Nos primeiros dias daquele segundo mês, descobriram que trabalhar juntos não significava necessariamente concordar. Apari queria observar o estabelecimento durante pelo menos uma tarde inteira. Éteram considerava aquilo um desperdício de tempo. Ela argumentava que conhecer os horários diminuiria os riscos.
Ele argumentava que ficariam com fome antes de descobrir qualquer coisa útil. No fim, passaram quase três horas escondidos numa passagem lateral, observando o movimento dos comerciantes. Apari estava agachada sobre um pedaço de madeira. Éteram permanecia encostado na parede, tentando recuperar a sensibilidade dos dedos.
A neve se acumulava lentamente sobre seus ombros. O estabelecimento ocupava a esquina entre uma rua comercial e uma passagem que conduzia ao porto. Na frente, os compradores entravam por uma porta larga, protegida por um toldo. Nos fundos, uma segunda entrada permitia que as mercadorias fossem descarregadas diretamente das carroças. Era aquela que lhes interessava. Apari acompanhava a movimentação dos funcionários havia tanto tempo que Éteram começara a suspeitar que ela pretendia morrer naquele beco.
— Aquele homem entrou duas vezes — comentou ela.
Éteram acompanhou seu olhar.
— Ele trabalha ali.
— Eu sei.
— Então vai entrar mais vezes.
Apari o encarou.
— Estou contando quanto tempo demora.
— Por quê?
Ela apontou para uma carroça estacionada perto do depósito.
— Quando ele descarrega, deixa a porta aberta. Só que sempre tem outro lá dentro.
Éteram olhou novamente. Havia, de fato, um segundo homem transportando caixas.
— Então esperamos os dois saírem.
Apari balançou a cabeça.
— Não saem juntos.
— Como sabe?
— Porque estamos aqui há três horas, idiota!
Éteram abriu a boca. Depois olhou para o céu. Uma camada espessa de nuvens escondia completamente o sol. A luz permanecia praticamente igual desde que haviam chegado. Voltou a encará-la.
— Três horas?
— É.
— Como você sabe?
Apari pareceu sinceramente ofendida.
— Eu sei contar!
— Não foi isso que perguntei.
Ela o observou durante alguns segundos. Depois sorriu. Enfiou a mão por baixo do casaco e retirou um pequeno objeto preso a uma corrente. Era um relógio de bolso. Éteram se aproximou imediatamente. A peça possuía uma caixa de metal trabalhada, embora parte do acabamento estivesse arranhada. O vidro apresentava uma pequena rachadura, e a corrente havia sido amarrada com um pedaço de linha próximo à extremidade. Os ponteiros continuavam funcionando. Éteram ficou olhando.
— Onde conseguiu isso?
Apari examinou o relógio.
— Encontrei.
Ele ergueu os olhos. Ela sustentou uma expressão perfeitamente inocente.
— No bolso de alguém? — perguntou ele.
Apari sorriu.
— Talvez.
Éteram pegou delicadamente o objeto quando ela o ofereceu. Aproximou-o do ouvido. O mecanismo produzia pequenos estalos regulares.
— Funciona!
— Não roubaria um quebrado.
Ele examinou os números. Depois olhou novamente para Apari.
— Você sabe ler as horas?
Ela arrancou o relógio de suas mãos.
— Você quer continuar fazendo perguntas idiotas ou quer comer alguma coisa que não seja batata?
Éteram ergueu as mãos.
— Tá!
Apari guardou o objeto por dentro do casaco, protegendo-o do frio.
— E não fica olhando para ele. É meu.
— Eu nem pedi!
— Estava pensando.
Éteram fechou a boca. Aquela mulher estava se tornando perigosamente boa em reconhecer suas intenções.
Continuaram observando. O tempo não foi inteiramente desperdiçado. A passagem ficava próxima o suficiente para que conseguissem ouvir as conversas de quem descarregava as mercadorias. O primeiro assunto importante surgiu quando um dos funcionários reclamou do peso de uma caixa.
— Se esse infeliz trouxer mais uma encomenda dessas, vou cobrar o dobro!
O outro soltou uma gargalhada.
— Reclama com o patrão. Foi ele que quis as tainhas da defumaria do norte.
Éteram levantou imediatamente a cabeça. Tainhas. Apari percebeu.
— O quê?
Ele apontou discretamente para o depósito.
— É aquilo que eu quero.
Ela olhou novamente para os funcionários.
— Peixe?
Éteram assentiu.
— Defumado.
Apari fez uma careta.
— Parece salgado.
— Porque é conservado com sal.
Ela o encarou.
— Então por que você quer?
Éteram suspirou.
— Porque dá para preparar outras coisas com ele.
Ela continuou olhando. Ele se aproximou de seu ouvido.
— Deixa de molho, tira parte do sal, cozinha com as raízes e faz um caldo com a gordura.
Apari pareceu considerar a explicação.
— Fica bom?
Éteram abriu um pequeno sorriso.
— Muito.
Ela voltou a observar o depósito.
— Então vamos roubar dois.
— Um.
Apari se virou, indignada.
— Você está ficando covarde?
— Você quer conseguir carregar dois peixes grandes enquanto corre?
Ela ficou quieta por um instante.
— Você carrega.
Éteram fechou os olhos. Antes que pudesse responder, outra conversa chamou sua atenção. Dois comerciantes haviam parado diante da carroça. Um deles carregava um recipiente grande, protegido por tiras de couro. O outro gesticulava na direção do porto.
— Estão cobrando uma fortuna por qualquer peixe vivo — reclamou o primeiro.
— Espera até chegar a temporada dos ardélios.
Éteram ergueu a cabeça novamente. Apari percebeu.
— Agora o quê?
Ele levou um dedo aos lábios. O comerciante continuou:
— Dizem que pegaram três perto da costa congelada.
— Três? Quem foi o maluco que saiu pescando naquela região?
— Os irmãos da embarcação vermelha.
O outro homem soltou uma risada.
— Então alguém vai ficar rico.
