Nos dias que se seguiram, Apari ficou. Até melhorar, dissera; depois, até a neve parar. Éteram não encontrou motivo para discutir. Permanecia sentado diante da fogueira, abraçando os joelhos, enquanto observava a madeira úmida resistir ao fogo. As chamas subiam com dificuldade, lambiam os pedaços de lenha e recuavam, deixando uma fumaça espessa que se acumulava sob o teto antes de escapar pelas frestas.

O abrigo cheirava a cinzas, tecido molhado e madeira apodrecida. O vento atravessava a construção abandonada com tanta facilidade que, em certas noites, parecia haver mais inverno ali dentro do que nas ruas.

Apari estava do outro lado da fogueira. Ainda segurava a faca, embora já não a apontasse para ele. Seus dedos permaneciam fechados em torno do cabo, e o casaco emprestado lhe caía mal sobre os ombros. O próprio havia virado cinzas. Respirava sem se encolher a cada inspiração, mas a rouquidão continuava. Éteram olhou para as mãos.

As pequenas queimaduras que adquirira tentando salvá-la já começavam a cicatrizar. De vez em quando, porém, um movimento descuidado ainda lhe arrancava uma careta. Apari percebeu. Não disse nada. Por algum tempo, ficaram ouvindo a lenha estalar.

— Tem outro cobertor? — perguntou ela.

Éteram apontou para uma pilha de tecidos dobrados junto à parede.

— O de cima está menos sujo.

Apari se levantou, examinou a pilha e retirou o primeiro.

— Menos sujo?

— É.

Ela sacudiu o tecido. Uma pequena nuvem de poeira se desprendeu dele.

— Você tem um conceito estranho de limpeza.

— Pode pegar o de baixo.

Apari ergueu uma ponta do segundo cobertor. Estava úmido. Devolveu-o imediatamente.

— O primeiro está ótimo.

Éteram quase sorriu. Naquela noite, ela escolheu o lugar mais próximo da saída. Dormiu encolhida, com a faca escondida sob o cobertor e uma mão permanentemente próxima do cabo. Éteram permaneceu perto da fogueira, alimentando as chamas com os últimos pedaços de madeira seca. Demorou a adormecer.

Conhecia cada ruído daquele lugar. O vento assobiava por uma fresta à sua esquerda; uma das tábuas sobre a laje estalava sob o peso da neve. Até os ratos tinham seus horários. Agora havia outra respiração. Irregular, às vezes interrompida por uma tosse. Éteram virou a cabeça. Apari dormia de costas para ele. Ela realmente vai ficar.

A ideia lhe pareceu tão estranha que passou alguns minutos procurando alguma coisa de errado nela. Não encontrou nada além de uma mulher armada ocupando metade de seu abrigo e um cobertor que, provavelmente, nunca mais recuperaria inteiro. Ainda assim, dormiu melhor do que esperava.


Os primeiros dias foram desconfortáveis. Não chegaram a discutir sobre as tarefas. Simplesmente começaram a executá-las. Apari buscava água nos dias em que a tosse lhe dava trégua. Éteram procurava comida e recolhia tudo o que pudesse alimentar a fogueira. Dividiam o que encontravam e passavam o restante do tempo tentando impedir que o frio entrasse. O problema era que o frio não precisava de permissão.

Numa manhã, Éteram acordou com os pés dormentes. A umidade descolara um remendo de barro perto do chão; pela junta aberta entre duas pedras entrara neve suficiente para deixar uma faixa branca junto aos tecidos. Ficou encarando aquilo. Depois olhou para Apari. Ela estava acordada, observando-o por cima do cobertor.

— Seu abrigo está tentando nos matar.

— Não é a primeira vez.

Éteram se levantou e começou a procurar material para tapar o buraco. Encontrou um pedaço de madeira, algumas tiras de tecido e um punhado de pregos tortos. Passou a manhã tentando prender tudo à parede, utilizando uma pedra para martelar. Apari acompanhava o trabalho com interesse crescente.

— Isso vai cair.

— Não vai.

Ele bateu em outro prego. A madeira vibrou.

— Vai.

— Não vai.

Uma das tiras de tecido se soltou e caiu sobre a neve. Apari apontou.

— Já caiu.

Éteram olhou para o tecido. Depois para ela.

— Aquilo não conta.

— Por quê?

— Porque ainda não terminei.

