Éteram chegou ao abrigo quando a luz já começava a desaparecer entre as construções. Trazia os livros apertados contra o peito e a cópia da receita protegida por um pano. Apari estava sentada perto da fogueira, separando raízes numa tigela lascada. Ela ergueu os olhos.
— Você demorou.
— Tive que voltar pela rua dos armazéns.
— Isso explica a demora ou só explica por que você está coberto de lama?
Éteram olhou para as próprias botas. A lama subia até os tornozelos.
— As duas coisas.
Colocou os livros sobre a mesa improvisada. Apari se aproximou. Ainda precisava de ajuda para ler uma frase, mas já encontrava nas lombadas letras que praticara no papel.
— Trouxe os de cozinha?
— Trouxe mais do que isso.
Éteram abriu o primeiro volume. A capa estava empenada, coberta por manchas de umidade e presa por uma tira de couro que perdera a cor. As páginas cheiravam a poeira, gordura antiga e alguma coisa amarga, como folhas guardadas dentro de uma gaveta fechada.
— Vamos procurar o besouro — disse Apari.
Éteram abriu o volume de remédios ao lado do de infusões. O terceiro, sobre plantas e fungos nocivos, ficou ao alcance de Apari. Começaram pelas bebidas: ele procurava os nomes, e ela tentava reconhecer nas figuras o que vira na casa. Passaram boa parte da noite lendo. Éteram lia as palavras difíceis devagar. Apari repetia e, quando errava, franzia a testa antes de tentar outra vez. Ele anotava numa folha os números das páginas que precisariam consultar de novo.
Encontraram a descrição de um besouro que lembrava o que Apari vira. A gravura mostrava placas no corpo e pernas finas dobradas para dentro. Éteram leu a descrição duas vezes.
— Aqui fala de um preparado de besouro que provoca inflamação na pele.
— Inflamação?
— Incha, esquenta, dói. O autor diz que o usam para dar uma aparência de vigor. Mas descreve isso como uma lesão.
Apari permaneceu olhando para o desenho.
— O pênis.
Éteram pigarreou.
— É disso que ele está falando.
Ela acompanhou o contorno da figura com o dedo, sem encostar na página.
— Então aquele homem usava isso para parecer maior.
— Provavelmente.
— E bebia.
Éteram voltou algumas páginas. Encontrou referências a preparos ingeridos, sempre acompanhadas de advertências sobre febre, dor, vômito e lesões internas.
— Se for esse mesmo preparado, ele está se envenenando. Olha os avisos. Não era coisa para beber.
Apari pensou na xícara que encontrara na casa do cliente. A lembrança trouxe outra, indesejada: Lídia imóvel, o marido afastando os cabelos de seu rosto, a madeira rangendo atrás da janela. Não era aquele o homem que Henry mandara procurar agora. Ainda assim, não conseguia afastar a imagem. Éteram tocou a borda da página que ela deixara parada.
— Podemos parar.
— Não.
Ela puxou o livro dos venenos para perto.
— Quero entender o que está escrito aqui.
O volume era mais antigo que os outros. A lombada se desfazia quando Éteram a segurava, e algumas páginas haviam sido remendadas com tiras de papel de qualidade diferente. A seção sobre fungos começava com uma advertência curta: aparência não era segurança. Apari franziu a testa.
— O que é isso?
— Um fungo.
— Parece uma coisa que cresce perto das árvores.
Éteram aproximou a lamparina. O desenho mostrava um chapéu vermelho coberto por manchas claras, apoiado num talo branco.
— Amanita muscaria — leu. — Diz que provoca alterações no corpo e na percepção. Também diz que pode envenenar.
Apari se inclinou sobre a página.
— Eu já vi uma dessas.
— Tem certeza?
— Perto da nossa casa. Debaixo das árvores, onde o chão fica úmido. Vermelha. Com pontos brancos.
Éteram fechou o livro até a metade.
— Não toca nela sem saber o que está fazendo.
— Você fala como se eu fosse pôr tudo na boca.
— Estou falando para olhar além do desenho.
Apari voltou à linha, acompanhando as letras com o dedo. Dessa vez, encontrou sozinha a palavra que ele acabara de ler. Abriu um sorriso cansado. Durante anos, aprendera portas, passos, bolsos e caminhos de fuga. Agora conseguia reconhecer também uma palavra, guardá-la, encontrá-la outra vez. Quis mostrar a ele antes de perder a linha.
— Vai me ensinar essas outras também?
Éteram apoiou o cotovelo na mesa.
— Vou ler com você.
— É quase a mesma coisa.
— Não é.
— Para mim é.
Ela se aproximou e o beijou. O beijo começou rápido, como se Apari pretendesse apenas interromper uma discussão. Éteram ainda segurava o livro quando ela encostou a boca na dele. Depois o volume escorregou para a mesa, e as mãos dele encontraram sua cintura.