— Se conseguirem vender antes que morram.
O primeiro comerciante pareceu concordar.
— Aquele peixe é uma desgraça. Vivo, você tem que alimentar e manter dentro de uma tina. Morto, precisa enterrar numa montanha de gelo.
— E o gelo derrete!
— Pois é. A porcaria continua quente!
Os dois riram. Éteram, entretanto, havia deixado de prestar atenção ao humor da conversa. Ardélios. Fazia muito tempo que não via um. Lembrava-se do sabor. Da gordura. Da maneira como a carne praticamente se desfazia quando preparada corretamente. Será que realmente capturaram três? Apari cutucou seu braço.
— Éteram.
Ele se virou.
— Hm?
— Para de olhar com essa cara.
— Que cara?
Ela apontou para o depósito.
— A cara que você faz quando encontra alguma coisa que quer roubar.
Éteram tentou parecer inocente. Apari suspirou.
— Principalmente quando é comida.
Ele voltou a observar os comerciantes. A informação ficou guardada em algum lugar de sua cabeça. Por enquanto, havia problemas mais imediatos.
Pouco depois, um terceiro funcionário apareceu carregando um pequeno caixote. Colocou-o sobre a carroça e começou a discutir com os outros dois.
— O patrão quer tudo separado! O peixe vai para dentro, a gordura fica no depósito menor e os temperos não podem ficar perto das carnes!
Um dos homens resmungou.
— Ele também quer que a gente trabalhe por três pessoas?
— Reclama com ele!
Apari acompanhou a conversa com evidente interesse. Éteram apontou discretamente para a segunda entrada.
— A gordura fica ali.
Ela observou a porta menor.
— E o peixe?
— No depósito principal.
Apari retirou novamente o relógio. Examinou os ponteiros. Depois olhou para os trabalhadores.
— Quando a carroça terminar, eles vão ter que organizar tudo.
Éteram assentiu.
— E um deles vai ficar sozinho.
— Talvez.
Ela voltou a guardar o objeto. Algum tempo depois, uma mulher apareceu na entrada do estabelecimento. Conversou com o segundo funcionário, recebeu uma pequena encomenda e se afastou. O homem a acompanhou até a rua. Apari cutucou Éteram.
— Agora.
Ele se endireitou.
— Agora?
— Não. Amanhã.
Saíram da passagem. A primeira tentativa terminou antes mesmo de alcançarem o depósito. O proprietário apareceu na entrada carregando uma caixa, obrigando-os a fingir que estavam apenas passando. Éteram continuou andando. Apari acompanhou seus passos. Só quando dobraram a esquina ela falou:
— Você anda estranho quando tenta parecer inocente.
Ele olhou para ela.
— Como assim?
Apari esticou os ombros, levantou exageradamente o queixo e começou a caminhar com os braços rígidos. Éteram ficou indignado.
— Eu não ando assim!
Ela continuou.
— Olhem para mim! Sou uma pessoa perfeitamente honesta passando casualmente por este estabelecimento!
— Para!
Algumas pessoas olharam na direção deles. Apari começou a rir. Éteram agarrou sua manga e a arrastou para outra rua.
— Você quer que prendam a gente?
— Você que está me sequestrando!
Ele a soltou imediatamente. Apari riu ainda mais. Voltaram ao abrigo sem nada além de neve nas roupas e informações suficientes para tentar novamente. Éteram considerou a tarde um fracasso. Apari discordou.
— Não fomos pegos.
— Também não conseguimos comida.
— Então estamos vivos e famintos.
Ela pegou uma batata.
— Como sempre.
Voltaram dois dias depois. Dessa vez, não precisaram esperar três horas. Apari consultou o relógio antes de saírem e insistiu para que chegassem pouco antes do horário em que os funcionários costumavam descarregar a última carroça.
Éteram ainda não havia decidido se estava impressionado com a utilidade do objeto ou indignado por não ter pensado em roubar um antes. O movimento estava mais intenso do que na visita anterior. Uma carroça carregada de mercadorias permanecia diante do depósito, enquanto dois homens discutiam sobre o desaparecimento de parte de uma encomenda. Apari observou a situação com evidente interesse.
— Estão brigando.
— Eu percebi.
— Estão distraídos.
Éteram examinou a carroça. Havia sacos de farinha, recipientes de gordura e algumas caixas de madeira. Uma delas estava parcialmente aberta. O cheiro familiar de peixe defumado escapava do depósito. Éteram sentiu o estômago protestar. Apari apontou para a entrada.
— Lá dentro tem mais.
— E lá dentro tem gente.
Ela se aproximou de seu ouvido.
— Então vamos fazer com que saiam.
Éteram se virou.
— Como?
Apari olhou para uma pilha de caixas vazias. Depois para ele. Seu sorriso deveria ter servido de aviso. Alguns minutos depois, um estrondo atravessou a rua. As caixas desabaram perto da entrada do estabelecimento, espalhando pedaços de madeira sobre a neve. Um dos funcionários saiu imediatamente. O outro o acompanhou, praguejando contra a desordem. Apari já havia desaparecido entre as pessoas. Éteram aproveitou a confusão para entrar pelos fundos.
O depósito estava muito mais quente do que a rua. Cheirava a madeira seca, carne conservada, especiarias e peixe defumado. As paredes eram ocupadas por prateleiras, enquanto diferentes sacos e recipientes se acumulavam sobre o chão. Éteram foi diretamente até os pescados.
As tainhas pendiam de uma estrutura de madeira, presas pelas caudas. A pele havia adquirido uma tonalidade dourada e escura durante a defumação, enquanto a carne conservava um aroma intenso. Examinou os exemplares. Escolheu um dos menores. Era suficientemente grande para render várias refeições, mas pequeno o bastante para ser escondido sob seu casaco.
Retirou-o cuidadosamente. Depois procurou a gordura. Encontrou o recipiente indicado pelos trabalhadores no pequeno depósito lateral. Não havia necessidade de levar tudo. Transferiu uma porção para um pote menor, que encontrou numa das prateleiras. Agora os temperos.