Ela apertou os lábios, tentando conter uma risada. Ele voltou ao trabalho. Prendeu novamente o tecido, encaixou a madeira e procurou um lugar melhor para o último prego. Deu uma martelada. O pedaço inteiro despencou. Apari soltou uma gargalhada. Éteram permaneceu imóvel, com a pedra levantada.

— Você podia ajudar.

— Estou ajudando.

— Rindo?

— Estou deixando você descobrir o problema sozinho.

Ele atirou a pedra no chão.

— Então pode descobrir como a gente vai dormir com neve entrando aqui.

Apari ainda ria quando se levantou. Examinou a parede, afastou o tecido que ele havia prendido e puxou uma das tábuas para fora.

— Você colocou isso do lado errado.

— Não coloquei.

Ela virou a madeira, encaixou-a entre duas partes da estrutura e lhe entregou os pregos.

— Agora coloca.

Éteram obedeceu. A madeira permaneceu no lugar. Ele observou o resultado.

— Eu ia fazer isso.

— Claro que ia.

— Só estava testando o outro jeito.

— E funcionou muito bem.

Éteram tentou sustentar a expressão contrariada, mas acabou rindo. Apari acompanhou a risada. O som morreu aos poucos, deixando um silêncio diferente. Havia muito tempo que Éteram não se lembrava de rir daquela maneira. Sem precisar zombar de alguém, escapar de algum perigo ou fingir que uma situação miserável era menos miserável do que realmente era.

Apari esfregou o nariz com a manga.

— Está frio.

Ele examinou a parede remendada.

— Pelo menos agora não está entrando neve.

Uma corrente de ar atravessou o abrigo e fez o tecido recém-pregado balançar. Apari olhou para ele. Éteram suspirou.

— Não fala nada.

Ela voltou a rir.


Nos dias seguintes, Apari recuperou parte das forças. A tosse diminuiu. Conseguiu caminhar distâncias maiores sem precisar parar e começou a demonstrar uma impaciência particular com o hábito de permanecer sentada enquanto Éteram saía. Naquela manhã, encontrou-o separando o que restava da comida sobre um pano.

Havia um punhado de farinha, algumas raízes pequenas e metade de uma fruta que já começava a escurecer. Éteram examinava cada coisa como se alguma delas pudesse se multiplicar caso recebesse atenção suficiente. Apari se agachou diante dele.

— Isso dá para quanto tempo?

— Hoje.

— E amanhã?

— Amanhã eu encontro mais.

Ela observou o rosto dele.

— Você não sabe.

Éteram recolheu a farinha.

— Não.

Apari se levantou.

— Então vamos juntos.

Ele ergueu os olhos.

— Juntos?

— Você está ficando surdo?

— Achei que ainda estivesse ruim.

Ela inspirou profundamente. A demonstração terminou numa pequena tosse que tentou abafar com a manga. Éteram cruzou os braços. Apari apontou um dedo para ele.

— Nem uma palavra.

Ele fechou a boca.

— Melhorou. — Ela pegou o casaco. — Vamos.

Éteram ainda hesitou, mas não insistiu. Talvez porque ela fosse sair mesmo que ele dissesse não. Talvez porque a ideia de ter companhia começasse a parecer menos desagradável do que deveria. A primeira saída juntos foi um desastre. Não pela falta de comida. Por falta de entendimento.

Éteram conhecia os armazéns, os comerciantes e os lugares onde uma pessoa distraída poderia deixar alguma coisa sem vigilância. Acostumara-se a roubar pouco de muitos estabelecimentos, evitando permanecer tempo suficiente para despertar suspeitas. Apari conhecia as ruas de outra maneira. Sabia quais muros escondiam passagens, quais portas eram deixadas abertas e em que momentos determinados comerciantes se afastavam de seus estabelecimentos. Principalmente, sabia esperar. Éteram, nem tanto. Estavam escondidos numa passagem estreita quando ela o segurou pela manga.

— Espera.

Ele se virou, contrariado.

— O quê?

— Aquele homem.

Do outro lado da rua, um comerciante transportava um saco de mercadorias entre uma loja e uma pequena casa.

— O que tem ele?

— Vai voltar.

— Como sabe?

— Porque acabou de sair da loja.

— Isso eu percebi.

— Então percebeu que deixou a porta dos fundos aberta?

