— Eu vou procurar um emprego.
Apari levantou a cabeça. Éteram estava observando as próprias mãos. Ela franziu a testa.
— O quê?
Ele se virou.
— Um trabalho. Honesto.
Apari permaneceu olhando. Éteram continuou:
— Assim que a neve derreter, vou procurar algum lugar que esteja contratando.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Fazendo o quê?
Ele pensou durante alguns segundos.
— Qualquer coisa.
Apari abriu a boca. Éteram prosseguiu:
— Sei carregar peso!
Ela olhou para as coxas bovinas, depois para ele.
— Percebi.
Éteram começou a sorrir.
— E sei ler!
Apari ficou quieta. Ele continuou, recuperando parte do entusiasmo:
— Isso precisa valer alguma coisa!
Olhou ao redor.
— Não tenho uma família importante. Não tenho documentos caros nem ninguém que possa falar por mim.
Examinou os próprios braços.
— Mas não pareço mais uma criança.
Apari estreitou os olhos. Éteram percebeu.
— O quê?
Ela examinou seus cabelos. Depois seu rosto.
— Depende.
Ele ficou indignado.
— APARI!
Ela começou a rir. Éteram tentou permanecer sério. Não conseguiu completamente. Apari voltou a se acomodar ao lado dele.
— Continua.
Ele assentiu.
— Posso trabalhar num armazém. Carregar mercadorias. Organizar coisas. Talvez encontre alguém precisando de uma pessoa que saiba ler.
Pensou durante alguns instantes.
— Não precisa ser um trabalho bom.
Apari ergueu os olhos. Éteram continuou:
— Só precisa pagar alguma coisa.
Apontou para o abrigo.
— Nós não pagamos para ficar aqui.
Ela acompanhou seu olhar. A parede permanecia torta. O teto ainda ameaçava cair em determinadas noites. A janela continuava permitindo que pequenas correntes de ar atravessassem o interior. Apari voltou a encará-lo. Éteram abriu os braços.
— Então tudo o que eu ganhar vai ser dinheiro que não tínhamos antes!
Ela pareceu considerar a explicação.
— E a comida?
Ele assentiu.
— Ainda vamos precisar encontrar.
Fez uma pausa.
— Mas podemos começar a comprar algumas coisas.
Apari ficou pensando. Éteram se inclinou um pouco.
— E, se economizarmos…
Ela ergueu os olhos. Ele olhou novamente para as paredes.
— Talvez consigamos sair daqui.
Apari permaneceu imóvel. Éteram continuou:
— Um quarto, pelo menos. Com uma porta que feche direito.
Ela examinou o abrigo, depois a fogueira.
— E uma cozinha?
Éteram abriu um sorriso imediatamente.
— PRINCIPALMENTE UMA COZINHA!
Apari começou a rir. Ele gesticulou.
— Imagina! Um lugar onde eu não precise cozinhar sobre uma porta velha!
Apontou para a chapa improvisada.
— Com panelas de verdade!
Apari acompanhou sua expressão. Éteram parecia sinceramente encantado com aquela possibilidade. Então ficou sério. Olhou novamente para ela.
— Mas isso só funciona se você continuar aqui.
Apari parou de sorrir. Ele hesitou.
— Comigo.
Ela permaneceu quieta. Éteram desviou os olhos.
— Se você não quiser, não faz sentido.
Apari franziu a testa.
— O quê?
Ele gesticulou na direção do abrigo.
— Tudo isso.
Ela o observou. Éteram continuou:
— Não preciso de uma casa grande. Nem de um trabalho particularmente bom.
Pensou durante alguns segundos.
— Mas, se for para melhorar nossa vida…
Olhou novamente para ela.
— Eu faço qualquer coisa.
Apari não respondeu. Éteram acrescentou:
— Não me importo de ser pisado e humilhado se isso deixar você feliz.
Ela ficou imóvel. Depois virou o rosto lentamente.
— Éteram…
Ele levantou a cabeça.
— Hm?
Apari o encarou.
— Por que caralhos eu ficaria feliz vendo você ser pisado e humilhado?!
Éteram abriu a boca. Não encontrou resposta. Ela continuou:
— Você acha que eu quero morar numa casa bonita enquanto algum desgraçado passa o dia te tratando feito um cachorro?!
Ele pensou durante alguns segundos.
— Não?
Apari fechou os olhos.
— NÃO!
Éteram começou a sorrir.
— Nem um pouquinho?
Ela abriu os olhos. Ele tentou sustentar a própria seriedade. Não conseguiu. Apari pegou a pequena almofada improvisada. Ia acertar o ombro dele quando viu a marca junto à manga. Acabou atirando-a no próprio colo.
— IDIOTA!
