Éteram acordou com a certeza de que precisava encontrar um trabalho. A certeza, infelizmente, não vinha acompanhada de qualquer ideia sobre onde começar.
O abrigo ainda cheirava à carne da noite anterior. Uma das coxas permanecia guardada no canto mais frio da construção, protegida pela neve, enquanto a outra já havia sido desossada em parte e dividida em porções. Éteram pretendia aproveitar até o último pedaço. Depois do esforço necessário para conseguir aquela comida — e da surra que recebera ao apresentá-la —, desperdiçar qualquer coisa lhe parecia um insulto.
Apari estava sentada perto do fogo, mastigando um pedaço do pão que ele trouxera na véspera. Observou-o andar de um lado para o outro, examinar os próprios pertences e, finalmente, parar diante da porta.
— Vai aonde?
Éteram pegou o casaco.
— Procurar um emprego.
Ela parou de mastigar.
— Agora?
— Eu disse que ia procurar.
— Você também disse que sabia onde estava se metendo quando roubou aquelas coxas.
Ele examinou a marca que começava a aparecer em seu braço.
— Não sabia que ia apanhar depois.
Apari baixou os olhos. A brincadeira morreu antes de chegar aos lábios. Éteram percebeu e se aproximou.
— Eu vou voltar — disse. — E, se alguma coisa demorar, venho avisar. Está bom assim?
Ela assentiu.
Ele pegou a faca pequena que utilizava para cortar raízes. Apari acompanhou o movimento.
— Éteram.
— Hm?
— Vai procurar um emprego ou roubar o patrão?
Ele devolveu a faca ao lugar.
— Vocês são muito desconfiados nesta casa.
— Vocês?
Éteram apontou para ela e depois para a própria marca no braço.
Apari lhe mostrou a língua. Ele saiu antes que a discussão recomeçasse.
Descobriu, naquela manhã, que conseguir trabalho era consideravelmente mais difícil do que roubar comida.
Um comerciante precisava descarregar uma carroça. Éteram se ofereceu, mas o homem examinou seu tamanho, perguntou se ele já havia trabalhado com cargas e perdeu o interesse antes que a resposta terminasse. Outro estabelecimento procurava alguém para limpar os fundos. O proprietário afirmou que talvez precisasse de ajuda na semana seguinte e fechou a porta.
Numa padaria, Éteram tentou explicar que sabia preparar alimentos.
— O que sabe fazer? — perguntou o padeiro.
Éteram começou a enumerar pratos.
O homem interrompeu-o na terceira receita.
— Sabe fazer pão?
— Sei improvisar.
— Isso não é uma resposta.
Éteram ficou ofendido. Considerava uma resposta excelente.
Saiu com fome e sem emprego.
Durante algum tempo, caminhou sem direção definida. O vento atravessava seu casaco, e a neve acumulada nas calçadas já começava a se transformar numa mistura desagradável de água e sujeira. Teria sido mais fácil voltar ao abrigo com alguma coisa retirada discretamente de um armazém. Bastaria esperar uma distração.
Olhou para uma cesta de alimentos próxima à entrada de uma loja.
Continuou andando.
Havia feito uma promessa. Pior: Apari a levara a sério.
Foi ao atravessar outra rua que viu um aviso preso à entrada de uma biblioteca.
Parou.
O papel estava protegido por uma pequena cobertura de madeira. Algumas letras haviam perdido parte da tinta, mas ainda era possível compreender o anúncio. Procurava-se um ajudante para organizar o acervo, transportar volumes, localizar títulos e executar pequenas tarefas. Era necessário saber ler, compreender instruções escritas e reconhecer os horários de funcionamento.
Éteram releu o aviso.
Depois leu mais uma vez.
Sabia ler.
A ideia lhe pareceu tão evidente que ficou irritado por não ter pensado nela antes.
Não precisava de uma família importante para compreender aquelas palavras. Não precisava de roupas caras para reconhecer o título de um livro. E, se havia conseguido transportar duas coxas bovinas por metade da cidade, carregar alguns volumes entre estantes não deveria representar um grande problema.
Olhou através da porta.
Havia gente lá dentro.
Gente limpa.
Gente com roupas que não tinham sido remendadas seis vezes.
Éteram examinou as próprias mangas.
