Na terceira semana, a presença de Apari já havia alterado praticamente tudo. Éteram percebeu isso numa tarde em que voltou sozinho. Entrou no abrigo, sacudiu a neve dos ombros e colocou a comida sobre o pano. Apari não apareceu imediatamente. Ele ergueu os olhos.

Encontrou-a dormindo perto da fogueira, envolvida no cobertor que costumava roubar durante a noite. A faca estava próxima, mas já não descansava em sua mão. Éteram se aproximou do fogo e colocou mais um pedaço de lenha. Apari se mexeu, procurando uma posição mais confortável. Ele ficou olhando.

Havia roupas dela penduradas na corda que haviam instalado. O casaco remendado estava dobrado sobre uma pedra. A caneca que ela costumava utilizar permanecia ao lado da chapa de ferro. A pedra lisa continuava entre os pertences dele. O abrigo estava tão miserável quanto antes. A parede continuava torta. O teto ainda ameaçava cair.

A fumaça continuava irritando seus olhos. Entretanto, alguma coisa havia mudado. Ele demorou a reconhecer o que era. Já não procurava um lugar vazio para colocar suas coisas. Procurava um lugar que não atrapalhasse as dela. Apari abriu os olhos. Encontrou-o olhando.

— Você voltou cedo.

Éteram se virou para a comida.

— Consegui o que precisava.

Ela se sentou, ainda sonolenta.

— Ficou me olhando dormir?

— Não.

Apari olhou para ele. Éteram hesitou.

— Um pouco.

Ela fez uma careta.

— Esquisito.

— Você estava roncando.

— Eu não ronco!

— Então tinha um animal aqui dentro.

Ela apanhou uma ponta do cobertor. Éteram se afastou antes que fosse atingido.

— Trouxe comida — anunciou.

Apari interrompeu a tentativa de acertá-lo. Olhou para o embrulho.

— Quanto?

Ele mostrou. Ela se aproximou imediatamente. Éteram sorriu. Certas coisas continuavam exatamente iguais.


A neve caiu durante três dias consecutivos. Não houve manhã ensolarada nem qualquer intervalo que permitisse uma saída segura. O vento arrastava a neve acumulada nos telhados e a arremessava contra as paredes, fazendo a estrutura gemer durante a noite. O abrigo escureceu. A pequena quantidade de luz que atravessava a janela parecia incapaz de alcançar o outro lado do cômodo. Apari passou a primeira manhã enrolada no cobertor. Na segunda, perdeu a paciência.

— A parede está fazendo barulho.

Éteram examinou o trecho remendado da parede. Uma das tábuas que escoravam a pedra rachada havia se soltado.

— É o vento.

— Eu sei.

— Então?

Ela apontou.

— Vai cair.

Éteram se levantou.

— Não vai.

Apari olhou para ele.

— Já ouvimos isso antes.

Ele fingiu não escutar. Passaram boa parte da tarde reforçando o trecho danificado da parede. Apari segurava as tábuas contra a pedra enquanto Éteram tentava prendê-las nos apoios antigos. Quando seus próprios dedos começaram a ficar dormentes, pediu que trocassem de posição. A madeira estava úmida. Sob ela, o barro desfeito expunha fios de palha; enfiavam tecido nas juntas para conter o vento até conseguirem refazer a massa.

Em determinado momento, uma rajada particularmente forte atravessou a estrutura e apagou parte do fogo. Os dois olharam para as brasas. Depois para a parede. Apari suspirou.

— Estamos ferrados.

Éteram encontrou outro pedaço de madeira.

— Ainda não.

Ela ficou olhando para ele.

— Você tem algum plano?

— Tenho.

— Qual?

— Arrumar a parede.

Apari fechou os olhos.

— Um plano brilhante.

Ele lhe entregou a madeira.

— Obrigado.

Continuaram trabalhando até o fim da tarde. Quando terminaram, as tábuas de reforço cortavam a parede em linhas tortas, entre manchas de barro e tecido escuro. O remendo era feio, mas a pedra já não se movia. Apari se sentou perto da fogueira e estendeu as mãos para o calor. Éteram acomodou o restante da madeira num canto.