Éteram olhou novamente. Apari apontou discretamente. O homem entrou na casa carregando o saco. Minutos depois, retornou à loja. A porta dos fundos permaneceu apenas encostada. Éteram se virou para ela.

— Você já roubou ali.

Apari abriu um sorriso.

— Talvez.

— Você é péssima em mentir.

— E você é péssimo em perceber quando alguém está contando a verdade.

Ela se aproximou da passagem. Éteram a acompanhou. A porta cedeu com um rangido baixo. Do outro lado, encontraram um pequeno depósito. O cheiro de farinha, terra úmida e legumes guardados preenchia o ambiente. Sacos estavam empilhados contra uma parede, e uma cesta de batatas descansava sobre uma caixa. Éteram foi diretamente até ela. Apari permaneceu perto da entrada, ouvindo os movimentos da rua.

— Pega pouco — sussurrou.

Ele começou a escolher as batatas.

— Isso é pouco.

— Pouco que ninguém perceba.

Éteram pegou mais duas.

— A gente também precisa comer.

Apari olhou para trás.

— Se você morrer por causa de uma batata, eu vou rir.

— Obrigado pela preocupação.

— De nada.

Ela se aproximou e escolheu outra batata. Éteram acomodou as seis na cesta. Então ouviram o homem retornar. Apari ficou imóvel. Passos. Uma porta. O ruído distante de alguma coisa sendo arrastada. Éteram pegou a cesta e saiu pela passagem lateral. Apari o seguiu, fechando a porta tão delicadamente quanto conseguiu. Alcançaram o beco sem dificuldades.

Só então ela percebeu.

— Éteram.

— O quê?

Apari apontou para as mãos dele.

— Você pegou a cesta inteira?

Ele olhou para o objeto. Demorou um instante para compreender o problema.

— Peguei.

— Eu mandei pegar pouco!

— Eu peguei pouco.

— Você roubou a cesta!

— Precisava carregar as batatas.

Apari fechou os olhos por um momento.

— Devolve.

— Agora?

— Não, no próximo inverno.

Éteram olhou na direção do depósito.

— Se eu voltar, vão perceber.

— Se você não devolver, também!

A discussão terminou quando ouviram um grito.

— Ei! Voltem aqui!

Os dois olharam para trás. O comerciante apareceu na esquina. Apari agarrou a manga de Éteram.

— Corre!

Dispararam pelo beco. A cesta batia contra a perna dele, e as batatas saltavam a cada movimento. O chão irregular desaparecia sob uma camada de neve pisoteada que tornava impossível correr sem escorregar. Éteram perdeu o equilíbrio ao virar uma esquina. Apari puxou-o pela roupa, impedindo que caísse.

— Por aqui!

Ela entrou numa passagem tão estreita que ele precisou virar o corpo para conseguir acompanhá-la. A cesta bateu contra a parede. Uma batata caiu. Éteram tentou recuperá-la.

— Deixa!

— Mas—

— DEIXA!

Abandonou a batata. Continuaram correndo até alcançarem outra rua. Apari o conduziu por mais duas passagens antes de finalmente parar atrás de uma construção abandonada. Éteram se apoiou na parede, tentando recuperar o fôlego. Apari permaneceu curvada, com as mãos sobre os joelhos. O silêncio durou alguns segundos. Depois ela olhou para a cesta. A cesta continuava inteira. Éteram acompanhou seu olhar.

— Pelo menos deu certo.

Apari soltou uma gargalhada.

— Você quase morreu por seis batatas!

— Cinco — corrigiu ele, ainda ofegante. — Uma caiu.

Ela tentou responder. Não conseguiu. Estava rindo demais. Éteram olhou para a cesta, depois para Apari. Acabou rindo também. Quando finalmente conseguiram voltar ao abrigo, cozinharam duas batatas e esconderam o restante. A cesta ficou junto à parede. Apari insistiu em chamá-la de lembrança da estupidez dele. Éteram insistiu em dizer que, sem ela, teriam voltado de mãos vazias. Nenhum dos dois pareceu disposto a abandonar a discussão.


Depois daquela primeira saída, começaram a aprender. Não houve grandes conversas nem qualquer acordo elaborado. Simplesmente passaram a reconhecer os hábitos um do outro. Apari observava antes de agir. Éteram procurava oportunidades. Ela conhecia os caminhos. Ele sabia escolher o que levar.

