Na manhã seguinte, Apari saiu com Éteram até a esquina. Precisava buscar água e queria conferir uma das ruas que Henry mencionara. Disse apenas a primeira parte. Éteram levava consigo a folha da aula, dobrada com tanto cuidado que ela reclamou.

— Não precisa mostrar isso para ninguém.

— Não vou mostrar.

— Então por que está levando?

Ele tocou o bolso do colete.

— Para copiar outras palavras quando tiver tempo.

Apari tentou parecer indiferente. Não conseguiu inteiramente. Antes de se separarem, aproximou os dedos da gola dele e ajeitou a dobra que sempre insistia em ficar para fora. A marca em sua bochecha já estava menos evidente. Ela a viu mesmo assim. Éteram percebeu o olhar. Não disse nada. Apenas segurou sua mão por um instante antes que a retirasse.

— O livro de chás — lembrou Apari.

— Eu lembro.

— Com desenhos.

— Eu lembro disso também.

Ela se inclinou e o beijou.


Éteram acompanhou-a com os olhos até desaparecer atrás da carroça próxima ao poço. Depois seguiu para a biblioteca. O visitante chegou antes do meio-dia.

Era alto o suficiente para fazer Éteram reparar na altura da porta. Mesmo acostumado a olhar por cima de muita gente, precisou erguer um pouco o rosto para encará-lo. O homem vestia azul-escuro, quase preto onde a luz não alcançava. A mão fechada no cabo de uma bengala precedia cada passo; uma perna acompanhava a outra com um atraso discreto. A ponta batia na pedra antes da sola.

Os cabelos, loiros tomados de grisalho, estavam amarrados e desciam até as costas. Não usava chapéu. A testa descoberta trazia um bindi roxo, o sinal do terceiro olho da magia; sob os olhos azuis, o delineado da mesma cor prolongava a sombra das pálpebras. Éteram reparou no nariz empinado e na barba rala por fazer. Aquele rosto parecia cuidadosamente preparado para ser visto, com exceção dos pelos curtos espalhados pelo queixo.

Éteram saiu de trás do balcão.

— Posso ajudar?

O homem ergueu dois dedos, indicando que não precisava se aproximar.

— Fique onde estava. Não vim exigir cerimônia.

Éteram parou. O visitante examinou o colete, as mãos manchadas de tinta e o livro de registros aberto sobre o tampo.

— Embora aprecie a intenção.

Aproximou-se por conta própria. Havia um cheiro discreto de ervas secas em suas roupas. Não parecia o perfume do bar que Éteram sentira em Apari; lembrava os armários onde a biblioteca guardava materiais para afastar insetos.

— Um soldado avisou que eu viria?

Éteram assentiu.

— Sobre os rapazes?

— Exatamente.

O homem passou os olhos pela sala antes de continuar. Não havia outros leitores perto o suficiente para ouvir sem demonstrar interesse.

— Eles levaram algumas escrituras que me pertencem. Materiais de estudo, de grande valor. Preciso recuperá-los antes que a ignorância cause algum estrago.

Éteram se lembrou do pergaminho.

— São perigosos?

— Os rapazes ou os textos?

Ele hesitou.

— Os dois, talvez.

O visitante abriu um sorriso pequeno.

— Pessoas que não compreendem o que carregam podem ser perigosas de maneiras muito tediosas. Quanto às escrituras, não servem para a população comum. São material de magos e feiticeiros.

Éteram apoiou a mão no balcão.

— Magia?

Falou mais alto do que pretendia. O homem observou sua expressão com interesse.

— Sim, meu jovem. Magia.

Éteram olhou para os cabelos compridos, para os punhos do casaco, para as mãos pousadas sobre a madeira. Não viu chama, luz ou qualquer coisa que distinguisse aqueles dedos dos seus. Isso tornou a presença do homem ainda mais desconcertante.

— O senhor é…

O visitante inclinou a cabeça, permitindo que completasse a ideia sozinho. Éteram sentiu uma vontade absurda de fazer perguntas. Sobre o ardélio. Sobre as ligações que permitiam ouvir alguém do outro lado de um reino. Sobre a mãe, embora não houvesse razão para aquele homem saber qualquer coisa a respeito dela. Conseguiu permanecer quieto. O visitante apontou para o registro aberto.