— Viu? — perguntou ele.

Ela olhou para a parede.

— Ainda pode cair.

— Mas não caiu.

— Por enquanto.

Ele se sentou ao lado dela.

— Você precisa reconhecer quando estou certo.

Apari ergueu os olhos.

— Você disse que não ia cair antes de começar a arrumar.

Éteram pensou por um instante.

— Mudei de opinião.

— Depois de errar.

— Melhor do que continuar errado.

Ela o encarou. Depois começou a sorrir.

— Idiota.

Éteram entregou a ela uma parte da comida.

— Come.

Ela aceitou.


Naquela noite, estavam cansados demais para continuar discutindo. Apari se acomodou perto do fogo, com os joelhos recolhidos e o cobertor sobre os ombros. Éteram permaneceu sentado ao lado dela, observando as chamas consumirem lentamente um dos últimos pedaços de lenha. Durante algum tempo, ouviram apenas o vento. Apari se aproximou. Seu ombro encostou no dele. Dessa vez, não disse que estava frio. Éteram puxou o cobertor para que cobrisse os dois. Ela se acomodou melhor. Ficaram em silêncio.

O fogo lançava sombras irregulares sobre a parede remendada. O tecido que haviam utilizado para tapar a janela balançava discretamente, mas o vento já não conseguia atravessar o abrigo com a mesma violência. Éteram olhou ao redor. Havia passado tanto tempo sozinho naquele lugar que já não conseguia se lembrar de como era conversar com alguém antes de dormir.

Agora, quando encontrava alguma coisa curiosa na rua, pensava em contar a Apari. Quando conseguia comida, calculava duas porções. Quando voltava, procurava por ela antes mesmo de retirar a neve das roupas. A percepção o surpreendeu.

— Eu gosto de quando você está aqui.

Apari virou o rosto. Éteram percebeu imediatamente o que havia dito.

— Quero dizer…

Ela continuou olhando. Ele procurou as palavras. Não encontrou nenhuma particularmente boa.

— Não desse jeito.

Apari ergueu uma sobrancelha.

— Que jeito?

Éteram ficou vermelho.

— Esquece.

Ela abriu um sorriso.

— Não. Agora eu quero saber.

— Não tem nada para saber.

— Então por que está assim?

Ele puxou o cobertor até a altura do nariz. Apari começou a rir.

— Idiota.

— Você também.

— Eu não falei nada!

— Falou demais.

Ela se aproximou um pouco mais, tentando enxergar o rosto que ele escondia.

— Você fica engraçado quando fala demais.

— Eu não falo demais.

— Fala.

— Você também.

— Eu não.

— Fala sim.

Apari cruzou os braços.

— Prova.

Éteram abriu a boca. Fechou. Pensou por alguns segundos.

— Esquece.

Apari sorriu, satisfeita.

— Sabia.

Ele desviou o olhar. O vento continuava do lado de fora. Ela permaneceu encostada nele. Éteram deixou o cobertor onde estava.


Na última semana do primeiro mês, a rotina já parecia antiga. Apari buscava água. Éteram procurava comida. Quando precisavam de alguma coisa difícil, saíam juntos. Aprenderam a reconhecer o momento de abandonar um roubo. Aprenderam a não discutir em lugares onde qualquer barulho poderia denunciá-los. Aprenderam que dividir tarefas evitava uma quantidade surpreendente de problemas. Não deixaram de discutir, evidentemente. Apari continuava reclamando quando Éteram pegava mais do que conseguia carregar.

Éteram continuava reclamando quando ela demorava demais observando alguma coisa que considerava suspeita. Entretanto, já não precisavam explicar cada decisão. Certa tarde, encontraram um saco de batatas encostado numa carroça. Nenhum comerciante parecia estar por perto. Apari olhou para a carroça. Depois para Éteram. Ele acompanhou seu olhar. Os dois se aproximaram. Apari segurou uma das extremidades do saco. Éteram pegou a outra. Tentaram levantá-lo. Era pesado demais. Apari olhou para ele.

— Você teve uma ideia ruim.

— Você também teve.

— A minha era melhor.