Quando um cometia alguma estupidez, o outro precisava encontrar uma maneira de impedir que ambos sofressem as consequências. Foi assim que, numa tarde particularmente fria, encontraram um pequeno depósito nos fundos de uma propriedade. Havia sacos de batatas perto de uma janela lateral. E havia um cachorro. Apari estava escondida atrás de um muro quando Éteram se aproximou.

— Tem um cachorro — sussurrou ela.

— Eu vi.

— Ele está preso.

— Também vi.

— E está acordado.

Éteram espiou por cima do muro. O animal permanecia deitado perto da entrada, com uma corrente presa à coleira. Tinha a cabeça erguida e as orelhas atentas.

— Então não vamos entrar pela janela.

— Alguma ideia?

Éteram examinou a construção. O telhado era baixo. Parte dele estava coberta de neve, mas algumas tábuas apareciam próximas à parede traseira. Ele apontou.

— Por cima.

Apari acompanhou seu olhar. Depois olhou para ele.

— Você quer subir naquilo?

— Quero.

— Vai cair.

— Não vou.

— Você quase caiu hoje de manhã.

— Tinha gelo.

Ela ergueu uma sobrancelha. Éteram olhou novamente para o telhado. Estava coberto de gelo.

— É diferente.

— Claro.

Apesar das reclamações, Apari foi na frente. Encontrou pontos de apoio entre as pedras da parede e se içou até a borda. Éteram a acompanhou, agarrando uma tábua que ameaçou se soltar sob seu peso. O telhado rangeu. Os dois congelaram. Lá embaixo, o cachorro levantou a cabeça. Apari olhou para Éteram com uma expressão que dispensava palavras.

Ele levantou as mãos, como se não tivesse responsabilidade alguma pelo barulho. Esperaram. O animal voltou a se deitar. Apari prosseguiu. Uma abertura próxima à parte traseira lhes permitiu observar o interior do depósito. Havia caixas vazias, ferramentas, um monte de palha e vários sacos empilhados contra uma parede. Batatas. Muitas. Éteram abriu um sorriso. Apari percebeu imediatamente.

— Não.

— Eu nem falei nada.

— Sua cara falou.

— Podemos levar dois sacos.

— Um.

— Dois.

Ela apontou para o telhado sobre o qual estavam equilibrados.

— Você mal conseguiu subir aqui sem carga.

Éteram olhou para baixo. Depois para os sacos.

— Um.

Entraram pela abertura. O depósito estava frio e cheirava a terra. A luz que atravessava as frestas era suficiente para revelar as partículas de poeira suspensas no ar. Éteram escolheu um saco menor. Apari o examinou.

— Esse está rasgado.

— Não muito.

Ela puxou o tecido. Uma batata caiu. Os dois olharam para o chão. Éteram suspirou.

— Tá. Outro.

Encontraram um saco resistente e o arrastaram até a abertura. Foi consideravelmente mais difícil retirá-lo do que havia sido entrar. Apari precisou subir primeiro. Éteram empurrou a carga. Ela puxou com as duas mãos, escorregou e quase desapareceu por trás da beirada.

— Vai cair! — sussurrou ele.

— Então empurra direito!

Por fim, conseguiram retirar o saco. O cachorro não latiu. O telhado não desabou. Éteram considerou aquilo uma vitória extraordinária. Apari considerou um milagre. Voltaram ao abrigo antes do anoitecer. Despejaram as batatas sobre um pano e ficaram observando aquela quantidade absurda de comida. Pela primeira vez em vários dias, Éteram não precisou calcular imediatamente qual deles ficaria com a menor porção. Apari se agachou diante das batatas. Pegou uma. Depois outra.

— Hoje eu quero comer uma inteira.

Éteram olhou para ela.

— Uma?

— Inteira.

Ele começou a sorrir.

— Tá.

Acenderam o fogo e improvisaram uma maneira de cozinhar as batatas sobre a velha chapa de ferro. O cheiro começou a preencher o abrigo. Apari se aproximou várias vezes para verificar se estavam prontas. Éteram precisou afastá-la para que não se queimasse.

— Está demorando.

— Cozinhar demora.

— Você podia fazer mais rápido.

— Pode comer crua.

Ela fez uma careta. Sentaram-se quando finalmente ficaram prontas. O vapor escapava das batatas sempre que rompiam a casca. Apari segurava a sua entre os dedos, soprando para não queimar a língua. Comeu devagar, apesar da fome, interrompendo-se ocasionalmente para aproveitar o calor que lhe aquecia as mãos.