Atravessou novamente o depósito. Os recipientes estavam organizados sobre uma bancada. Havia sal grosso, ervas secas e pequenas frutas conservadas numa mistura ácida. Éteram examinou as frutas. Conhecia aquele cheiro. Eram utilizadas pelos cozinheiros do porto para equilibrar a gordura dos pescados mais fortes. Pegou duas. Depois separou algumas ervas.
Com aquilo, conseguiria preparar um caldo espesso, utilizando a carne da tainha e as raízes que ainda possuíam. Talvez até sobrasse alguma coisa para uma segunda refeição. A ideia o deixou satisfeito. Estava procurando uma maneira de acomodar tudo quando seus olhos encontraram uma concha de metal pendurada perto da bancada.
O utensílio possuía um cabo comprido, uma pequena deformação na borda e uma profundidade perfeita para recolher caldo sem desperdiçá-lo. Éteram parou. Examinou a concha. Olhou para a porta. Depois voltou a observá-la. Com isso eu conseguiria preparar o molho sem derramar metade na chapa. Sua colher improvisada não servia adequadamente para aquela tarefa. Também estava torta. A concha parecia praticamente uma dádiva. Só mais uma coisa.
Retirou-a do suporte e escondeu-a sob o casaco. Foi nesse momento que ouviu alguém entrando. Éteram congelou.
— Ei!
O homem olhou diretamente para ele. Depois para o peixe que aparecia parcialmente sob sua roupa.
— SEU LADRÃO!
Éteram correu. Atravessou a porta dos fundos quase derrubando o recipiente de gordura. Quando alcançou o beco, encontrou Apari esperando junto à parede. Ela olhou para sua expressão. Depois para o homem que aparecia atrás dele.
— Você fez alguma coisa estúpida?
— Depois eu explico!
Apari agarrou sua mão. Correram.
A neve acumulada nas ruas dificultava cada passo. Éteram tentava impedir que a gordura escapasse de seu recipiente enquanto acompanhava Apari por caminhos que não conhecia. A concha escondida sob o casaco batia contra sua perna, ameaçando cair a cada movimento. Atrás deles, o comerciante gritava por ajuda. Outras vozes se juntaram à primeira.
Apari virou uma esquina. Éteram a acompanhou. Encontraram uma rua estreita. Depois outra. Passaram por uma pequena praça e atravessaram uma passagem parcialmente coberta pela neve. Por alguns instantes, pareceu que conseguiriam escapar. Então ouviram passos à frente. Apari parou tão repentinamente que Éteram quase esbarrou nela. Dois homens caminhavam em sua direção. Um deles carregava um bastão. Ela olhou para trás. Os perseguidores ainda estavam próximos.
— Droga.
Éteram examinou a rua. Não havia janelas abertas. Nenhuma passagem estreita. Apenas uma construção de pedra, um monte de madeira coberto por neve e alguns barris abandonados perto da parede. Apari encontrou a solução primeiro.
— Ali.
Ela apontou para o maior barril. Estava vazio, apoiado contra a construção e parcialmente protegido por uma cobertura improvisada. Éteram observou o recipiente. Depois olhou para Apari.
— Nós dois?
— Você prefere conversar com aqueles homens?
Ele não respondeu. Apari retirou a tampa. Entrou primeiro. Éteram tentou acompanhá-la. Descobriu imediatamente que o espaço era ainda menor do que parecera do lado de fora.
— Não cabe!
— Cabe!
— Meu pé está preso!
— Então tira de cima do meu!
Ele conseguiu entrar. Apari puxou a tampa. O mundo desapareceu atrás de uma escuridão atravessada por pequenas linhas de luz. O barril cheirava a madeira úmida e alguma coisa fermentada que nenhum dos dois conseguiu identificar. Éteram tentou se acomodar. Não havia espaço.
Apari estava diante dele, com as costas pressionadas contra a parede curva do recipiente. Seus joelhos praticamente se misturavam, e o recipiente de gordura dificultava ainda mais qualquer movimento. A concha escorregou de dentro do casaco dele. Apari conseguiu segurá-la antes que atingisse o fundo do barril. Olhou para o utensílio. Depois para Éteram. Ele abriu um pequeno sorriso, satisfeito por ela ter conseguido impedir o barulho. Apari estreitou os olhos.
— Você roubou uma concha?
— É boa!
Ela permaneceu olhando.
— Você é inacreditável.
Éteram tentou recuperá-la. Apari afastou sua mão.
— Deixa comigo. Você vai derrubar.
Ele desistiu.
— Está bem.
Ela escondeu o utensílio junto ao próprio corpo. Foi quando ouviram passos.
Os dois ficaram imóveis. Uma voz surgiu do lado de fora.
— Foram por aqui?
Outra respondeu:
— Acho que entraram na rua.
A luz que atravessava as pequenas frestas do barril diminuiu por um instante. Alguém havia parado perto deles. Éteram sentiu Apari segurar sua roupa. Apertou os lábios para impedir qualquer ruído. Um dos homens chutou alguma coisa sobre a neve.
— Procura atrás da construção.
Os passos se afastaram. Apari continuou segurando o casaco dele. Éteram olhou para baixo. Depois para ela. Estavam tão próximos que conseguia distinguir as pequenas manchas de sujeira sobre suas bochechas, apesar da pouca luz. Um fio de cabelo havia escapado de seus cachos e descansava sobre a ponta do nariz. Ela soprou, tentando afastá-lo. Não conseguiu.
Éteram quase riu. Apari estreitou os olhos.
— Nem pensa.
Ele fechou a boca. Continuaram esperando. O silêncio se prolongou. Lá fora, alguém chamou pelo comerciante. Apari ergueu discretamente a cabeça, tentando ouvir melhor. Seu nariz quase tocou o dele. Éteram recuou por instinto. Bateu a cabeça na madeira. O barril produziu um ruído seco. Apari arregalou os olhos. Segurou o rosto dele com as duas mãos, impedindo que se movesse novamente.
