da superfície quente e tentou afastá-lo do corpo dela. O fogo havia alcançado o manto preso aos seus ombros. Puxou a peça. Uma costura resistiu. Ele puxou novamente. O tecido se rompeu.

Atirou-o para longe e utilizou um pedaço de pano pesado para abafar as chamas que ainda restavam. O cheiro de tecido queimado tomou o abrigo. Parte dos cabelos de Apari havia sido atingida pelo calor. Éteram mal conseguiu perceber. Ela continuava tentando respirar. Foi então que o medo realmente apareceu. Não o medo de ser descoberto roubando alguma coisa.

Nem o medo de passar outra noite com fome. Era um medo inteiramente diferente, que lhe apertava o peito e tornava seus movimentos desajeitados. Apari caiu de joelhos. Éteram a segurou antes que atingisse o chão.

— Ei!

Ela tentou puxar ar. Seu corpo inteiro se contraiu. Nada. Éteram afastou o que restava do tecido queimado de seu pescoço e tentou ajudá-la a se sentar. Não sabia o que estava acontecendo. Não sabia o que fazer. Essa era a pior parte.

Procurou alguma coisa que estivesse prendendo sua garganta. Algum pedaço de alimento. Alguma ferida provocada pelo fogo. Qualquer explicação que pudesse compreender e, principalmente, qualquer coisa que pudesse consertar. Não encontrou nada. Apari agarrou seu braço. Com força. Suas unhas atravessaram o tecido de sua roupa. Éteram se inclinou.

— Respira!

Ela o encarou. Os olhos procuravam alguma coisa em seu rosto. Não havia acusação. Nem raiva. Apenas pânico. Éteram sentiu a garganta apertar.

— Por favor…

Apari tentou respirar novamente. O ruído que produziu foi tão fraco que ele quase não o ouviu. Seu corpo começou a perder força.

— Não.

Éteram segurou-a com mais firmeza.

— Não, não, não…

A cabeça dela pendeu para o lado. Ele a acomodou sobre o chão, longe da chapa, mantendo-a amparada enquanto procurava inutilmente alguma maneira de ajudá-la. A fogueira continuava queimando. A comida permanecia espalhada sobre o ferro. O cheiro que antes lhe provocara tanta satisfação agora se misturava à fumaça do tecido carbonizado.

Éteram não conseguia pensar.

Não morra.

Apari soltou outro ruído. Ele se aproximou, desesperado.

Não morra.

Uma lágrima escorreu por seu rosto. Depois outra. Éteram nem percebeu. Continuou segurando-a. Apari ainda se movia, mas cada tentativa de respirar parecia exigir mais força do que possuía. Ele acompanhava cada movimento, incapaz de fazer qualquer coisa além de esperar pelo seguinte. Até que a respiração começou a voltar. Primeiro, um som baixo.

Depois, uma inspiração curta e irregular. Apari tossiu. Éteram levantou a cabeça imediatamente. Ela tentou puxar mais ar. Conseguiu um pouco. Tossiu novamente. A respiração continuou difícil, interrompida por pequenos engasgos, mas já não havia desaparecido completamente. Éteram permaneceu ao lado dela. Não ousou se afastar.

Apoiou-a com cuidado, protegendo-a do frio que entrava pela janela e observando seu peito subir e descer. A cada nova inspiração, sentia parte da tensão abandonar seu próprio corpo. Apari acabou perdendo a consciência. Éteram continuou segurando-a por algum tempo. Depois a acomodou sobre os tecidos que utilizava para dormir.

Recolheu o que restava de seu casaco queimado e a cobriu com outra peça, tomando cuidado para não tocar nas áreas atingidas pelo fogo. A faca havia caído perto da chapa. Ele a procurou entre as cinzas e a deixou ao alcance dela. Não sabia se Apari voltaria a acordar. Também não sabia se deveria sair para procurar ajuda ou permanecer ali, observando-a.

O medo de deixá-la sozinha venceu. Passou o restante da madrugada ao lado dela. Sempre que a respiração parecia enfraquecer, aproximava-se para verificar se continuava viva. Quando a fogueira ameaçava morrer, acrescentava madeira. Quando Apari tremia, puxava o cobertor. Não voltou a tocar na comida. Apenas esperou. E chorou.


A manhã seguinte

Apari acordou com a garganta em chamas. Tentou respirar profundamente. Arrependeu-se imediatamente. Uma dor áspera atravessou seu pescoço, e ela se encolheu, levando uma das mãos à garganta. O ar parecia arranhar alguma coisa pelo caminho. Havia um gosto desagradável em sua boca. Amargo. Salgado. Errado.

Permaneceu imóvel durante alguns segundos, tentando compreender onde estava. O teto lhe pareceu familiar. A parede torta. A fogueira. A janela. Então percebeu que vestia outro casaco. Apari se ergueu imediatamente. A dor a obrigou a parar. Seu corpo parecia ter sido espancado, e o braço atingido pelo fogo ardia sempre que o tecido roçava sua pele.

Olhou para as roupas. O próprio casaco havia desaparecido. A memória começou a voltar. A comida. O camarão. Uma sensação estranha na boca. O sufocamento. O calor. Mãos puxando sua roupa. O fogo. Ela fechou os olhos. Havia mais alguma coisa. Uma voz. Movimentos desesperados. Lágrimas. Apari franziu a testa.

Lágrimas?

Não eram suas. Abriu os olhos. Procurou a faca. Encontrou-a perto das cinzas, onde provavelmente havia caído durante a confusão. O cabo estava manchado, mas a lâmina continuava inteira. Segurou-a com força. Depois se levantou. Cada movimento provocava uma nova pontada. Atravessou o abrigo até alcançar a janela. Fechou-a. O vento parou de entrar diretamente.

Só então se virou. Éteram estava encolhido perto da fogueira apagada. Dormia sentado, abraçando os joelhos, com a cabeça apoiada contra a parede. Seus dedos estavam avermelhados. Havia pequenas queimaduras nas mãos e uma mancha escura sobre a manga da roupa. Parecia exausto. Apari permaneceu observando-o.

Lembrava-se daqueles dedos tentando arrancar o tecido em chamas. Da maneira como a segurara. Da voz. Das lágrimas. Sentiu uma irritação difícil de explicar.

Patético.

Olhou novamente para o rosto dele.

Vivo.

Éteram acordou com um espirro. Mexeu o rosto, abriu os olhos e demorou alguns instantes para perceber a presença dela. Então se lembrou. Virou-se tão depressa que quase bateu a cabeça na parede. Apari estava de pé. Acordada. Com a faca na mão. Éteram ficou imóvel. O alívio apareceu em seu rosto antes que conseguisse escondê-lo. Apari percebeu.

Aquilo a irritou ainda mais.

— Você é masoquista?

Ele piscou.

— Como?

— Gente que gosta de ver os outros sofrerem sem ganhar nada com isso.

Éteram tentou compreender a pergunta. Olhou para a faca. Depois para o rosto inchado dela.

— Eu acho que essa palavra não significa…

Apari ergueu a lâmina. Ele interrompeu a explicação imediatamente.

— Tá. Esquece.

Ela deu um passo em sua direção. Éteram levantou as mãos. As queimaduras repuxaram sua pele, arrancando-lhe uma pequena careta.

— Foi sem querer — começou ele. — Eu não sabia.

Apari permaneceu imóvel.

— Não tinha como saber. Eu não queria que você morresse.

Sua voz perdeu firmeza. Olhou para as próprias mãos. Depois para ela.

— Se quiser me matar, eu entendo.

Apari estreitou os olhos. Ele abaixou as mãos. Fechou os olhos. Esperou. Nada aconteceu. O silêncio começou a se prolongar. Éteram abriu um dos olhos. Apari continuava diante dele. A faca permanecia levantada, embora sua mão parecesse menos firme.

— Não — respondeu ela.

Éteram abriu o outro olho.

— Não?

— Não te dou perdão. E também não vou te matar.

Ela respirou fundo. A dor a fez interromper o movimento. Praguejou baixinho. Éteram se mexeu instintivamente. Apari apontou a faca novamente.

— Fica onde está.

Ele obedeceu. Ela esperou até a dor diminuir.

— Nem sei se consigo.

A frase saiu mais baixa. Éteram não respondeu. Apari observou a chapa de ferro. Ainda havia restos de comida grudados na superfície, além de manchas escuras onde a gordura havia queimado durante a noite. Seu casaco estava reduzido a pedaços carbonizados. O cheiro permanecia no ar.

— Você sabia que eu vinha — disse ela.

Éteram levantou os olhos.

— Sabia.

— Então por que continuou?

Ele demorou a compreender. Apari apontou para a chapa.

— Toda noite. Cada vez mais comida. Coisas que você nem tinha condições de conseguir.

Ela fez uma pausa. Olhou para o próprio braço.

— E ainda piorando… camarão?

Éteram acompanhou seu olhar. A lembrança da noite anterior voltou com tanta força que seu estômago se contraiu. Ele desviou os olhos.

— Eu não sabia que aquilo ia acontecer.

— Não foi isso que perguntei.

Apari se aproximou um pouco.

— Por que continuou?

Éteram ficou em silêncio. Observou as cinzas espalhadas sobre o chão. Lembrou-se do primeiro pão. Da janela. Daquela noite em que acordara ouvindo alguém comer a refeição que havia preparado. Das tigelas vazias. Da manga remendada. A resposta lhe pareceu tão evidente que não compreendeu por que ela precisava perguntar.

— Porque eu gostava.

Apari franziu a testa.

— Gostava de quê?

Éteram ergueu os olhos.

— De saber que você não ia dormir com fome.

A resposta veio sem hesitação. Sem vergonha. Apari permaneceu imóvel. Esperara qualquer coisa. Uma cobrança. Uma exigência. Alguma explicação sobre a quantidade de comida que havia recebido. Talvez até uma ameaça. Não aquilo.

Errado.

Havia alguma coisa profundamente errada naquela resposta. Ela apertou o cabo da faca.

— Vão te matar.

Éteram inclinou a cabeça.

— Talvez.

— Você rouba coisa demais. Coisa cara.

Ele deu de ombros.

— Eu vario os lugares. Tem vários armazéns. Vai demorar para perceberem.

Apari o encarou.

— Você fala disso como se estivesse escolhendo onde passear.

— Não é tão complicado.

— Não é complicado?

Ela apontou para as roupas dele. Para as queimaduras. Para o próprio rosto inchado.

— Você quase me matou tentando fazer comida!

Éteram abriu a boca. Fechou-a novamente. Não havia muito que pudesse dizer. Apari passou a mão livre pelo rosto. A garganta continuava ardendo, e conversar exigia mais esforço do que desejava demonstrar. Mesmo assim, insistiu.

— E o que você ganha com isso?

Éteram a encarou.

— Nada.

O silêncio voltou. Apari soltou uma risada sem humor.

— Nada?

— Nada.

— Então por quê?

Ele olhou para a janela fechada. Durante muito tempo, aquela abertura havia sido apenas um buraco na parede. Um lugar por onde entravam vento, chuva, animais e qualquer pessoa suficientemente desesperada para invadir uma construção abandonada. Depois, tornara-se alguma coisa diferente. Passara a esperar pelo rangido da madeira. Pelos passos.

Pelo som de alguém comendo. Por aquela pequena prova de que ainda havia alguma coisa capaz de fazê-lo aguardar pelo dia seguinte. Éteram voltou a olhar para Apari.

— Porque é melhor do que não sentir nada.

Ela ficou quieta. A resposta lhe provocou um desconforto que não soube identificar. Não parecia mentira. Isso tornava tudo pior. Apari conhecia pessoas que ofereciam comida esperando alguma coisa em troca. Conhecia gentilezas que terminavam assim que alguém se recusava a pagar por elas. Conhecia o preço de aceitar favores.

E aquele idiota estava dizendo que não queria nada. Abaixou um pouco a faca.

— Não sou puta.

Éteram assentiu.

— Eu sei.

Ela estreitou os olhos.

— Não te devo nada.

— Eu sei.

— Não vou ficar aqui fazendo o que você quiser só porque me alimentou.

— Eu não pedi isso.

Apari se aproximou.

— Se você encostar em mim…

— Eu não vou.

A resposta foi imediata. Sem qualquer tentativa de negociação. Apari ficou olhando para ele. Éteram sustentou seu olhar. Pela primeira vez naquela manhã, pareceu compreender a razão daquelas perguntas. Sua expressão mudou discretamente.

— Eu não vou — repetiu.

Apari recuou. Não sabia o que fazer com aquilo. Poderia ir embora. A faca estava em suas mãos. A janela ficava a poucos passos. A porta não estava trancada. Ninguém a impedia de sair. Entretanto, o frio continuava do lado de fora. Sua garganta ainda ardia, o braço doía e respirar exigia um cuidado que ela detestava precisar demonstrar. Também havia comida.

Uma fogueira. Um teto que, embora ameaçasse desabar, continuava sendo melhor do que dormir na rua. E havia Éteram. O problema era justamente esse. Ele não exigia nada. Apari procurou alguma coisa em seu rosto que justificasse desconfiar ainda mais. Encontrou cansaço. Queimaduras. Um corte antigo na bochecha, exatamente onde sua faca o havia atingido.

Ele nem sequer parecia se lembrar de que ela havia sido responsável por aquilo.

Idiota.

Apari baixou a lâmina.

— Se você tentar qualquer coisa… qualquer coisa… — disse, aproximando-se mais uma vez.

Éteram assentiu.

— Eu sei.

— Eu pinto as paredes com seu sangue.

— Eu sei.

Ela permaneceu diante dele por mais alguns segundos. Esperando alguma objeção. Uma tentativa de convencê-la. Um comentário estúpido. Éteram apenas a observou. Apari soltou o ar lentamente. A respiração ainda doía. Olhou para a janela. Depois para a fogueira apagada.

Seu casaco havia sido destruído. Precisaria de tempo para recuperar as forças e conseguir outra roupa suficientemente quente para enfrentar o inverno. Não havia motivos para se arriscar imediatamente. Pelo menos, era isso que dizia a si mesma. Guardou a faca junto ao corpo.

— Eu fico até a neve parar.

Éteram levantou a cabeça. Por um instante, pareceu prestes a dizer alguma coisa. Apari ergueu um dedo.

— Uma palavra, e eu vou embora.

Ele fechou a boca. Assentiu.

— Certo.

Ela se afastou e se acomodou perto da fogueira. Éteram permaneceu sentado, observando-a pelo canto dos olhos. Havia acabado de receber uma ameaça de morte. Seu abrigo continuava destruído. A comida daquela noite estava perdida, e suas mãos ardiam sempre que tentava movimentar os dedos.

Mesmo assim, começou a procurar alguma lenha que ainda pudesse aproveitar. Apari o observou se levantar.

— O que está fazendo?

Éteram recolheu dois pedaços de madeira.

— Acendendo o fogo.

— Eu estou vendo.

Ele olhou para ela. Apari se ajeitou perto das cinzas.

— Está frio, idiota.

Éteram não conseguiu evitar um pequeno sorriso. Colocou a lenha sobre as brasas. Do lado de fora, a neve continuava caindo.

Inverno

Nos dias que se seguiram, Apari ficou. Até melhorar, dissera; depois, até a neve parar.

Éteram não encontrou motivo para discutir. Permanecia sentado diante da fogueira, abraçando os joelhos, enquanto observava a madeira úmida resistir ao fogo. As chamas subiam com dificuldade, lambiam os pedaços de lenha e recuavam, deixando uma fumaça espessa que se acumulava sob o teto antes de escapar pelas frestas.

O abrigo cheirava a cinzas, tecido molhado e madeira apodrecida. O vento atravessava a construção abandonada com tanta facilidade que, em certas noites, parecia haver mais inverno ali dentro do que nas ruas.

Apari estava do outro lado da fogueira. Ainda segurava a faca, embora já não a apontasse para ele. Seus dedos permaneciam fechados em torno do cabo, e o casaco emprestado lhe caía mal sobre os ombros. O próprio havia virado cinzas. Sua respiração, apesar de menos dolorosa, continuava rouca. Éteram olhou para as mãos.

As pequenas queimaduras que adquirira tentando salvá-la já começavam a cicatrizar. De vez em quando, porém, um movimento descuidado ainda lhe arrancava uma careta. Apari percebeu. Não disse nada. Por algum tempo, ficaram ouvindo a lenha estalar.

— Tem outro cobertor? — perguntou ela.

Éteram apontou para uma pilha de tecidos dobrados junto à parede.

— O de cima está menos sujo.

Apari se levantou, examinou a pilha e retirou o primeiro.

— Menos sujo?

— É.

Ela sacudiu o tecido. Uma pequena nuvem de poeira se desprendeu dele.

— Você tem um conceito estranho de limpeza.

— Pode pegar o de baixo.

Apari ergueu uma ponta do segundo cobertor. Estava úmido. Devolveu-o imediatamente.

— O primeiro está ótimo.

Éteram quase sorriu. Naquela noite, ela escolheu o lugar mais próximo da saída. Dormiu encolhida, com a faca escondida sob o cobertor e uma mão permanentemente próxima do cabo. Éteram permaneceu perto da fogueira, alimentando as chamas com os últimos pedaços de madeira seca. Demorou a adormecer.

Conhecia cada ruído daquele lugar. O vento assobiava por uma fresta à sua esquerda; uma das telhas batia quando as rajadas ficavam mais fortes; a madeira do teto rangia depois de uma nevasca. Até os ratos tinham seus horários. Agora havia outra respiração. Irregular, às vezes interrompida por uma tosse. Éteram virou a cabeça. Apari dormia de costas para ele.

Ela realmente vai ficar.

A ideia lhe pareceu tão estranha que passou alguns minutos procurando alguma coisa de errado nela. Não encontrou nada além de uma garota armada ocupando metade de seu abrigo e um cobertor que, provavelmente, nunca mais recuperaria inteiro. Ainda assim, dormiu melhor do que esperava.


Os primeiros dias foram desconfortáveis. Não chegaram a discutir sobre as tarefas. Simplesmente começaram a executá-las.

Apari buscava água quando conseguia respirar sem sentir o peito apertar. Éteram procurava comida e recolhia tudo o que pudesse alimentar a fogueira. Dividiam o que encontravam e passavam o restante do tempo tentando impedir que o frio entrasse. O problema era que o frio não precisava de permissão.

Numa manhã, Éteram acordou com os pés dormentes. Durante a noite, uma das frestas da parede deixara entrar neve suficiente para formar um pequeno monte ao lado de onde dormia. Ficou encarando aquilo. Depois olhou para Apari. Ela estava acordada, observando-o por cima do cobertor.

— Seu abrigo está tentando nos matar.

— Não é a primeira vez.

Éteram se levantou e começou a procurar material para tapar o buraco. Encontrou um pedaço de madeira, algumas tiras de tecido e um punhado de pregos tortos. Passou a manhã tentando prender tudo à parede, utilizando uma pedra para martelar. Apari acompanhava o trabalho com interesse crescente.

— Isso vai cair.

— Não vai.

Ele bateu em outro prego. A madeira vibrou.

— Vai.

— Não vai.

Uma das tiras de tecido se soltou e caiu sobre a neve. Apari apontou.

— Já caiu.

Éteram olhou para o tecido. Depois para ela.

— Aquilo não conta.

— Por quê?

— Porque ainda não terminei.

Ela apertou os lábios, tentando conter uma risada. Ele voltou ao trabalho. Prendeu novamente o tecido, encaixou a madeira e procurou um lugar melhor para o último prego. Deu uma martelada. O pedaço inteiro despencou. Apari soltou uma gargalhada. Éteram permaneceu imóvel, com a pedra levantada.