— Era a mesma.

Ela fez uma careta. Arrastaram o saco até o início de um beco. Éteram olhou para trás. Um homem apareceu próximo à carroça. Os dois congelaram. O homem examinou a rua. Depois olhou na direção deles. Apari apertou os dedos no tecido do saco.

— Corre.

Éteram olhou para a carga.

— Com isso?

— Você quer largar?

Ele puxou o saco. Apari o ajudou. Correram como conseguiram, alternando pequenos trechos em que carregavam a carga com outros em que praticamente a arrastavam pela neve. Quando finalmente alcançaram o abrigo, estavam exaustos. Apari caiu sentada no chão. Éteram largou o saco ao lado dela. Durante alguns segundos, ouviram apenas a própria respiração. Depois Apari começou a rir.

— Nós somos muito bons nisso.

Éteram se sentou. Olhou para o saco. Depois para ela.

— Somos.

Apari desfez o nó. As batatas se espalharam sobre o pano. Ela passou os dedos por algumas delas.

— Isso vai durar.

— Um pouco.

— O suficiente.

Éteram assentiu. Naquela noite, cozinharam mais do que precisavam. Não porque tivessem certeza de que encontrariam comida no dia seguinte. Porque, pela primeira vez em muito tempo, podiam escolher comer um pouco mais sem deixar o amanhã completamente vazio. Apari terminou a refeição e se deitou perto do fogo. Éteram permaneceu sentado, organizando o que restara.

— Está bom? — perguntou ele.

Ela abriu um dos olhos.

— Está.

— Quer mais?

Apari olhou para a comida por mais um instante. Depois estendeu a mão. Éteram lhe entregou outra batata. Ela sorriu. Ele voltou a organizar a comida.


Apari começou a roubar o cobertor. Éteram começou a esconder batatas. O primeiro hábito ela praticava durante a noite, puxando discretamente o tecido até deixá-lo praticamente descoberto. O segundo ele justificava como uma medida necessária para impedir que os dois comessem tudo antes da próxima saída. Apari não concordava com nenhuma justificativa.

Certa manhã, Éteram tentava reacender o fogo quando ouviu um ruído atrás de si. Virou-se. Apari levantara uma ponta do colchão improvisado para procurar um pano; junto à mão dela, as três batatas que escondera estavam à vista. Ela se virou devagar.

— Você está guardando comida de mim?

Ele olhou por cima do ombro. Viu as batatas.

— Estou guardando comida.

Apari levantou uma.

— É diferente?

— É.

Ela pegou outra. Éteram acompanhou o movimento.

— O que está fazendo?

— Pegando comida.

— Eu estou vendo.

— Então por que perguntou?

Ele suspirou. Apari examinou as três batatas. Pegou duas e deixou a última onde estava. Éteram apontou para ela.

— Aquela é sua.

Apari parou.

— Não quero.

— Então por que pegou duas?

Ela o encarou.

— Porque são duas.

Éteram ficou olhando. Não conseguiu encontrar uma resposta que fizesse qualquer sentido. Apari abriu um sorriso.

— Você é impossível — disse ele.

— Eu sei.

Naquela tarde, Éteram saiu para procurar lenha. Quando voltou, a terceira batata havia desaparecido. Ele encontrou Apari sentada perto do fogo, com uma expressão particularmente inocente. Olhou para o lugar onde havia escondido a comida. Depois para ela. Apari continuou observando as chamas. Éteram não perguntou.


As coisas pequenas começaram a ocupar um espaço inesperado. Uma caneca deixada perto do fogo. Um casaco pendurado para secar. Um pedaço de pão dividido sem discussão. A pedra lisa continuava junto às poucas coisas que Éteram considerava suas. A faca de Apari continuava existindo. Mas já não precisava permanecer constantemente entre os dois.

Numa das últimas tardes daquele mês, Éteram voltou mais cedo. Encontrou Apari sentada perto da fogueira, com o queixo apoiado sobre os joelhos. Estava observando as chamas consumirem lentamente um pedaço de madeira. Ele retirou a neve das roupas.

— Voltei.

Apari ergueu os olhos.

— Demorou.