Apari o abraçou com força. Os cachos ruivos roçaram o rosto de Éteram, carregando cheiro de fumaça, terra e sabão fraco. Ela sentiu os braços dele se fecharem ao redor dela com cuidado; o calor se acumulou entre os dois. Quando se afastaram, nenhum deles falou.
Apari encostou a testa no peito dele. Éteram apoiou o queixo sobre seus cabelos. Permaneceram assim enquanto o fogo diminuía, cercados pelos livros abertos, pela tinta seca e pelo som do vento passando pelas frestas. Mais tarde, deitaram-se sobre os tecidos. Apari encontrou a mão dele no escuro e entrelaçou os dedos. Quando Éteram perguntou se estava confortável, respondeu que sim e chegou mais perto.
Adormeceram abraçados.
Na manhã seguinte, Éteram levou os três livros de volta à biblioteca. Depois de conferir as devoluções e arrumar as primeiras pilhas, pediu a Alice um volume que explicasse os fundamentos da alquimia. Ela indicou um manual de consulta do salão. Os exemplares guardados nos armários continuavam fora de seu alcance.
Havia poucos leitores. Entre um chamado e outro, abriu o manual numa mesa próxima à janela, com a cópia da receita ao lado. As fórmulas ocupavam pouco espaço; as notas ao pé de cada página explicavam a coleta e a conservação dos materiais.
O manual dizia que a alquimia aproveitava a magi dos materiais e do ambiente. Reunir os ingredientes não bastava: a ordem, o calor e as condições do preparo mudavam a reação. Havia substâncias que a iniciavam e outras que a continham. Ao lado de uma receita, o autor desenhara o recipiente rachado de uma tentativa malfeita.
Éteram tornou a examinar a lista do ardélio. Anotou numa folha, para explicar a Apari depois: não é só o que entra na panela; é o que cada coisa faz com as outras.
As receitas ocupavam apenas uma parte do conhecimento. Havia instruções para coletar seiva sem matar a árvore, retirar minerais de uma parede sem contaminar o restante do veio, secar fungos à sombra e reconhecer o momento em que uma substância deixava de ser útil e começava a apodrecer.
Pensou na receita do ardélio. Precisava entender o que mantinha a magi do sangue disponível e o que a faria se perder antes do preparo. Marcou as dúvidas na própria folha. Mais tarde, pediu autorização para levar o manual e renovar os outros empréstimos; ainda queria ler com Apari naquela noite.
Enquanto isso, Apari seguiu pela rua dos fundos. Encontrou os fungos sob uma árvore inclinada, onde as raízes erguiam a terra úmida. Os chapéus vermelhos lembravam o desenho do livro. Apari conferiu a folha que copiara e decidiu que bastava. A voz de Éteram, pedindo que olhasse além da figura, ainda a incomodava.
Em casa, separou o que pretendia usar e guardou o restante num pote de madeira escura. A tampa apertava um aro de couro; nas bordas havia manchas antigas que a lavagem nunca tirara. Deixou-o longe da comida.
Trabalhou sozinha junto ao fogo. Queria chamar Éteram para aquelas partes chatas de cozinha, entregar-lhe a colher e ouvir as reclamações sobre o jeito de segurar a panela. Aprendera com ele a dar corpo a um caldo. Aquilo, porém, não era comida, e nenhuma página lhe dizia como fazer o homem perder as forças sem morrer.
Henry pedira um pulso quebrado. Era só isso que ela pretendia entregar. Repetiu a ordem enquanto terminava o preparo, como se a intenção pudesse decidir o resultado.
O cantil escolhido era pequeno, de couro escurecido, com a costura torta junto ao gargalo. A tira que prendia a tampa quase se partia numa das dobras. Até aquela manhã, servira para trazer água do poço; Apari o pôs à parte dos baldes e das canecas. Ao fechá-lo, o cheiro vegetal continuava em suas mãos.
Chegou à casa quando os sinos marcaram onze horas. Conferiu o relógio que guardava consigo e voltou ao pátio lateral, ao mesmo ponto junto ao muro de onde observara a cozinha. A máscara e o capuz escondiam seu rosto. Por algum tempo, só ouviu o movimento da rua. Então uma tábua rangeu.
Dorian apareceu descalço no corredor. Devia ter uns quarenta anos. O cabelo castanho rareava no alto da cabeça, deixando à mostra o couro pálido; a barba curta sombreava o queixo. Tinha o nariz avermelhado e a roupa de dormir apertada sobre a barriga. Quando se espreguiçou, Apari tornou a reparar nas mãos largas. Dorian coçou as partes por cima do tecido, bocejou e caminhou até a cozinha. Apari acompanhou seus movimentos pela fresta da cortina. Ele colocou água numa chaleira.