— Fica quieto!
Éteram assentiu. Ela não o soltou. O rosto dela permanecia absurdamente próximo. Ele conseguia sentir a respiração de Apari sobre a própria bochecha. Por algum motivo, aquilo se tornou muito mais difícil de ignorar do que os homens que ainda os procuravam. Apari também pareceu perceber. Seu olhar desceu brevemente. Voltou aos olhos dele. Éteram ficou imóvel.
Não sabia o que fazer. Na verdade, sequer sabia exatamente o que estava acontecendo. Apari o observou durante mais alguns segundos. Então se aproximou. E o beijou.
O primeiro pensamento de Éteram foi que alguma coisa havia dado terrivelmente errado. O segundo foi que não deveria estar pensando. O terceiro não chegou a se formar. Apari se afastou. Ele continuou imóvel. Os olhos abertos. Os ombros rígidos. As mãos permaneciam exatamente onde estavam antes. Apari ficou olhando para ele. Uma pequena ruga apareceu entre suas sobrancelhas.
— Éteram?
Ele piscou.
— Hm?
— Você está vivo?
— Estou.
— Então por que ficou parado?
Éteram abriu a boca. Não encontrou nenhuma resposta satisfatória. Apari o encarou.
— Você está brincando comigo?
— Não!
Ela olhou para os olhos dele. Depois para sua boca. Finalmente pareceu compreender.
— Você não sabe beijar.
Éteram sentiu o rosto esquentar.
— Eu…
Apari aguardou.
— Nunca precisei saber!
Ela levou uma das mãos à testa.
— Você ficou parecendo uma estátua!
— Você me pegou de surpresa!
— Eu percebi!
Éteram tentou se afastar. Bateu novamente na madeira. Apari segurou sua roupa antes que produzisse outro barulho.
— Para de tentar atravessar o barril!
— Então o que você quer que eu faça?
Ela ficou em silêncio. Observou-o durante alguns instantes. Um pequeno sorriso começou a aparecer. Éteram desconfiou imediatamente.
— O quê?
— Nada.
— Apari.
— Acho que vou ter que ensinar.
Ele arregalou os olhos.
— Aqui?
Ela inclinou a cabeça.
— Prefere fazer isso na frente do comerciante?
Éteram olhou para a tampa. Os passos ainda podiam ser ouvidos ao longe. Voltou a olhar para Apari.
— Você está falando sério?
Ela cruzou os braços como conseguiu.
— Não vou beijar uma parede duas vezes.
Éteram ficou vermelho até as orelhas.
— Eu não sabia!
Apari tentou conter uma risada. Não conseguiu completamente.
— Tá. Escuta.
Ela voltou a segurar o rosto dele. Dessa vez, Éteram não se afastou.
— Primeiro, relaxa.
Ele tentou soltar os ombros. Apari observou.
— Você parece alguém esperando uma execução.
— Está ajudando muito falar isso.
Ela sorriu.
— Então fecha os olhos.
Éteram obedeceu imediatamente. Apari ficou olhando.
— Não precisa apertar!
Ele abriu os olhos outra vez.
— Você reclama demais!
— E você é difícil demais!
Por alguns segundos, permaneceram se encarando. Depois começaram a rir. Precisaram interromper a risada quando ouviram outra voz do lado de fora. Éteram cobriu a boca. Apari aproximou o ouvido da madeira. Os passos passaram novamente. Aparentemente, os homens estavam desistindo. Esperaram até que as vozes se afastassem. Apari voltou a olhar para ele.
— Vamos tentar de novo?
Éteram hesitou. Dessa vez, entretanto, foi ele quem se aproximou um pouco. Apari sorriu.
— Melhor.
Ela o beijou novamente. Éteram fechou os olhos. Continuou desajeitado, mas dessa vez não ficou esperando que ela descobrisse sozinha o que fazer. Quando se afastaram, Apari examinou sua expressão. Ele abriu os olhos lentamente. Ela ergueu uma sobrancelha.
— E aí?
Éteram demorou a responder.
— Acho que entendi.
Apari sorriu.
— Acho que não.
Ele franziu a testa.
— Por quê?
— Porque você ainda está fazendo essa cara.
Éteram tentou encontrar alguma expressão que considerasse mais apropriada. Apari começou a rir novamente. Ele acabou acompanhando. Por alguns instantes, esqueceram completamente que estavam escondidos dentro de um barril enquanto dois homens procuravam por eles. Então Apari mudou de posição. Precisou interromper a risada.
— Éteram…
Ele ainda sorria.
— O quê?
— Tem alguma coisa me cutucando.
— Ah, é a concha — respondeu tranquilamente.
Apari ficou imóvel. Olhou para o rosto dele. Depois levantou lentamente a mão. A concha estava ali, entre seus dedos.
— Éteram…
— Hm?
Ela aproximou o utensílio dos olhos dele.
— Eu não sei por que você roubou essa porcaria…
Fez uma pausa.
— Mas ela está na minha mão.
O sorriso de Éteram desapareceu. Ele olhou para a concha. Depois para Apari. Abriu a boca. Fechou.
— E-eu…
Apari ergueu uma sobrancelha.
— Você roubou mais alguma coisa?
Éteram tentou responder. Não conseguiu. Olhou desesperadamente para a tampa do barril.
— Eu… preciso…
— Precisa do quê?
Ele ergueu a tampa de uma vez.
— SAIR!
— ÉTERAM! VÃO VER VOCÊ!
Tarde demais. Éteram saltou para fora, deu dois passos desajeitados e tropeçou na neve junto à construção. Caiu de costas num monte branco. O frio atravessou a roupa, cortando o calor que o fizera fugir do barril. Ficou encarando o céu, até ouvir a tampa se mover atrás dele.
Ergueu um pouco a cabeça. Apari espiava por cima da borda, olhando primeiro para as janelas e depois para a entrada da construção. Éteram esperou um grito vindo da rua. Nada. Ouviu apenas a respiração dela e um insulto dito entre os dentes.