Éteram começou a rir. Ela tentou permanecer indignada. Também não conseguiu. Por alguns instantes, riram juntos. Apari precisou limpar o rosto novamente. Dessa vez, entretanto, estava sorrindo. Quando a risada terminou, Éteram observou-a durante alguns segundos. Depois perguntou:
— Então você vai ficar?
Apari olhou para ele. Seu sorriso diminuiu discretamente. Ela pensou. Depois respondeu:
— Quero ficar com você.
Éteram permaneceu imóvel. Apari apontou para seu rosto.
— Mas você vai precisar continuar vivo para isso!
Ele assentiu imediatamente.
— Certo!
Ela estreitou os olhos.
— Estou falando sério.
Éteram segurou delicadamente sua mão.
— Eu também.
Apari permaneceu olhando para ele. Depois apertou seus dedos. A carne estava demorando. Muito. Éteram havia preparado tudo com cuidado, mas duas coxas bovinas inteiras não eram exatamente uma refeição que pudesse terminar de cozinhar enquanto alguém colocava água para ferver. Precisou alimentar o fogo repetidamente. Virar as peças. Ajustar a distância entre a carne e as brasas. E, principalmente, impedir que Apari tentasse arrancar pedaços antes de estarem prontos. Ela estava sentada perto da fogueira. Observando.
Éteram recolheu um pouco da gordura derretida. Acrescentou algumas ervas. Misturou. O aroma se intensificou. Apari ergueu o nariz. Ele percebeu imediatamente. Sorriu.
— Está com fome?
Ela o encarou.
— Estou desde a hora em que você chegou com aquela porcaria de pão!
Éteram olhou para o alimento. Havia se esquecido completamente dele. Apari acompanhou seu olhar.
— Nem pensa.
Ele ergueu as mãos.
— Não falei nada!
Ela apontou para a costela.
— Aquilo já está pronto?
Éteram se aproximou para examinar a superfície. A gordura havia adquirido uma coloração dourada, enquanto pequenas regiões mais escuras se formavam ao redor dos ossos. Retirou uma porção com cuidado, levou-a à boca e fechou os olhos enquanto mastigava. Apari se levantou imediatamente.
— E AÍ?!
Ele continuou mastigando. Ela se aproximou.
— ÉTERAM!
Ele abriu os olhos. Sorriu.
— Está boa.
Apari ficou olhando para ele. Depois para a carne.
— Me dá.
Éteram começou a rir.
— Calma!
Ela estendeu a mão, aberta, para receber a comida. Éteram terminou de separar outra pequena porção e a colocou em sua palma. Apari experimentou. Os olhos se arregalaram, as sobrancelhas subiram, mas ela não disse nada: continuou mastigando, muito mais devagar do que costumava. Éteram começou a sorrir.
Finalmente.
Apari engoliu. Olhou para a carne. Depois para ele.
— Seu desgraçado…
Éteram soltou uma gargalhada. Ela apontou para a costela.
— ME DÁ MAIS!
Ele começou a rir ainda mais.
— ESPERA!
Apari soltou um gemido indignado. Éteram voltou para a fogueira. O molho estava quase pronto; acrescentou parte do caldo recolhido, algumas ervas e um pouco da fruta ácida. Misturou, experimentou e corrigiu o sal. Apari acompanhava o preparo sem reclamar. Ele encontrou um sorriso discreto no rosto dela e voltou ao molho, deixando que continuasse ali. Quando finalmente se sentaram para comer, a noite já estava avançada.
Éteram havia separado porções das partes mais bem assadas, incluindo uma quantidade generosa de carne próxima aos ossos, onde a gordura ajudara a preservar a maciez. O restante continuaria cozinhando lentamente. Não pretendia desperdiçar nada. Havia comida suficiente para vários dias, desde que conseguissem conservá-la adequadamente. Apari examinou o próprio prato. A carne estava coberta por uma fina camada de molho brilhante. Pequenos pedaços dourados de gordura permaneciam presos às bordas, enquanto as ervas exalavam um aroma intenso.
Apari levou uma porção à boca e fechou os olhos. Éteram interrompeu a própria refeição; quando ouviu o pequeno som satisfeito escapar da garganta dela, sorriu.
Era aquela expressão que imaginara enquanto atravessava a cidade com a carne e procurava os temperos. Queria vê-la comer devagar, sem precisar calcular quanto restaria para o dia seguinte. Mas, ao alcançar a travessa, sentiu o braço dolorido e lembrou-se dela esperando à porta. Enquanto ele procurava ervas, Apari não sabia sequer se voltaria. A colher ficou parada sobre o prato, e ele demorou a retomar a própria refeição.
Apari abriu os olhos. Encontrou-o observando.
— O quê?
Éteram sorriu.
— Nada.
Ela examinou sua expressão, depois o prato. Um pequeno sorriso apareceu.
— Está gostando de me ver comer?
Ele começou a rir.
— Você sempre pergunta isso!
Apari pegou outra porção.
— E você nunca responde!