Os olhos dela se iluminaram. Então não preparava aquilo apenas antes de sair. Apari olhou os recipientes e se lembrou dos avisos do livro. Talvez bebesse todos os dias. Não conseguia imaginar em que estado o corpo dele estaria. Dorian separou os insetos numa xícara. Depois saiu da cozinha. Apari ouviu água correndo no cômodo dos fundos. O som durou bastante. Pelo menos ele era limpo, pensou. A constatação não melhorou nada.
Esperou. O barulho de água continuou nos fundos. Apari afastou-se do muro, alcançou a janela lateral e entrou. O ar da casa era pesado. Cheirava a roupa usada, óleo, sabão e alguma coisa doce que começava a azedar. Apari manteve a respiração curta. O coração batia depressa demais, não pelo esforço da janela, mas pela consciência de estar dentro daquele lugar sem procurar comida, sem fugir de alguém e sem se defender.
A xícara estava preparada junto à chaleira. Apari levou a mão ao cantil. O barulho de água nos fundos encobria os ruídos pequenos da cozinha; quando cessou, ela já havia deixado a bebida como a encontrara. Guardou o cantil vazio por dentro da capa e passou ao quarto. Apertou-se sob a cama. O tecido roçou a madeira, e ela parou de respirar até ter certeza de que ninguém se aproximava. Respirou fundo.
Fazia aquilo pela mulher cujo nome nem perguntara a Henry. Pelo pulso que ele mandara quebrar em troca. E pelo dinheiro que levaria para casa, embora essa parte agora lhe custasse admitir. Ainda assim, o ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões. Ela já roubara comida. Já fugira de homens armados. Já segurara uma faca contra alguém que podia matá-la. Sempre existira uma saída escondida dentro dessas coisas: fome, medo, defesa. Agora estava ali para atacar.
Dorian merecia aquilo, repetiu. Merecia pelo que fizera à funcionária da casa. Pelo que talvez tivesse feito a outras. A lembrança do marido de Lídia voltava sem que ela a chamasse; Apari deixava os dois se confundirem na raiva, mesmo sabendo que aquele era outro homem.
Todos os homens são iguais. A frase veio inteira. Éteram lhe ocorreu antes que pudesse impedi-lo: as mãos sobre um livro, a paciência para esperar que acertasse uma palavra. Apari afastou a lembrança. Naquela casa, queria pensar só nos que usavam o próprio brinquedo a qualquer custo, até tomando veneno.
A ideia acalmou seu coração. Também deixou sua raiva mais fria. Dorian voltou à cozinha. Do chão, Apari ouvia a cadeira, a louça, o raspar de um talher. Procurava dar ordem aos ruídos sem se mexer. Depois veio o som da água sendo despejada. Apari apertou as mãos. Ouviu o toque da xícara na mesa, depois água sendo servida outra vez. Duas, calculou. Não entendia como alguém podia beber aquele chá todos os dias e continuar de pé.
O tempo se arrastou. Uma cãibra começou a prender sua perna; ela a ignorou e ficou à escuta. Quando Dorian riu, Apari não soube se era o primeiro sinal do que esperava. Primeiro uma risada baixa. Depois outra, mais longa. Disse alguma coisa para a cozinha vazia. Apari não distinguiu as palavras. O prato foi afastado. A cadeira arrastou-se pelo chão.
Os passos voltaram ao quarto. Do chão, Apari viu a roupa cair perto de seu rosto. O estrado cedeu acima dela, e Dorian continuou falando, com pausas que pareciam esperar respostas. Ela aguardou. O riso se transformou em respirações pesadas. Dorian parecia ocupado demais com o próprio corpo para notar o que acontecia ao redor.
Apari esperou o colchão se mover para o outro lado. Saiu debaixo da cama e se ergueu. Dorian levou alguns instantes para notar a presença diante dele. O choque veio antes da raiva. Ele se masturbava, alheio à presença dela. A inflamação e as feridas lhe trouxeram à memória as advertências do livro. Apari sentiu o estômago se contrair. Dorian parou. Seu olhar passou pela máscara e pela capa sem se deter. Apari não viu nele nenhum reconhecimento.
— Quem é?
A pergunta saiu arrastada, sem alarme. Apari puxou o lençol. Dorian perdeu o equilíbrio na beira da cama e caiu com um baque. O peso quase a arrastou junto. Por um instante, ela pensou que ele se levantaria; o homem, porém, se atrapalhou no tecido e riu. Quando parou de rir, já estava preso. Apari tinha os dedos doloridos e a respiração curta. A cama rangera tanto que ela escutou a casa antes de continuar. Dorian acompanhava tudo com atraso.