— Está boa.

Éteram examinou a própria batata.

— Eu sei.

— Você não fez nada.

— Eu cozinhei.

— Você colocou no fogo.

— É uma parte importante.

Ela revirou os olhos. Mais tarde, quando Éteram terminou a sua porção, Apari ainda guardava um pequeno pedaço. Ficou olhando para ele.

— Quer?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ela se inclinou e colocou o pedaço no prato dele.

— Agora é seu.

Éteram olhou para a comida. Depois para Apari. Ela já havia voltado a observar as chamas. Ele comeu sem discutir.


Os dias passaram a ter alguma variedade. Havia manhãs em que o vento impedia qualquer saída. Outras em que a neve diminuía o suficiente para permitir que se afastassem da construção sem correr o risco de perder o caminho de volta. Não mantinham calendário, mas estimavam o tempo pela comida consumida, pela lenha que precisavam encontrar e pelas pequenas mudanças na paisagem.

As ruas começaram a acumular montes de neve escurecida pela passagem das pessoas. Nas bordas dos telhados, o gelo formava pontas compridas que pingavam durante as poucas horas de sol. O abrigo também mudou.

Apari colocou pedras sob a parte mais instável da chapa de ferro. Reorganizou os tecidos que utilizavam para dormir e amarrou uma corda entre duas partes da estrutura, criando um lugar onde poderiam pendurar as roupas molhadas. Éteram continuava trazendo qualquer coisa que considerasse útil. Nem sempre era. Certa tarde, voltou carregando um pedaço de madeira tão comprido que precisou entrar de lado. Apari o observou lutar contra a passagem.

— O que é isso?

— Madeira.

— Eu estou vendo.

— Então por que perguntou?

— Para que serve?

Éteram examinou o pedaço que arrastara por várias ruas.

— Ainda não decidi.

Apari passou a mão pelo rosto.

— Você roubou uma madeira sem saber para quê?

— Não roubei. Estava jogada fora.

Ela observou a madeira. Depois o pequeno espaço disponível no abrigo.

— Então joga de volta.

Éteram acabou transformando parte dela em lenha. O restante serviu para reforçar a parede. Apari nunca admitiu que havia sido útil.


Numa das saídas, o casaco dela rasgou na manga. Apari tentou esconder o estrago quando voltaram. Não conseguiu. Éteram percebeu o tecido aberto, deixando aparecer a roupa fina que havia por baixo. O vento entrava diretamente pela abertura.

— Tira.

Ela olhou para ele.

— O quê?

— O casaco.

Apari estreitou os olhos. Éteram demorou um instante para perceber a interpretação.

— Para costurar, idiota.

Ela examinou a manga.

— Não precisa.

— Vai entrar neve.

— Já entra neve em tudo.

Ele estendeu a mão. Apari acabou entregando a peça. Éteram encontrou a agulha que guardava entre suas poucas coisas. Sentou-se perto do fogo, passou a linha pelo buraco e começou a aproximar as bordas do tecido. O primeiro ponto ficou torto. No segundo, a agulha escapou. No terceiro, ele espetou o próprio dedo.

— Droga!

Apari, sentada ao lado, observava em silêncio. Éteram tentou novamente.

— Você não sabe fazer isso — comentou ela.

— Sei.

— Não parece.

— Quer tentar?

Apari estendeu a mão.

— Me dá.

Ele entregou o casaco. Ela se acomodou melhor e começou a costurar, aproximando os pedaços de tecido com os dedos. Seus pontos eram pequenos, mas não particularmente alinhados. Éteram se inclinou para observar.

— Sua costura também está horrível.

— Não está.

— Está.

Apari puxou a linha com força.

— Então faz você.

— Eu estava fazendo.

Ela lhe devolveu o casaco. Ele examinou o remendo. Era torto. Entretanto, parecia resistente. Voltou a costurar. Depois de alguns minutos, Apari perguntou:

— Quem te ensinou?

— Ninguém.

— Aprendeu sozinho?

— É só passar a linha de um lado para o outro.

Ela observou os dedos dele.

— Você faz força demais.

Éteram afrouxou a linha.

— Assim?

— Um pouco menos.

Ele a encarou.

— Você também não sabe costurar direito.

Apari passou a ponta dos dedos por um dos pontos que havia feito.

— Minha mãe sabia.