— Você podia ajudar.

— Estou ajudando.

— Rindo?

— Estou deixando você descobrir o problema sozinho.

Ele atirou a pedra no chão.

— Então pode descobrir como a gente vai dormir com neve entrando aqui.

Apari ainda ria quando se levantou. Examinou a parede, afastou o tecido que ele havia prendido e puxou uma das tábuas para fora.

— Você colocou isso do lado errado.

— Não coloquei.

Ela virou a madeira, encaixou-a entre duas partes da estrutura e lhe entregou os pregos.

— Agora coloca.

Éteram obedeceu. A madeira permaneceu no lugar. Ele observou o resultado.

— Eu ia fazer isso.

— Claro que ia.

— Só estava testando o outro jeito.

— E funcionou muito bem.

Éteram tentou sustentar a expressão contrariada, mas acabou rindo. Apari acompanhou a risada. O som morreu aos poucos, deixando um silêncio diferente. Havia muito tempo que Éteram não se lembrava de rir daquela maneira. Sem precisar zombar de alguém, escapar de algum perigo ou fingir que uma situação miserável era menos miserável do que realmente era.

Apari esfregou o nariz com a manga.

— Está frio.

Ele examinou a parede remendada.

— Pelo menos agora não está entrando neve.

Uma corrente de ar atravessou o abrigo e fez o tecido recém-pregado balançar. Apari olhou para ele. Éteram suspirou.

— Não fala nada.

Ela voltou a rir.


Nos dias seguintes, Apari recuperou parte das forças. A tosse diminuiu. Conseguiu caminhar distâncias maiores sem precisar parar e começou a demonstrar uma impaciência particular com o hábito de permanecer sentada enquanto Éteram saía. Naquela manhã, encontrou-o separando o que restava da comida sobre um pano.

Havia um punhado de farinha, algumas raízes pequenas e metade de uma fruta que já começava a escurecer. Éteram examinava cada coisa como se alguma delas pudesse se multiplicar caso recebesse atenção suficiente. Apari se agachou diante dele.

— Isso dá para quanto tempo?

— Hoje.

— E amanhã?

— Amanhã eu encontro mais.

Ela observou o rosto dele.

— Você não sabe.

Éteram recolheu a farinha.

— Não.

Apari se levantou.

— Então vamos juntos.

Ele ergueu os olhos.

— Juntos?

— Você está ficando surdo?

— Achei que ainda estivesse ruim.

Ela inspirou profundamente para demonstrar que estava bem. Arrependeu-se quase imediatamente e disfarçou uma pequena tosse. Éteram cruzou os braços. Apari apontou um dedo para ele.

— Nem uma palavra.

Ele fechou a boca.

— Melhorou. — Ela pegou o casaco. — Vamos.

Éteram ainda hesitou, mas não insistiu. Talvez porque ela fosse sair mesmo que ele dissesse não. Talvez porque a ideia de ter companhia começasse a parecer menos desagradável do que deveria. A primeira saída juntos foi um desastre. Não pela falta de comida. Por falta de entendimento.

Éteram conhecia os armazéns, os comerciantes e os lugares onde uma pessoa distraída poderia deixar alguma coisa sem vigilância. Acostumara-se a roubar pouco de muitos estabelecimentos, evitando permanecer tempo suficiente para despertar suspeitas. Apari conhecia as ruas de outra maneira.

Sabia quais muros escondiam passagens, quais portas eram deixadas abertas e em que momentos determinados comerciantes se afastavam de seus estabelecimentos. Principalmente, sabia esperar. Éteram, nem tanto. Estavam escondidos numa passagem estreita quando ela o segurou pela manga.

— Espera.

Ele se virou, contrariado.

— O quê?

— Aquele homem.

Do outro lado da rua, um comerciante transportava um saco de mercadorias entre uma loja e uma pequena casa.

— O que tem ele?

— Vai voltar.

— Como sabe?

— Porque acabou de sair da loja.

— Isso eu percebi.

— Então percebeu que deixou a porta dos fundos aberta?

Éteram olhou novamente. Apari apontou discretamente. O homem entrou na casa carregando o saco. Minutos depois, retornou à loja. A porta dos fundos permaneceu apenas encostada. Éteram se virou para ela.

— Você já roubou ali.

Apari abriu um sorriso.

— Talvez.

— Você é péssima em mentir.

— E você é péssimo em perceber quando alguém está contando a verdade.

Ela se aproximou da passagem. Éteram a acompanhou. A porta cedeu com um rangido baixo. Do outro lado, encontraram um pequeno depósito. O cheiro de farinha, terra úmida e legumes guardados preenchia o ambiente. Sacos estavam empilhados contra uma parede, e uma cesta de batatas descansava sobre uma caixa. Éteram foi diretamente até ela.

Apari permaneceu perto da entrada, ouvindo os movimentos da rua.

— Pega pouco — sussurrou.

Ele começou a escolher as batatas.

— Isso é pouco.

— Pouco que ninguém perceba.

Éteram pegou mais duas.

— A gente também precisa comer.

Apari olhou para trás.

— Se você morrer por causa de uma batata, eu vou rir.

— Obrigado pela preocupação.

— De nada.

Ela se aproximou e escolheu outra batata. Éteram acomodou as seis na cesta. Então ouviram o homem retornar. Apari ficou imóvel. Passos. Uma porta. O ruído distante de alguma coisa sendo arrastada. Éteram pegou a cesta e saiu pela passagem lateral. Apari o seguiu, fechando a porta tão delicadamente quanto conseguiu. Alcançaram o beco sem dificuldades.

Só então ela percebeu.

— Éteram.

— O quê?

Apari apontou para as mãos dele.

— Você pegou a cesta inteira?

Ele olhou para o objeto. Demorou um instante para compreender o problema.

— Peguei.

— Eu mandei pegar pouco!

— Eu peguei pouco.

— Você roubou a cesta!

— Precisava carregar as batatas.

Apari fechou os olhos por um momento.

— Devolve.

— Agora?

— Não, no próximo inverno.

Éteram olhou na direção do depósito.

— Se eu voltar, vão perceber.

— Se você não devolver, também!

A discussão terminou quando ouviram um grito.

— Ei! Voltem aqui!

Os dois olharam para trás. O comerciante apareceu na esquina. Apari agarrou a manga de Éteram.

— Corre!

Dispararam pelo beco. A cesta batia contra a perna dele, e as batatas saltavam a cada movimento. O chão irregular desaparecia sob uma camada de neve pisoteada que tornava impossível correr sem escorregar. Éteram perdeu o equilíbrio ao virar uma esquina. Apari puxou-o pela roupa, impedindo que caísse.

— Por aqui!

Ela entrou numa passagem tão estreita que ele precisou virar o corpo para conseguir acompanhá-la. A cesta bateu contra a parede. Uma batata caiu. Éteram tentou recuperá-la.

— Deixa!

— Mas—

— DEIXA!

Abandonou a batata. Continuaram correndo até alcançarem outra rua. Apari o conduziu por mais duas passagens antes de finalmente parar atrás de uma construção abandonada. Éteram se apoiou na parede, tentando recuperar o fôlego. Apari permaneceu curvada, com as mãos sobre os joelhos. O silêncio durou alguns segundos. Depois ela olhou para a cesta.

A cesta continuava inteira. Éteram acompanhou seu olhar.

— Pelo menos deu certo.

Apari soltou uma gargalhada.

— Você quase morreu por seis batatas!

— Cinco — corrigiu ele, ainda ofegante. — Uma caiu.

Ela tentou responder. Não conseguiu. Estava rindo demais. Éteram olhou para a cesta, depois para Apari. Acabou rindo também. Quando finalmente conseguiram voltar ao abrigo, cozinharam duas batatas e esconderam o restante. A cesta ficou junto à parede. Apari insistiu em chamá-la de lembrança da estupidez dele.

Éteram insistiu em dizer que, sem ela, teriam voltado de mãos vazias. Nenhum dos dois pareceu disposto a abandonar a discussão.


Depois daquela primeira saída, começaram a aprender. Não houve grandes conversas nem qualquer acordo elaborado. Simplesmente passaram a reconhecer os hábitos um do outro. Apari observava antes de agir. Éteram procurava oportunidades. Ela conhecia os caminhos. Ele sabia escolher o que levar.

Quando um cometia alguma estupidez, o outro precisava encontrar uma maneira de impedir que ambos sofressem as consequências. Foi assim que, numa tarde particularmente fria, encontraram um pequeno depósito nos fundos de uma propriedade. Havia sacos de batatas perto de uma janela lateral. E havia um cachorro.

Apari estava escondida atrás de um muro quando Éteram se aproximou.

— Tem um cachorro — sussurrou ela.

— Eu vi.

— Ele está preso.

— Também vi.

— E está acordado.

Éteram espiou por cima do muro. O animal permanecia deitado perto da entrada, com uma corrente presa à coleira. Tinha a cabeça erguida e as orelhas atentas.

— Então não vamos entrar pela janela.

— Alguma ideia?

Éteram examinou a construção. O telhado era baixo. Parte dele estava coberta de neve, mas algumas tábuas apareciam próximas à parede traseira. Ele apontou.

— Por cima.

Apari acompanhou seu olhar. Depois olhou para ele.

— Você quer subir naquilo?

— Quero.

— Vai cair.

— Não vou.

— Você quase caiu hoje de manhã.

— Tinha gelo.

Ela ergueu uma sobrancelha. Éteram olhou novamente para o telhado. Estava coberto de gelo.

— É diferente.

— Claro.

Apesar das reclamações, Apari foi na frente. Encontrou pontos de apoio entre as pedras da parede e se içou até a borda. Éteram a acompanhou, agarrando uma tábua que ameaçou se soltar sob seu peso. O telhado rangeu. Os dois congelaram. Lá embaixo, o cachorro levantou a cabeça. Apari olhou para Éteram com uma expressão que dispensava palavras.

Ele levantou as mãos, como se não tivesse responsabilidade alguma pelo barulho. Esperaram. O animal voltou a se deitar. Apari prosseguiu. Uma abertura próxima à parte traseira lhes permitiu observar o interior do depósito. Havia caixas vazias, ferramentas, um monte de palha e vários sacos empilhados contra uma parede. Batatas. Muitas.

Éteram abriu um sorriso. Apari percebeu imediatamente.

— Não.

— Eu nem falei nada.

— Sua cara falou.

— Podemos levar dois sacos.

— Um.

— Dois.

Ela apontou para o telhado sobre o qual estavam equilibrados.

— Você mal conseguiu subir aqui sem carga.

Éteram olhou para baixo. Depois para os sacos.

— Um.

Entraram pela abertura. O depósito estava frio e cheirava a terra. A luz que atravessava as frestas era suficiente para revelar as partículas de poeira suspensas no ar. Éteram escolheu um saco menor. Apari o examinou.

— Esse está rasgado.

— Não muito.

Ela puxou o tecido. Uma batata caiu. Os dois olharam para o chão. Éteram suspirou.

— Tá. Outro.

Encontraram um saco resistente e o arrastaram até a abertura. Foi consideravelmente mais difícil retirá-lo do que havia sido entrar. Apari precisou subir primeiro. Éteram empurrou a carga. Ela puxou com as duas mãos, escorregou e quase desapareceu por trás da beirada.

— Vai cair! — sussurrou ele.

— Então empurra direito!

Por fim, conseguiram retirar o saco. O cachorro não latiu. O telhado não desabou. Éteram considerou aquilo uma vitória extraordinária. Apari considerou um milagre. Voltaram ao abrigo antes do anoitecer. Despejaram as batatas sobre um pano e ficaram observando aquela quantidade absurda de comida.

Pela primeira vez em vários dias, Éteram não precisou calcular imediatamente qual deles ficaria com a menor porção. Apari se agachou diante das batatas. Pegou uma. Depois outra.

— Hoje eu quero comer uma inteira.

Éteram olhou para ela.

— Uma?

— Inteira.

Ele começou a sorrir.

— Tá.

Acenderam o fogo e improvisaram uma maneira de cozinhar as batatas sobre a velha chapa de ferro. O cheiro começou a preencher o abrigo. Apari se aproximou várias vezes para verificar se estavam prontas. Éteram precisou afastá-la para que não se queimasse.

— Está demorando.

— Cozinhar demora.

— Você podia fazer mais rápido.

— Pode comer crua.

Ela fez uma careta. Sentaram-se quando finalmente ficaram prontas. O vapor escapava das batatas sempre que rompiam a casca. Apari segurava a sua entre os dedos, soprando para não queimar a língua. Comeu devagar, apesar da fome, interrompendo-se ocasionalmente para aproveitar o calor que lhe aquecia as mãos.

— Está boa.

Éteram examinou a própria batata.

— Eu sei.

— Você não fez nada.

— Eu cozinhei.

— Você colocou no fogo.

— É uma parte importante.

Ela revirou os olhos. Mais tarde, quando Éteram terminou a sua porção, Apari ainda guardava um pequeno pedaço. Ficou olhando para ele.

— Quer?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ela se inclinou e colocou o pedaço no prato dele.

— Agora é seu.

Éteram olhou para a comida. Depois para Apari. Ela já havia voltado a observar as chamas. Ele comeu sem discutir.


Os dias passaram a ter alguma variedade. Havia manhãs em que o vento impedia qualquer saída. Outras em que a neve diminuía o suficiente para permitir que se afastassem da construção sem correr o risco de perder o caminho de volta. Não mantinham calendário, mas estimavam o tempo pela comida consumida, pela lenha que precisavam encontrar e pelas pequenas mudanças na paisagem.

As ruas começaram a acumular montes de neve escurecida pela passagem das pessoas. Nas bordas dos telhados, o gelo formava pontas compridas que pingavam durante as poucas horas de sol. O abrigo também mudou.

Apari colocou pedras sob a parte mais instável da chapa de ferro. Reorganizou os tecidos que utilizavam para dormir e amarrou uma corda entre duas partes da estrutura, criando um lugar onde poderiam pendurar as roupas molhadas. Éteram continuava trazendo qualquer coisa que considerasse útil. Nem sempre era.

Certa tarde, voltou carregando um pedaço de madeira tão comprido que precisou entrar de lado. Apari o observou lutar contra a passagem.

— O que é isso?

— Madeira.

— Eu estou vendo.

— Então por que perguntou?

— Para que serve?

Éteram examinou o pedaço que arrastara por várias ruas.

— Ainda não decidi.

Apari passou a mão pelo rosto.

— Você roubou uma madeira sem saber para quê?

— Não roubei. Estava jogada fora.

Ela observou a madeira. Depois o pequeno espaço disponível no abrigo.

— Então joga de volta.

Éteram acabou transformando parte dela em lenha. O restante serviu para reforçar a parede. Apari nunca admitiu que havia sido útil.


Numa das saídas, o casaco dela rasgou na manga. Apari tentou esconder o estrago quando voltaram. Não conseguiu. Éteram percebeu o tecido aberto, deixando aparecer a roupa fina que havia por baixo. O vento entrava diretamente pela abertura.

— Tira.

Ela olhou para ele.

— O quê?

— O casaco.

Apari estreitou os olhos. Éteram demorou um instante para perceber a interpretação.

— Para costurar, idiota.

Ela examinou a manga.

— Não precisa.

— Vai entrar neve.

— Já entra neve em tudo.

Ele estendeu a mão. Apari acabou entregando a peça. Éteram encontrou a agulha que guardava entre suas poucas coisas. Sentou-se perto do fogo, passou a linha pelo buraco e começou a aproximar as bordas do tecido. O primeiro ponto ficou torto. No segundo, a agulha escapou. No terceiro, ele espetou o próprio dedo.

— Droga!

Apari, sentada ao lado, observava em silêncio. Éteram tentou novamente.

— Você não sabe fazer isso — comentou ela.

— Sei.

— Não parece.

— Quer tentar?

Apari estendeu a mão.

— Me dá.

Ele entregou o casaco. Ela se acomodou melhor e começou a costurar, aproximando os pedaços de tecido com os dedos. Seus pontos eram pequenos, mas não particularmente alinhados. Éteram se inclinou para observar.

— Sua costura também está horrível.

— Não está.

— Está.

Apari puxou a linha com força.

— Então faz você.

— Eu estava fazendo.

Ela lhe devolveu o casaco. Ele examinou o remendo. Era torto. Entretanto, parecia resistente. Voltou a costurar. Depois de alguns minutos, Apari perguntou:

— Quem te ensinou?

— Ninguém.

— Aprendeu sozinho?

— É só passar a linha de um lado para o outro.

Ela observou os dedos dele.

— Você faz força demais.

Éteram afrouxou a linha.

— Assim?

— Um pouco menos.

Ele a encarou.

— Você também não sabe costurar direito.

Apari passou a ponta dos dedos por um dos pontos que havia feito.

— Minha mãe sabia.

A resposta saiu sem preparação. Éteram parou. Apari manteve os olhos sobre o tecido.

— Ela fazia assim.

Demonstrou o movimento. Por um instante, suas mãos pareceram se lembrar melhor do que ela. Éteram a observou, mas não perguntou mais nada. Apari terminou a costura. O remendo continuava feio. Segurava, porém. Quando ela vestiu o casaco, Éteram examinou o resultado.

— Ficou bom.

— Eu sei.

— Está torto.

— Você que terminou.

Ele abriu a boca. Apari sorriu. Éteram desistiu. Naquela noite, ela deixou o casaco dobrado ao lado dele.

— Amanhã você pode arrumar o outro lado.

Ele olhou para a manga intacta.

— O outro lado não está rasgado.

— Ainda.

Éteram balançou a cabeça. Guardou a agulha.


Apari começou a trazer pequenas coisas. No início, Éteram não percebeu o hábito. Um pedaço de fruta deixado ao lado de sua porção. Uma tira de tecido que poderia servir como linha. Um pedaço de pão que ela jurava não querer. Os objetos apareciam sem explicação. Ela nunca os chamava de presentes. Éteram também não perguntava.

Certa manhã, porém, Apari retornou trazendo uma pedra. Era pequena, escura e quase perfeitamente redonda. Sua superfície lisa brilhava um pouco quando recebia a luz do fogo. Ela a estendeu para ele.

— Achei isso.

Éteram pegou a pedra. Virou-a entre os dedos.

— E daí?

— Nada.

— Para que serve?

Apari deu de ombros.

— Não serve para nada.

Ele ergueu os olhos.

— Então por que trouxe?

— Porque gostei.

Éteram observou a pedra novamente. Ela ainda estava fria.

— Você está me dando?

Apari desviou o olhar.

— Se quiser.

Ele ficou quieto. Não sabia o que fazer com uma pedra. Tinha poucas coisas naquele abrigo, e todas costumavam servir para alguma coisa. Os tecidos protegiam do frio. As ferramentas permitiam consertar o que quebrava. Os recipientes guardavam água ou comida. A pedra não oferecia calor, alimento ou proteção.

Mesmo assim, ele a colocou num canto seco, junto de seus poucos pertences. Apari acompanhou o movimento.

— Você vai guardar isso?

— Vou.

— Por quê?

Éteram olhou para ela.

— Porque gostei.

Apari apertou os lábios. Depois virou o rosto. Ele percebeu que ela estava sorrindo. Não comentou.


As noites também começaram a mudar. No início, cada um dormia em um canto. Apari continuava mantendo a faca ao alcance da mão. Éteram costumava acordar algumas vezes para alimentar o fogo e verificar se o teto ainda resistia ao peso da neve. Quando as temperaturas caíram ainda mais, porém, a distância entre eles se tornou um desperdício de calor.