O entusiasmo diminuiu um pouco.
Memorizou as informações do anúncio e voltou para casa.
Apari o encontrou examinando um amontoado de tecidos que, até aquele momento, ela considerava perfeitamente inúteis.
— Conseguiu alguma coisa?
— Acho que sim.
Ela se aproximou imediatamente.
Éteram explicou o anúncio, as tarefas e o fato de que poderia aproveitar sua capacidade de leitura. Falou depressa, gesticulando, e repetiu duas vezes a parte sobre transportar livros, como se aquele requisito constituísse uma vantagem extraordinária.
Apari ouviu tudo.
Depois examinou seu casaco.
— Você vai vestido assim?
Éteram olhou para baixo.
— Estou vestido.
— Estou vendo.
— Então qual é o problema?
Ela segurou uma das mangas. A costura havia começado a se desfazer perto do cotovelo. A outra manga possuía uma mancha de gordura que resistira a todas as tentativas de limpeza.
Éteram acompanhou seu olhar.
— É uma biblioteca. Vão me contratar para ler, não para ser um enfeite.
— Melhor ainda. Você não serviria como enfeite.
— Muito obrigado.
Apari começou a separar os tecidos.
Encontrou algumas peças descartadas que havia recolhido anteriormente e escolheu as partes menos gastas. Havia material suficiente para improvisar um colete simples, desde que ninguém examinasse as costas com muita atenção.
Éteram observou-a retirar a agulha.
— O que está fazendo?
— Uma armadura.
Ele examinou o tecido.
— De pano?
— Contra a humilhação de aparecer naquele lugar com essa roupa horrível.
Éteram começou a rir.
Apari apontou a agulha para ele.
— Fica parado. Preciso medir.
Ele obedeceu. Pelo menos durante alguns instantes. Quando tentou explicar uma ideia para aproveitar a gordura da carne que ainda guardavam, Apari espetou seu dedo sem querer.
— AI!
— Eu mandei ficar parado!
— Você me furou!
— E você não para de falar de comida!
Terminaram a peça com a ajuda da pouca luz que entrava pela janela. O colete não era bonito. Um dos lados parecia ligeiramente mais comprido do que o outro, e Apari precisou esconder um remendo sob uma dobra. Mas, sobre a camisa limpa, disfarçava parte do estado lamentável de suas roupas.
Éteram experimentou-o.
Apari puxou a frente, ajeitou seus ombros e se afastou para examinar o resultado.
— Dá para enganar alguém — concluiu.
Ele abriu os braços.
— Pareço um homem importante?
— Parece alguém que roubou as roupas de um homem importante.
Éteram começou a rir.
Ela também sorriu, mas seu olhar voltou discretamente para o aviso que ele havia copiado de memória num pedaço de papel.
— Você quer mesmo isso?
Ele olhou para o colete.
Depois para o abrigo.
— Quero descobrir se sei fazer outra coisa além de roubar.
Apari se aproximou e alisou a costura junto ao ombro dele.
— Então amanhã você vai descobrir.
Na manhã seguinte, Éteram apresentou-se à biblioteca antes do horário indicado no anúncio.
Apari o acompanhou até a esquina. Recusou-se a ir mais longe, alegando que não tinha nenhuma intenção de entrar num lugar onde provavelmente mandariam que ficasse em silêncio.
— Você não consegue ficar em silêncio nem dormindo — observou Éteram.
Ela lhe deu um empurrão.
— Vai logo, antes que eu mude de ideia sobre esse colete.
Ele ajeitou a peça.
— Se me contratarem, eu volto para contar.
— E se não contratarem?
Éteram pensou durante alguns segundos.
— Volto também.
Apari pareceu satisfeita.
— Ótimo. Pelo menos aprendeu alguma coisa.
Ele atravessou a rua.
A biblioteca possuía uma entrada de pedra e janelas altas. Do lado de dentro, o cheiro de papel envelhecido, madeira encerada e poeira antiga parecia ter permanecido ali durante décadas. As estantes alcançavam alturas consideráveis. Algumas estavam protegidas por portas; outras continham pilhas de livros que aguardavam organização.
Éteram ficou olhando.