— Você lê com facilidade?

— Leio.

— Teve instrução?

— Meu tio ensinou. Depois continuei por conta própria.

O homem examinou uma das anotações no livro.

— Alguma letragem. Mais do que encontro em muitos lugares.

Éteram resistiu à vontade de endireitar o colete.

— Se me ajudar a recuperar o que foi levado — continuou o visitante —, posso fazer um teste. Ver se possui algum talento além da vista.

Ele ergueu os olhos.

— Um teste para magia?

— Para saber se há algo que mereça ser desenvolvido.

O homem falou com a tranquilidade de quem oferecia uma informação comum. Para Éteram, entretanto, a sala pareceu mudar de tamanho. As estantes continuavam no mesmo lugar, mas as coisas que poderiam existir depois delas se multiplicaram de repente. Pensou em Apari reconhecendo a primeira letra de seu nome. Pensou que talvez houvesse uma versão daquela alegria que ainda não conhecia.

— Posso ajudar — disse.

O visitante assentiu, satisfeito. Explicou que bastava avisar ao guarda se os rapazes voltassem. Não pediu que Éteram os seguisse nem tentasse retirar deles qualquer objeto. Se apresentassem textos, deveria lembrar do aspecto da capa, dos selos, de tudo o que permitisse reconhecê-los. Éteram ouviu com atenção. Oportunidades como aquela provavelmente não chegavam duas vezes ao mesmo balcão. Ainda assim, não contou da visita anterior.

A cada momento em que poderia fazê-lo, precisava começar explicando por que não falara ao guarda. Depois teria que admitir que segurara um cliente pelo colarinho, lera uma parte do pergaminho e o mandara embora. Quando encontrou uma frase possível, o homem já estava se despedindo. Éteram acompanhou-o até a porta com os olhos. O visitante saiu sem precisar se curvar, embora parecesse que deveria.

Durante o restante da manhã, Éteram guardou três livros na ordem errada e precisou conferir o próprio trabalho duas vezes.


No fim do expediente, conseguiu autorização para levar o livro de infusões e dois volumes de consulta: um sobre enfermidades e remédios, outro sobre plantas e fungos nocivos. O de infusões tinha uma mancha antiga na capa e ilustrações suficientes para interessar Apari. O funcionário registrou os três títulos, a data e o nome de Éteram.

— Devolve seco.

Éteram olhou para a mancha.

— Já está assim.

— Então não acrescente outra.

Envolveu os volumes no pano e os acomodou contra o peito. Levava também a folha de Apari, sobras de papel para os exercícios e um pequeno frasco de tinta bem fechado. Saiu pensando no teste. Não sabia quanto custava estudar magia. Provavelmente mais do que possuíam. Também não sabia se um resultado favorável significava alguma coisa concreta. Talvez precisasse de anos, de livros impossíveis de comprar, de uma família que pudesse sustentar alguém enquanto aprendia.

Mesmo assim, imaginou contar a Apari. Ela faria perguntas. Chamaria de idiota se o visse sorrindo sem conseguir explicar. Depois perguntaria se ele conseguiria aquecer a panela sem lenha, porque era exatamente o tipo de utilidade que lhe ocorreria primeiro. Éteram sorriu sozinho. Foi assim que esbarrou no rapaz.

O impacto aconteceu no encontro de duas ruas, perto de um carrinho de mercadorias. Éteram apertou o embrulho contra o corpo. O outro segurou seu braço, como se o ajudasse a recuperar o equilíbrio.

— Desculpa — começou Éteram.

Ergueu os olhos. Reconheceu primeiro a alça atravessada no peito, depois a barbicha e os cachos castanhos curtos. O rapaz dos idiomas antigos sorriu.

— Está com pressa?

Éteram tentou afastar o braço. A mão do desconhecido continuou ali por um instante a mais do que deveria.

— Estou indo para casa.

— Então vou ser rápido. Notou alguma movimentação diferente? Guardas procurando pessoas, alguém fazendo perguntas?