Primeiro, aproximaram os lugares onde dormiam. Depois, começaram a dividir parte dos tecidos. O acordo nunca foi discutido. Simplesmente aconteceu. Numa manhã, Éteram acordou com o cobertor enrolado nas pernas e Apari tão próxima que quase não conseguia se levantar. Tentou puxar uma das pontas. Ela abriu os olhos imediatamente.

— O que você está fazendo?

— Pegando meu cobertor.

Apari olhou para o tecido que envolvia os dois.

— Você roubou o meu.

— Não roubei.

— Então por que está comigo?

Éteram examinou a posição do cobertor.

— Porque você deixou cair em cima de mim.

— Eu não deixei.

— Então ele veio sozinho.

Ela o encarou. Depois puxou o tecido com força. Éteram quase caiu.

— Ei!

— Problema seu.

Ele ficou olhando enquanto ela se acomodava novamente. Por alguns segundos, pensou em puxar o cobertor de volta. Desistiu. Naquela noite, quando o frio piorou, Apari se aproximou. O ombro dela encostou no dele.

— Está frio — murmurou.

— Eu sei.

Ela permaneceu ali. Éteram também. Na noite seguinte, aconteceu novamente. Depois de algum tempo, deixou de ser necessário procurar uma desculpa. Em certas madrugadas, Apari falava dormindo. Palavras incompletas, reclamações e, ocasionalmente, algum nome que Éteram não conseguia compreender. Uma vez, ela despertou assustada.

Sentou-se rapidamente, procurando a faca. Éteram ergueu a cabeça.

— O que foi?

Apari olhou ao redor. A fogueira estava baixa. A neve continuava caindo do lado de fora. Ela demorou a responder.

— Nada.

Éteram observou sua mão. Ainda segurava a faca. Ele se deitou novamente.

— Tá.

Não perguntou. Algum tempo depois, Apari guardou a lâmina e voltou a dormir. Mais perto do fogo.


A comida que haviam conseguido no depósito terminou antes do esperado. Durante alguns dias, precisaram voltar às pequenas oportunidades que encontravam nas ruas. Roubavam uma fruta aqui, algumas raízes ali, um pedaço de pão quando tinham sorte. Numa manhã, restava somente um pedaço pequeno. Éteram colocou-o sobre o pano que utilizavam para as refeições.

Apari olhou para o pão. Depois para ele.

— Divide.

— Não estou com fome.

Ela levantou os olhos.

— Mentiroso.

— Comi ontem.

— Eu também.

Éteram empurrou o pão na direção dela. Apari o partiu ao meio. Entregou uma parte.

— Come.

— Você precisa mais.

— Você também.

Ele tentou devolver. Ela fechou a mão dele em torno do pedaço.

— Não começa.

Comeram em silêncio. Apari terminou primeiro. Ficou observando as migalhas espalhadas sobre o pano e recolheu uma delas com a ponta do dedo. Éteram percebeu.

— Ainda está com fome?

Ela demorou a responder.

— Um pouco.

Éteram olhou para as próprias mãos vazias. Naquele momento, não havia nada que pudesse lhe oferecer. Aquilo o incomodou mais do que esperava. Na manhã seguinte, saiu antes que Apari acordasse.

O céu ainda estava escuro, e a neve acumulada durante a noite dificultava a passagem pelas ruas. Voltou algumas horas depois, trazendo comida suficiente para prepararem uma refeição quente. Apari continuava dormindo. Éteram colocou os alimentos perto do fogo e tentou não fazer barulho. Não conseguiu. Ela abriu um dos olhos.

— Demorou.

— Eu voltei cedo.

Apari se sentou. Os cabelos estavam desgrenhados, e havia uma marca do cobertor em sua bochecha. Olhou para a comida. Depois para ele.

— Você saiu sem me acordar.

— Estava dormindo.

— Eu percebi.

Éteram começou a preparar a refeição. Ela o observou.

— Por que voltou tão cedo?

— Você estava cansada.

— Como sabe?

Ele olhou por cima do ombro.

— Você fala dormindo.

Apari ficou imóvel.

— Não falo.

— Fala.

— O quê?

Éteram fingiu pensar.

— Muita coisa.

Ela se aproximou.

— O quê?

Ele começou a sorrir.

— Não sei.

Apari estreitou os olhos.

— Você está inventando.

— Talvez.

Ela o acertou com uma ponta do cobertor. Éteram riu. A comida quase caiu no fogo.


Nem todas as saídas terminavam bem. Numa tarde, passaram horas procurando alguma oportunidade sem chamar atenção. A primeira loja fechou cedo demais. Na segunda, um comerciante apareceu quando Éteram estava prestes a se aproximar dos fundos. Na terceira, um homem permaneceu observando os dois por tempo suficiente para fazê-los desistir.

Apari percebeu primeiro.

— Vamos embora.

Éteram olhou para o pequeno embrulho que carregava.

— Só conseguimos três batatas.

— Então vamos embora com três batatas.

Ele ainda examinou a rua.

— Talvez dê para—

Apari segurou sua manga.

— Não.

Havia algo diferente em sua voz. Éteram acompanhou discretamente o olhar dela. O homem continuava observando. Desistiu. Seguiram pela rua até Apari entrar inesperadamente num beco estreito. Éteram a acompanhou.

— Esse beco termina.

— Não esse.

Ela se aproximou de uma parede, afastou alguns pedaços de madeira e revelou uma passagem quase invisível entre duas construções. Éteram ficou olhando.

— Como você sabe disso?

— Eu sei.

Ela entrou. Ele a acompanhou, precisando se virar de lado para atravessar a parte mais estreita. O caminho estava escuro, protegido da neve pelos telhados que quase se tocavam acima de suas cabeças. Depois de alguns metros, chegaram a outra rua. Éteram olhou para trás. A entrada praticamente desaparecera entre as paredes.

— Você realmente conhece tudo isso?

Apari ajeitou a roupa.

— Eu falei.

— É muita coisa.

Ela começou a andar.

— Você conhece livros.

Éteram a alcançou.

— Livros são mais fáceis.

— Não.

Ele olhou para ela. Apari abriu um pequeno sorriso.

— Pessoas são mais previsíveis.

Éteram ficou pensando naquilo durante o caminho de volta. Ela conhecia as ruas como quem precisava saber exatamente onde o perigo começava e onde terminava. Ele conhecia os estabelecimentos como quem precisava encontrar comida. Talvez, juntos, estivessem começando a enxergar coisas que nenhum dos dois perceberia sozinho.

Naquela noite, cozinharam duas batatas. A terceira ficou guardada para o dia seguinte.


Em outra manhã, Apari acordou mais quieta. Sentou-se perto do fogo e permaneceu ali durante boa parte do dia, com uma das mãos apoiada sobre a barriga. Éteram percebeu enquanto organizava a lenha. Ela havia recusado a primeira oportunidade de sair e não demonstrara qualquer interesse em discutir quando ele lhe ofereceu uma porção um pouco maior de comida.

Aquilo, por si só, já era estranho. Ele esperou algum tempo. Depois se aproximou.

— Está doendo?

Apari levantou os olhos.

— Não.

Éteram olhou para a mão dela. Apari retirou-a da barriga.

— Só não estou muito bem.

— Quer alguma coisa?

— Não.

Ele assentiu. Voltou para perto da fogueira. Durante alguns minutos, tentou se concentrar em separar os pedaços de madeira mais secos. De vez em quando, porém, olhava discretamente para ela. Apari permanecia encolhida, observando as chamas. Éteram pegou uma caneca, colocou água para aquecer e a deixou ao lado dela. Apari examinou o recipiente.

— O que é isso?

— Água quente.

Ela ergueu os olhos.

— Eu sei.

— Então por que perguntou?

Apari soltou uma risada fraca.

— Idiota.

Ele deu de ombros e voltou para a lenha. Algum tempo depois, ouviu:

— Obrigada.

Éteram não se virou.

— De nada.

Não precisava compreender todas as coisas que aconteciam com ela. Precisava apenas parar de atrapalhar quando não compreendia.


Certa manhã, Apari acordou antes dele. O fogo ainda queimava lentamente, e uma luz acinzentada atravessava a abertura da janela. O vento havia diminuído durante a madrugada, deixando o abrigo mergulhado num silêncio incomum. Éteram dormia perto das chamas. Apari observou o rosto dele. Havia uma mancha de cinza em sua bochecha.

Ela ficou olhando durante algum tempo, como se estivesse tentando compreender de que maneira alguém conseguia se sujar tanto apenas dormindo. Aproximou-se. Estendeu a mão. Passou o polegar delicadamente sobre a mancha. A cinza saiu. Éteram se mexeu. Apari retirou a mão imediatamente. Ele abriu os olhos.

— O que foi?

— Nada.

Éteram piscou algumas vezes.

— Você estava mexendo no meu rosto?

— Tinha cinza.

Ele levou a mão à bochecha.

— Ainda tem?

Apari examinou. Havia um pouco mais perto do nariz.

— Não.

Ele começou a esfregar o rosto. A mancha se espalhou. Apari apertou os lábios. Éteram percebeu.

— Está rindo?

— Não.

— Está.

Ela virou o rosto.

— Você parece uma chaminé.

Éteram tentou limpar a cinza com a manga. Conseguiu espalhá-la ainda mais. Apari começou a rir. Ele a encarou, indignado. Depois, sem conseguir evitar, começou a rir também. Apari tentou apontar para o próprio rosto para lhe mostrar onde ainda havia sujeira, mas a risada a interrompeu. Éteram pegou um pano úmido e finalmente conseguiu se limpar.

Quando terminou, encontrou Apari ainda sorrindo.

— Melhorou?

Ela fingiu examiná-lo.

— Um pouco.

— Um pouco?

— Continua feio.

Ele atirou o pano na direção dela. Apari desviou. O pano caiu perto do fogo. Os dois se apressaram para recuperá-lo. E começaram a rir novamente.


Na terceira semana, a presença de Apari já havia alterado praticamente tudo. Éteram percebeu isso numa tarde em que voltou sozinho. Entrou no abrigo, sacudiu a neve dos ombros e colocou a comida sobre o pano. Apari não apareceu imediatamente. Ele ergueu os olhos.

Encontrou-a dormindo perto da fogueira, envolvida no cobertor que costumava roubar durante a noite. A faca estava próxima, mas já não descansava em sua mão. Éteram se aproximou do fogo e colocou mais um pedaço de lenha. Apari se mexeu, procurando uma posição mais confortável. Ele ficou olhando.

Havia roupas dela penduradas na corda que haviam instalado. O casaco remendado estava dobrado sobre uma pedra. A caneca que ela costumava utilizar permanecia ao lado da chapa de ferro. A pedra lisa continuava entre os pertences dele. O abrigo estava tão miserável quanto antes. A parede continuava torta. O teto ainda ameaçava cair.

A fumaça continuava irritando seus olhos. Entretanto, alguma coisa havia mudado. Ele demorou a reconhecer o que era. Já não procurava um lugar vazio para colocar suas coisas. Procurava um lugar que não atrapalhasse as dela. Apari abriu os olhos. Encontrou-o olhando.

— Você voltou cedo.

Éteram se virou para a comida.

— Consegui o que precisava.

Ela se sentou, ainda sonolenta.

— Ficou me olhando dormir?

— Não.

Apari olhou para ele. Éteram hesitou.

— Um pouco.

Ela fez uma careta.

— Esquisito.

— Você estava roncando.

— Eu não ronco!

— Então tinha um animal aqui dentro.

Ela apanhou uma ponta do cobertor. Éteram se afastou antes que fosse atingido.

— Trouxe comida — anunciou.

Apari interrompeu a tentativa de acertá-lo. Olhou para o embrulho.

— Quanto?

Ele mostrou. Ela se aproximou imediatamente. Éteram sorriu. Certas coisas continuavam exatamente iguais.


A neve caiu durante três dias consecutivos. Não houve manhã ensolarada nem qualquer intervalo que permitisse uma saída segura. O vento arrastava a neve acumulada nos telhados e a arremessava contra as paredes, fazendo a estrutura gemer durante a noite. O abrigo escureceu.

A pequena quantidade de luz que atravessava a janela parecia incapaz de alcançar o outro lado do cômodo. Apari passou a primeira manhã enrolada no cobertor. Na segunda, perdeu a paciência.

— A parede está fazendo barulho.

Éteram examinou a estrutura. Uma das tábuas havia se soltado.

— É o vento.

— Eu sei.

— Então?

Ela apontou.

— Vai cair.

Éteram se levantou.

— Não vai.

Apari olhou para ele.

— Já ouvimos isso antes.

Ele fingiu não escutar. Passaram boa parte da tarde reforçando a parede. Apari segurava as tábuas enquanto Éteram tentava prendê-las. Quando seus dedos começaram a ficar dormentes, trocaram de posição. A madeira estava úmida. O tecido que utilizavam para tapar os buracos se desprendia sempre que o vento mudava de direção.

Em determinado momento, uma rajada particularmente forte atravessou a estrutura e apagou parte do fogo. Os dois olharam para as brasas. Depois para a parede. Apari suspirou.

— Estamos ferrados.

Éteram encontrou outro pedaço de madeira.

— Ainda não.

Ela ficou olhando para ele.

— Você tem algum plano?

— Tenho.

— Qual?

— Arrumar a parede.

Apari fechou os olhos.

— Um plano brilhante.

Ele lhe entregou a madeira.

— Obrigado.

Continuaram trabalhando até o fim da tarde. Quando terminaram, a parede estava feia. Torta. Cheia de remendos. Mas continuava em pé. Apari se sentou perto da fogueira e estendeu as mãos para o calor. Éteram acomodou o restante da madeira num canto.

— Viu? — perguntou ele.

Ela olhou para a parede.

— Ainda pode cair.

— Mas não caiu.

— Por enquanto.

Ele se sentou ao lado dela.

— Você precisa reconhecer quando estou certo.

Apari ergueu os olhos.

— Você disse que não ia cair antes de começar a arrumar.

Éteram pensou por um instante.

— Mudei de opinião.

— Depois de errar.

— Melhor do que continuar errado.

Ela o encarou. Depois começou a sorrir.

— Idiota.

Éteram entregou a ela uma parte da comida.

— Come.

Ela aceitou.


Naquela noite, estavam cansados demais para continuar discutindo. Apari se acomodou perto do fogo, com os joelhos recolhidos e o cobertor sobre os ombros. Éteram permaneceu sentado ao lado dela, observando as chamas consumirem lentamente um dos últimos pedaços de lenha. Durante algum tempo, ouviram apenas o vento. Apari se aproximou.

Seu ombro encostou no dele. Dessa vez, não disse que estava frio. Éteram puxou o cobertor para que cobrisse os dois. Ela se acomodou melhor. Ficaram em silêncio.

O fogo lançava sombras irregulares sobre a parede remendada. O tecido que haviam utilizado para tapar a janela balançava discretamente, mas o vento já não conseguia atravessar o abrigo com a mesma violência. Éteram olhou ao redor. Havia passado tanto tempo sozinho naquele lugar que já não conseguia se lembrar de como era conversar com alguém antes de dormir.

Agora, quando encontrava alguma coisa curiosa na rua, pensava em contar a Apari. Quando conseguia comida, calculava duas porções. Quando voltava, procurava por ela antes mesmo de retirar a neve das roupas. A percepção o surpreendeu.

— Eu gosto de quando você está aqui.

Apari virou o rosto. Éteram percebeu imediatamente o que havia dito.

— Quero dizer…

Ela continuou olhando. Ele procurou as palavras. Não encontrou nenhuma particularmente boa.

— Não desse jeito.

Apari ergueu uma sobrancelha.

— Que jeito?

Éteram ficou vermelho.

— Esquece.

Ela abriu um sorriso.

— Não. Agora eu quero saber.

— Não tem nada para saber.

— Então por que está assim?

Ele puxou o cobertor até a altura do nariz. Apari começou a rir.

— Idiota.

— Você também.

— Eu não falei nada!

— Falou demais.

Ela se aproximou um pouco mais, tentando enxergar o rosto que ele escondia.

— Você fica engraçado quando fala demais.

— Eu não falo demais.

— Fala.

— Você também.

— Eu não.

— Fala sim.

Apari cruzou os braços.

— Prova.

Éteram abriu a boca. Fechou. Pensou por alguns segundos.

— Esquece.

Apari sorriu, satisfeita.

— Sabia.

Ele desviou o olhar. O vento continuava do lado de fora. Ela permaneceu encostada nele. Éteram deixou o cobertor onde estava.


Na última semana do primeiro mês, a rotina já parecia antiga. Apari buscava água. Éteram procurava comida. Quando precisavam de alguma coisa difícil, saíam juntos.

Aprenderam a reconhecer o momento de abandonar um roubo. Aprenderam a não discutir em lugares onde qualquer barulho poderia denunciá-los. Aprenderam que dividir tarefas evitava uma quantidade surpreendente de problemas. Não deixaram de discutir, evidentemente. Apari continuava reclamando quando Éteram pegava mais do que conseguia carregar.

Éteram continuava reclamando quando ela demorava demais observando alguma coisa que considerava suspeita. Entretanto, já não precisavam explicar cada decisão. Certa tarde, encontraram um saco de batatas encostado numa carroça. Nenhum comerciante parecia estar por perto. Apari olhou para a carroça. Depois para Éteram. Ele acompanhou seu olhar.

Os dois se aproximaram. Apari segurou uma das extremidades do saco. Éteram pegou a outra. Tentaram levantá-lo. Era pesado demais. Apari olhou para ele.

— Você teve uma ideia ruim.

— Você também teve.

— A minha era melhor.

— Era a mesma.

Ela fez uma careta. Arrastaram o saco até o início de um beco. Éteram olhou para trás. Um homem apareceu próximo à carroça. Os dois congelaram. O homem examinou a rua. Depois olhou na direção deles. Apari apertou os dedos no tecido do saco.

— Corre.

Éteram olhou para a carga.

— Com isso?

— Você quer largar?

Ele puxou o saco. Apari o ajudou. Correram como conseguiram, alternando pequenos trechos em que carregavam a carga com outros em que praticamente a arrastavam pela neve. Quando finalmente alcançaram o abrigo, estavam exaustos. Apari caiu sentada no chão. Éteram largou o saco ao lado dela. Durante alguns segundos, ouviram apenas a própria respiração.

Depois Apari começou a rir.

— Nós somos muito bons nisso.

Éteram se sentou. Olhou para o saco. Depois para ela.

— Somos.

Apari desfez o nó. As batatas se espalharam sobre o pano. Ela passou os dedos por algumas delas.

— Isso vai durar.

— Um pouco.

— O suficiente.

Éteram assentiu. Naquela noite, cozinharam mais do que precisavam. Não porque tivessem certeza de que encontrariam comida no dia seguinte. Porque, pela primeira vez em muito tempo, podiam escolher comer um pouco mais sem deixar o amanhã completamente vazio. Apari terminou a refeição e se deitou perto do fogo.

Éteram permaneceu sentado, organizando o que restara.

— Está bom? — perguntou ele.

Ela abriu um dos olhos.

— Está.

— Quer mais?

Apari pensou. Depois estendeu a mão. Éteram lhe entregou outra batata. Ela sorriu. Ele voltou a organizar a comida.


Apari começou a roubar o cobertor. Éteram começou a esconder batatas. O primeiro hábito ela praticava durante a noite, puxando discretamente o tecido até deixá-lo praticamente descoberto. O segundo ele justificava como uma medida necessária para impedir que os dois comessem tudo antes da próxima saída. Apari não concordava com nenhuma justificativa.

Certa manhã, enquanto procurava um pedaço de pano sob o colchão improvisado, encontrou três batatas escondidas. Ficou olhando para elas. Depois se virou. Éteram estava tentando reacender o fogo.