Éteram parou. Olhou para a luz que ainda atravessava a janela.

— Hoje eu voltei cedo.

— Eu sei.

Ele se aproximou.

— Então por que disse isso?

Apari sustentou seu olhar por alguns segundos. Depois voltou a observar o fogo.

— Porque demorou mesmo assim.

Éteram ficou quieto. Não sabia exatamente o que responder. Sentou-se ao lado dela. Apari se aproximou um pouco. Nenhum dos dois comentou. O fogo estalou. Uma corrente de ar atravessou a pequena abertura da porta. Éteram olhou ao redor.

A parede estava remendada. A corda ainda sustentava algumas roupas úmidas. A cesta roubada permanecia num canto, e o velho fogão improvisado precisava de outra limpeza. Nada daquilo havia se tornado bonito. Nem confortável. Nem seguro. Entretanto, já não parecia o mesmo lugar. Apari estendeu as mãos para o fogo. Éteram colocou mais um pedaço de lenha.

Pela primeira vez, percebeu que havia começado a voltar para aquele abrigo por um motivo que não tinha relação com as paredes.


Naquela noite, o frio apertou. O fogo estava baixo, e o vento voltou a assobiar pelas frestas que ainda não haviam conseguido tapar. Éteram acordou quando sentiu Apari se aproximar. Ela puxou o cobertor sobre os dois e se acomodou ao lado dele. Os cabelos lhe caíram sobre o rosto, e ela os afastou com uma expressão sonolenta.

Éteram se mexeu para lhe dar mais espaço. Apari permaneceu imóvel durante alguns instantes. Depois chamou baixinho:

— Éteram…

— Hm?

Ela demorou a responder.

— Quando a neve parar…

O silêncio que veio em seguida foi diferente dos outros. Éteram abriu os olhos. Apari já estava de costas para ele, observando a pequena abertura por onde entrava a luz pálida da noite. Ele esperou. Ela não terminou a frase. Poderia ter perguntado o que queria dizer. Poderia ter lembrado que ela havia prometido ficar apenas até o fim do inverno.

Poderia até ter perguntado se estava pensando em ir embora. Não fez nenhuma dessas coisas. Limitou-se a olhar para o teto escuro, ouvindo o vento bater contra a madeira que haviam pregado juntos. Apari se mexeu novamente. Aproximou-se um pouco mais do fogo. Éteram puxou o cobertor sobre o ombro dela. Do lado de fora, a neve continuava caindo.

Havia tanto tempo que desejava o fim do inverno que não sabia muito bem o que fazer com aquela vontade repentina de prolongá-lo. Talvez mais alguns dias. Uma semana. O suficiente para consertarem outra parte da parede. Para encontrarem mais comida. Para que Apari reclamasse novamente de alguma coisa que ele havia feito.

O suficiente para voltar e encontrá-la perto do fogo mais algumas vezes. Fechou os olhos. Pela primeira vez, o inverno lhe pareceu curto demais. Na manhã seguinte, Éteram acordou com o rosto gelado e uma mecha de cabelo presa à boca. Soprou, tentou afastá-la com a língua e descobriu que o cabelo não era seu. Apari dormia praticamente em cima dele.

Uma das mãos estava fechada sobre o cobertor, enquanto a outra repousava entre os dois. Durante a noite, conseguira se apropriar de quase todo o tecido, deixando para Éteram uma faixa miserável que mal lhe cobria as pernas. Ele tentou se levantar. Não conseguiu. O braço dela estava sobre seu peito.

— Apari.

Nenhuma resposta.

— Apari.

Ela resmungou alguma coisa. Éteram puxou discretamente o cobertor. Apari apertou o tecido.

— Ladrão.

Ele parou.

— Você está dormindo?

— Estava.

— Então sai de cima de mim.

Ela abriu um dos olhos. Por alguns segundos, pareceu não compreender a situação. Depois observou o próprio braço, o cobertor e a expressão contrariada dele. Afastou-se.

— Você podia ter falado.

Éteram ficou olhando para ela.

— Eu falei!

Apari se virou, puxando o restante do cobertor.

— Não precisa gritar.