A quantidade de papel reunida naquele lugar lhe pareceu obscena. Imaginou quanto alimento seria possível comprar com o dinheiro gasto em apenas uma daquelas estantes.
Então percebeu uma mulher observando-o atrás do balcão.
Ela examinou suas botas úmidas, o colete remendado e, finalmente, seu rosto.
— Precisa de alguma coisa?
Éteram endireitou as costas.
— Vim por causa do anúncio.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Sabe ler?
Ele ficou um pouco ofendido.
— Foi assim que descobri o anúncio.
A mulher permaneceu olhando para ele.
Éteram percebeu que talvez aquela não tivesse sido a melhor resposta.
— Sei, senhora.
Ela retirou um volume de uma pequena pilha e o colocou sobre o balcão.
— Leia.
Éteram aproximou-se.
O trecho descrevia os cuidados necessários para conservar livros em ambientes úmidos. Havia algumas palavras desconhecidas, mas o sentido era suficientemente claro. Ele leu em voz alta, diminuindo o ritmo nas passagens mais difíceis, sem pular nenhuma linha.
A mulher acompanhou sua leitura.
Quando terminou, fechou o livro.
— O que acabou de ler?
Éteram franziu a testa.
— Que não adianta guardar livros num lugar fechado se ele estiver úmido. Eles vão estragar do mesmo jeito. E, se a madeira estiver úmida, também não resolve colocar os livros ali.
A mulher olhou para o volume.
— Não foram exatamente essas as palavras.
— A senhora perguntou o que eu li, não pediu para repetir.
Ela ergueu os olhos.
Éteram ficou imóvel.
Droga.
A mulher permaneceu séria por mais alguns segundos. Depois retirou três livros de uma pilha.
— Coloque estes em ordem pelo nome dos autores.
Éteram examinou as capas e as páginas iniciais. Um dos volumes estava tão gasto que precisou procurar o nome nas primeiras folhas. Demorou mais do que gostaria, mas terminou a tarefa.
Ela apontou para um relógio pendurado na parede.
— Que horas são?
Éteram examinou os ponteiros.
Respondeu.
A mulher observou o relógio por mais um instante.
— E quanto tempo falta para a próxima hora?
Ele fez a conta mentalmente e respondeu novamente.
Ela recolheu os livros.
— Sabe carregar peso?
Éteram abriu um sorriso.
— A senhora não faz ideia.
Não foi contratado imediatamente.
A mulher conduziu-o até os fundos, onde havia caixas, encadernações danificadas e uma quantidade surpreendente de poeira. Um funcionário explicou quais volumes poderiam ser movimentados, quais deveriam permanecer intocados e por que algumas pilhas precisavam de uma organização melhor.
Éteram ouviu as instruções.
Pela primeira vez naquele dia, sentiu-se inteiramente à vontade.
Havia trabalho a fazer. Bastava fazê-lo.
Transportou livros, recolocou caixas nas prateleiras indicadas e procurou não deixar marcas das botas sobre o chão. Também descobriu que os livros eram consideravelmente mais traiçoeiros do que as coxas bovinas. Pareciam leves quando segurados individualmente, mas uma pilha inteira adquiria um peso bastante desagradável.
No meio da tarde, foi chamado novamente ao balcão.
A mulher examinou o trabalho realizado.
— Pode começar amanhã, se quiser.
Éteram precisou de alguns segundos para compreender.
— Trabalhando?
Ela cruzou os braços.
— Não. Vindo passear.
Ele abriu um sorriso tão grande que a expressão dela pareceu se tornar ainda mais desconfiada.
— Quanto vou receber?
— Três moedas de bronze por semana, se fizer o serviço direito. Durante o primeiro mês, o pagamento ficará acumulado. Depois decidiremos se seu nome entra no livro de funcionários.
Éteram fez uma conta rápida.
Não era muito.
Entretanto, era alguma coisa.
— E eu preciso pagar para trabalhar aqui?
A mulher o encarou.
— O quê?
— Só estou perguntando.
— Não.
Éteram assentiu, satisfeito.
— Então volto amanhã.
Saiu da biblioteca com a sensação de que talvez tivesse acabado de realizar o roubo mais extraordinário de sua vida, sem levar absolutamente nada de ninguém.
Apari esperava perto da esquina.