— Eu gosto de amarrar — disse. — Não gosto de ser amarrado.
Tentou mover os braços. O sorriso falhou.
— Vou chamar o Palhaço… — murmurou. — Ele vai cuidar desse sujeito.
Apari sentiu a raiva tomar o lugar do medo. Mesmo ali, Dorian ainda esperava que alguém viesse resolver aquilo por ele. Ela segurou o homem pelo pescoço e o obrigou a encará-la.
— O Palhaço me mandou.
Dorian piscou.
— Você?
— Você vai pagar pelo pulso da mulher que machucou.
O rosto dele mudou aos poucos. A confusão perdeu espaço. Os olhos encontraram os nós, a capa, a máscara e a mão em seu pescoço. Tentou gritar. Apari enfiou a bolsa de moedas em sua boca. Com a outra mão, acertou seu queixo. O estalo dos dentes foi pequeno, mas o grito morreu contra o couro da bolsa. Dorian se debateu. O lençol puxou seus ombros contra a cama. Apari retirou o martelo da cintura.
Era a ferramenta de Éteram, usada para pregar as madeiras velhas no lugar ou retirar as que já tinham apodrecido. A cabeça de metal parecia grande demais em sua mão. Mirou o pulso direito. O primeiro golpe fez o corpo de Dorian se arquear. O som que saiu dele não parecia uma palavra. Apari ergueu o martelo outra vez. Acertou o mesmo ponto.
Dessa vez, o pulso cedeu com um ruído abafado. O sangue apareceu sob a pele rompida e escorreu para o lençol. Ela ficou parada por um instante, respirando pela boca. Foi à cozinha e voltou com o preparado de besouro que vira sobre a mesa. Usou-o no ferimento. A reação do homem a fez apertar os dentes; aquilo já não ajudava a cumprir a tarefa.
— Isso é pelo que você fez — disse.
Soltou o homem da cama, mas deixou suas mãos amarradas. Segurou-lhe o rosto com força suficiente para fazê-lo parar de se debater.
— Você nunca mais vai encostar em mulher alguma.
Dorian confirmou com a cabeça.
— Confirma direito.
Ele tornou a assentir, os olhos arregalados. Apari retirou a bolsa de sua boca.
— Procura ajuda. Agora.
Dorian ficou olhando para ela. Apari deixou a bolsa com o bilhete na mesa, abriu a porta da frente e voltou à janela lateral. Saiu por onde entrara. O homem ainda tentava se pôr de pé. Apari se escondeu atrás de uma parede baixa do outro lado da rua.
Dorian apareceu alguns minutos depois, nu, com os dentes quebrados e o pulso direito pendendo de um modo que não deveria existir. Correu sem olhar para trás. A rua o engoliu entre carroças e portas fechadas. Apari observou até ele desaparecer.
Não sentia alegria.
Também não sentia tristeza.
O vazio a incomodou mais do que qualquer uma das duas emoções teria incomodado. Voltou pelo caminho mais longo. No poço, encheu dois baldes. As alças castigaram seus dedos na subida; precisou apoiá-los num degrau antes de alcançar o segundo andar. Tomou banho devagar. Esfregou as mãos até a pele arder, lavou a capa e deixou a máscara secando perto da janela amarrada. O cantil ficou à parte, longe dos recipientes de água.
Depois tornou ao poço. Trouxe água limpa para Éteram, cobriu os baldes e só então trocou de roupa e se deitou. Pensou em Henry. No dia seguinte, falaria com ele sobre o pagamento. Pensou na mulher do pulso quebrado, que nunca vira. Em Lídia. Depois em Dorian tentando se levantar do chão. As imagens voltavam fora de ordem, sem lhe dizer o que devia sentir. Pensou em Éteram, na biblioteca, lendo receitas que ela ainda não conseguiria decifrar sozinha.
Quando ouviu os passos na escada, já estava deitada de lado. Éteram abriu a porta com o embrulho de livros debaixo do braço. Apari ergueu os olhos. Ele parou diante dos dois baldes cobertos junto à parede.
— Você pegou água.
— Para você tomar banho.
Ele olhou para os baldes. Depois para ela.
— Hoje é dia de banho?
Apari quase sorriu.
— Hoje é.
Éteram deixou os livros sobre a mesa e levou os baldes para o banheiro anexo. A porta fechou com o rangido de sempre. Apari ficou ouvindo a água cair do outro lado. Esperou. Quando Éteram saiu, o cabelo negro estava úmido e a barba falha parecia mais escura. Vestiu uma camisa limpa, deitou-se ao lado dela e puxou o cobertor até os dois. Apari virou o rosto em sua direção. Ele fechou os olhos.
Por alguns minutos, nenhum dos dois disse nada.