Éteram olhou para a rua atrás dele. Ainda havia gente passando. Uma mulher negociava alguma coisa na porta de uma casa; dois carregadores discutiam sobre uma caixa. Nenhum deles prestava atenção àquela conversa.

— Não sei de nada.

O rapaz manteve o sorriso. Éteram sentiu vontade de arrancá-lo de seu rosto.

— E não mencionei nenhum cliente estranho procurando livros de magia — acrescentou.

O sorriso diminuiu. Por um instante, Éteram se sentiu satisfeito. Depois percebeu que acabara de confirmar tudo o que tentava negar. O rapaz soltou seu braço.

— Obrigado.

— Não fiz por você.

— Imaginei.

Éteram ajustou o livro sob o braço. Poderia encerrar ali. Deveria encerrar ali.

— Para que querem aquelas coisas? — perguntou. — Disseram que não servem para quem não é mago ou feiticeiro.

O outro o observou com uma atenção nova.

— Disseram?

Éteram fechou a boca.

— Conheci alguém recentemente que talvez consiga aproveitar — respondeu o rapaz.

Um homem se aproximou pela lateral. Éteram o reconheceu como o segundo visitante da biblioteca. Outro parou perto do carrinho. Ao olhar para trás, encontrou mais dois. Quatro, além daquele à sua frente. Nenhum levantou uma arma. Também nenhum deixou um caminho particularmente convidativo. Éteram sentiu o peso do livro contra as costelas.

— Se não tentar correr, ninguém vai machucar você — disse o rapaz.

A frase fez o estômago de Éteram afundar. Lembrou-se de Apari esperando diante de uma fogueira apagada. Da promessa de avisar. Do modo como seria difícil mandar um recado se terminasse no fundo de um beco com os dentes quebrados.

— É assim que costuma pedir ajuda?

O rapaz sustentou seu olhar por um instante. Depois fez um gesto curto. Os outros se afastaram o suficiente para que Éteram conseguisse ver a rua novamente.

— Quero conversar onde ninguém fique ouvindo.

Éteram olhou para a passagem indicada. Era um pequeno recuo entre um depósito fechado e uma parede de pedra. A saída permanecia visível.

— Não vou entrar em casa nenhuma.

— Não precisa.

Ele hesitou. Poderia gritar. O guarda estava naquela região, em algum lugar. Mas a distância entre a intenção de pedir socorro e alguém chegar parecia bastante grande quando havia cinco desconhecidos ao redor. Acompanhou-os até o recuo. Continuou segurando o livro.


O rapaz se apresentou como Remy. Éteram não ofereceu a mão. Remy pareceu aceitar aquilo como uma consequência razoável da apresentação anterior.

— E você?

— Éteram.

— Éteram. Preciso que olhe uma coisa.

Retirou a capa de couro de dentro do casaco. Dessa vez, abriu o pergaminho por inteiro. Éteram reconheceu a borda, a dobra que escondia parte das instruções e uma pequena mancha próxima ao lugar em que lera a palavra vinagre. Havia mais texto do que imaginara, distribuído ao redor de um desenho estreito de recipiente. Um selo escuro ocupava a extremidade inferior. Remy manteve as duas mãos nas bordas.

— Consegue ler?

Éteram percorreu a primeira linha antes de responder:

— Consigo.

O rapaz soltou o ar devagar. Um dos homens atrás dele se aproximou. Remy o impediu com um gesto, sem tirar os olhos de Éteram.

— Foi o que achei.

Éteram sentiu a irritação superar um pouco o medo.

— Vocês me cercaram para perguntar isso?

— Na biblioteca, você me pôs para fora antes de eu conseguir explicar.

— Você também não explicou que estava carregando coisa roubada.

O silêncio durou o suficiente. Remy dobrou ligeiramente uma das bordas.

— Quem disse que é roubada?

Éteram ergueu as sobrancelhas.

— O homem que está procurando vocês não parece sentir falta de uma receita de sopa.

Remy passou a língua pelos lábios. Seus companheiros trocaram um olhar que Éteram não gostou de presenciar.

— Não estou pedindo que decida de quem é — disse por fim. — Estou pedindo que leia.

Éteram olhou para a saída.

— Você não sabe?

Remy retirou do bolso um papel comum, onde havia anotações curtas. Leu uma delas em voz alta, sem dificuldade, e tornou a guardá-lo.