A resposta saiu sem preparação. Éteram parou. Apari manteve os olhos sobre o tecido.

— Ela fazia assim.

Demonstrou o movimento. Por um instante, suas mãos pareceram lembrar melhor do que ela. Éteram não perguntou mais nada; retomou a agulha e imitou os pontos. O remendo continuava feio, mas segurava. Quando Apari vestiu o casaco, ele examinou o resultado.

— Ficou bom.

— Eu sei.

— Está torto.

— Você que terminou.

Ele abriu a boca. Apari sorriu. Éteram desistiu. Naquela noite, ela deixou o casaco dobrado ao lado dele.

— Amanhã você pode arrumar o outro lado.

Ele olhou para a manga intacta.

— O outro lado não está rasgado.

— Ainda.

Éteram balançou a cabeça. Guardou a agulha.


Apari começou a trazer pequenas coisas. No início, Éteram não percebeu o hábito. Um pedaço de fruta deixado ao lado de sua porção. Uma tira de tecido que poderia servir como linha. Um pedaço de pão que ela jurava não querer. Os objetos apareciam sem explicação. Ela nunca os chamava de presentes. Éteram também não perguntava.

Certa manhã, porém, Apari retornou trazendo uma pedra. Era pequena, escura e quase perfeitamente redonda. Sua superfície lisa brilhava um pouco quando recebia a luz do fogo. Ela a estendeu para ele.

— Achei isso.

Éteram pegou a pedra. Virou-a entre os dedos.

— E daí?

— Nada.

— Para que serve?

Apari deu de ombros.

— Não serve para nada.

Ele ergueu os olhos.

— Então por que trouxe?

— Porque gostei.

Éteram observou a pedra novamente. Ela ainda estava fria.

— Você está me dando?

Apari desviou o olhar.

— Se quiser.

Ele ficou quieto. Não sabia o que fazer com uma pedra. Tinha poucas coisas naquele abrigo, e todas costumavam servir para alguma coisa. Os tecidos protegiam do frio. As ferramentas permitiam consertar o que quebrava. Os recipientes guardavam água ou comida. A pedra não oferecia calor, alimento ou proteção. Mesmo assim, ele a colocou num canto seco, junto de seus poucos pertences. Apari acompanhou o movimento.

— Você vai guardar isso?

— Vou.

— Por quê?

Éteram olhou para ela.

— Porque gostei.

Apari apertou os lábios. Depois virou o rosto. Ele percebeu que ela estava sorrindo. Não comentou.


Desde que Apari passara a dormir ali, Éteram amarrava as folhas da janela por dentro com uma cordinha. Dava duas voltas pela argola do antigo cadeado e prendia a outra ponta num prego firme do batente. A madeira ainda deixava entrar ar pelas juntas, mas já não batia durante a noite. Na primeira vez, Apari acompanhou o nó por cima de seu ombro.

— Virou dono de fortaleza?

— Uma ladra de pão já dá trabalho suficiente.

Ela puxou a corda para conferir se segurava. Depois entrou pela porta da escada, como se sempre tivesse feito aquilo.

As noites também começaram a mudar. No início, cada um dormia em um canto. Apari continuava mantendo a faca ao alcance da mão. Éteram costumava acordar algumas vezes para alimentar o fogo e verificar se o teto ainda resistia ao peso da neve. Quando as temperaturas caíram ainda mais, porém, a distância entre eles se tornou um desperdício de calor.

Primeiro, aproximaram os lugares onde dormiam. Depois, começaram a dividir parte dos tecidos. O acordo nunca foi discutido. Simplesmente aconteceu. Numa manhã, Éteram acordou com o cobertor enrolado nas pernas e Apari tão próxima que quase não conseguia se levantar. Tentou puxar uma das pontas. Ela abriu os olhos imediatamente.

— O que você está fazendo?

— Pegando meu cobertor.

Apari olhou para o tecido que envolvia os dois.

— Você roubou o meu.

— Não roubei.

— Então por que está comigo?

Éteram examinou a posição do cobertor.

— Porque você deixou cair em cima de mim.

— Eu não deixei.

— Então ele veio sozinho.

Ela o encarou. Depois puxou o tecido com força. Éteram quase caiu.

— Ei!

— Problema seu.

Ele ficou olhando enquanto ela se acomodava novamente. Por alguns segundos, pensou em puxar o cobertor de volta. Desistiu. Naquela noite, quando o frio piorou, Apari se aproximou. O ombro dela encostou no dele.