— Seu desgraçado…
Ela saiu do barril e parou diante dele, ainda com a concha na mão.
— Você quer que prendam a gente?!
Ele fechou os olhos.
— Não.
— ENTÃO POR QUE SAIU CORRENDO?!
— Precisava!
Apari abriu os braços.
— PRECISAVA DE QUÊ?!
Éteram cobriu o rosto com as mãos.
— Esquece!
Ela ficou encarando-o. Depois olhou novamente para a rua. Continuava deserta. Apari suspirou.
— Levanta. Está congelando.
— Estou bem.
— Você está deitado na neve!
— Eu percebi!
Ela cruzou os braços.
— Então levanta, idiota!
Éteram permaneceu imóvel por mais alguns segundos. Finalmente, sentou-se. Seu cabelo estava cheio de neve. Apari precisou conter uma risada. Ele percebeu.
— Nem começa.
Ela apertou os lábios.
— Não falei nada.
— Está pensando!
Apari começou a rir. Éteram fechou os olhos.
— Eu te odeio.
— Também te odeio.
Ela estendeu a mão. Ele aceitou. Quando se levantou, precisou sacudir a neve que havia entrado pela gola do casaco. Apari observou o movimento. Depois olhou para a concha, que continuava segurando.
— Afinal…
Éteram ergueu a cabeça. Ela hesitou.
— O que mais você tinha roubado?
Ele ficou imóvel.
— O quê?
— Você falou que era a concha. Não era.
Éteram abriu a boca. Olhou para o chão. Depois para a neve amassada onde havia caído.
— Ah… aquilo?
Apari assentiu lentamente.
— Aquilo.
Éteram engoliu em seco.
— Caiu.
Ela franziu a testa.
— Caiu?
— Na neve.
Silêncio. Apari olhou para o monte branco atrás dele. Depois voltou a encará-lo. Éteram tentou sustentar sua expressão. Não conseguiu. Ela permaneceu quieta durante alguns instantes.
— Entendi.
Ele assentiu depressa.
— Ótimo!
Apari desviou os olhos.
— Ótimo.
Nenhum dos dois se mexeu. Então Éteram apontou para a rua.
— A gente devia ir.
— Devia.
Ele recolheu o peixe e o recipiente de gordura. Apari examinou a concha. Por um instante, pareceu prestes a dizer alguma coisa. Desistiu. Guardou o utensílio junto às outras mercadorias.
— Vamos logo.
Éteram começou a caminhar. Apari o acompanhou. Os dois mantiveram uma distância cuidadosamente calculada durante os primeiros passos. Aquela distância durou exatamente até Éteram escorregar numa placa de gelo. Apari agarrou sua manga antes que ele caísse.
— CUIDADO, IDIOTA!
Ele recuperou o equilíbrio.
— Obrigado.
Ela soltou sua roupa imediatamente.
— Não me agradece! Só presta atenção!
Éteram assentiu. Continuaram andando. Por algum motivo, nenhum dos dois mencionou novamente o barril durante o caminho de volta.
Apari caminhou boa parte do percurso em silêncio. Éteram estava acostumado a ouvi-la reclamar do frio, da distância ou de alguma estupidez dele. Agora via apenas a cabeça baixa e os cachos ruivos se movendo sobre o casaco. De vez em quando, ela olhava para trás. Ele não sabia se conferia os perseguidores ou se esperava que diminuísse a distância.
Tentou recuperar na memória o instante anterior ao beijo. Havia espaço para ficar quieta, para esperar os homens irem embora; Apari escolhera segurá-lo pelo rosto. A lembrança lhe atrapalhava as pernas. Quando ela tornou a olhar, Éteram baixou os olhos para o peixe e fingiu conferir o embrulho.
Não pedira outro beijo. Também não sabia se podia. Bastava lembrar a mão dela em sua bochecha para desejar voltar àquela escuridão apertada, onde por alguns instantes o perigo estivera do lado de fora. Tropeçou numa irregularidade da neve. Recuperou o equilíbrio, apertando a gordura e o peixe contra o corpo, e conferiu se a concha continuava inteira. Apari parou alguns passos à frente. Um sorriso apareceu e logo se escondeu atrás da gola.
— Idiota — ouviu.
Dessa vez, a palavra não o fez apressar o passo.
Quando chegaram ao abrigo, Éteram colocou os alimentos sobre o pano e abriu o embrulho do peixe. Examinou a pele dourada pela defumação, separando as partes que utilizaria numa refeição quente. Apari se sentou perto da fogueira e o acompanhou em silêncio até ele alcançar o recipiente de gordura.
— Você gostou?
Éteram quase deixou cair o recipiente de gordura. Virou-se. Apari parecia tranquila.
— Do quê?
Ela ergueu as sobrancelhas. Ele olhou para a concha.
— Da concha?
Apari atirou um pequeno pedaço de tecido nele.
— Idiota!
Éteram conseguiu desviar. Depois ficou quieto. Passou alguns instantes observando o fogo.
— Gostei.
Apari parou de sorrir. Ele continuou preparando o peixe.
— Só não sabia o que fazer.
O silêncio que veio em seguida não foi desconfortável. Apari se aproximou da chapa.
— Percebi.
Éteram olhou para ela.
— Como você sabia?
Ela demorou a compreender.
— Sabia o quê?
Ele desviou os olhos. Apari sorriu.
— Ah.
Sentou-se ao lado dele.
— Já tinha feito antes.
Éteram continuou trabalhando. Tentou parecer indiferente. Falhou.
— Com quem?
— Uma amiga.
Ele parou. Olhou para ela. Apari acompanhou sua expressão.
— O que foi?
— Nada.
Ela começou a rir.
— Você está com ciúme?
— Não!
— Parece.
— Só perguntei!
Apari estendeu as mãos para o fogo. Durante algum tempo, permaneceu observando as chamas.
— A gente praticava.
Éteram ficou quieto. Ela mexeu num pedaço de lenha com uma pequena vara.