— Você está guardando comida de mim?

Ele olhou por cima do ombro. Viu as batatas.

— Estou guardando comida.

Apari levantou uma.

— É diferente?

— É.

Ela pegou outra. Éteram acompanhou o movimento.

— O que está fazendo?

— Pegando comida.

— Eu estou vendo.

— Então por que perguntou?

Ele suspirou. Apari examinou as três batatas. Pegou duas e deixou a última onde estava. Éteram apontou para ela.

— Aquela é sua.

Apari parou.

— Não quero.

— Então por que pegou duas?

Ela o encarou.

— Porque são duas.

Éteram ficou olhando. Não conseguiu encontrar uma resposta que fizesse qualquer sentido. Apari abriu um sorriso.

— Você é impossível — disse ele.

— Eu sei.

Naquela tarde, Éteram saiu para procurar lenha. Quando voltou, a terceira batata havia desaparecido. Ele encontrou Apari sentada perto do fogo, com uma expressão particularmente inocente. Olhou para o lugar onde havia escondido a comida. Depois para ela. Apari continuou observando as chamas. Éteram não perguntou.


As coisas pequenas começaram a ocupar um espaço inesperado. Uma caneca deixada perto do fogo. Um casaco pendurado para secar. Um pedaço de pão dividido sem discussão. A pedra lisa continuava junto às poucas coisas que Éteram considerava suas. A faca de Apari continuava existindo. Mas já não precisava permanecer constantemente entre os dois.

Numa das últimas tardes daquele mês, Éteram voltou mais cedo. Encontrou Apari sentada perto da fogueira, com o queixo apoiado sobre os joelhos. Estava observando as chamas consumirem lentamente um pedaço de madeira. Ele retirou a neve das roupas.

— Voltei.

Apari ergueu os olhos.

— Demorou.

Éteram parou. Olhou para a luz que ainda atravessava a janela.

— Hoje eu voltei cedo.

— Eu sei.

Ele se aproximou.

— Então por que disse isso?

Apari sustentou seu olhar por alguns segundos. Depois voltou a observar o fogo.

— Porque demorou mesmo assim.

Éteram ficou quieto. Não sabia exatamente o que responder. Sentou-se ao lado dela. Apari se aproximou um pouco. Nenhum dos dois comentou. O fogo estalou. Uma corrente de ar atravessou a pequena abertura da porta. Éteram olhou ao redor.

A parede estava remendada. A corda ainda sustentava algumas roupas úmidas. A cesta roubada permanecia num canto, e o velho fogão improvisado precisava de outra limpeza. Nada daquilo havia se tornado bonito. Nem confortável. Nem seguro. Entretanto, já não parecia o mesmo lugar. Apari estendeu as mãos para o fogo. Éteram colocou mais um pedaço de lenha.

Pela primeira vez, percebeu que havia começado a voltar para aquele abrigo por um motivo que não tinha relação com as paredes.


Naquela noite, o frio apertou. O fogo estava baixo, e o vento voltou a assobiar pelas frestas que ainda não haviam conseguido tapar. Éteram acordou quando sentiu Apari se aproximar. Ela puxou o cobertor sobre os dois e se acomodou ao lado dele. Os cabelos lhe caíram sobre o rosto, e ela os afastou com uma expressão sonolenta.

Éteram se mexeu para lhe dar mais espaço. Apari permaneceu imóvel durante alguns instantes. Depois chamou baixinho:

— Éteram…

— Hm?

Ela demorou a responder.

— Quando a neve parar…

O silêncio que veio em seguida foi diferente dos outros. Éteram abriu os olhos. Apari já estava de costas para ele, observando a pequena abertura por onde entrava a luz pálida da noite. Ele esperou. Ela não terminou a frase. Poderia ter perguntado o que queria dizer. Poderia ter lembrado que ela havia prometido ficar apenas até o fim do inverno.

Poderia até ter perguntado se estava pensando em ir embora. Não fez nenhuma dessas coisas. Limitou-se a olhar para o teto escuro, ouvindo o vento bater contra a madeira que haviam pregado juntos. Apari se mexeu novamente. Aproximou-se um pouco mais do fogo. Éteram puxou o cobertor sobre o ombro dela. Do lado de fora, a neve continuava caindo.

Havia tanto tempo que desejava o fim do inverno que não sabia muito bem o que fazer com aquela vontade repentina de prolongá-lo. Talvez mais alguns dias. Uma semana. O suficiente para consertarem outra parte da parede. Para encontrarem mais comida. Para que Apari reclamasse novamente de alguma coisa que ele havia feito.

O suficiente para voltar e encontrá-la perto do fogo mais algumas vezes. Fechou os olhos. Pela primeira vez, o inverno lhe pareceu curto demais. Na manhã seguinte, Éteram acordou com o rosto gelado e uma mecha de cabelo presa à boca. Soprou, tentou afastá-la com a língua e descobriu que o cabelo não era seu. Apari dormia praticamente em cima dele.

Uma das mãos estava fechada sobre o cobertor, enquanto a outra repousava entre os dois. Durante a noite, conseguira se apropriar de quase todo o tecido, deixando para Éteram uma faixa miserável que mal lhe cobria as pernas. Ele tentou se levantar. Não conseguiu. O braço dela estava sobre seu peito.

— Apari.

Nenhuma resposta.

— Apari.

Ela resmungou alguma coisa. Éteram puxou discretamente o cobertor. Apari apertou o tecido.

— Ladrão.

Ele parou.

— Você está dormindo?

— Estava.

— Então sai de cima de mim.

Ela abriu um dos olhos. Por alguns segundos, pareceu não compreender a situação. Depois observou o próprio braço, o cobertor e a expressão contrariada dele. Afastou-se.

— Você podia ter falado.

Éteram ficou olhando para ela.

— Eu falei!

Apari se virou, puxando o restante do cobertor.

— Não precisa gritar.

Ele abriu a boca. Desistiu. Levantou-se e foi reacender o fogo. A madeira havia absorvido umidade durante a madrugada. Precisou soprar as brasas repetidas vezes até conseguir produzir uma chama suficientemente forte para alcançar os gravetos. Atrás dele, Apari se acomodou novamente.

— Está frio.

Éteram olhou para o cobertor. Depois para as próprias pernas descobertas.

— Não me diga.

Ela escondeu um sorriso. A manhã prosseguiu sem que nenhum dos dois mencionasse a conversa da noite anterior. Éteram se lembrava perfeitamente.

Quando a neve parar…

A frase permanecera inacabada, mas seu significado parecia suficientemente evidente. Apari iria embora. Sempre fora essa a condição. Ainda assim, ele se pegou observando a neve através da janela enquanto preparava a primeira refeição do dia. Continuava caindo. Sentiu um alívio ridículo.

— Vai ficar olhando até ela desaparecer? — perguntou Apari.

Ele se virou.

— O quê?

Ela apontou para a panela. A água estava quase transbordando. Éteram retirou-a do fogo.

— Estava pensando.

— Percebi. É perigoso.

Ele lhe entregou uma caneca. Apari aceitou. Nenhum deles voltou a falar sobre o fim do inverno.


As batatas que haviam roubado na última semana continuavam sendo uma pequena fortuna. Éteram as distribuíra em diferentes lugares do abrigo, convencido de que assim evitariam consumir tudo de uma vez. Apari descobrira quase todos os esconderijos. O problema, agora, era encontrar alguma coisa para acompanhar as refeições. Batatas cozidas eram boas.

Batatas assadas também. Batatas amassadas, misturadas com as poucas ervas que ainda possuíam, eram melhores. Entretanto, depois de vários dias, Apari começou a demonstrar uma hostilidade crescente em relação ao alimento. Naquela tarde, Éteram colocou mais duas sobre a chapa. Ela observou.

— Batata?

— Batata.

— De novo?

— Você prefere neve?

Apari pegou uma das raízes que descansavam sobre o pano. Examinou-a.

— Acho que estou começando a odiar isso.

Éteram virou uma das batatas com cuidado.

— Ótimo. Vai sobrar mais para mim.

Ela imediatamente colocou a raiz de volta.

— Não disse que não ia comer.

— Imaginei.

Apari permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois se aproximou.

— Você não consegue fazer outra coisa?

Éteram olhou para os ingredientes espalhados diante dele.

— Com o quê?

Ela examinou o pequeno estoque. Restava um pouco de farinha, algumas ervas secas e uma quantidade lamentável de sal.

— Podemos roubar.

Ele ergueu os olhos.

— O quê?

Apari sorriu.

— Alguma coisa que não seja batata.

Éteram considerou a proposta. Havia um estabelecimento perto da região comercial que vendia carnes conservadas, pescados, gordura e pequenas quantidades de especiarias. O proprietário costumava descarregar mercadorias durante a tarde, mas mantinha os produtos de maior valor dentro de um depósito. Éteram conhecia o lugar. Não gostava dele.

O comerciante era atento demais. Entretanto, lembrava-se dos peixes defumados que vira pendurados atrás do balcão. Também se lembrava do cheiro. Na última vez em que passara por ali, estavam descarregando uma encomenda de tainhas defumadas. O aroma penetrante da carne conservada permanecera com ele durante várias ruas.

Um peixe daqueles, algumas ervas e uma quantidade razoável de gordura seriam suficientes para preparar uma refeição inteiramente diferente. Talvez até conseguisse engrossar o caldo com o restante da farinha. Olhou novamente para Apari. Ela estava esperando.

— Tem um armazém — comentou.

Apari imediatamente se interessou.

— Grande?

— O suficiente.

— Tem comida?

— Bastante.

— Então vamos.

Éteram retirou as batatas da chapa.

— Você nem sabe onde fica.

— Você sabe.

Ela lhe ofereceu um sorriso particularmente desagradável. Éteram suspirou. Já deveria ter aprendido que falar sobre comida perto de Apari era praticamente o mesmo que assumir um compromisso.


Nos primeiros dias daquele segundo mês, descobriram que trabalhar juntos não significava necessariamente concordar. Apari queria observar o estabelecimento durante pelo menos uma tarde inteira. Éteram considerava aquilo um desperdício de tempo. Ela argumentava que conhecer os horários diminuiria os riscos.

Ele argumentava que ficariam com fome antes de descobrir qualquer coisa útil. No fim, passaram quase três horas escondidos numa passagem lateral, observando o movimento dos comerciantes. Apari estava agachada sobre um pedaço de madeira. Éteram permanecia encostado na parede, tentando recuperar a sensibilidade dos dedos.

A neve se acumulava lentamente sobre seus ombros. O estabelecimento ocupava a esquina entre uma rua comercial e uma passagem que conduzia ao porto. Na frente, os compradores entravam por uma porta larga, protegida por um toldo. Nos fundos, uma segunda entrada permitia que as mercadorias fossem descarregadas diretamente das carroças.

Era aquela que lhes interessava. Apari acompanhava a movimentação dos funcionários havia tanto tempo que Éteram começara a suspeitar que ela pretendia morrer naquele beco.

— Aquele homem entrou duas vezes — comentou ela.

Éteram acompanhou seu olhar.

— Ele trabalha ali.

— Eu sei.

— Então vai entrar mais vezes.

Apari o encarou.

— Estou contando quanto tempo demora.

— Por quê?

Ela apontou para uma carroça estacionada perto do depósito.

— Quando ele descarrega, deixa a porta aberta. Só que sempre tem outro lá dentro.

Éteram olhou novamente. Havia, de fato, um segundo homem transportando caixas.

— Então esperamos os dois saírem.

Apari balançou a cabeça.

— Não saem juntos.

— Como sabe?

— Porque estamos aqui há três horas, idiota!

Éteram abriu a boca. Depois olhou para o céu. Uma camada espessa de nuvens escondia completamente o sol. A luz permanecia praticamente igual desde que haviam chegado. Voltou a encará-la.

— Três horas?

— É.

— Como você sabe?

Apari pareceu sinceramente ofendida.

— Eu sei contar!

— Não foi isso que perguntei.

Ela o observou durante alguns segundos. Depois sorriu. Enfiou a mão por baixo do casaco e retirou um pequeno objeto preso a uma corrente. Era um relógio de bolso. Éteram se aproximou imediatamente.

A peça possuía uma caixa de metal trabalhada, embora parte do acabamento estivesse arranhada. O vidro apresentava uma pequena rachadura, e a corrente havia sido amarrada com um pedaço de linha próximo à extremidade. Os ponteiros continuavam funcionando. Éteram ficou olhando.

— Onde conseguiu isso?

Apari examinou o relógio.

— Encontrei.

Ele ergueu os olhos. Ela sustentou uma expressão perfeitamente inocente.

— No bolso de alguém? — perguntou ele.

Apari sorriu.

— Talvez.

Éteram pegou delicadamente o objeto quando ela o ofereceu. Aproximou-o do ouvido. O mecanismo produzia pequenos estalos regulares.

— Funciona!

— Não roubaria um quebrado.

Ele examinou os números. Depois olhou novamente para Apari.

— Você sabe ler as horas?

Ela arrancou o relógio de suas mãos.

— Você quer continuar fazendo perguntas idiotas ou quer comer alguma coisa que não seja batata?

Éteram ergueu as mãos.

— Tá!

Apari guardou o objeto por dentro do casaco, protegendo-o do frio.

— E não fica olhando para ele. É meu.

— Eu nem pedi!

— Estava pensando.

Éteram fechou a boca. Aquela garota estava se tornando perigosamente boa em reconhecer suas intenções.


Continuaram observando. O tempo não foi inteiramente desperdiçado. A passagem ficava próxima o suficiente para que conseguissem ouvir as conversas de quem descarregava as mercadorias. O primeiro assunto importante surgiu quando um dos funcionários reclamou do peso de uma caixa.

— Se esse infeliz trouxer mais uma encomenda dessas, vou cobrar o dobro!

O outro soltou uma gargalhada.

— Reclama com o patrão. Foi ele que quis as tainhas da defumaria do norte.

Éteram levantou imediatamente a cabeça.

Tainhas.

Apari percebeu.

— O quê?

Ele apontou discretamente para o depósito.

— É aquilo que eu quero.

Ela olhou novamente para os funcionários.

— Peixe?

Éteram assentiu.

— Defumado.

Apari fez uma careta.

— Parece salgado.

— Porque é conservado com sal.

Ela o encarou.

— Então por que você quer?

Éteram suspirou.

— Porque dá para preparar outras coisas com ele.

Ela continuou olhando. Ele se aproximou de seu ouvido.

— Deixa de molho, tira parte do sal, cozinha com as raízes e faz um caldo com a gordura.

Apari pareceu considerar a explicação.

— Fica bom?

Éteram abriu um pequeno sorriso.

— Muito.

Ela voltou a observar o depósito.

— Então vamos roubar dois.

— Um.

Apari se virou, indignada.

— Você está ficando covarde?

— Você quer conseguir carregar dois peixes grandes enquanto corre?

Ela pensou por um instante.

— Você carrega.

Éteram fechou os olhos. Antes que pudesse responder, outra conversa chamou sua atenção. Dois comerciantes haviam parado diante da carroça. Um deles carregava um recipiente grande, protegido por tiras de couro. O outro gesticulava na direção do porto.

— Estão cobrando uma fortuna por qualquer peixe vivo — reclamou o primeiro.

— Espera até chegar a temporada dos ardélios.

Éteram ergueu a cabeça novamente. Apari percebeu.

— Agora o quê?

Ele levou um dedo aos lábios. O comerciante continuou:

— Dizem que pegaram três perto da costa congelada.

— Três? Quem foi o maluco que saiu pescando naquela região?

— Os irmãos da embarcação vermelha.

O outro homem soltou uma risada.

— Então alguém vai ficar rico.

— Se conseguirem vender antes que morram.

O primeiro comerciante pareceu concordar.

— Aquele peixe é uma desgraça. Vivo, você tem que alimentar e manter dentro de uma tina. Morto, precisa enterrar numa montanha de gelo.

— E o gelo derrete!

— Pois é. A porcaria continua quente!

Os dois riram. Éteram, entretanto, havia deixado de prestar atenção ao humor da conversa. Ardélios. Fazia muito tempo que não via um. Lembrava-se do sabor. Da gordura. Da maneira como a carne praticamente se desfazia quando preparada corretamente.

Será que realmente capturaram três?

Apari cutucou seu braço.

— Éteram.

Ele se virou.

— Hm?

— Para de olhar com essa cara.

— Que cara?

Ela apontou para o depósito.

— A cara que você faz quando encontra alguma coisa que quer roubar.

Éteram tentou parecer inocente. Apari suspirou.

— Principalmente quando é comida.

Ele voltou a observar os comerciantes. A informação ficou guardada em algum lugar de sua cabeça. Por enquanto, havia problemas mais imediatos.


Pouco depois, um terceiro funcionário apareceu carregando um pequeno caixote. Colocou-o sobre a carroça e começou a discutir com os outros dois.

— O patrão quer tudo separado! O peixe vai para dentro, a gordura fica no depósito menor e os temperos não podem ficar perto das carnes!

Um dos homens resmungou.

— Ele também quer que a gente trabalhe por três pessoas?

— Reclama com ele!

Apari acompanhou a conversa com evidente interesse. Éteram apontou discretamente para a segunda entrada.

— A gordura fica ali.

Ela observou a porta menor.

— E o peixe?

— No depósito principal.

Apari retirou novamente o relógio. Examinou os ponteiros. Depois olhou para os trabalhadores.

— Quando a carroça terminar, eles vão ter que organizar tudo.

Éteram assentiu.

— E um deles vai ficar sozinho.

— Talvez.

Ela voltou a guardar o objeto. Algum tempo depois, uma mulher apareceu na entrada do estabelecimento. Conversou com o segundo funcionário, recebeu uma pequena encomenda e se afastou. O homem a acompanhou até a rua. Apari cutucou Éteram.

— Agora.

Ele se endireitou.

— Agora?

— Não. Amanhã.

Saíram da passagem. A primeira tentativa terminou antes mesmo de alcançarem o depósito. O proprietário apareceu na entrada carregando uma caixa, obrigando-os a fingir que estavam apenas passando. Éteram continuou andando. Apari acompanhou seus passos. Só quando dobraram a esquina ela falou:

— Você anda estranho quando tenta parecer inocente.

Ele olhou para ela.

— Como assim?

Apari esticou os ombros, levantou exageradamente o queixo e começou a caminhar com os braços rígidos. Éteram ficou indignado.

— Eu não ando assim!

Ela continuou.

— Olhem para mim! Sou uma pessoa perfeitamente honesta passando casualmente por este estabelecimento!

— Para!

Algumas pessoas olharam na direção deles. Apari começou a rir. Éteram agarrou sua manga e a arrastou para outra rua.

— Você quer que prendam a gente?

— Você que está me sequestrando!

Ele a soltou imediatamente. Apari riu ainda mais. Voltaram ao abrigo sem nada além de neve nas roupas e informações suficientes para tentar novamente. Éteram considerou a tarde um fracasso. Apari discordou.

— Não fomos pegos.

— Também não conseguimos comida.

— Então estamos vivos e famintos.

Ela pegou uma batata.

— Como sempre.


Voltaram dois dias depois. Dessa vez, não precisaram esperar três horas. Apari consultou o relógio antes de saírem e insistiu para que chegassem pouco antes do horário em que os funcionários costumavam descarregar a última carroça.

Éteram ainda não havia decidido se estava impressionado com a utilidade do objeto ou indignado por não ter pensado em roubar um antes. O movimento estava mais intenso do que na visita anterior. Uma carroça carregada de mercadorias permanecia diante do depósito, enquanto dois homens discutiam sobre o desaparecimento de parte de uma encomenda.

Apari observou a situação com evidente interesse.