— Sei. Só não consigo ler isso.

Apontou para o pergaminho. Éteram examinou as linhas outra vez. Continuavam claras.

— Está na mesma língua.

Remy balançou a cabeça.

— Para você.

Éteram permaneceu quieto. O rapaz aproximou o texto e pediu que lesse a primeira linha. Éteram obedeceu, mais interessado do que desejava demonstrar.

— Preparo de reserva térmica para administração em pequenas porções.

Remy ouviu até o fim.

— É isso que você vê escrito?

— Foi o que acabei de dizer.

Um dos outros soltou uma risada nervosa. Não parecia estar zombando dele. Remy indicou os sinais da margem.

— A escrita responde a quem tem certa sensibilidade. Quando a pessoa chega perto, consegue compreender numa forma que caiba na própria cabeça. Precisa saber ler em alguma língua. Não ensina alguém do nada. Mas muda a maneira como o texto chega até você.

Éteram examinou as próprias mãos e voltou ao pergaminho, esperando que alguma letra se movesse. Nenhuma se moveu.

— Para mim, são sinais — continuou Remy. — Posso copiar as formas. Não sei o que querem dizer. Existem maneiras de aprender a escrita original. Por isso estávamos procurando livros de idiomas.

— E você não tem essa sensibilidade.

Remy sorriu sem alegria.

— Não é tão rara quanto gostaria de usar como desculpa. Mas não tenho.

Éteram lembrou-se do visitante de azul-escuro.

Algum talento além da vista.

A vontade de sorrir veio acompanhada por outra sensação, menos agradável. O teste que desejara naquela manhã parecia ter acontecido sem pedir licença, num recuo de rua, diante de pessoas que talvez devesse denunciar. Não sabia sequer se Remy dizia a verdade.

— Isso faz de mim um mago?

— Faz de você alguém que consegue ler esse pergaminho. O resto eu não sei.

Éteram sustentou o olhar dele. A falta de uma promessa o fez escutar o restante. Remy retirou uma moeda de prata e a colocou sobre uma pedra larga junto à parede.

— Pelo seu tempo.

Éteram olhou para o dinheiro. Dez cobres. Mais de três semanas carregando livros. Quase tudo o que conseguira no primeiro mês. Pensou em Apari segurando o ouro e dizendo que naquele dia o que sabia fazer valera alguma coisa. Agora compreendia melhor a maneira como ela olhara para a moeda.

— Só para ler? — perguntou.

— Ler e explicar o que conseguir.

Éteram examinou a saída novamente. Remy percebeu.

— Eles ficam ali — disse, indicando a rua. — Você pode ir embora quando terminar.

Os quatro se afastaram. Um continuou perto o suficiente para ouvir, mas já não havia ninguém atrás de Éteram. Ele se sentou sobre a pedra, com o livro de Apari no colo.

— Então abre direito. Na biblioteca, você escondeu metade.

Remy obedeceu. Vista inteira, a receita parecia menos absurda. Não muito menos. Éteram começou pela lista de ingredientes. Água limpa. Vinagre claro. Casca de ovo lavada e reduzida a pó. Mel. Sal comum. Sangue de ardélio, recolhido enquanto o animal ainda conservasse calor, resfriado e mantido longe do fogo até o momento de uso. Parou nessa parte. Remy inclinou-se.

— Algum problema?

Éteram tornou a ler a palavra.

Ardélio.

Viu a tina fumegante, o cordão vermelho, as linhas acobreadas sob as escamas. Lembrou-se do órgão que retirara do ventre e colocara sobre uma pedra enquanto Apari esperava impacientemente pela comida. Lembrou-se também do sangue que escorrera durante a limpeza. Não o guardara. Naquela noite, estava ocupado demais tentando preparar a melhor refeição da vida dela para imaginar que alguma parte do peixe poderia valer mais fora da panela.

— Conheço o animal — respondeu.

Remy se aproximou um pouco mais.

— Já viu um?

Éteram hesitou.

— Já preparei.

O rapaz olhou para seu colete remendado. Teve o bom senso de não comentar.

— É difícil conseguir?

Éteram soltou uma pequena risada.