— Era engraçado.
Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.
— Ela dizia que eu beijava como se estivesse brigando.
Éteram tentou não rir. Não conseguiu. Apari apontou a vara para ele.
— Nem começa!
Ele levantou as mãos. Ela voltou a sorrir. Depois acrescentou, com a mesma naturalidade:
— Morreu atropelada por cavalos.
Éteram parou de rir. A madeira estalou. Apari continuou mexendo nas brasas.
— Tinha um monte deles passando pela rua. Um se assustou, os outros começaram a correr e ela não conseguiu sair do caminho.
O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto. Não pareceu perceber. Éteram observou suas mãos. Ela continuava movimentando a vara entre as brasas, separando os pequenos pedaços de madeira que ainda podiam queimar.
— Foi horrível? — perguntou ele.
Apari permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Foi rápido.
Ele esperou. Ela soltou a vara.
— Para mim, pelo menos.
Éteram sentiu um desconforto que não soube explicar. Apari falava sobre aquela morte como falava sobre uma rua perigosa, um comerciante violento ou um inverno particularmente rigoroso. Alguma coisa que havia acontecido. Alguma coisa que não poderia desfazer. Éteram olhou novamente para ela.
— Você sente falta dela?
Apari ficou quieta. O fogo iluminava uma parte de seu rosto, deixando a outra escondida na penumbra.
— Às vezes.
Puxou os joelhos para perto do peito.
— Principalmente quando acontece alguma coisa engraçada.
Éteram não respondeu. Ela continuou olhando para as chamas. Depois se virou.
— Agora você sabe por que aprendi.
Ele assentiu. Apari examinou sua expressão por alguns instantes.
— Para de fazer essa cara.
— Que cara?
— Essa.
Éteram tentou mudar de expressão. Ela revirou os olhos.
— Não precisa ficar triste por mim.
Ele voltou a observar a panela.
— Não estou triste por você.
Apari ergueu uma sobrancelha. Éteram hesitou.
— Acho que estou triste por ela.
Apari ficou olhando para ele. Dessa vez, não encontrou nenhuma provocação. Voltou a estender as mãos para o fogo. O silêncio permaneceu durante algum tempo. Até que Éteram perguntou:
— Então por que ficou tão preocupada?
Apari ergueu a cabeça.
— Com o quê?
Ele olhou para ela.
— Quando saí do barril.
Apari franziu a testa.
— Porque iam encontrar você, idiota!
— Mas a gente já estava saindo.
— Não estava!
Éteram permaneceu olhando. Ela cruzou os braços.
— Você podia ter esperado!
— Você estava segurando a tampa.
— E daí?!
Ele começou a sorrir discretamente. Apari percebeu.
— O QUE FOI?!
Éteram hesitou. Depois perguntou:
— Por que você se importa tanto se me pegarem?
O sorriso desapareceu de seu rosto quando percebeu a expressão dela. Apari ficou imóvel.
— Você está brincando comigo?
— Não.
— Não?
Ela se levantou. Éteram recuou um pouco.
— Eu só perguntei!
Apari apontou para ele.
— Você acha que eu estou aqui fazendo o quê?!
Éteram abriu a boca. Fechou. Ela continuou:
— Eu venho buscar água! Ajudo a consertar essa porcaria de abrigo! Saio para roubar comida com você!
— Eu sei!
— ENTÃO POR QUE VOCÊ ACHA QUE EU NÃO ME IMPORTARIA?!
Éteram ficou imóvel. O grito dela ainda parecia preso entre as paredes. Apari respirou profundamente e desviou os olhos.
— Seu idiota…
Ele a observou durante alguns segundos.
— Então você se importa?
Ela virou o rosto imediatamente.
— NÃO FOI ISSO QUE EU DISSE!
Éteram começou a sorrir. Apari pareceu sinceramente considerar a possibilidade de acertá-lo com alguma coisa. Entretanto, sua expressão mudou quando ele se aproximou. Dessa vez, Éteram não esperou que ela tomasse toda a iniciativa. Parou diante dela. Hesitou. Apari ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
Ele continuou olhando.
— Posso?
Ela demorou um instante para compreender. Depois sorriu discretamente.
— Você ainda precisa perguntar?
Éteram se aproximou. Beijou-a. Continuou um pouco desajeitado. Apari percebeu. Naturalmente. Entretanto, dessa vez, não reclamou. Segurou sua mão e permaneceu próxima quando se afastaram. Éteram abriu os olhos. Ela estava sorrindo.
— Melhorou — comentou.
Ele soltou uma risada curta.
— Obrigado.
Apari balançou a cabeça. Depois voltou a beijá-lo. Quando finalmente se afastaram, continuaram abraçados durante algum tempo. Éteram ainda não sabia exatamente o que fazer com aquela proximidade. Apari tampouco parecia interessada em explicá-la. Entretanto, quando ele tentou se afastar para cuidar da panela, ela segurou sua roupa.
— Espera.
Ele se virou.
— O quê?
Apari olhou para ele. Depois para a fogueira.
— É diferente.
Éteram franziu a testa.
— O quê?
Ela pareceu procurar as palavras. A tarefa não lhe agradou.
— Isso.
Ele aguardou. Apari soltou um suspiro.
— Com você.
Éteram ficou quieto. Ela continuou, contrariada com a própria dificuldade:
— Eu não gosto de ficar no mesmo lugar. Nunca gostei. Não quero passar a vida inteira escondida nessa construção.
Ele assentiu lentamente.
— Eu sei.
Apari ergueu os olhos.
— Mas gosto de saber que você está aqui.
Fez uma pausa.
— Vivo.
Éteram sentiu alguma coisa apertar seu peito. Apari desviou o olhar.
— E gosto de estar perto de você.
Ele começou a sorrir. Ela apontou um dedo para seu rosto.
— Se rir, eu te mato.
Éteram imediatamente fechou a boca. Apari observou sua expressão. Tentou sustentar a própria seriedade. Não conseguiu. Acabou sorrindo também.