— Está frio — murmurou.

— Eu sei.

Ela permaneceu ali. Éteram também. Na noite seguinte, aconteceu novamente. Depois de algum tempo, deixou de ser necessário procurar uma desculpa. Em certas madrugadas, Apari falava dormindo. Palavras incompletas, reclamações e, ocasionalmente, algum nome que Éteram não conseguia compreender. Uma vez, ela despertou assustada. Sentou-se rapidamente, procurando a faca. Éteram ergueu a cabeça.

— O que foi?

Apari olhou ao redor. A fogueira estava baixa. A neve continuava caindo do lado de fora. Ela demorou a responder.

— Nada.

Éteram observou sua mão. Ainda segurava a faca. Ele se deitou novamente.

— Tá.

Não perguntou. Algum tempo depois, Apari guardou a lâmina e voltou a dormir. Mais perto do fogo.


A comida que haviam conseguido no depósito terminou antes do esperado. Durante alguns dias, precisaram voltar às pequenas oportunidades que encontravam nas ruas. Roubavam uma fruta aqui, algumas raízes ali, um pedaço de pão quando tinham sorte. Numa manhã, restava somente um pedaço pequeno. Éteram colocou-o sobre o pano que utilizavam para as refeições. Apari olhou para o pão. Depois para ele.

— Divide.

— Não estou com fome.

Ela levantou os olhos.

— Mentiroso.

— Comi ontem.

— Eu também.

Éteram empurrou o pão na direção dela. Apari o partiu ao meio. Entregou uma parte.

— Come.

— Você precisa mais.

— Você também.

Ele tentou devolver. Ela fechou a mão dele em torno do pedaço.

— Não começa.

Comeram em silêncio. Apari terminou primeiro. Ficou observando as migalhas espalhadas sobre o pano e recolheu uma delas com a ponta do dedo. Éteram percebeu.

— Ainda está com fome?

Ela demorou a responder.

— Um pouco.

Éteram olhou para as próprias mãos vazias. Naquele momento, não havia nada que pudesse lhe oferecer. Aquilo o incomodou mais do que esperava. Na manhã seguinte, saiu antes que Apari acordasse.

O céu ainda estava escuro, e a neve acumulada durante a noite dificultava a passagem pelas ruas. Voltou algumas horas depois, trazendo comida suficiente para prepararem uma refeição quente. Apari continuava dormindo. Éteram colocou os alimentos perto do fogo e tentou não fazer barulho. Não conseguiu. Ela abriu um dos olhos.

— Demorou.

— Eu voltei cedo.

Apari se sentou. Os cabelos estavam desgrenhados, e havia uma marca do cobertor em sua bochecha. Olhou para a comida. Depois para ele.

— Você saiu sem me acordar.

— Estava dormindo.

— Eu percebi.

Éteram começou a preparar a refeição. Ela o observou.

— Por que saiu sem mim?

— Você estava cansada.

— Como sabe?

Ele olhou por cima do ombro.

— Você fala dormindo.

Apari ficou imóvel.

— Não falo.

— Fala.

— O quê?

Éteram fingiu pensar.

— Muita coisa.

Ela se aproximou.

— O quê?

Ele começou a sorrir.

— Não sei.

Apari estreitou os olhos.

— Você está inventando.

— Talvez.

Ela o acertou com uma ponta do cobertor. Éteram riu. A comida quase caiu no fogo.


Nem todas as saídas terminavam bem. Numa tarde, passaram horas procurando alguma oportunidade sem chamar atenção. A primeira loja fechou cedo demais. Na segunda, um comerciante apareceu quando Éteram estava prestes a se aproximar dos fundos. Na terceira, um homem permaneceu observando os dois por tempo suficiente para fazê-los desistir. Apari percebeu primeiro.

— Vamos embora.

Éteram olhou para o pequeno embrulho que carregava.

— Só conseguimos três batatas.

— Então vamos embora com três batatas.

Ele ainda examinou a rua.

— Talvez dê para—

Apari segurou sua manga.

— Não.

Havia algo diferente em sua voz. Éteram acompanhou discretamente o olhar dela. O homem continuava observando. Desistiu. Seguiram pela rua até Apari entrar inesperadamente num beco estreito. Éteram a acompanhou.

— Esse beco termina.

— Não esse.