— Estão brigando.

— Eu percebi.

— Estão distraídos.

Éteram examinou a carroça. Havia sacos de farinha, recipientes de gordura e algumas caixas de madeira. Uma delas estava parcialmente aberta. O cheiro familiar de peixe defumado escapava do depósito. Éteram sentiu o estômago protestar. Apari apontou para a entrada.

— Lá dentro tem mais.

— E lá dentro tem gente.

Ela se aproximou de seu ouvido.

— Então vamos fazer com que saiam.

Éteram se virou.

— Como?

Apari olhou para uma pilha de caixas vazias. Depois para ele. Seu sorriso deveria ter servido de aviso. Alguns minutos depois, um estrondo atravessou a rua. As caixas desabaram perto da entrada do estabelecimento, espalhando pedaços de madeira sobre a neve. Um dos funcionários saiu imediatamente. O outro o acompanhou, praguejando contra a desordem.

Apari já havia desaparecido entre as pessoas. Éteram aproveitou a confusão para entrar pelos fundos.


O depósito estava muito mais quente do que a rua. Cheirava a madeira seca, carne conservada, especiarias e peixe defumado. As paredes eram ocupadas por prateleiras, enquanto diferentes sacos e recipientes se acumulavam sobre o chão. Éteram foi diretamente até os pescados.

As tainhas pendiam de uma estrutura de madeira, presas pelas caudas. A pele havia adquirido uma tonalidade dourada e escura durante a defumação, enquanto a carne conservava um aroma intenso. Examinou os exemplares. Escolheu um dos menores. Era suficientemente grande para render várias refeições, mas pequeno o bastante para ser escondido sob seu casaco.

Retirou-o cuidadosamente. Depois procurou a gordura. Encontrou o recipiente indicado pelos trabalhadores no pequeno depósito lateral. Não havia necessidade de levar tudo. Transferiu uma porção para um pote menor, que encontrou numa das prateleiras.

Agora os temperos.

Atravessou novamente o depósito. Os recipientes estavam organizados sobre uma bancada. Havia sal grosso, ervas secas e pequenas frutas conservadas numa mistura ácida. Éteram examinou as frutas. Conhecia aquele cheiro. Eram utilizadas pelos cozinheiros do porto para equilibrar a gordura dos pescados mais fortes. Pegou duas. Depois separou algumas ervas.

Com aquilo, conseguiria preparar um caldo espesso, utilizando a carne da tainha e as raízes que ainda possuíam. Talvez até sobrasse alguma coisa para uma segunda refeição. A ideia o deixou satisfeito. Estava procurando uma maneira de acomodar tudo quando seus olhos encontraram uma concha de metal pendurada perto da bancada.

O utensílio possuía um cabo comprido, uma pequena deformação na borda e uma profundidade perfeita para recolher caldo sem desperdiçá-lo. Éteram parou. Examinou a concha. Olhou para a porta. Depois voltou a observá-la.

Com isso eu conseguiria preparar o molho sem derramar metade na chapa.

Sua colher improvisada não servia adequadamente para aquela tarefa. Também estava torta. A concha parecia praticamente uma dádiva.

Só mais uma coisa.

Retirou-a do suporte e escondeu-a sob o casaco. Foi nesse momento que ouviu alguém entrando. Éteram congelou.

— Ei!

O homem olhou diretamente para ele. Depois para o peixe que aparecia parcialmente sob sua roupa.

— SEU LADRÃO!

Éteram correu. Atravessou a porta dos fundos quase derrubando o recipiente de gordura. Quando alcançou o beco, encontrou Apari esperando junto à parede. Ela olhou para sua expressão. Depois para o homem que aparecia atrás dele.

— Você fez alguma coisa estúpida?

— Depois eu explico!

Apari agarrou sua mão. Correram.


A neve acumulada nas ruas dificultava cada passo. Éteram tentava impedir que a gordura escapasse de seu recipiente enquanto acompanhava Apari por caminhos que não conhecia. A concha escondida sob o casaco batia contra sua perna, ameaçando cair a cada movimento. Atrás deles, o comerciante gritava por ajuda. Outras vozes se juntaram à primeira.

Apari virou uma esquina. Éteram a acompanhou. Encontraram uma rua estreita. Depois outra. Passaram por uma pequena praça e atravessaram uma passagem parcialmente coberta pela neve. Por alguns instantes, pareceu que conseguiriam escapar. Então ouviram passos à frente. Apari parou tão repentinamente que Éteram quase esbarrou nela.

Dois homens caminhavam em sua direção. Um deles carregava um bastão. Ela olhou para trás. Os perseguidores ainda estavam próximos.

— Droga.

Éteram examinou a rua. Não havia janelas abertas. Nenhuma passagem estreita. Apenas uma construção de pedra, um monte de madeira coberto por neve e alguns barris abandonados perto da parede. Apari encontrou a solução primeiro.

— Ali.

Ela apontou para o maior barril. Estava vazio, apoiado contra a construção e parcialmente protegido por uma cobertura improvisada. Éteram observou o recipiente. Depois olhou para Apari.

— Nós dois?

— Você prefere conversar com aqueles homens?

Ele não respondeu. Apari retirou a tampa. Entrou primeiro. Éteram tentou acompanhá-la. Descobriu imediatamente que o espaço era ainda menor do que parecera do lado de fora.

— Não cabe!

— Cabe!

— Meu pé está preso!

— Então tira de cima do meu!

Ele conseguiu entrar. Apari puxou a tampa. O mundo desapareceu atrás de uma escuridão atravessada por pequenas linhas de luz. O barril cheirava a madeira úmida e alguma coisa fermentada que nenhum dos dois conseguiu identificar. Éteram tentou se acomodar. Não havia espaço.

Apari estava diante dele, com as costas pressionadas contra a parede curva do recipiente. Seus joelhos praticamente se misturavam, e o recipiente de gordura dificultava ainda mais qualquer movimento. A concha escorregou de dentro do casaco dele. Apari conseguiu segurá-la antes que atingisse o fundo do barril. Olhou para o utensílio. Depois para Éteram.

Ele abriu um pequeno sorriso, satisfeito por ela ter conseguido impedir o barulho. Apari estreitou os olhos.

— Você roubou uma concha?

— É boa!

Ela permaneceu olhando.

— Você é inacreditável.

Éteram tentou recuperá-la. Apari afastou sua mão.

— Deixa comigo. Você vai derrubar.

Ele desistiu.

— Está bem.

Ela escondeu o utensílio junto ao próprio corpo. Foi quando ouviram passos.


Os dois ficaram imóveis. Uma voz surgiu do lado de fora.

— Foram por aqui?

Outra respondeu:

— Acho que entraram na rua.

A luz que atravessava as pequenas frestas do barril diminuiu por um instante. Alguém havia parado perto deles. Éteram sentiu Apari segurar sua roupa. Apertou os lábios para impedir qualquer ruído. Um dos homens chutou alguma coisa sobre a neve.

— Procura atrás da construção.

Os passos se afastaram. Apari continuou segurando o casaco dele. Éteram olhou para baixo. Depois para ela. Estavam tão próximos que conseguia distinguir as pequenas manchas de sujeira sobre suas bochechas, apesar da pouca luz. Um fio de cabelo havia escapado de seus cachos e descansava sobre a ponta do nariz. Ela soprou, tentando afastá-lo. Não conseguiu.

Éteram quase riu. Apari estreitou os olhos.

— Nem pensa.

Ele fechou a boca. Continuaram esperando. O silêncio se prolongou. Lá fora, alguém chamou pelo comerciante. Apari ergueu discretamente a cabeça, tentando ouvir melhor. Seu nariz quase tocou o dele. Éteram recuou por instinto. Bateu a cabeça na madeira. O barril produziu um ruído seco. Apari arregalou os olhos.

Segurou o rosto dele com as duas mãos, impedindo que se movesse novamente.

— Fica quieto!

Éteram assentiu. Ela não o soltou. O rosto dela permanecia absurdamente próximo. Ele conseguia sentir a respiração de Apari sobre a própria bochecha. Por algum motivo, aquilo se tornou muito mais difícil de ignorar do que os homens que ainda os procuravam. Apari também pareceu perceber. Seu olhar desceu brevemente. Voltou aos olhos dele. Éteram ficou imóvel.

Não sabia o que fazer. Na verdade, sequer sabia exatamente o que estava acontecendo. Apari o observou durante mais alguns segundos. Então se aproximou. E o beijou.


O primeiro pensamento de Éteram foi que alguma coisa havia dado terrivelmente errado. O segundo foi que não deveria estar pensando. O terceiro não chegou a se formar. Apari se afastou. Ele continuou imóvel. Os olhos abertos. Os ombros rígidos. As mãos permaneciam exatamente onde estavam antes. Apari ficou olhando para ele.

Uma pequena ruga apareceu entre suas sobrancelhas.

— Éteram?

Ele piscou.

— Hm?

— Você está vivo?

— Estou.

— Então por que ficou parado?

Éteram abriu a boca. Não encontrou nenhuma resposta satisfatória. Apari o encarou.

— Você está brincando comigo?

— Não!

Ela olhou para os olhos dele. Depois para sua boca. Finalmente pareceu compreender.

— Você não sabe beijar.

Éteram sentiu o rosto esquentar.

— Eu…

Apari aguardou.

— Nunca precisei saber!

Ela levou uma das mãos à testa.

— Você ficou parecendo uma estátua!

— Você me pegou de surpresa!

— Eu percebi!

Éteram tentou se afastar. Bateu novamente na madeira. Apari segurou sua roupa antes que produzisse outro barulho.

— Para de tentar atravessar o barril!

— Então o que você quer que eu faça?

Ela ficou em silêncio. Observou-o durante alguns instantes. Um pequeno sorriso começou a aparecer. Éteram desconfiou imediatamente.

— O quê?

— Nada.

— Apari.

— Acho que vou ter que ensinar.

Ele arregalou os olhos.

— Aqui?

Ela inclinou a cabeça.

— Prefere fazer isso na frente do comerciante?

Éteram olhou para a tampa. Os passos ainda podiam ser ouvidos ao longe. Voltou a olhar para Apari.

— Você está falando sério?

Ela cruzou os braços como conseguiu.

— Não vou beijar uma parede duas vezes.

Éteram ficou vermelho até as orelhas.

— Eu não sabia!

Apari tentou conter uma risada. Não conseguiu completamente.

— Tá. Escuta.

Ela voltou a segurar o rosto dele. Dessa vez, Éteram não se afastou.

— Primeiro, relaxa.

Ele tentou soltar os ombros. Apari observou.

— Você parece alguém esperando uma execução.

— Está ajudando muito falar isso.

Ela sorriu.

— Então fecha os olhos.

Éteram obedeceu imediatamente. Apari ficou olhando.

— Não precisa apertar!

Ele abriu os olhos outra vez.

— Você reclama demais!

— E você é difícil demais!

Por alguns segundos, permaneceram se encarando. Depois começaram a rir. Precisaram interromper a risada quando ouviram outra voz do lado de fora. Éteram cobriu a boca. Apari aproximou o ouvido da madeira. Os passos passaram novamente. Aparentemente, os homens estavam desistindo. Esperaram até que as vozes se afastassem. Apari voltou a olhar para ele.

— Vamos tentar de novo?

Éteram hesitou. Dessa vez, entretanto, foi ele quem se aproximou um pouco. Apari sorriu.

— Melhor.

Ela o beijou novamente. Éteram fechou os olhos. Continuou desajeitado, mas dessa vez não ficou esperando que ela descobrisse sozinha o que fazer. Quando se afastaram, Apari examinou sua expressão. Ele abriu os olhos lentamente. Ela ergueu uma sobrancelha.

— E aí?

Éteram demorou a responder.

— Acho que entendi.

Apari sorriu.

— Acho que não.

Ele franziu a testa.

— Por quê?

— Porque você ainda está fazendo essa cara.

Éteram tentou encontrar alguma expressão que considerasse mais apropriada. Apari começou a rir novamente. Ele acabou acompanhando. Por alguns instantes, esqueceram completamente que estavam escondidos dentro de um barril enquanto dois homens procuravam por eles. Então Apari mudou de posição. Precisou interromper a risada.

— Éteram…

Ele ainda sorria.

— O quê?

— Tem alguma coisa me cutucando.

— Ah, é a concha — respondeu tranquilamente.

Apari ficou imóvel. Olhou para o rosto dele. Depois levantou lentamente a mão. A concha estava ali, entre seus dedos.

— Éteram…

— Hm?

Ela aproximou o utensílio dos olhos dele.

— Eu não sei por que você roubou essa porcaria…

Fez uma pausa.

— Mas ela está na minha mão.

O sorriso de Éteram desapareceu. Ele olhou para a concha. Depois para Apari. Abriu a boca. Fechou.

— E-eu…

Apari ergueu uma sobrancelha.

— Você roubou mais alguma coisa?

Éteram tentou responder. Não conseguiu. Olhou desesperadamente para a tampa do barril.

— Eu… preciso…

— Precisa do quê?

Ele ergueu a tampa de uma vez.

— SAIR!

— ÉTERAM! VÃO VER VOCÊ!

Tarde demais. Ele já havia saltado para fora. Deu dois passos desajeitados, tropeçou na neve acumulada junto à construção e se atirou de costas sobre um monte branco. Apari permaneceu dentro do barril, completamente horrorizada.

Esse idiota vai matar a gente.

Ergueu discretamente a cabeça. Olhou para a esquerda. Depois para a direita. Examinou as janelas, a entrada da construção e a rua por onde os homens haviam desaparecido. Ninguém. Por alguma intervenção extraordinária da sorte, os perseguidores realmente tinham desistido. Ela soltou o ar lentamente.

— Seu desgraçado…

Saiu do barril. Encontrou Éteram estendido sobre a neve, de braços abertos, encarando o céu.

— Você quer que prendam a gente?!

Ele fechou os olhos.

— Não.

— ENTÃO POR QUE SAIU CORRENDO?!

— Precisava!

Apari abriu os braços.

— PRECISAVA DE QUÊ?!

Éteram cobriu o rosto com as mãos.

— Esquece!

Ela ficou encarando-o. Depois olhou novamente para a rua. Continuava deserta. Apari suspirou.

— Levanta. Está congelando.

— Estou bem.

— Você está deitado na neve!

— Eu percebi!

Ela cruzou os braços.

— Então levanta, idiota!

Éteram permaneceu imóvel por mais alguns segundos. Finalmente, sentou-se. Seu cabelo estava cheio de neve. Apari precisou conter uma risada. Ele percebeu.

— Nem começa.

Ela apertou os lábios.

— Não falei nada.

— Está pensando!

Apari começou a rir. Éteram fechou os olhos.

— Eu te odeio.

— Também te odeio.

Ela estendeu a mão. Ele aceitou. Quando se levantou, precisou sacudir a neve que havia entrado pela gola do casaco. Apari observou o movimento. Depois olhou para a concha, que continuava segurando.

— Afinal…

Éteram ergueu a cabeça. Ela hesitou.

— O que mais você tinha roubado?

Ele ficou imóvel.

— O quê?

— Você falou que era a concha. Não era.

Éteram abriu a boca. Olhou para o chão. Depois para a neve amassada onde havia caído.

— Ah… aquilo?

Apari assentiu lentamente.

— Aquilo.

Éteram engoliu em seco.

— Caiu.

Ela franziu a testa.

— Caiu?

— Na neve.

Silêncio. Apari olhou para o monte branco atrás dele. Depois voltou a encará-lo. Éteram tentou sustentar sua expressão. Não conseguiu. Ela permaneceu quieta durante alguns instantes.

— Entendi.

Ele assentiu depressa.

— Ótimo!

Apari desviou os olhos.

— Ótimo.

Nenhum dos dois se mexeu. Então Éteram apontou para a rua.

— A gente devia ir.

— Devia.

Ele recolheu o peixe e o recipiente de gordura. Apari examinou a concha. Por um instante, pareceu prestes a dizer alguma coisa. Desistiu. Guardou o utensílio junto às outras mercadorias.

— Vamos logo.

Éteram começou a caminhar. Apari o acompanhou. Os dois mantiveram uma distância cuidadosamente calculada durante os primeiros passos. Aquela distância durou exatamente até Éteram escorregar numa placa de gelo. Apari agarrou sua manga antes que ele caísse.

— CUIDADO, IDIOTA!

Ele recuperou o equilíbrio.

— Obrigado.

Ela soltou sua roupa imediatamente.

— Não me agradece! Só presta atenção!

Éteram assentiu. Continuaram andando. Por algum motivo, nenhum dos dois mencionou novamente o barril durante o caminho de volta.


Apari caminhou boa parte do percurso em silêncio. Era incomum. Éteram estava acostumado a ouvi-la reclamar do frio, da distância ou de alguma estupidez que ele tivesse cometido. Naquela tarde, entretanto, ela parecia particularmente interessada nas próprias botas. De vez em quando, levantava os olhos para verificar se ele continuava acompanhando.

Depois voltava a observar a neve. Estava confusa. Isso a irritava. Não pelo beijo. Pelo menos, não inteiramente. Beijar alguém não era uma novidade absoluta. O que a incomodava era perceber que havia escolhido beijar Éteram sem precisar de qualquer desculpa. Poderia ter permanecido quieta dentro daquele barril.

Poderia ter esperado até os homens desaparecerem. Poderia até ter passado o restante da tarde discutindo com ele sobre a maldita concha. Entretanto, havia sentido vontade de se aproximar. E fizera exatamente isso. Agora, sempre que se lembrava de sua expressão completamente perdida, precisava conter um sorriso.

Idiota.

Também havia percebido outra coisa. Éteram gostara. Talvez tanto quanto ela. A descoberta era estranha. No início, qualquer possibilidade de alguém se aproximar daquela maneira a deixava desconfiada. Estava acostumada a procurar segundas intenções em praticamente tudo o que lhe ofereciam. Éteram havia sido particularmente irritante nesse aspecto.

Dava comida. Cozinhava. Esperava. E, quando ela ameaçava arrancar-lhe a cabeça, simplesmente continuava oferecendo alguma coisa quente para comer. Agora havia se deixado beijar. Não exigira nada. Não tentara impedi-la de se afastar. Pelo contrário, parecera tão perdido quanto ela própria estava começando a se sentir. Apari olhou discretamente para ele.

Éteram caminhava segurando o peixe, a gordura e a concha recém-recuperada. Tropeçou numa pequena irregularidade da neve. Conseguiu recuperar o equilíbrio. Depois examinou imediatamente a concha, como se ela fosse a principal vítima daquele acidente. Apari começou a sorrir.

Por que tinha que ser esse idiota?


Quando chegaram ao abrigo, Éteram colocou os alimentos sobre o pano e se dedicou imediatamente ao preparo de alguma coisa quente. Apari permaneceu sentada perto da fogueira. Observando-o. Ele retirou o peixe do embrulho. Examinou a pele dourada pela defumação. Depois separou as partes que utilizaria. Apari acompanhou os movimentos.

— Você gostou?

Éteram quase deixou cair o recipiente de gordura. Virou-se. Apari parecia perfeitamente tranquila.

— Do quê?

Ela ergueu as sobrancelhas. Ele olhou para a concha.

— Da concha?

Apari atirou um pequeno pedaço de tecido nele.

— Idiota!

Éteram conseguiu desviar. Depois ficou quieto. Passou alguns instantes observando o fogo.

— Gostei.

Apari parou de sorrir. Ele continuou preparando o peixe.

— Só não sabia o que fazer.

O silêncio que veio em seguida não foi desconfortável. Apari se aproximou da chapa.

— Percebi.

Éteram olhou para ela.

— Como você sabia?