A comida quase queimou. Foi Apari quem percebeu primeiro.
— Éteram.
Ele continuava olhando para ela.
— Hm?
Apari apontou para a chapa. Uma pequena nuvem de fumaça começava a subir. Éteram se virou imediatamente.
— DROGA!
Ela começou a rir. Ele pegou a concha. Experimentou a nova ferramenta. Funcionava perfeitamente. Recolheu parte do caldo, acrescentou a gordura que havia reservado e misturou as ervas roubadas. Apari permaneceu observando.
— Pelo menos serviu para alguma coisa.
Éteram olhou para ela.
— Eu disse que era boa!
Ele dividiu a tainha defumada em pedaços menores e acrescentou as raízes que haviam guardado. Depois deixou tudo cozinhar lentamente no caldo. O cheiro começou a preencher o abrigo. Apari ergueu o nariz. Éteram percebeu. Sorriu. Finalmente.
Havia passado boa parte daquela tarde tentando descobrir o que fazer com Apari. Cozinhar, pelo menos, continuava sendo uma coisa que compreendia. Quando a refeição ficou pronta, serviu a melhor porção para ela. Apari recebeu o prato. Experimentou um pequeno pedaço. Mastigou. Depois olhou para ele.
— É melhor que batata.
Éteram soltou uma gargalhada.
— Grande elogio!
Ela pegou outra porção.
— Muito melhor.
Éteram permaneceu observando enquanto ela comia. Apari percebeu. Ergueu os olhos.
— Você está fazendo aquela cara de novo.
Ele começou a sorrir.
— Que cara?
Ela apontou para ele com a colher.
— Essa.
Éteram pegou o próprio prato. Não respondeu. Apari voltou a comer. Ele continuou observando pelo canto dos olhos. Era uma satisfação difícil de explicar. Ainda não sabia exatamente o que significava aquele beijo. Também não sabia o que aconteceria quando o inverno terminasse. Mas continuava sabendo perfeitamente como gostava de ouvir Apari comer alguma coisa que havia preparado. E, por enquanto, aquilo era suficiente.
Nos dias seguintes, Apari continuou buscando água, Éteram procurando comida. Ainda discutiam por cobertores e batatas, e ela não entendia por que ele insistia em recolher objetos sem saber que uso teriam. Mas agora, quando Apari se inclinava sobre a panela, Éteram perdia o fio do que ia dizer. Ao dividir o cobertor, mexia-se até encontrar um lugar para as mãos.
E quando ela o encarava durante uma conversa, ele começava a se perguntar se estava prestes a acontecer novamente. Apari percebeu. Naturalmente. Numa manhã, encontrou-o tentando recuperar uma colher caída atrás da chapa. Aproximou-se para ajudá-lo. Éteram se levantou tão depressa que bateu a cabeça na borda de ferro.
— Ai!
Apari recuou.
— O que foi isso?
Ele levou a mão à cabeça.
— Nada!
Ela olhou para a colher. Depois para ele.
— Eu ia pegar.
— Eu sei.
— Então por que pulou?
Éteram permaneceu em silêncio. Apari estreitou os olhos.
— Você está me evitando?
Ele levantou a cabeça.
— Não!
— Está.
— Não estou.
Ela se aproximou. Éteram recuou instintivamente. Apari parou. Seu sorriso desapareceu.
— Está, sim.
O sorriso dela sumira. Não havia a impaciência das discussões por comida: Apari apertava os braços contra o corpo e já não procurava seu olhar. Éteram afastou a mão da cabeça.
— Não é isso.
— Então o que é?
Ele olhou para a fogueira. Depois para ela.
— Não sei.
Apari cruzou os braços.
— Ótimo.
Virou-se. Éteram segurou discretamente sua manga. Ela parou. Não se virou imediatamente.
— Eu não sei como agir — confessou ele.
Apari olhou por cima do ombro. Éteram soltou sua roupa.
— Antes era fácil.
Ela se virou completamente.
— Fácil?
Ele gesticulou na direção do abrigo.
— A gente roubava comida. Discutia. Você pegava meu cobertor. Eu tentava impedir que você comesse todas as batatas.
Apari ergueu uma sobrancelha.
— E agora?
Éteram permaneceu imóvel. Não havia maneira de responder sem parecer um completo idiota. Apari aguardou. Ele finalmente murmurou:
— Agora eu fico pensando.
Ela olhou para ele. Depois para a colher caída atrás da chapa. Aproximou-se. Dessa vez, Éteram não recuou. Apari se inclinou o suficiente para conseguir enxergar seu rosto.
— Você pensa demais.
Ele suspirou.
— Já falaram.
Ela abriu um pequeno sorriso.
— Então para.
Éteram ergueu os olhos. Apari lhe deu um beijo rápido na bochecha. Depois se afastou e recuperou a colher.
— Pronto. Resolvido.
Ele ficou olhando para ela. Apari lhe entregou o utensílio.
— Você vai ficar aí parado de novo?
Éteram pegou a colher.
— Não.
Ela sorriu.
— Melhor.
Ao longo daquela semana, Éteram aprendeu a responder às provocações. Quando Apari perguntou se pretendia dormir abraçado à concha, disse que o utensílio pelo menos não roubava o cobertor. Ela ficou indignada.
Naquela noite, roubou o cobertor inteiro. Éteram precisou negociar metade. A discussão terminou quando ela começou a rir e lhe devolveu uma pequena parte do tecido. Ele a puxou de volta. Apari protestou. No fim, dormiram exatamente como nas noites anteriores. Apenas um pouco mais próximos. Nenhum dos dois mencionou o motivo.
Foi durante uma manhã particularmente silenciosa que Éteram percebeu outra mudança. Apari estava sentada perto da janela. Costurava uma pequena abertura na própria roupa, utilizando a agulha que costumavam dividir. A claridade atravessava o vidro danificado e encontrava cobre vivo nas voltas dos cachos ruivos. Alguns escapavam sobre sua testa; ela os afastava com o pulso para não largar a agulha. Contra o barro escuro da parede, o rosto lavado parecia ainda mais pálido. Éteram preparava a refeição e já deixara a água ferver além do necessário.