Estava sentada sobre um pequeno muro, ocupada em examinar a corrente do relógio que guardava consigo. Levantou a cabeça quando Éteram apareceu.
Observou sua expressão.
— Não.
Ele abriu os braços.
— SIM!
Apari saltou do muro.
— Conseguiu?!
Éteram assentiu.
Ela agarrou suas mangas.
— Quanto?!
— Três bronzes por semana!
Apari abriu a boca.
Depois olhou para a biblioteca.
— Só isso?
Éteram parou de sorrir por um instante.
Ela percebeu.
— Não, espera. Você conseguiu um emprego!
Seu sorriso voltou.
Apari o abraçou com tanta força que ele quase perdeu o equilíbrio.
— Consegui! — repetiu Éteram, rindo contra o ombro dela.
Quando se afastaram, ele começou a explicar as tarefas, o teste de leitura, a organização dos livros e o relógio. Apari ouviu até perceber que ele pretendia descrever cada uma das caixas que carregara.
— Tudo bem! Já entendi! Você virou um homem dos livros!
Éteram endireitou o colete.
— Um homem importante dos livros.
— Que vai receber três bronzes para carregar caixas.
Ele fez uma careta.
Apari riu e segurou sua mão.
Voltaram juntos para casa.
O primeiro mês não foi particularmente confortável.
Éteram descobriu que trabalhar numa biblioteca exigia permanecer muito tempo em pé, transportar objetos que nunca deveriam cair e responder a perguntas de pessoas que, frequentemente, não sabiam o título do livro que procuravam.
Em determinado dia, passou quase uma hora procurando um volume cuja descrição consistia em um livro vermelho, mais ou menos deste tamanho. Quando finalmente o encontrou, descobriu que a capa era marrom.
Não comentou.
Aprendeu a limpar as prateleiras sem espalhar a poeira sobre os volumes, a recolocar livros nos lugares corretos e a reconhecer os funcionários que não gostavam de ser interrompidos. Descobriu também que deveria pedir autorização antes de abrir determinados armários e que alguns exemplares eram tratados com mais cuidado do que os próprios empregados.
Às vezes, ao terminar suas tarefas, conseguia observar um livro aberto por alguns instantes. Gostava particularmente dos volumes que apresentavam alimentos de outras regiões, embora quase sempre ficasse frustrado com a falta de instruções culinárias. Descrever um animal extraordinário e não explicar como prepará-lo lhe parecia uma demonstração de incompetência.
Na primeira semana, voltou para casa com as mãos doloridas.
Apari examinou suas palmas.
— Estão te fazendo carregar a biblioteca inteira?
— Acho que só metade.
Ela começou a rir.
Prepararam uma refeição simples. Enquanto comiam, Éteram contou que um homem procurara um livro sobre plantas medicinais e ficara indignado porque o volume continha plantas que ele nunca havia encontrado.
— E o que você disse? — perguntou Apari.
— Que eu também não encontrei nenhuma delas. Estavam todas desenhadas.
Ela quase derramou o caldo.
Na segunda semana, Éteram recebeu uma responsabilidade nova: conferir os títulos de uma pequena pilha antes que fossem recolocados nas estantes. Sentiu-se satisfeito ao perceber que alguém confiava em sua leitura, mas teve o cuidado de não anunciar a conquista como se houvesse sido promovido a diretor da biblioteca.
Apari fez o anúncio por ele.
— ATENÇÃO! MEU NAMORADO APRENDEU A ARRUMAR LIVROS!
Éteram tentou tapar sua boca.
Ela mordeu sua mão.
Na terceira semana, a neve começou a desaparecer das partes da rua que recebiam mais sol. Éteram saía enquanto ainda havia frio suficiente para justificar o casaco e voltava encontrando água escorrendo das bordas dos telhados. Apari começou a observar anúncios de aluguel, perguntar preços e desenhar pequenas referências dos lugares que encontrava.
Não havia pedido permissão.
Ele descobriu quando a encontrou examinando um pedaço de papel coberto de números e desenhos.
— O que é isso?
Apari protegeu o papel com o braço.
— Nada.
Éteram estreitou os olhos.
— Você está escondendo alguma coisa.
Ela sorriu.
— Agora você sabe como é.
Não explicou mais nada.