— Depende de quantos porcos você tem para trocar.

Remy não riu. Ele voltou ao pergaminho. Havia uma nota ao lado do ingrediente. O sangue deveria ser recolhido fresco; o calor prolongado antes do preparo consumiria parte de sua utilidade. A receita também advertia que sangue escurecido, alterado ou deixado tempo demais fora das condições indicadas tornava o resultado imprevisível. Éteram acompanhou a linha com o dedo, sem tocar na tinta.

— Não pode ser qualquer resto de peixe morto.

— Está escrito isso?

— Com mais palavras.

O vento atravessou a entrada do recuo. Remy segurou uma ponta do pergaminho que começava a se levantar. Éteram tornou ao começo.

— É uma poção para conservar calor no corpo por algum tempo. Para suportar frio. Pelo menos é o que diz o título e essa parte aqui.

Remy olhou para os companheiros na rua.

— Quanto tempo?

— Ainda não cheguei.

Continuou lendo.

As instruções distinguiam a preparação da base e a incorporação do sangue. Na primeira, a casca de ovo era trabalhada com o vinagre num recipiente aberto. O pó deveria ser adicionado devagar, até a espuma diminuir e a mistura deixar de reagir da mesma maneira. Depois era necessário esperar que os resíduos assentassem e aproveitar apenas a parte líquida indicada pelo texto.

Éteram franziu a testa.

— Aqui já muda tudo.

Remy ergueu os olhos.

— O quê?

— Quando mostrou o canto dobrado, parecia que estavam mandando pôr o sangue no vinagre quente. Não estão. Primeiro preparam isto. Depois deixam esfriar.

Ele voltou algumas linhas, conferindo a ordem. Pensou em massa fermentando, em gordura separada do caldo, em receitas que pareciam simples até alguém inverter duas tarefas. Reconhecia o tipo de atenção exigida, embora não compreendesse o motivo de cada ingrediente.

— Casca de ovo moída? — perguntou o rapaz que permanecera por perto.

Éteram olhou para ele.

— Não é para ficar mastigando os pedaços. É para reagir com o vinagre. Depois aproveita uma parte e deixa o restante.

— Para quê?

Ele tornou a examinar a anotação. Encontrou palavras que conseguia ler, mas não explicar sem apenas repeti-las. Compatibilidade. Meio de reação. Retenção.

— Não sei ainda.

A resposta pareceu surpreender Remy.

— Ler não faz eu entender tudo. Se alguém escrever por que um barco flutua, continuo sem saber construir um.

Remy assentiu, e Éteram voltou às instruções. A parte líquida preparada com o vinagre receberia água e mel. O texto descrevia uma base ligeiramente espessa, sem grumos, à qual seria acrescentada uma quantidade pequena de sal. Só depois de estar fria o suficiente seria incorporado o sangue. O aquecimento final vinha por fora do recipiente, numa segunda vasilha com água morna. Nada de fogo direto. Nada de levantar fervura. A receita insistia nessa diferença com uma linha sublinhada.

Éteram leu-a duas vezes.

— Calor para começar. Não calor para gastar tudo antes de beber.

Remy observava o desenho estreito.

— Como você sabe?

— Essa parte está escrita. E o peixe fazia isso.

Éteram aproximou o livro de infusões do corpo, impedindo que escorregasse de seu colo.

— Mesmo depois de morto, continuava quente. Retirei uma coisa daqui — indicou o próprio ventre —, cheia de filamentos da cor de cobre. O calor não sumiu na hora. Ainda tinha nos tecidos.

Lembrou-se de Apari aproximando o rosto da pedra.

Mesmo morto?

— Se o sangue também carrega parte disso, pode ser o que a receita está tentando aproveitar — continuou. — Só que, no peixe, tudo já está no lugar certo. Aqui estão tentando guardar num frasco e fazer funcionar depois.

Remy apoiou o cotovelo sobre o joelho.

— Então não precisa ser mago para preparar?

Éteram examinou novamente as instruções.

— Não encontrei nenhuma parte mandando tirar magia de você. Só do sangue. Mas preciso terminar de ler antes de afirmar.