Ela demorou a compreender.

— Sabia o quê?

Ele desviou os olhos. Apari sorriu.

— Ah.

Sentou-se ao lado dele.

— Já tinha feito antes.

Éteram continuou trabalhando. Tentou parecer indiferente. Falhou.

— Com quem?

— Uma amiga.

Ele parou. Olhou para ela. Apari acompanhou sua expressão.

— O que foi?

— Nada.

Ela começou a rir.

— Você está com ciúme?

— Não!

— Parece.

— Só perguntei!

Apari estendeu as mãos para o fogo. Durante algum tempo, permaneceu observando as chamas.

— A gente praticava.

Éteram ficou quieto. Ela mexeu num pedaço de lenha com uma pequena vara.

— Era engraçado.

Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.

— Ela dizia que eu beijava como se estivesse brigando.

Éteram tentou não rir. Não conseguiu. Apari apontou a vara para ele.

— Nem começa!

Ele levantou as mãos. Ela voltou a sorrir. Depois acrescentou, com a mesma naturalidade:

— Morreu atropelada por cavalos.

Éteram parou de rir. A madeira estalou. Apari continuou mexendo nas brasas.

— Tinha um monte deles passando pela rua. Um se assustou, os outros começaram a correr e ela não conseguiu sair do caminho.

O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto. Não pareceu perceber. Éteram observou suas mãos. Ela continuava movimentando a vara entre as brasas, separando os pequenos pedaços de madeira que ainda podiam queimar.

— Foi horrível? — perguntou ele.

Apari permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Foi rápido.

Ele esperou. Ela soltou a vara.

— Para mim, pelo menos.

Éteram sentiu um desconforto que não soube explicar. Apari falava sobre aquela morte como falava sobre uma rua perigosa, um comerciante violento ou um inverno particularmente rigoroso. Alguma coisa que havia acontecido. Alguma coisa que não poderia desfazer. Éteram olhou novamente para ela.

— Você sente falta dela?

Apari ficou quieta. O fogo iluminava uma parte de seu rosto, deixando a outra escondida na penumbra.

— Às vezes.

Puxou os joelhos para perto do peito.

— Principalmente quando acontece alguma coisa engraçada.

Éteram não respondeu. Ela continuou olhando para as chamas. Depois se virou.

— Agora você sabe por que aprendi.

Ele assentiu. Apari examinou sua expressão por alguns instantes.

— Para de fazer essa cara.

— Que cara?

— Essa.

Éteram tentou mudar de expressão. Ela revirou os olhos.

— Não precisa ficar triste por mim.

Ele voltou a observar a panela.

— Não estou triste por você.

Apari ergueu uma sobrancelha. Éteram hesitou.

— Acho que estou triste por ela.

Apari ficou olhando para ele. Dessa vez, não encontrou nenhuma provocação. Voltou a estender as mãos para o fogo. O silêncio permaneceu durante algum tempo. Até que Éteram perguntou:

— Então por que ficou tão preocupada?

Apari ergueu a cabeça.

— Com o quê?

Ele olhou para ela.

— Quando saí do barril.

Apari franziu a testa.

— Porque iam encontrar você, idiota!

— Mas a gente já estava saindo.

— Não estava!

Éteram permaneceu olhando. Ela cruzou os braços.

— Você podia ter esperado!

— Você estava segurando a tampa.

— E daí?!

Ele começou a sorrir discretamente. Apari percebeu.

— O QUE FOI?!

Éteram hesitou. Depois perguntou:

— Por que você se importa tanto se me pegarem?

O sorriso desapareceu de seu rosto quando percebeu a expressão dela. Apari ficou completamente imóvel.

— Você está brincando comigo?

— Não.

— Não?

Ela se levantou. Éteram recuou um pouco.

— Eu só perguntei!

Apari apontou para ele.

— Você acha que eu estou aqui fazendo o quê?!

Éteram abriu a boca. Fechou. Ela continuou:

— Eu venho buscar água! Ajudo a consertar essa porcaria de abrigo! Saio para roubar comida com você!

— Eu sei!

— ENTÃO POR QUE VOCÊ ACHA QUE EU NÃO ME IMPORTARIA?!

Éteram ficou imóvel. Apari percebeu que estava gritando. Respirou profundamente. Depois desviou os olhos.

— Seu idiota…

Ele a observou durante alguns segundos.

— Então você se importa?

Ela virou o rosto imediatamente.

— NÃO FOI ISSO QUE EU DISSE!

Éteram começou a sorrir. Apari pareceu sinceramente considerar a possibilidade de acertá-lo com alguma coisa. Entretanto, sua expressão mudou quando ele se aproximou. Dessa vez, Éteram não esperou que ela tomasse toda a iniciativa. Parou diante dela. Hesitou. Apari ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

Ele continuou olhando.

— Posso?

Ela demorou um instante para compreender. Depois sorriu discretamente.

— Você ainda precisa perguntar?

Éteram se aproximou. Beijou-a. Continuou um pouco desajeitado. Apari percebeu. Naturalmente. Entretanto, dessa vez, não reclamou. Segurou sua mão e permaneceu próxima quando se afastaram. Éteram abriu os olhos. Ela estava sorrindo.

— Melhorou — comentou.

Ele soltou uma risada curta.

— Obrigado.

Apari balançou a cabeça. Depois voltou a beijá-lo. Quando finalmente se afastaram, continuaram abraçados durante algum tempo. Éteram ainda não sabia exatamente o que fazer com aquela proximidade. Apari tampouco parecia interessada em explicá-la. Entretanto, quando ele tentou se afastar para cuidar da panela, ela segurou sua roupa.

— Espera.

Ele se virou.

— O quê?

Apari olhou para ele. Depois para a fogueira.

— É diferente.

Éteram franziu a testa.

— O quê?

Ela pareceu procurar as palavras. A tarefa não lhe agradou.

— Isso.

Ele aguardou. Apari soltou um suspiro.

— Com você.

Éteram ficou quieto. Ela continuou, contrariada com a própria dificuldade:

— Eu não gosto de ficar no mesmo lugar. Nunca gostei. Não quero passar a vida inteira escondida nessa construção.

Ele assentiu lentamente.

— Eu sei.

Apari ergueu os olhos.

— Mas gosto de saber que você está aqui.

Fez uma pausa.

— Vivo.

Éteram sentiu alguma coisa apertar seu peito. Apari desviou o olhar.

— E gosto de estar perto de você.

Ele começou a sorrir. Ela apontou um dedo para seu rosto.

— Se rir, eu te mato.

Éteram imediatamente fechou a boca. Apari observou sua expressão. Tentou sustentar a própria seriedade. Não conseguiu. Acabou sorrindo também.


A comida quase queimou. Foi Apari quem percebeu primeiro.

— Éteram.

Ele continuava olhando para ela.

— Hm?

Apari apontou para a chapa. Uma pequena nuvem de fumaça começava a subir. Éteram se virou imediatamente.

— DROGA!

Ela começou a rir. Ele pegou a concha. Experimentou a nova ferramenta. Funcionava perfeitamente. Recolheu parte do caldo, acrescentou a gordura que havia reservado e misturou as ervas roubadas. Apari permaneceu observando.

— Pelo menos serviu para alguma coisa.

Éteram olhou para ela.

— Eu disse que era boa!

Ele dividiu a tainha defumada em pedaços menores e acrescentou as raízes que haviam guardado. Depois deixou tudo cozinhar lentamente no caldo. O cheiro começou a preencher o abrigo. Apari ergueu o nariz. Éteram percebeu. Sorriu.

Finalmente.

Havia passado boa parte daquela tarde tentando descobrir o que fazer com Apari. Cozinhar, pelo menos, continuava sendo uma coisa que compreendia. Quando a refeição ficou pronta, serviu a melhor porção para ela. Apari recebeu o prato. Experimentou um pequeno pedaço. Mastigou. Depois olhou para ele.

— É melhor que batata.

Éteram soltou uma gargalhada.

— Grande elogio!

Ela pegou outra porção.

— Muito melhor.

Éteram permaneceu observando enquanto ela comia. Apari percebeu. Ergueu os olhos.

— Você está fazendo aquela cara de novo.

Ele começou a sorrir.

— Que cara?

Ela apontou para ele com a colher.

— Essa.

Éteram pegou o próprio prato. Não respondeu. Apari voltou a comer. Ele continuou observando pelo canto dos olhos. Era uma satisfação difícil de explicar. Ainda não sabia exatamente o que significava aquele beijo. Também não sabia o que aconteceria quando o inverno terminasse.

Mas continuava sabendo perfeitamente como gostava de ouvir Apari comer alguma coisa que havia preparado. E, por enquanto, aquilo era suficiente.


Os dias seguintes foram estranhos. Não havia outra maneira de descrevê-los. A rotina permanecia praticamente igual. Apari buscava água. Éteram procurava comida. Os dois continuavam discutindo sobre cobertores, batatas e a necessidade absolutamente inexplicável de ele recolher objetos que não sabia se conseguiria utilizar.

Entretanto, certas coisas haviam adquirido significados novos. Quando Apari se aproximava para observar a comida, Éteram percebia imediatamente a distância entre eles. Quando dividiam o cobertor, demorava algum tempo para encontrar uma posição confortável.

E quando ela o encarava durante uma conversa, ele começava a se perguntar se estava prestes a acontecer novamente. Apari percebeu. Naturalmente. Numa manhã, encontrou-o tentando recuperar uma colher caída atrás da chapa. Aproximou-se para ajudá-lo. Éteram se levantou tão depressa que bateu a cabeça na borda de ferro.

— Ai!

Apari recuou.

— O que foi isso?

Ele levou a mão à cabeça.

— Nada!

Ela olhou para a colher. Depois para ele.

— Eu ia pegar.

— Eu sei.

— Então por que pulou?

Éteram permaneceu em silêncio. Apari estreitou os olhos.

— Você está me evitando?

Ele levantou a cabeça.

— Não!

— Está.

— Não estou.

Ela se aproximou. Éteram recuou instintivamente. Apari parou. Seu sorriso desapareceu.

— Está, sim.

Ele percebeu a mudança imediatamente. A expressão dela havia se fechado. Não era a mesma irritação provocada por uma discussão sobre comida ou por alguma de suas decisões estúpidas. Havia alguma coisa diferente. Éteram afastou a mão da cabeça.

— Não é isso.

— Então o que é?

Ele olhou para a fogueira. Depois para ela.

— Não sei.

Apari cruzou os braços.

— Ótimo.

Virou-se. Éteram segurou discretamente sua manga. Ela parou. Não se virou imediatamente.

— Eu não sei como agir — confessou ele.

Apari olhou por cima do ombro. Éteram soltou sua roupa.

— Antes era fácil.

Ela se virou completamente.

— Fácil?

Ele gesticulou na direção do abrigo.

— A gente roubava comida. Discutia. Você pegava meu cobertor. Eu tentava impedir que você comesse todas as batatas.

Apari ergueu uma sobrancelha.

— E agora?

Éteram permaneceu imóvel. Não havia maneira de responder sem parecer um completo idiota. Apari aguardou. Ele finalmente murmurou:

— Agora eu fico pensando.

Ela olhou para ele. Depois para a colher caída atrás da chapa. Aproximou-se. Dessa vez, Éteram não recuou. Apari se inclinou o suficiente para conseguir enxergar seu rosto.

— Você pensa demais.

Ele suspirou.

— Já falaram.

Ela abriu um pequeno sorriso.

— Então para.

Éteram ergueu os olhos. Apari lhe deu um beijo rápido na bochecha. Depois se afastou e recuperou a colher.

— Pronto. Resolvido.

Ele ficou olhando para ela. Apari lhe entregou o utensílio.

— Você vai ficar aí parado de novo?

Éteram pegou a colher.

— Não.

Ela sorriu.

— Melhor.


O restante daquela semana foi menos desconfortável. Ou, pelo menos, Éteram começou a encontrar maneiras de conviver com o desconforto. Apari continuava provocando-o. Ele aprendeu a responder. Quando ela perguntou se pretendia dormir abraçado à concha, respondeu que o utensílio pelo menos não roubava o cobertor. Apari ficou indignada.

Naquela noite, roubou o cobertor inteiro. Éteram precisou negociar metade. A discussão terminou quando ela começou a rir e lhe devolveu uma pequena parte do tecido. Ele a puxou de volta. Apari protestou. No fim, dormiram exatamente como nas noites anteriores. Apenas um pouco mais próximos. Nenhum dos dois mencionou o motivo.


Foi durante uma manhã particularmente silenciosa que Éteram percebeu outra mudança. Apari estava sentada perto da janela. Costurava uma pequena abertura na própria roupa, utilizando a agulha que costumavam dividir. A luz pálida do inverno atravessava o vidro danificado, iluminando seus dedos e parte dos cabelos desgrenhados. Éteram preparava a refeição.

De vez em quando, olhava para ela. Apari percebeu na terceira vez.

— O que foi?

Ele voltou imediatamente para a panela.

— Nada.

Ela continuou costurando. Alguns segundos depois:

— Está olhando de novo.

Éteram suspirou.

— Você tem olhos atrás da cabeça?

— Tenho.

Ele olhou para ela. Apari manteve uma expressão absolutamente séria.

— Dois.

Éteram começou a rir. Ela sorriu discretamente e voltou ao trabalho. Pouco depois, uma corrente de ar atravessou a janela. Apari se encolheu. Éteram observou o movimento. Aproximou-se e colocou seu próprio casaco sobre os ombros dela. Apari levantou a cabeça.

— O que está fazendo?

— Você está com frio.

— Eu tenho casaco.

— Está costurando ele.

Ela examinou a peça que segurava. Depois o casaco sobre seus ombros.

— E você?

Éteram voltou para a fogueira.

— Estou perto do fogo.

Apari ficou olhando para ele. Não disse mais nada. Quando terminou o remendo, dobrou cuidadosamente o casaco emprestado e o colocou ao lado de sua caneca. Éteram o encontrou mais tarde. Havia uma pequena costura nova perto do bolso. Um buraco que nem sequer percebera. Passou o polegar sobre os pontos. Depois olhou para Apari. Ela estava dormindo.

Ele não a acordou.


Naquela noite, a neve voltou a cair com força. O vento produzia um assobio agudo sempre que atravessava a parte danificada da janela. A madeira do teto rangia, e pequenas partículas brancas começaram a se acumular perto da entrada. Éteram acrescentou mais lenha à fogueira. Apari permanecia enrolada no cobertor.

— Vem logo.

Ele olhou para ela.

— O quê?

— Está entrando frio.

— Já vou.

Continuou organizando a madeira. Apari o observou.

— Você está contando os gravetos?

— Estou tentando descobrir quanto tempo vão durar.

— Amanhã encontramos mais.

Éteram olhou para a janela. A neve estava cobrindo parte da abertura.

— Talvez.

Apari acompanhou seu olhar. Ficou quieta durante alguns segundos. Depois levantou uma das pontas do cobertor.

— Então vem antes que o fogo acabe.

Éteram se aproximou. Sentou-se ao lado dela. Apari puxou o tecido sobre os dois. Durante algum tempo, permaneceram observando as chamas. Éteram se lembrou do barril. Da maneira como ela havia segurado seu rosto. Da amiga. Das palavras pronunciadas com tanta naturalidade enquanto falava sobre uma morte que ele sequer conseguia imaginar.

Olhou discretamente para Apari. Ela tinha os olhos semicerrados. Parecia prestes a dormir.

— Apari?

— Hm?

Ele hesitou. Havia uma pergunta que permanecera com ele desde a conversa sobre a amiga dela. Não sabia exatamente como formulá-la.

— Vocês eram próximas?

Apari abriu os olhos. Demorou um pouco para compreender.

— É.

Éteram assentiu. Ela voltou a observar o fogo.

— Gostava.

Silêncio.

— A gente dividia comida. Às vezes dormia no mesmo lugar.

Éteram esperou. Apari mexeu no cobertor.

— Ela era engraçada.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Mais engraçada que você.

Ele fingiu indignação.

— Impossível.

— Muito mais.

Éteram sorriu. Depois ficou sério novamente.

— Você não parece triste quando fala dela.

Apari permaneceu em silêncio por algum tempo. O fogo iluminava as mãos que descansavam sobre o cobertor.

— Você queria que eu chorasse toda vez?

Ele balançou a cabeça.

— Não.

Ela respirou devagar.

— Então?

Éteram procurou as palavras.

— Não sei. Acho que eu ficaria triste.

Apari virou o rosto. Observou-o durante alguns segundos.

— Eu fiquei.

A resposta foi simples. Éteram não soube o que dizer. Apari puxou o cobertor um pouco mais para cima.

— Só que já passou bastante tempo.

Ele assentiu. Ela se acomodou novamente. A conversa parecia encerrada. Entretanto, quando Éteram voltou a observar as chamas, sentiu alguma coisa tocar sua mão. Olhou para baixo. Apari havia colocado os dedos sobre os dele. Não o encarava. Continuava observando o fogo como se nada tivesse acontecido. Éteram permaneceu imóvel por alguns instantes.

Depois virou a mão. Entrelaçou discretamente seus dedos aos dela. Apari não se afastou. Também não comentou. Ficaram assim até que as chamas começaram a enfraquecer.


Na manhã seguinte, Éteram acordou primeiro. Apari dormia com a cabeça apoiada em seu ombro. O cobertor havia escorregado durante a noite, deixando parte dos braços dela descobertos. Ele tentou recuperar o tecido sem acordá-la. Apari resmungou. Apertou sua mão. Éteram parou. Olhou para os dedos entrelaçados.

Não se lembrava exatamente de quando haviam adormecido daquela maneira. Tampouco sabia se deveria soltar. Permaneceu imóvel durante algum tempo. Até que Apari abriu um dos olhos. Observou a mão dele. Depois olhou para seu rosto.

— Bom dia.

Éteram hesitou.

— Bom dia.

Ela permaneceu quieta. Então levantou discretamente as mãos unidas.

— Você está me prendendo.

Ele se apressou em soltá-la.

— Desculpa!

Apari começou a rir.

— Idiota.

Levantou-se, levando o cobertor consigo. Éteram observou-a caminhar até a fogueira. Só então percebeu que estava sorrindo. O sorriso desapareceu quando descobriu que ela havia roubado o cobertor novamente.

— APARI!

Ela começou a rir antes mesmo que ele terminasse de gritar.


A cidade pesqueira tinha uma vantagem durante o inverno. Enquanto os armazéns fechavam, as hortas desapareciam sob a neve e os comerciantes aumentavam o preço de qualquer coisa comestível, o porto continuava funcionando. O mar não congelava completamente. Pelo menos, não nas regiões mais profundas.

Era precisamente por isso que Éteram havia começado a frequentá-lo. Havia dias que pensava em preparar peixe. Não qualquer peixe. A conversa que ouvira durante a vigilância do armazém permanecera com ele.

Três ardélios.

Não sabia se a informação era verdadeira. Tampouco sabia se algum daqueles exemplares já havia sido vendido. Entretanto, caso ainda houvesse um disponível, seria uma oportunidade extraordinária. Gostava de cozinhar. Gostava do cheiro dos ingredientes, de descobrir combinações novas e de observar a maneira como os alimentos se transformavam sob o calor.

Entretanto, desde que Apari começara a frequentar seu abrigo, havia descoberto outro prazer. Gostava de alimentá-la. A satisfação começava muito antes da primeira mordida. Surgia enquanto escolhia os ingredientes, quando imaginava o sabor que conseguiria produzir e, principalmente, quando pensava na expressão que encontraria no rosto dela.

Éteram já aprendera a reconhecer os pequenos sinais. Apari franzia o nariz quando alguma coisa estava salgada demais. Arregalava discretamente os olhos quando encontrava um tempero inesperado.