Na quarta semana, ele começou a se preocupar com o pagamento. Até então, o trabalho havia produzido cansaço, alguma satisfação e absolutamente nenhuma moeda. Apari também estava impaciente, embora disfarçasse melhor do que ele.
Continuavam conseguindo o indispensável como haviam combinado. Nada de entrar em propriedades ricas atrás de mercadorias raras. Nada de desaparecer durante um dia inteiro sem avisar. Éteram ainda sentia uma pontada de indignação toda vez que via um ingrediente extraordinário ao alcance dos olhos e fora do alcance do bolso.
Numa dessas ocasiões, parou diante de uma vitrine.
Apari percebeu.
— Não.
— Eu não disse nada!
— Sua cara disse.
Éteram suspirou e continuou andando.
Pela primeira vez, começou a imaginar quanto tempo precisaria trabalhar para comprar um daqueles ingredientes sem correr o risco de terminar pendurado na praça.
Era uma pergunta desagradável.
Mas era uma pergunta nova.
Éteram finalmente recebeu seu salário depois de um mês inteiro de trabalho.
O responsável pelo pagamento chamou-o ao final do expediente, abriu um livro grosso sobre o balcão e separou as moedas. Quatro semanas. Três bronzes por semana. Doze moedas ao todo, que o homem trocou por uma moeda de prata e duas de bronze para não precisar entregá-las individualmente.
Éteram examinou o dinheiro antes de recolhê-lo. Pela primeira vez, aquelas moedas não eram o resultado de uma fuga bem-sucedida nem precisavam ser escondidas de algum comerciante enfurecido.
Junto com elas, veio uma segunda informação: dali em diante, ele estaria oficialmente inscrito no livro de funcionários e receberia semanalmente, em vez de esperar outro mês.
Éteram ergueu a cabeça.
— Por que esperaram tanto dessa vez?
O responsável pelo pagamento deu de ombros.
— Não sabíamos se íamos gostar de você. E não gostamos de rabiscar o livro.
Éteram observou a pena que descansava ao lado do registro.
— Isso significa que gostaram de mim?
O homem conferiu as moedas restantes.
— É o que parece, não?
Éteram agradeceu. Guardou o dinheiro no lugar mais protegido que encontrou dentro do casaco e saiu da biblioteca quase saltitando.
Três moedas de bronze por semana.
Não era muito.
Para ele, entretanto, parecia uma fortuna.
Não conseguiu evitar que seus dedos procurassem o bolso repetidamente durante o caminho. A moeda de prata lhe parecia extraordinariamente pesada. Em determinado momento, chegou a tirá-la discretamente para examinar seu brilho, antes de perceber que estava fazendo exatamente aquilo que sempre considerara uma estupidez: anunciar a qualquer desconhecido que carregava alguma coisa de valor.
Guardou-a imediatamente.
Apertou o passo.
Precisava mostrar a Apari.
Ela o recebeu com um sorriso e levantou o papel que carregava consigo.
Havia números, desenhos e pequenas anotações espalhadas por toda parte. Apari o havia dobrado e desdobrado tantas vezes que algumas marcas já começavam a rasgar as bordas.
— A gente finalmente vai poder ver os preços dos lugares que anotei.
Éteram parou.
Olhou para o papel.
Depois para ela.
— Era isso que você estava escondendo?
Apari abriu um sorriso particularmente satisfeito.
— Talvez.
Ele retirou o dinheiro do bolso.
O sorriso dela aumentou.
— Quanto?
Éteram colocou a prata e os dois bronzes sobre a superfície mais plana que encontrou.
Apari se aproximou imediatamente.
— Sim, minha rosa. Mas vamos com calma, como combinamos, certo?
— Sim, sim. Anda logo!
Éteram sentou-se ao lado dela.
— Recebi um vírgula dois pratas.
Apari olhou para as moedas.
— Você recebeu uma prata e duas dessas aí.
— Foi o que eu disse. Isso só faz a vírgula andar…
Algo cutucou suas costas.
— Au! O que foi?!
Apari ainda segurava o dedo que utilizara para cutucá-lo.
— Você está falando em números de novo. Fala em palavras para eu entender!
Éteram suspirou.
— Ah… Desculpa, minha rosa. Vou explicar.