A receita previa uma mudança de cor. A mistura vermelha deveria perder a aparência de sangue diluído e adquirir um tom de âmbar escuro, avermelhado quando observado contra a luz. Uma opacidade fina se manteria suspensa no líquido, sem descer rapidamente para o fundo. Quando o preparo alcançasse esse estado, o recipiente deveria ser retirado do aquecimento e resfriado para interromper o processo.

Éteram observou o desenho do frasco. Havia indicações para deixá-lo protegido da luz e do calor. O líquido não continuaria útil indefinidamente. O prazo dependia da condição do sangue e da qualidade do preparo, e o texto apresentava sinais pelos quais reconhecer uma poção que perdera estabilidade. Ele apontou uma nota.

— Se continuar quente dentro do frasco, alguma coisa deu errado. Está gastando ali o que devia usar depois.

Remy se inclinou para ver, embora o texto permanecesse indecifrável para ele.

— E depois de beber?

Éteram leu a descrição do efeito.

O calor começaria no tronco e alcançaria gradualmente as extremidades. Não se tratava de fazer a boca arder nem de provocar suor: a reserva deveria ser liberada aos poucos, enquanto durasse o Magi incorporado ao preparo. O sangue do ardélio fornecia essa reserva. Os outros componentes permitiam preparar, distribuir e limitar a reação fora do corpo do peixe.

Tudo era descrito com palavras secas, mas Éteram não conseguiu ler sem imaginar Apari durante o inverno. Os dedos endurecidos ao segurar o balde. A ponta do nariz avermelhada. O modo como escondia as mãos sob o cobertor depois de fingir que não estava com tanto frio. Uma pequena porção daquilo teria mudado algumas noites. Lembrou-se do preço do peixe. O pensamento perdeu parte do encanto.

— Não dura para sempre — disse.

Remy assentiu.

— Quanto?

— Depende da força do sangue. O texto usa essa expressão, mas não explica aqui como medir. Depende também de quanto conseguiu conservar no preparo. Não vou inventar uma duração só porque tem espaço na pergunta.

O rapaz soltou uma risada breve. Éteram manteve o dedo sobre as palavras força do sangue. Continuou até a última nota. Acrescentar mais mel não criava uma reserva nova. Aquecer a poção repetidamente não a recarregava. Uma mistura gasta exigia outro preparo e outra fonte de Magi. Doses maiores também não significavam simplesmente um efeito mais longo; havia um limite de calor que o corpo podia receber sem sofrer.

— Aqui manda tomar pouco — resumiu. — Não beber o frasco inteiro porque ainda está sentindo frio.

Remy observou o pergaminho por alguns instantes.

— É tudo coisa de cozinha.

— Quase tudo.

Éteram indicou o sangue.

— Esse pedaço custa caro justamente porque faz uma coisa que as outras não fazem.

O rapaz permaneceu quieto.

Éteram tornou à parte do sal. Conhecia seu uso na comida e na conservação. Ali, a nota atribuía à pequena quantidade uma função no controle da mistura, mas distinguia o sal usado na base dos minerais especializados citados numa referência lateral. Sal de cozinha não se transformava em material alquímico raro apenas por receber um nome importante.

Isso o deixou um pouco mais tranquilo. Também encontrou proporções, sinais de preparo e abreviações cuja leitura não resolvia o significado. Uma indicação remetia a uma explicação que não estava naquela folha. A margem junto ao desenho mostrava três marcas e uma palavra curta que reconheceu como uma medida, mas não sabia converter para as canecas que utilizava. Leu novamente o começo. Agora via menos uma receita ruim e mais uma receita que não sabia cozinhar.

A diferença o incomodou o suficiente para querer continuar.

— Tem papel? — perguntou Remy, percebendo que ele procurava alguma coisa entre os objetos no colo.

Éteram retirou as folhas que trouxera da biblioteca.

— Tenho.

A primeira se abriu com o nome de Apari escrito várias vezes. Algumas letras grandes, outras inclinadas. Remy baixou os olhos, mas Éteram dobrou a folha antes que pudesse examiná-la. Escolheu outra. Colocou o livro de infusões entre o papel e a pedra, protegendo a capa com o pano. Abriu o frasco de tinta e conferiu a ponta de escrita. Remy segurou o pergaminho numa posição mais confortável. Éteram começou pelo nome do preparo.