E, quando realmente gostava de alguma coisa, costumava fechar os olhos por alguns instantes e produzir um pequeno ruído satisfeito que provavelmente negaria até a morte caso alguém mencionasse. Ele adorava aquele som. Naquela manhã, saiu cedo. Apari ainda dormia, enrolada no cobertor.

Éteram deixou algumas batatas perto da fogueira e colocou um pedaço adicional de lenha ao alcance dela. Depois vestiu o casaco. Antes de sair, olhou novamente para a garota. Dormia com a boca ligeiramente aberta e uma das mãos escondida sob o rosto. Ele sorriu. Talvez conseguisse trazer alguma coisa que a fizesse sorrir também.


O porto estava particularmente movimentado. A neve se acumulava sobre as cordas, as carroças e os telhados dos armazéns. Homens descarregavam embarcações enquanto outros quebravam as camadas mais finas de gelo que se formavam entre os pilares dos atracadouros. O ar cheirava a sal, peixe e madeira molhada.

Éteram caminhou entre os comerciantes, examinando as mercadorias. Havia peixes pequenos, vendidos aos montes. Outros, maiores, estavam pendurados pelas caudas, com os olhos opacos e as escamas cobertas por uma fina camada de gelo. Nenhum ardélio. Éteram começou a desconfiar que havia perdido a oportunidade. Então ouviu uma discussão.

— Eu não vou pagar isso!

Diminuiu o passo. Um homem bem-vestido discutia com um pescador diante de uma pequena embarcação.

— Então compra outro peixe — respondeu o pescador.

— Pelo preço de três porcos?

— Quatro, se continuar reclamando.

O comerciante ficou vermelho. Éteram se aproximou discretamente. Sobre uma caixa de madeira, o pescador mantinha uma tina funda, cheia de água salgada. Um tecido grosso protegia o recipiente do vento, deixando apenas uma pequena abertura. Alguma coisa se moveu lá dentro. O pescador retirou o tecido.

Um peixe comprido, aproximadamente do tamanho do antebraço de Éteram, nadava lentamente dentro da tina. Suas escamas azul-escuras eram atravessadas por delicadas linhas acobreadas, enquanto as nadadeiras possuíam bordas quase transparentes. A água fumegava. Éteram reconheceu imediatamente o animal. Um ardélio.

Os pescadores também o chamavam de brasa-do-gelo. Dizia-se que esses peixes habitavam as regiões mais frias do oceano, especialmente onde o gelo avançava mar adentro durante os invernos rigorosos.

Acumulavam magi em um órgão próximo ao ventre e consumiam essas reservas para produzir calor, mantendo os próprios fluidos aquecidos mesmo quando a temperatura da água caía abaixo do ponto em que normalmente congelariam. Entretanto, possuíam outra característica extraordinária. Respiravam ar.

Quando precisavam alcançar a superfície, concentravam calor próximo à cabeça e derretiam pequenas aberturas nas camadas mais finas do gelo. Por elas, colocavam o focinho para fora e respiravam antes de retornar às águas profundas. Éteram observou o animal subir lentamente dentro da tina. O ardélio colocou a extremidade da cabeça para fora da água.

Uma pequena abertura respiratória se expandiu próxima às brânquias. Depois, mergulhou novamente. O pescador acompanhou o movimento com evidente satisfação.

— Vivo e saudável. Não vai encontrar outro igual durante semanas.

O comprador cruzou os braços.

— Ainda não vale esse preço.

— Então compra um morto.

O pescador apontou para outra embarcação.

— Se encontrar algum que ainda preste.

O homem bem-vestido fez uma careta.

— Você fala como se fosse impossível conservar essa coisa.

O pescador soltou uma gargalhada.

— Então leva para casa e tenta!

Mergulhou a mão na tina e a retirou imediatamente.

— Está vendo? Quente como água de banho!

Éteram se aproximou. O ardélio nadava lentamente, indiferente ao vento que arrastava neve sobre a embarcação. As linhas acobreadas de suas escamas brilhavam a cada movimento. Uma pequena placa de gelo caiu na tina. O peixe se aproximou. Por alguns instantes, as linhas de seu corpo adquiriram uma luminosidade alaranjada. O vapor aumentou.

A água começou a se agitar delicadamente ao redor do animal. Éteram observou a placa de gelo diminuir. Não era uma ilusão. O ardélio estava aquecendo a própria água. O comprador também percebeu. Aproximou-se.

— Está fazendo isso sozinho?

O pescador soltou uma gargalhada.

— Não! Tem um homenzinho lá dentro esfregando duas pedras!

Alguns trabalhadores começaram a rir. O comprador ficou vermelho. O pescador recolheu a pequena placa, agora reduzida à metade.

— Esse calor vem de dentro. Enquanto tem magi, continua aquecendo o próprio corpo.

O homem bem-vestido examinou novamente o peixe.

— E quando morrer?

O pescador abriu os braços.

— Cozinha imediatamente ou enterra no gelo. E reza para ter bastante!

Apontou para a água fumegante.

— Ele não sabe que morreu! A magi continua aquecendo a carne até acabar. Se você esperar, amanhã vai ter comprado a podridão mais cara da cidade!

As pessoas próximas voltaram a rir. Éteram também quase sorriu. Conhecia aquela dificuldade. Quando morriam, os ardélios ainda conservavam parte do calor produzido pela magi acumulada. A energia residual demorava a desaparecer, mantendo a carne aquecida mesmo depois que o peixe deixava de respirar. Isso era péssimo para os pescadores.

Enquanto os peixes comuns podiam permanecer conservados pelo frio do inverno, um ardélio morto precisava ser preparado rapidamente. Caso contrário, a carne começava a amolecer e adquirir um cheiro desagradável. Os pescadores conheciam o problema havia gerações.

Alguns enterravam os exemplares recém-capturados em enormes quantidades de gelo, substituindo continuamente os blocos que derretiam. Outros preferiam vendê-los vivos. Era o caso daquele homem.

O inconveniente era que um ardélio vivo continuava consumindo magi e exigia alimento, água salgada e acesso ao ar. Mantê-lo por muito tempo dentro de uma tina custava caro. O pescador estava visivelmente impaciente.

— Ou compra ou deixa outro comprar!

O homem bem-vestido examinou novamente o animal.

— Por esse preço, eu devia poder levar a tina também.

— A tina custa outro porco.

As pessoas próximas voltaram a rir. O comprador desistiu. Afastou-se, resmungando sobre pescadores gananciosos. Éteram permaneceu observando o animal. O ardélio tornou a se aproximar da superfície. Parte de suas escamas brilhou. Uma nova coluna de vapor se ergueu da tina.

A gordura que aqueles peixes acumulavam durante o inverno era famosa entre os cozinheiros. Derretia lentamente durante o preparo, conferindo à carne uma textura macia e um sabor delicadamente adocicado. Um ardélio preparado imediatamente após o abate podia custar uma pequena fortuna nos melhores estabelecimentos da cidade.

Éteram imaginou a pele dourando sobre sua chapa. O molho. O cheiro. Principalmente, imaginou a expressão de Apari quando experimentasse a primeira porção.

Droga.

Precisava daquele peixe.


O problema era que o pescador não parecia particularmente distraído. Mantinha o ardélio coberto por um tecido grosso e não permitia que ninguém se aproximasse sem antes demonstrar que possuía dinheiro. Éteram passou quase uma hora observando.

Conseguiu perceber que o homem também vendia outros pescados, mas deixava o ardélio separado, reservado para compradores interessados. Um pequeno cordão vermelho estava preso à cauda do animal. O pescador havia marcado a mercadoria. Éteram não gostou daquilo. Gostou ainda menos quando percebeu que dois homens acompanhavam discretamente as negociações.

Não eram pescadores. Suas roupas estavam limpas demais, e ambos carregavam bastões.

Devia procurar outro peixe.

Olhou novamente para o ardélio. Imaginou a carne dourando sobre a chapa. A gordura derretendo. Um molho suficientemente espesso para acompanhar cada pedaço. Imaginou Apari experimentando. O jeito como franzia o nariz quando alguma coisa estava muito salgada. A maneira como soprava a comida quente, impaciente demais para esperar que esfriasse.

E aquele pequeno ruído satisfeito que às vezes escapava de sua garganta quando comia alguma coisa particularmente boa. Éteram apertou os lábios.

Droga.

Já estava perdido. Precisou esperar até o movimento aumentar. O pescador começou a descarregar outras mercadorias, discutindo com um comprador que reclamava da qualidade dos peixes menores. Um dos homens que vigiavam a embarcação se afastou para ajudar, enquanto o outro tentava impedir que uma discussão entre dois carregadores terminasse em pancadaria.

A oportunidade duraria pouco. Éteram procurou alguma coisa que pudesse utilizar para transportar o animal. Encontrou um pequeno recipiente de madeira próximo às mercadorias e o forrou com o tecido úmido que estava sobre a tina. Não conseguiria carregar toda a água. Nem precisava.

O ardélio era capaz de respirar fora dela durante algum tempo, desde que permanecesse suficientemente úmido. Quando ninguém estava olhando, retirou o animal da tina. O peixe se debateu. Éteram quase o deixou cair. Conseguiu acomodá-lo no recipiente, cobriu-o com o tecido molhado e se afastou imediatamente.

Só quando alcançou outra rua percebeu que o coração estava batendo tão depressa quanto as nadadeiras do ardélio se movimentavam dentro do embrulho. Olhou para trás. Ninguém parecia segui-lo. Continuou andando.

No caminho, utilizou a água salgada que conseguira transportar para manter o tecido úmido. Precisou parar algumas vezes para impedir que o peixe escapasse. Na segunda parada, percebeu que havia outro problema. O embrulho estava quente. Não morno. Quente.

Mesmo com o tecido molhado e a neve que se acumulava sobre ele, o ardélio continuava irradiando calor. Pequenas nuvens de vapor escapavam pelas aberturas do pacote. Éteram olhou para a rua. Depois para o embrulho.

Maravilha.

Agora não estava apenas transportando um peixe roubado. Estava transportando um peixe roubado que anunciava a própria presença. Precisou envolvê-lo novamente, deixando uma pequena passagem para que pudesse respirar. O vapor diminuiu, mas não desapareceu completamente. Aquilo era consideravelmente mais trabalhoso do que roubar batatas.

Também era muito mais perigoso. Éteram sabia disso. Entretanto, sempre que considerava abandonar aquela estupidez, imaginava novamente a expressão de Apari. E continuava.


Quando finalmente voltou ao abrigo, o sol começava a desaparecer atrás dos telhados. Apari estava sentada perto da fogueira. Ergueu os olhos assim que ouviu a porta.

— Você demorou.

Éteram retirou a neve dos ombros.

— Encontrei uma coisa.

Ela examinou o embrulho volumoso que ele carregava. Uma pequena nuvem de vapor escapou do tecido. Apari franziu a testa.

— O que é isso?

Éteram sorriu.

— Comida.

O embrulho se mexeu. Apari levantou a cabeça.

— O que foi isso?

Éteram apertou o tecido contra o corpo.

— Nada.

Alguma coisa se debateu novamente. Apari se levantou.

— Éteram.

Ele suspirou.

— É comida.

Ela olhou para o embrulho. Depois para ele.

— Sua comida está tentando fugir.

Éteram colocou cuidadosamente o pacote sobre a bancada. Durante o caminho, precisara manter o tecido úmido, utilizando a água salgada que conseguira transportar e pequenas quantidades de neve derretida.

Felizmente, o ardélio podia respirar ar por bastante tempo, desde que permanecesse úmido. Infelizmente, não parecia particularmente satisfeito com aquela experiência. Éteram retirou o tecido. O peixe se debateu. Apari recuou imediatamente.

— VOCÊ TROUXE ELE VIVO?!

— É melhor assim!

Ela ficou encarando-o. Éteram apontou para o animal.

— Preciso preparar antes que estrague.

Apari examinou as escamas acobreadas. Depois encontrou o cordão vermelho preso à cauda. Seu rosto perdeu a cor.

— Isso é um ardélio.

Éteram assentiu, satisfeito.

— É.

Apari ergueu a cabeça.

— Você roubou um ardélio?

Ele hesitou.

— Tecnicamente…

— ÉTERAM!

Ela examinou o embrulho. Encontrou o pequeno cordão vermelho. Seus olhos se arregalaram.

— Você roubou um ardélio marcado?!

Éteram começou a perceber que aquela apresentação não estava acontecendo exatamente como imaginara.

— Eu ia tirar isso.

Apari agarrou o cordão.

— Você sabe quanto custa essa porcaria?!

— Sei.

— Sabe?!

— Mais ou menos.

Ela apontou para a porta.

— VÃO TE CAÇAR!

Éteram olhou para o peixe. Depois para ela.

— Não sabem onde moro.

Apari ficou encarando-o. Abriu a boca. Fechou. Respirou profundamente.

— Um dia eu ainda vou te matar.

Ele levantou as mãos.

— Calma.

— CALMA?!

Apari arrancou o cordão da cauda do peixe. Examinou a marca presa ao tecido.

— Isso pertence a um dos comerciantes mais ricos do porto!

Éteram acompanhou seu olhar.

— Então ele consegue comprar outro.

Ela pareceu sinceramente considerar a possibilidade de acertá-lo com o próprio peixe. Éteram recuou.

— Antes de fazer isso, podemos cozinhar?

Apari fechou os olhos. Por alguns segundos, permaneceu completamente imóvel. Depois soltou um suspiro tão profundo que Éteram começou a se perguntar se deveria procurar uma rota de fuga. Ela abriu os olhos.

— Por quê?

Ele hesitou.

— O quê?

Apari apontou para o ardélio.

— Por que roubou uma coisa tão cara?

Éteram olhou para o peixe. Não sabia como explicar. Poderia dizer que a carne era deliciosa. Que havia muito tempo desejava experimentar preparar um daqueles animais. Que o ardélio possuía características interessantes e seria uma oportunidade rara de observar como sua gordura reagia ao calor. Todas aquelas explicações eram verdadeiras.

Nenhuma era a principal.

— Queria fazer uma coisa diferente para você.

Apari parou. Éteram desviou os olhos.

— Você disse que estava cansada de batata.

O silêncio se prolongou. Ela olhou novamente para o peixe. Depois para ele.

— Seu idiota.

Dessa vez, sua voz saiu mais baixa. Éteram começou a sorrir.

— Então posso cozinhar?

Apari passou a mão pelo rosto.

— Se alguém aparecer procurando esse peixe, eu mesma te entrego.

Ele assentiu.

— Justo.

Ela pegou o cordão vermelho.

— Primeiro vamos nos livrar disso.


Éteram dedicou o começo da noite à refeição. Apari, apesar das reclamações, acabou ajudando. Primeiro, ele limpou cuidadosamente a chapa. Esfregou a superfície, retirou os resíduos das refeições anteriores e separou os utensílios que utilizaria. Apari observava.

— Você vai gastar toda a água.

— Quero deixar tudo limpo.

Ela percebeu a maneira como ele examinava a chapa. Demorou alguns segundos para compreender.

— Éteram.

Ele continuou trabalhando.

— Hm?

— Eu posso comer peixe.

Ele levantou os olhos. Apari apontou para o ardélio.

— Peixe. Não camarão.

Éteram permaneceu quieto. Ela se aproximou.

— Está me ouvindo?

— Estou.

— Então para de fazer essa cara.

Ele assentiu. Entretanto, terminou a limpeza antes de começar. Não utilizaria camarão, outros crustáceos ou qualquer ingrediente cuja procedência desconhecesse. Também dispensou um tempero comprado no porto porque não conseguiu identificar todos os componentes da mistura. Apari observou os preparativos em silêncio. Dessa vez, não reclamou.

Éteram preparou tudo o que precisaria. Separou as ervas, organizou os utensílios e deixou a chapa limpa. Também encontrou os recipientes que utilizaria para aproveitar o caldo e a gordura. Apari observava.

— Você não vai matar logo essa coisa?

Ele examinou os utensílios.

— Ainda não.

— Por quê?

— Porque não quero que estrague.

Ela olhou novamente para o ardélio. O animal continuava se movendo discretamente dentro do recipiente improvisado. Éteram já havia preparado tudo. Só então se aproximou do peixe.

— Agora.

Abateu-o com um golpe rápido. Apari permaneceu observando enquanto ele começava a trabalhar. Ao abrir o ventre, Éteram encontrou o órgão responsável pela produção de calor. Era pequeno e possuía uma coloração acobreada, atravessada por filamentos que pareciam delicadas raízes. Mesmo depois da morte do animal, ainda conservava parte da energia acumulada.

Éteram aproximou os dedos. Sentiu o calor.

— Olha isso.

Apari examinou o órgão.

— Parece uma pedra quente.

— Ainda tem magi aqui.

Ele afastou cuidadosamente aquela estrutura das partes que pretendia cozinhar. Colocou-a sobre uma pequena placa de pedra. Por alguns instantes, permaneceu observando.

Os filamentos acobreados continuavam emitindo uma luminosidade fraca. O calor era suficientemente intenso para derreter os pequenos cristais de gelo que haviam permanecido presos ao tecido utilizado durante o transporte. Uma gota escorreu pela pedra. Depois outra. Apari se aproximou.

— Mesmo morto?

Éteram assentiu.

— Mesmo morto.

Ela olhou para o órgão. Depois para a carne.

— Então é por isso que estraga.

— Exatamente.

Ele apontou para as porções que havia separado.

— Enquanto essa coisa continuar aquecendo, não adianta deixar o peixe perto da janela. Preciso retirar tudo e preparar a carne antes que comece a perder a qualidade.

Apari examinou novamente o órgão.

— E quando a magi acabar?

— Esfria.

Ele pensou durante alguns segundos.

— Pelo menos, deveria.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Deveria?

Éteram sorriu.

— Nunca preparei um inteiro.

Apari fechou os olhos.

— Você roubou a mercadoria mais cara do porto para fazer uma experiência?

Ele levantou as mãos.

— Uma experiência deliciosa!

Ela apontou para a chapa.

— ENTÃO FAZ LOGO!

Éteram começou a rir.

— Estou trabalhando!

Apari se aproximou novamente.

— Posso ajudar?

Ele ergueu os olhos. Observou suas mãos. Depois lhe entregou as ervas que havia separado.

— Pode começar por estas.

Apari pegou os ingredientes. Éteram voltou ao peixe. Mesmo depois de retirar o órgão, ainda sentia um calor discreto sob as escamas. A energia residual havia se espalhado pelos tecidos durante a vida do animal e não desapareceria instantaneamente. Começou retirando-as cuidadosamente.

Sob a camada azul-escura, encontrou uma pele clara, quase prateada, atravessada por delicadas linhas alaranjadas. Os tecidos próximos ao órgão que havia retirado ainda possuíam uma temperatura incomum para um peixe exposto ao frio durante tantas horas. Éteram examinou a carne. Era firme. Clara. A gordura possuía uma tonalidade levemente dourada.

Apari se aproximou.

— Vai ficar olhando para ele até voltar a nadar?

Éteram não desviou os olhos.

— Olha isso.

Ela examinou o peixe.

— Estou olhando desde que você chegou.

Ele mostrou uma das pequenas linhas acobreadas próximas à pele.

— A gordura fica acumulada aqui.

— E daí?

— Quando aquecer, vai derreter devagar.

Apari cruzou os braços.

— E daí?

Éteram olhou para ela, indignado.

— E daí que vai ficar delicioso!

Apari começou a rir.

— Então faz logo!

Ele balançou a cabeça.

Bárbara.