De vez em quando, olhava para ela. Apari percebeu na terceira vez.
— O que foi?
Ele voltou imediatamente para a panela.
— Nada.
Ela continuou costurando. Alguns segundos depois:
— Está olhando de novo.
Éteram suspirou.
— Você tem olhos atrás da cabeça?
— Tenho.
Ele olhou para ela. Apari manteve uma expressão absolutamente séria.
— Dois.
Éteram começou a rir. Ela sorriu discretamente e voltou ao trabalho. Pouco depois, uma corrente de ar atravessou a janela. Apari se encolheu. Éteram observou o movimento. Aproximou-se e colocou seu próprio casaco sobre os ombros dela. Apari levantou a cabeça.
— O que está fazendo?
— Você está com frio.
— Eu tenho casaco.
— Está costurando ele.
Ela examinou a peça que segurava. Depois o casaco sobre seus ombros.
— E você?
Éteram voltou para a fogueira.
— Estou perto do fogo.
Apari ficou olhando para ele. Não disse mais nada. Quando terminou o remendo, dobrou cuidadosamente o casaco emprestado e o colocou ao lado de sua caneca. Éteram o encontrou mais tarde. Havia uma pequena costura nova perto do bolso. Um buraco que nem sequer percebera. Passou o polegar sobre os pontos. Depois olhou para Apari. Ela estava dormindo.
Ele não a acordou.
Naquela noite, a neve voltou a cair com força. A cordinha mantinha a janela presa, mas o vento assobiava pela parte danificada do vidro e empurrava um pó branco para o peitoril. Acima, as tábuas que cobriam as falhas da laje estalavam sob o peso acumulado. Uma linha escura descia pelo revestimento de barro. Éteram afastou os tecidos da parede e acrescentou mais lenha à fogueira. Apari permanecia enrolada no cobertor.
— Vem logo.
Ele olhou para ela.
— O quê?
— Está entrando frio.
— Já vou.
Continuou organizando a madeira. Apari o observou.
— Você está contando os gravetos?
— Estou tentando descobrir quanto tempo vão durar.
— Amanhã encontramos mais.
Éteram olhou para a janela. A neve estava cobrindo parte da abertura.
— Talvez.
Apari acompanhou seu olhar. Ficou quieta durante alguns segundos. Depois levantou uma das pontas do cobertor.
— Então vem antes que o fogo acabe.
Éteram se aproximou. Sentou-se ao lado dela. Apari puxou o tecido sobre os dois. Durante algum tempo, permaneceram observando as chamas. Éteram se lembrou do barril. Da maneira como ela havia segurado seu rosto. Da amiga. Das palavras pronunciadas com tanta naturalidade enquanto falava sobre uma morte que ele sequer conseguia imaginar. Olhou discretamente para Apari. Ela tinha os olhos semicerrados. Parecia prestes a dormir.
— Apari?
— Hm?
Ele hesitou. Havia uma pergunta que permanecera com ele desde a conversa sobre a amiga dela. Não sabia exatamente como formulá-la.
— Vocês eram próximas?
Apari abriu os olhos. Demorou um pouco para compreender.
— É.
Éteram assentiu. Ela voltou a observar o fogo.
— Gostava.
Silêncio.
— A gente dividia comida. Às vezes dormia no mesmo lugar.
Éteram esperou. Apari mexeu no cobertor.
— Ela era engraçada.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Mais engraçada que você.
Ele fingiu indignação.
— Impossível.
— Muito mais.
Éteram sorriu. Depois ficou sério novamente.
— Você não parece triste quando fala dela.
Apari permaneceu em silêncio por algum tempo. O fogo iluminava as mãos que descansavam sobre o cobertor.
— Você queria que eu chorasse toda vez?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Ela respirou devagar.
— Então?
Éteram procurou as palavras.
— Não sei. Acho que eu ficaria triste.
Apari virou o rosto. Observou-o durante alguns segundos.
— Eu fiquei.
A resposta foi simples. Éteram não soube o que dizer. Apari puxou o cobertor um pouco mais para cima.
— Só que já passou bastante tempo.
Ele assentiu. Ela se acomodou novamente. A conversa parecia encerrada. Entretanto, quando Éteram voltou a observar as chamas, sentiu alguma coisa tocar sua mão. Olhou para baixo. Apari havia colocado os dedos sobre os dele. Não o encarava. Continuava observando o fogo como se nada tivesse acontecido. Éteram permaneceu imóvel por alguns instantes. Depois virou a mão. Entrelaçou discretamente seus dedos aos dela. Apari não se afastou. Também não comentou. Ficaram assim até que as chamas começaram a enfraquecer.
Na manhã seguinte, Éteram acordou primeiro. Apari dormia com a cabeça apoiada em seu ombro. O cobertor havia escorregado durante a noite, deixando parte dos braços dela descobertos. Ele tentou recuperar o tecido sem acordá-la. Apari resmungou. Apertou sua mão. Éteram parou. Olhou para os dedos entrelaçados.
Não se lembrava exatamente de quando haviam adormecido daquela maneira. Tampouco sabia se deveria soltar. Permaneceu imóvel durante algum tempo. Até que Apari abriu um dos olhos. Observou a mão dele. Depois olhou para seu rosto.
— Bom dia.
Éteram hesitou.
— Bom dia.
Ela permaneceu quieta. Então levantou discretamente as mãos unidas.
— Você está me prendendo.
Ele se apressou em soltá-la.
— Desculpa!
Apari começou a rir.
— Idiota.
Levantou-se, levando o cobertor consigo. Éteram observou-a caminhar até a fogueira. Só então percebeu que estava sorrindo. O sorriso desapareceu quando descobriu que ela havia roubado o cobertor novamente.
— APARI!
Ela começou a rir antes mesmo que ele terminasse de gritar.