Ele abriu a boca. Desistiu. Levantou-se e foi reacender o fogo. A madeira havia absorvido umidade durante a madrugada. Precisou soprar as brasas repetidas vezes até conseguir produzir uma chama suficientemente forte para alcançar os gravetos. Atrás dele, Apari se acomodou novamente.

— Está frio.

Éteram olhou para o cobertor. Depois para as próprias pernas descobertas.

— Não me diga.

Ela escondeu um sorriso. A manhã prosseguiu sem que nenhum dos dois mencionasse a conversa da noite anterior. Éteram se lembrava perfeitamente. Quando a neve parar… A frase permanecera inacabada, mas seu significado parecia suficientemente evidente. Apari iria embora. Sempre fora essa a condição. Ainda assim, ele se pegou observando a neve através da janela enquanto preparava a primeira refeição do dia. Continuava caindo. Sentiu um alívio ridículo.

— Vai ficar olhando até ela desaparecer? — perguntou Apari.

Ele se virou.

— O quê?

Ela apontou para a panela. A água estava quase transbordando. Éteram retirou-a do fogo.

— Estava pensando.

— Percebi. É perigoso.

Ele lhe entregou uma caneca. Apari aceitou. Nenhum deles voltou a falar sobre o fim do inverno.


As batatas que haviam roubado na última semana continuavam sendo uma pequena fortuna. Éteram as distribuíra em diferentes lugares do abrigo, convencido de que assim evitariam consumir tudo de uma vez. Apari descobrira quase todos os esconderijos. O problema, agora, era encontrar alguma coisa para acompanhar as refeições. Batatas cozidas eram boas.

Batatas assadas também. Batatas amassadas, misturadas com as poucas ervas que ainda possuíam, eram melhores. Entretanto, depois de vários dias, Apari começou a demonstrar uma hostilidade crescente em relação ao alimento. Naquela tarde, Éteram colocou mais duas sobre a chapa. Ela observou.

— Batata?

— Batata.

— De novo?

— Você prefere neve?

Apari pegou uma das raízes que descansavam sobre o pano. Examinou-a.

— Acho que estou começando a odiar isso.

Éteram virou uma das batatas com cuidado.

— Ótimo. Vai sobrar mais para mim.

Ela imediatamente colocou a raiz de volta.

— Não disse que não ia comer.

— Imaginei.

Apari permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois se aproximou.

— Você não consegue fazer outra coisa?

Éteram olhou para os ingredientes espalhados diante dele.

— Com o quê?

Ela examinou o pequeno estoque. Restava um pouco de farinha, algumas ervas secas e uma quantidade lamentável de sal.

— Podemos roubar.

Ele ergueu os olhos.

— O quê?

Apari sorriu.

— Alguma coisa que não seja batata.

Éteram considerou a proposta. Havia um estabelecimento perto da região comercial que vendia carnes conservadas, pescados, gordura e pequenas quantidades de especiarias. O proprietário costumava descarregar mercadorias durante a tarde, mas mantinha os produtos de maior valor dentro de um depósito. Éteram conhecia o lugar. Não gostava dele.

O comerciante era atento demais. Entretanto, lembrava-se dos peixes defumados que vira pendurados atrás do balcão. Também se lembrava do cheiro. Na última vez em que passara por ali, estavam descarregando uma encomenda de tainhas defumadas. O aroma penetrante da carne conservada permanecera com ele durante várias ruas.

Um peixe daqueles, algumas ervas e uma quantidade razoável de gordura seriam suficientes para preparar uma refeição inteiramente diferente. Talvez até conseguisse engrossar o caldo com o restante da farinha. Olhou novamente para Apari. Ela estava esperando.

— Tem um armazém — comentou.

Apari imediatamente se interessou.

— Grande?

— O suficiente.

— Tem comida?

— Bastante.

— Então vamos.

Éteram retirou as batatas da chapa.

— Você nem sabe onde fica.

— Você sabe.

Ela lhe ofereceu um sorriso desagradável. Éteram suspirou. Já deveria ter aprendido que falar sobre comida perto de Apari era praticamente o mesmo que assumir um compromisso.


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