Continuou trabalhando. Separou as melhores porções, preservando a pele de um dos lados. Preparou um pequeno caldo com as partes aproveitáveis do próprio peixe e algumas ervas que havia guardado. Não acrescentou nada que pudesse lembrar o prato responsável pelo acidente. Queria que aquela refeição fosse inteiramente diferente.

Enquanto o caldo reduzia lentamente sobre o fogo, encontrou uma pequena fruta de casca verde que havia roubado no caminho de volta. Seu sabor era ácido, suficientemente intenso para equilibrar a gordura do peixe. Espremeria apenas algumas gotas. Nada mais. Quando a chapa finalmente alcançou a temperatura adequada, colocou as porções sobre o ferro.

O som preencheu o abrigo. Um chiado forte, contínuo. A gordura começou a escorrer lentamente, espalhando-se pela superfície quente. Éteram se aproximou imediatamente. A pele do ardélio adquiriu uma tonalidade dourada. Pequenas bolhas apareceram nas bordas, enquanto o aroma da carne se misturava ao das ervas e ao cheiro ácido da fruta. Apari ergueu a cabeça.

Farejou discretamente. Éteram percebeu. Sorriu.

Agora começou.


O cheiro tomou conta do abrigo. Não se parecia com o dos pescados baratos que costumavam encontrar no porto. Havia alguma coisa mais intensa naquela gordura, um aroma que lembrava manteiga aquecida e carne assada, acompanhado pelo perfume das ervas que Éteram acrescentara ao molho. Apari abandonou o lugar onde estava sentada. Aproximou-se da chapa.

— Já está pronto?

— Não.

Ela observou a superfície dourada.

— Parece pronto.

— Ainda falta.

Apari pegou uma pequena colher. Éteram segurou sua mão antes que alcançasse o molho.

— Nem pensa.

Ela olhou para ele.

— Só vou experimentar.

— Vai experimentar quando terminar.

Apari estreitou os olhos.

— Você está muito mandão.

Éteram apontou para a fogueira.

— E você está atrapalhando o cozinheiro.

Ela abriu a boca, indignada. Depois percebeu o sorriso dele.

— Idiota.

Voltou para perto do fogo. Permaneceu observando. Éteram deixou o peixe descansar por alguns instantes antes de terminar o molho. Acrescentou parte do caldo reduzido à gordura que havia permanecido sobre a chapa, misturou as ervas e, por último, espremeu algumas gotas da fruta ácida. O molho começou a engrossar. Experimentou. Franziu a testa.

Acrescentou mais uma pequena quantidade de caldo. Experimentou novamente. Dessa vez, sorriu. Apari percebeu imediatamente.

— Pronto?

Éteram olhou para ela.

— Quase.

Ela soltou um gemido de indignação.

— EU VOU MORRER DE FOME!

Ele começou a rir.

— Você comeu hoje!

— Não esse peixe!

Éteram voltou para a chapa. Estava satisfeito demais para responder.


Quando finalmente terminou, escolheu o melhor pedaço. A pele estava dourada, delicadamente crocante nas bordas. A carne permanecia macia, dividindo-se em pequenas lâminas sempre que a tocava com a colher. Colocou a porção sobre o prato de Apari. Depois despejou o molho.

O líquido espesso escorreu lentamente pela superfície do peixe, acumulando-se nas pequenas aberturas da carne e espalhando um aroma ainda mais intenso. Acrescentou algumas raízes assadas para acompanhar. Examinou o resultado. Não estava tão bonito quanto gostaria. Faltavam ingredientes. Utensílios. Uma cozinha de verdade.

Mas era, provavelmente, a melhor refeição que havia preparado naquele abrigo. Entregou o prato. Apari o recebeu com as duas mãos. Durante alguns segundos, ficou olhando. Éteram observava seu rosto. Esperando. Ela aproximou o alimento do nariz. Inspirou discretamente. Seus olhos cresceram um pouco. Éteram sentiu uma satisfação imediata.

Apari retirou um pequeno pedaço da carne. Soprou. Colocou-o na boca. Ele prendeu a respiração. Ela começou a mastigar. Devagar. Muito mais devagar do que costumava. O rosto dela mudou. Primeiro, as sobrancelhas se ergueram discretamente. Depois, seus olhos se fecharam. Um pequeno som escapou de sua garganta.

— Hmmm…

Éteram ficou imóvel. Apari mastigou mais algumas vezes. Engoliu. Abriu os olhos. Olhou para o prato. Depois para ele.

— Éteram…

Ele se inclinou imediatamente.

— O quê?

Ela examinou o peixe.

— Que desgraça é essa?

O sorriso dele desapareceu.

— Está ruim?!

Apari ergueu os olhos, indignada.

— RUIM?!

Pegou outro pedaço. Dessa vez, arrastou-o cuidadosamente pelo molho antes de colocá-lo na boca. Fechou os olhos novamente. Outro pequeno som satisfeito escapou de sua garganta. Éteram começou a sorrir. Apari abriu os olhos.

— Por que você nunca fez isso antes?!

Ele soltou uma gargalhada.

— Porque custa mais do que todas as batatas que roubamos!

Ela olhou para o prato. Depois para ele. Sua expressão mudou discretamente.

— Seu idiota…

Entretanto, não conseguiu manter a indignação por muito tempo. Aproximou outra porção da boca. E continuou comendo.


Éteram quase esqueceu a própria refeição. Havia preparado um prato para si, evidentemente. Uma porção menor, mas igualmente bem temperada. Entretanto, permaneceu observando Apari. Era uma satisfação curiosa.

Gostava do momento em que ela experimentava alguma coisa nova. Da pequena pausa antes de decidir se aprovava o sabor. Das expressões que tentava esconder quando encontrava alguma coisa particularmente deliciosa. E gostava dos sons. O ruído discreto da carne sendo mastigada. A respiração satisfeita depois de uma mordida particularmente boa.

Os pequenos comentários que escapavam entre uma porção e outra. Apari raramente se preocupava em parecer educada quando estava com fome. Éteram adorava isso. Ela passou outro pedaço pelo molho. Levou-o à boca. Uma pequena quantidade do líquido escorreu pelo canto de seus lábios. Éteram percebeu. Não conseguiu desviar os olhos.

Apari continuou comendo, completamente alheia à pequena mancha dourada que havia se formado perto de sua boca. Ele sentiu o coração acelerar. Uma batida. Depois outra. A terceira pareceu acontecer no momento errado.

O que foi isso?

Apari soltou outro pequeno som satisfeito. Éteram apertou a colher. O sorriso apareceu antes que conseguisse escondê-lo. Ela ergueu os olhos.

— O que foi?

Ele piscou.

— Nada.

Apari continuou observando-o.

— Você está fazendo aquela cara.

— Que cara?

Ela apontou para ele com a colher.

— Essa.

Éteram desviou os olhos.

— Você sujou a boca.

Apari parou. Passou a língua pelos próprios lábios, tentando encontrar o molho. Não conseguiu limpar tudo. Éteram começou a rir. Ela franziu a testa.

— O quê?!

Ele lhe entregou um pequeno pedaço de tecido limpo.

— Aqui.

Apari pegou o pano. Limpou um dos lados da boca. Éteram balançou a cabeça.

— O outro.

Ela limpou o outro lado.

— Agora?

Ele examinou. Ainda havia uma pequena mancha próxima ao canto dos lábios. Seu coração voltou a bater depressa. Éteram afastou os olhos imediatamente.

— Agora.

Apari desconfiou. Examinou o pano. Depois olhou para ele.

— Você está rindo de mim.

— Não estou!

Ela estreitou os olhos.

— Está.

Éteram finalmente começou a rir. Apari lhe atirou o tecido.

— Idiota!

Ele conseguiu pegá-lo antes que caísse no molho. Ela voltou a comer. Éteram permaneceu sorrindo. Não compreendia exatamente por que aquela pequena cena o deixara tão satisfeito. Também não parecia particularmente interessado em descobrir.


Apari terminou a primeira porção. Examinou o prato vazio. Depois olhou para a panela. Éteram acompanhou seu olhar.

— Quer mais?

Ela permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

— Tem?

Ele sorriu. Havia guardado outra porção. Naturalmente. Colocou-a no prato de Apari e acrescentou um pouco mais de molho. Ela observou o movimento.

— Você já tinha separado.

Éteram deu de ombros.

— Imaginei que fosse gostar.

Apari ficou quieta. Depois olhou para o próprio prato.

— Você é um idiota.

Ele começou a rir.

— Você já falou.

Ela pegou outra porção. Mastigou lentamente. O sorriso desapareceu de seu rosto quando se lembrou de alguma coisa. Ergueu os olhos.

— Éteram.

Ele estava finalmente começando a comer.

— Hm?

— Não faz isso de novo.

Parou com a colher no ar.

— O quê?

Ela apontou para o peixe.

— Roubar uma coisa dessas.

Éteram olhou para o prato.

— Mas você gostou.

Apari ficou imóvel. Por um instante, pareceu sinceramente ofendida.

— É CLARO QUE GOSTEI!

Ele abriu um sorriso. Ela se inclinou em sua direção.

— Éteram, escuta!

O tom foi suficiente para fazê-lo parar de rir. Apari apertou a colher entre os dedos.

— Você sabe o que fazem com quem rouba mercadoria daquele valor?

Ele permaneceu quieto. Ela continuou:

— Não vão simplesmente te expulsar do porto. Vão procurar você. Se não conseguirem recuperar o peixe, vão querer encontrar alguma outra coisa que sirva de exemplo.

Éteram olhou para as próprias mãos. As pequenas cicatrizes das queimaduras ainda eram visíveis. Apari acompanhou seu olhar.

— Você já fez uma estupidez enorme por minha causa.

Ele ergueu os olhos.

— Aquilo foi um acidente.

— E isso foi o quê?!

Éteram abriu a boca. Não respondeu. Apari respirou profundamente. Depois voltou a observar o prato.

— Eu gostei.

Sua voz saiu mais baixa. Ele ficou olhando para ela. Apari mexeu no restante do molho com a colher.

— Gostei muito.

Fez uma pausa.

— Mas não preciso comer uma coisa dessas se for para você desaparecer por causa disso.

O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo estalo da lenha. Éteram olhou para ela durante algum tempo. Sentiu novamente aquela estranha aceleração no peito. Dessa vez, entretanto, compreendeu um pouco melhor. Apari não estava simplesmente reclamando do risco. Estava preocupada. Com ele.

A percepção lhe provocou uma satisfação tão grande que precisou esconder o sorriso. Infelizmente, Apari percebeu.

— DO QUE VOCÊ ESTÁ RINDO?!

Éteram levantou as mãos.

— Nada!

— EU ESTOU FALANDO SÉRIO!

— Eu sei!

Ela ficou encarando-o. Éteram finalmente conseguiu recuperar a expressão.

— Não vou roubar outro.

Apari estreitou os olhos.

— Promete?

Ele hesitou. Ela ergueu a colher. Éteram respondeu imediatamente:

— Prometo!

Apari baixou o utensílio. Voltou a comer. Alguns segundos depois, ele acrescentou:

— A menos que encontre um ainda mais saboroso.

Apari quase engasgou.

— ÉTERAM!

Ele começou a rir. Precisou fugir para o outro lado da fogueira quando ela se levantou.


Mais tarde, quando os pratos estavam vazios, Apari continuou sentada perto do fogo. Éteram limpava a chapa. Havia reservado parte do caldo e alguns pedaços menores do peixe para a refeição seguinte. Não pretendia deixar que estragassem.

Retirou os recipientes da proximidade da fogueira e os acomodou numa pequena caixa protegida, que colocou do lado mais frio da construção, entre dois blocos de neve compactada. Apari observou o trabalho.

— Vai congelar.

Éteram examinou a caixa.

— Essa é a ideia.

Ela apontou para o abrigo.

— E se os ratos encontrarem?

Ele terminou de encaixar a tampa.

— Então teremos ratos muito bem alimentados.

Apari revirou os olhos. Éteram voltou para a chapa. Ainda precisava limpar a gordura que havia grudado na superfície. Ela permaneceu observando. Depois perguntou:

— Você gosta mesmo disso.

Éteram olhou por cima do ombro.

— De quê?

Apari apontou para a chapa.

— Cozinhar.

Ele examinou os recipientes.

— Gosto.

Ela se acomodou melhor.

— Mais do que roubar?

Éteram respondeu imediatamente:

— Muito mais.

Apari ficou pensando. Depois perguntou:

— E gosta de ficar me olhando comer?

Ele quase deixou a concha cair. Apari abriu um sorriso. Éteram voltou imediatamente para a chapa.

— Eu olho para ver se você gostou!

— Sei.

— Preciso saber se ficou bom!

— Claro.

Ele continuou lavando o utensílio. Apari se aproximou. Sentou-se ao lado dele. Por alguns segundos, permaneceu observando seu trabalho. Depois apoiou discretamente a cabeça em seu ombro. Éteram parou. Apari fechou os olhos.

— Ficou muito bom.

Ele olhou para ela. Seu coração pareceu esquecer novamente o ritmo correto. Demorou alguns segundos para encontrar a própria voz.

— Obrigado.

Ela sorriu.

— Ainda acho que você é um idiota.

Éteram voltou a limpar a concha.

— Eu sei.

Apari permaneceu encostada nele. Depois de algum tempo, abriu um dos olhos.

— Amanhã ainda tem?

Ele olhou para os recipientes que havia separado. Sorriu.

— Tem.

Apari se acomodou novamente.

— Ótimo.

Éteram continuou trabalhando. Não sabia quanto tempo precisariam permanecer escondidos até que o desaparecimento do ardélio deixasse de ser assunto no porto. Também não sabia se algum dia voltaria a conseguir um ingrediente tão extraordinário. Mas havia uma coisa da qual tinha certeza.

Precisava aprender a preparar outros pratos capazes de provocar aquela expressão no rosto de Apari. Preferencialmente, sem precisar roubar a mercadoria mais cara da cidade. E sem que ela tentasse matá-lo depois.


Nos dias seguintes, evitaram o porto. Apari escolhia ruas mais afastadas, e Éteram evitava carregar qualquer coisa que chamasse atenção. Aos poucos, o ardélio deixou de ser assunto entre eles, embora nenhum dos dois acreditasse que o risco tivesse desaparecido por completo.


Na última semana daquele segundo mês, Éteram começou a reconhecer uma diferença importante entre estar sozinho e sentir falta de alguém. Antes, quando Apari saía, o abrigo ficava silencioso. Agora, o silêncio parecia interromper alguma coisa. Ele se surpreendia preparando duas porções antes mesmo de saber se ela retornaria a tempo para a refeição.

Quando encontrava alguma coisa engraçada na rua, guardava a história para contar mais tarde. Quando descobria um ingrediente diferente, imaginava imediatamente o que Apari diria ao experimentá-lo. Ela também havia mudado. Passara a perguntar se ele precisava de alguma coisa antes de sair. Às vezes, retornava com pequenos objetos que considerava úteis.

Noutras ocasiões, simplesmente aparecia mais cedo. Numa tarde, Éteram estava tentando reparar uma parte da chapa quando a ouviu entrar. Apari colocou um embrulho sobre o pano.

— Trouxe comida.

Ele levantou os olhos.

— O quê?

Ela abriu o embrulho. Havia um pequeno pedaço de carne conservada e algumas raízes. Éteram se aproximou imediatamente.

— Onde conseguiu isso?

Apari sorriu.

— Segredo.

Ele examinou a carne. Depois as raízes.

— Dá para fazer uma coisa boa.

— Melhor que batata?

Éteram fingiu pensar.

— Não sei.

Apari ergueu a mão como se estivesse prestes a acertá-lo. Ele começou a rir.

— Muito melhor!

Ela abaixou o braço.

— Assim espero.

Passaram a tarde cozinhando. Apari ajudou a preparar os ingredientes, reclamando sempre que Éteram lhe entregava alguma tarefa que considerava desagradável. Ele descobriu rapidamente que ela preferia mexer no fogo a limpar as raízes. Ela descobriu que ele se tornava particularmente irritante quando alguém utilizava a concha de maneira inadequada.

— Você está fazendo errado.

Apari olhou para o utensílio. Depois para ele.

— É uma concha!

— Você vai derramar tudo.

Ela inclinou a peça deliberadamente. Parte do caldo escorreu sobre a chapa. Éteram arregalou os olhos.

— APARI!

Ela começou a rir. Ele tentou recuperar a concha. Apari ergueu o braço. Éteram tentou alcançar. Ela se afastou. Acabaram esbarrando na parede. A concha caiu. Os dois congelaram. Olharam para o utensílio no chão. Depois um para o outro. Apari abriu um sorriso.

— Agora você vai ter que roubar outra.

Éteram fechou os olhos.

— Eu vou te matar.

Ela riu. A refeição ficou pronta pouco depois. Comeram perto do fogo, dividindo o mesmo cobertor. Quando terminaram, Apari se acomodou ao lado dele. Éteram começou a recolher os recipientes. Ela segurou sua manga. Ele se virou. Apari olhou para ele. Depois para a fogueira.

— Deixa para amanhã.

Éteram examinou a pequena quantidade de louça suja. Não havia muita coisa. Poderia terminar rapidamente. Entretanto, Apari continuava segurando sua manga. Sentou-se novamente. Ela soltou o tecido. Alguns segundos depois, apoiou a cabeça em seu ombro. Éteram permaneceu quieto. Pela primeira vez, não precisou procurar alguma coisa para dizer.


Na última noite daquele mês, o céu ficou limpo. A neve continuava cobrindo as ruas e os telhados, mas o vento havia diminuído. A luz da lua atravessava a abertura da janela, iluminando uma pequena parte do chão. Éteram acordou durante a madrugada. A fogueira estava quase apagada. Apari dormia ao seu lado. Sua mão descansava perto da dele.

Por alguns segundos, ficou observando aquela pequena distância. Depois se levantou cuidadosamente e acrescentou mais lenha às brasas. Apari se mexeu. Abriu os olhos.

— Aonde você vai?

Éteram se virou.

— Alimentar o fogo.

Ela observou a madeira em suas mãos. Depois se acomodou novamente.

— Volta logo.

Ele assentiu. Terminou de organizar a lenha. Esperou até que uma chama suficientemente forte surgisse entre os gravetos. Quando voltou, Apari havia deixado uma parte do cobertor aberta. Éteram se deitou. Ela se aproximou imediatamente. Nenhum dos dois comentou. Depois de algum tempo, sentiu os dedos dela procurarem os seus sob o tecido.

Éteram segurou sua mão. Apari permaneceu de olhos fechados.

— Éteram…

— Hm?

Ela demorou a continuar.

— Você ainda fica nervoso?

Ele olhou para ela.

— Com o quê?

Apari abriu um dos olhos. Éteram compreendeu. Seu rosto começou a esquentar. Ela sorriu.

— Idiota.

Ele ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois respondeu:

— Um pouco.

Apari se aproximou. Deu-lhe um beijo rápido. Quando se afastou, Éteram continuou olhando para ela. Dessa vez, entretanto, não ficou completamente imóvel. Apari percebeu. Seu sorriso aumentou discretamente.

— Está aprendendo.

Ele sorriu também. Ela se acomodou novamente, ainda segurando sua mão. Do lado de fora, o inverno continuava. Éteram observou a janela durante alguns instantes. A neve começava a parecer menos eterna. Não sabia exatamente o que aconteceria quando desaparecesse. Também não sabia se deveria perguntar. Por enquanto, Apari estava ali.

Sua mão continuava entrelaçada à dele. E, pela primeira vez desde que ela anunciara que ficaria apenas até o fim do inverno, Éteram conseguiu adormecer sem contar os dias que ainda restavam.