Copiou os ingredientes um a um. Ao lado do sangue, acrescentou ardélio — brasa-do-gelo, porque conhecia os dois nomes e não queria esquecer que se tratava do mesmo animal. Separou a preparação do vinagre e da casca, a mistura da base e o momento em que o sangue seria incorporado. Remy tentou interromper na terceira linha. Éteram ergueu um dedo. Terminou a palavra antes de olhar para ele.

— Se eu errar aqui, você pode preparar errado depois. Espera.

O rapaz fechou a boca. Éteram retomou o trabalho.

Copiou as proporções como estavam, sem converter o que ainda não compreendia. Desenhou o recipiente, reproduziu as três marcas e anotou a referência incompleta com um sinal ao lado. Depois escreveu, numa coluna separada, as dúvidas: o que significava a medida; como reconhecer a força do sangue; quanto tempo podia permanecer guardado; qual era exatamente o estado que a mistura deveria alcançar antes de ser retirada da água morna.

Não colocou suas suposições entre as instruções. Remy acompanhava o movimento da mão, olhando de vez em quando para o próprio pergaminho. Parecia incomodado com a facilidade com que palavras apareciam numa folha comum enquanto continuavam escondidas dele no original.

— Essa cópia eu vou conseguir ler?

Éteram levantou o papel, deixando a tinta secar.

— Vai. Aqui sou eu escrevendo.

Remy aproximou os olhos da primeira linha. Seus lábios se moveram, acompanhando o título. Leu. A satisfação em seu rosto foi tão imediata que Éteram reconheceu alguma coisa. Apari, na rua, apontando para um A. A expressão era diferente, mas o alívio de finalmente encontrar uma passagem estava ali. Baixou o papel outra vez.

— Só não confunde conseguir ler com estar pronto para fazer.

Remy assentiu.

— Você acha que consegue entender o resto?

Éteram olhou para o livro que servia de apoio. Entre aquelas páginas havia explicações sobre infusões, repouso, filtragem, conservação e cuidados no aquecimento. Não ensinavam a trabalhar o sangue de um peixe mágico. Mas talvez ajudassem a separar o que já conhecia daquilo que precisaria procurar em outro lugar.

Havia também descrições de criaturas na biblioteca. Relatos sobre o ardélio que ignorara depois de descobrir que não traziam instruções culinárias. Agora começava a suspeitar que teria encontrado outras coisas úteis se não houvesse passado diretamente às páginas sobre carne. Éteram olhou para a entrada do recuo. O homem de azul mandara que chamasse o guarda se os rapazes voltassem. Remy continuava esperando.

— Posso estudar — respondeu Éteram.

Remy aceitou a resposta e aproximou a moeda de prata. Éteram a recolheu e guardou no bolso. Em seguida, tornou a conferir a cópia, acompanhando cada linha do pergaminho. Verificou principalmente os trechos que mandavam esperar, resfriar e não aquecer de novo. Era fácil ignorar uma espera quando se estava com fome. Imaginou que, com magia, a pressa encontrasse maneiras piores de cobrar.

Quando terminou, deixou o papel aberto sobre o pano até a tinta perder o brilho. A rua começava a escurecer. Em casa, Apari provavelmente examinava a panela, decidindo se conseguiria terminar a refeição antes que ele chegasse ou se era melhor esperar para reclamar. Éteram precisava voltar. Remy começou a enrolar o pergaminho.

— Onde encontramos você?

Éteram protegeu as anotações entre as folhas limpas e as guardou junto ao livro de chás. Separou a folha de Apari para que a tinta recente não alcançasse suas letras. Só depois se levantou.

— Na biblioteca, antes de eu sair. Sem me cercar no caminho.

Remy assentiu.

— Amanhã?

Éteram pensou nas estantes que precisaria consultar, nas medidas que não conhecia e na palavra retenção, que conseguia ler perfeitamente sem ainda saber o que exigia de um cozinheiro. Reuniu os livros e apertou o embrulho contra o corpo.

— Em dois dias — respondeu. — Procurem por mim em dois dias. Vou estudar isso com calma.


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