Separou a moeda de prata das duas de bronze.
— Eu recebi quatro semanas de uma vez só, tudo bem?
— Sim. Isso eu sei.
— Pois bem. Para não carregar uma sacola gorda de dinheiro, que chamaria atenção pelo tamanho e pelo som, usamos a moeda de prata depois de dez moedas de bronze. Uma prata vale dez cobres. Entende?
Apari assentiu. Pegou a moeda de prata, virou-a entre os dedos e examinou o relevo.
— Pode misturar prata e cobre numa compra normal?
— Sim. É perfeitamente normal. Nós não fazemos isso porque somos pobres. Eu mesmo nunca tinha conseguido guardar uma.
Ela devolveu a moeda.
— Agora que você falou… Nunca sobra dinheiro. A gente sempre gasta tudo e ainda falta.
— Então vamos à aula. — Éteram juntou as moedas sobre o pano. — Nosso sistema evita grandes volumes. A cada etapa, o valor aumenta. Uma prata vale dez cobres, um ouro vale dez pratas e um rei vale cem ouros.
Éteram pensou por um instante.
— Se não me engano, começamos a usar esse sistema quando um rei decidiu diminuir a espessura das moedas para produzir mais dinheiro.
Apari apontou para a moeda de prata.
— Então por que cem ouros por rei, e não dez, como nas outras?
Éteram hesitou.
— Não sei. Só sei que o rei quis assim.
Fez uma pausa. Abaixou um pouco a voz.
— O rei é tudo. Esqueceu?
Apari revirou os olhos.
— Eu não ligo para essas merdas. Não ligo para o rei. Você é meu rei.
Éteram perdeu o sorriso.
Olhou imediatamente para a porta.
Depois para a janela.
— Calma aí, rosa.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
Ele se aproximou.
— Não fala isso em voz alta. E nunca diga isso em público. A gente pode ser morto se qualquer guarda ficar sabendo. Ou se alguém inventar que ouviu alguma coisa. Nesse caso, tudo que fizemos até aqui pode rolar com nossas cabeças.
Apari fez uma careta.
— “O rei é tudo.” Entendi. Saco… Continua. Vamos ver os dinheiros para a casa.
Éteram examinou-a durante alguns instantes. Ela já estava novamente inclinada sobre o papel, como se a possibilidade de serem executados por uma frase inconveniente fosse um problema menor do que encontrar uma cozinha decente.
Ele soltou o ar e estendeu a mão.
— Deixe-me ver suas anotações.
Apari entregou o papel.
Éteram franziu a testa.
Havia números espalhados pelas bordas, desenhos de construções, pequenas referências de ruas e símbolos que ele não conseguia identificar. Alguns valores estavam circulados. Outros haviam sido riscados com tanta força que quase perfuravam a folha.
Apontou para uma figura ao lado de um número.
— O que é isso ao lado do dois?
Apari ergueu o rosto.
— É uma casa.
Éteram examinou o desenho.
— Ah.
Ela apontou com entusiasmo.
— A mais barata que encontrei! Tem cozinha e quarto. O banheiro é dividido com todo mundo que aluga o lugar. Deve ter mais umas três famílias naquela construção.
Éteram se inclinou para examinar melhor.
A casa era representada por um quadrado torto com uma abertura que, aparentemente, deveria ser uma porta. Ao lado, Apari desenhara alguma coisa que poderia ser uma árvore, uma chaminé ou um animal particularmente malformado.
— E isto?
— É onde a gente vai deixar a roupa secando.
— Parece um porco.
Apari tomou o papel de volta.
— Você que não sabe apreciar um desenho!
Éteram começou a rir.
Apontou para outro símbolo.
— Então deduzo que seja uma maçã. Uma maçã não custa cinco bronzes; deve significar comida, certo?
Apari abriu um sorriso.
— Isso aí, meu rei. Está aprendendo.
Éteram continuou olhando para o papel durante alguns segundos.
Ela não havia simplesmente anotado preços. Perguntara sobre os quartos, as condições das construções, o número de famílias que dividiam determinadas instalações e a existência de um lugar onde fosse possível cozinhar.