Ela se aproximou de uma parede, afastou alguns pedaços de madeira e revelou uma passagem quase invisível entre duas construções. Éteram ficou olhando.

— Como você sabe disso?

— Eu sei.

Ela entrou. Ele a acompanhou, precisando se virar de lado para atravessar a parte mais estreita. O caminho estava escuro, protegido da neve pelos telhados que quase se tocavam acima de suas cabeças. Depois de alguns metros, chegaram a outra rua. Éteram olhou para trás. A entrada praticamente desaparecera entre as paredes.

— Você realmente conhece tudo isso?

Apari ajeitou a roupa.

— Eu falei.

— É muita coisa.

Ela começou a andar.

— Você conhece livros.

Éteram a alcançou.

— Livros são mais fáceis.

— Não.

Ele olhou para ela. Apari abriu um pequeno sorriso.

— Pessoas são mais previsíveis.

Éteram ficou pensando naquilo durante o caminho de volta. Ela conhecia as ruas como quem precisava saber exatamente onde o perigo começava e onde terminava. Ele conhecia os estabelecimentos como quem precisava encontrar comida. Talvez, juntos, estivessem começando a enxergar coisas que nenhum dos dois perceberia sozinho. Naquela noite, cozinharam duas batatas. A terceira ficou guardada para o dia seguinte.


Em outra manhã, Apari acordou mais quieta. Sentou-se perto do fogo e permaneceu ali durante boa parte do dia, com uma das mãos apoiada sobre a barriga. Éteram percebeu enquanto organizava a lenha. Ela havia recusado a primeira oportunidade de sair e não demonstrara qualquer interesse em discutir quando ele lhe ofereceu uma porção um pouco maior de comida.

Aquilo, por si só, já era estranho. Ele esperou algum tempo. Depois se aproximou.

— Está doendo?

Apari levantou os olhos.

— Não.

Éteram olhou para a mão dela. Apari retirou-a da barriga.

— Só não estou muito bem.

— Quer alguma coisa?

— Não.

Ele assentiu. Voltou para perto da fogueira. Durante alguns minutos, tentou se concentrar em separar os pedaços de madeira mais secos. De vez em quando, porém, olhava discretamente para ela. Apari permanecia encolhida, observando as chamas. Éteram pegou uma caneca, colocou água para aquecer e a deixou ao lado dela. Apari examinou o recipiente.

— O que é isso?

— Água quente.

Ela ergueu os olhos.

— Eu sei.

— Então por que perguntou?

Apari soltou uma risada fraca.

— Idiota.

Ele deu de ombros e voltou para a lenha. Algum tempo depois, ouviu:

— Obrigada.

Éteram não se virou.

— De nada.

Não precisava compreender todas as coisas que aconteciam com ela. Precisava apenas parar de atrapalhar quando não compreendia.


Certa manhã, Éteram acordou ao sentir um polegar passar por sua bochecha. Abriu os olhos antes de se mover. Na luz cinzenta que entrava pelas frestas da janela amarrada, viu Apari retirar a mão e esconder os dedos no cobertor. Ainda sentia a pressão leve junto à pinta no meio da bochecha direita. A carícia fora curta demais para ter certeza de que não a sonhara.

— O que foi?

— Nada.

Éteram piscou algumas vezes.

— Você estava mexendo no meu rosto?

— Tinha cinza.

Ele levou a mão à bochecha.

— Ainda tem?

Apari examinou. Havia um pouco mais perto do nariz.

— Não.

Ele começou a esfregar o rosto. A mancha se espalhou. Apari apertou os lábios. Éteram percebeu.

— Está rindo?

— Não.

— Está.

Ela virou o rosto.

— Você parece uma chaminé.

Éteram tentou limpar a cinza com a manga. Conseguiu espalhá-la ainda mais. Apari começou a rir. Ele a encarou, indignado. Depois, sem conseguir evitar, começou a rir também. Apari tentou apontar para o próprio rosto para lhe mostrar onde ainda havia sujeira, mas a risada a interrompeu. Éteram pegou um pano úmido e finalmente conseguiu se limpar.

Quando terminou, encontrou Apari ainda sorrindo.

— Melhorou?

Ela fingiu examiná-lo.

— Um pouco.

— Um pouco?

— Continua feio.

Ele atirou o pano na direção dela. Apari desviou. O pano caiu perto do fogo. Os dois se apressaram para recuperá-lo. E começaram a rir novamente.


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