Ele imaginou Apari percorrendo a cidade, entrando em pátios e fazendo perguntas que provavelmente deixariam alguns proprietários bastante irritados. Imaginou-a voltando para o abrigo e desenhando aquelas pequenas casas sobre um pedaço de papel, enquanto ele reclamava do peso dos livros.
— Você é impossível — murmurou.
— O quê?
Éteram olhou para ela.
— Nada. Só… obrigado por fazer isso.
Apari sorriu.
— De nada.
Ele encostou a testa na dela por um instante.
— Agora vamos descobrir quanto tempo falta para termos nosso lugar.
Ela voltou a olhar para o papel. Seu sorriso permaneceu.
— A gente vai ter um lugar de verdade, não vai?
Éteram examinou novamente o desenho da casa.
— Vai.
Apari se aproximou.
— E aí a gente pode fazer o que quiser?
— Desde que não seja ilegal.
Ela soltou uma risada.
— Chato.
Éteram voltou a olhar para os números.
— Precisamos economizar.
— Eu sei.
— E não podemos gastar tudo só porque agora temos dinheiro.
— Eu sei!
— E também…
— Éteram.
Ele ergueu os olhos.
— Sim?
— Cala a boca e continua vendo as casas.
Ele sorriu.
— Como quiser, minha rosa.
Apari se acomodou melhor, apoiando os cotovelos sobre os joelhos enquanto Éteram tentava compreender seu sistema de anotações.
A primeira dificuldade era descobrir quais números pertenciam a cada construção. A segunda era separar o valor do aluguel de outras despesas que Apari havia descoberto durante suas visitas. Em alguns lugares, cobrava-se um pagamento inicial. Em outros, a cozinha era compartilhada e não havia espaço para guardar alimentos sem atrair a atenção dos vizinhos.
Éteram começou a fazer contas usando as moedas diante de si.
Três bronzes por semana.
Quatro semanas naquele primeiro pagamento.
Doze bronzes no total.
Separou mentalmente o valor do quarto mais barato. Depois acrescentou aquilo de que precisariam para continuar comendo. Não poderia simplesmente fingir que não existiam gastos com lenha, roupas e qualquer coisa que precisasse ser substituída durante o ano.
Refez a conta.
Apari acompanhava seu trabalho com os olhos brilhando.
— E então?
Éteram não respondeu imediatamente.
Recomeçou.
Examinou os outros quartos.
Nenhum resolveu o problema.
Seu sorriso desapareceu.
— Apari…
Ela levantou a cabeça.
— O quê?
Ele apontou para as moedas.
— Temos um problema.
Apari franziu a testa.
— Como assim?
Éteram virou o papel para que ela pudesse acompanhar.
— Se você anotou os preços corretamente, eu não ganho o suficiente para pagar o aluguel e alimentar nós dois.
Ela ficou imóvel.
— Nem naquele primeiro?
Ele apontou para o desenho da casa.
— O aluguel já leva quase tudo. O que sobra não paga a comida do mês. E ainda nem contamos as outras despesas.
Apari examinou o papel.
Depois as moedas.
Seu rosto perdeu parte do entusiasmo.
— Mas você recebeu quatro semanas hoje.
— Exatamente. — Éteram juntou as moedas. — Parece muito porque recebemos tudo de uma vez. Na semana que vem vão ser só três bronzes. E na outra também.
Ela ficou quieta.
Éteram observou a prata sobre o pano.
Uma moeda que, alguns instantes antes, lhe parecia capaz de comprar uma vida inteira.
Agora conhecia exatamente seus limites.
Apari aproximou o desenho da casa.
— Então a gente pode ter um teto de verdade ou comida, mas não os dois?
Éteram demorou a responder.
— Com esse salário, não.
O fogo estalou atrás deles. Apari passou o dedo sobre o pequeno quadrado que havia desenhado, como se pudesse aumentar a cozinha ou diminuir o aluguel esfregando o papel.
Éteram olhou para ela.
Pensou na promessa que haviam feito junto à fogueira. Em procurar uma maneira de viver sem desaparecer pelas ruas atrás de mercadorias que poderiam custar sua vida. No colete que Apari costurara. Nas manhãs passadas entre estantes e no homem que acabara de lhe entregar seu primeiro salário.
Havia conseguido exatamente o que se propusera a encontrar.
Só então descobrira que não bastava.