Éteram examinou a própria refeição. Depois olhou para ela.
— Estou.
Apari parou. Ele continuou sorrindo.
— Estou gostando.
Ela permaneceu imóvel durante alguns segundos. Depois desviou os olhos.
— Idiota…
Entretanto, seu sorriso não desapareceu. Éteram voltou a comer. Por alguns instantes, permaneceram em silêncio. Apari experimentou outra porção. Depois examinou a costela. Franziu a testa.
— Éteram…
Ele ergueu os olhos.
— Hm?
Ela apontou para a carne.
— Você realmente escondeu isso dentro das calças?
Ele engasgou. Apari começou a rir. Éteram recuperou a respiração.
— ESTAVA EMBRULHADA!
Ela riu ainda mais.
— EU ESTOU COMENDO UMA COSTELA QUE SAIU DAS SUAS CALÇAS?!
Ele apontou para o tecido que havia utilizado.
— NÃO TOCOU EM NADA!
Apari precisou afastar o prato para não derramar o molho enquanto ria. Éteram permaneceu indignado.
— Foi uma operação muito complicada!
Ela limpou os olhos.
— Imagino!
Éteram tentou explicar o problema do peso. Apari voltou a rir. Ele desistiu. Continuaram comendo. Algum tempo depois, Apari apoiou o prato sobre os joelhos. Examinou Éteram. Ele estava concentrado numa pequena porção de carne que tentava separar do osso. Apari observou durante alguns segundos. Depois perguntou:
— Éteram, você é virgem?
Ele engasgou. Tossiu. Apari se endireitou imediatamente.
— EI!
Éteram tentou respirar. Conseguiu. Apontou para ela.
— O QUÊ?!
Apari inclinou a cabeça.
— Perguntei se você é virgem.
Éteram arregalou os olhos.
— POR QUE VOCÊ ESTÁ PERGUNTANDO ISSO?!
Ela pareceu sinceramente confusa.
— Porque quero saber!
Éteram olhou para a porta, depois para a janela. Finalmente, voltou a encará-la.
— POR QUÊ?!
Apari suspirou.
— Você sabe o que significa, não sabe?
Éteram permaneceu imóvel. Ela estreitou os olhos.
— Éteram…
Ele levantou uma das mãos.
— EU SEI!
Apari aguardou. Ele hesitou. Ela começou a sorrir.
— Você não sabe.
— SEI!
Apari apoiou o cotovelo sobre o joelho.
— Quando as pessoas se casam, elas transam.
Éteram ficou imóvel. Ela continuou, tranquila:
— Você nunca viu os animais na rua?
Ele abriu a boca e tornou a fechá-la.
— JÁ!
Apari ergueu uma sobrancelha.
— Então?
Éteram passou as mãos pelo rosto.
— POR QUE VOCÊ ESTÁ ME EXPLICANDO ISSO?!
Ela começou a rir.
— Porque agora somos namorados, seu idiota!
Éteram parou. Ergueu lentamente a cabeça. Apari ainda sorria. Ele permaneceu observando-a.
— Somos?
Ela interrompeu a risada. Olhou para ele.
— O quê?
Éteram hesitou.
— Namorados?
Apari ficou encarando-o. Depois franziu a testa.
— Você achou que a gente estava fazendo o quê?!
Ele abriu a boca. Não respondeu.
Por alguns instantes, ficou olhando para ela como se estivesse tentando compreender uma coisa que sempre estivera bem diante de seu nariz. Os beijos. As mãos entrelaçadas. A maneira como Apari o esperara durante todo aquele dia. E, agora, o fato de que ela acabara de chamá-lo de namorado com a mesma naturalidade com que reclamava da comida.
Éteram começou a sorrir.
— Apari…
Ela ergueu as sobrancelhas.
— O quê?
Ele se endireitou. O sorriso permaneceu, embora seu rosto já estivesse ficando vermelho.
— Você quer namorar comigo?
Apari o observou durante um instante. Depois abriu um sorriso satisfeito.
— Tarde demais. Nós já estamos namorando. Você não tem mais opinião.
Éteram arregalou os olhos. Ela se inclinou um pouco em sua direção e concluiu, séria:
— Vai ter que morrer pra fugir.
Ele ficou olhando para ela. Apari sustentou a expressão por mais alguns segundos. Então Éteram começou a rir.
— Nem se eu pedir com educação?
— Principalmente se pedir com educação.
Ela também começou a rir. Éteram permaneceu sorrindo, como se ainda estivesse tentando se acostumar com a ideia. Apari voltou a pegar o prato. Alguns segundos depois, retomou a conversa:
— Então responde.
Ele franziu a testa.
— Responder o quê?
Apari ergueu os olhos.
— Se você já ficou com outra mulher!
Éteram quase deixou o prato cair.
— APARI!
Ela começou a rir. Ele tentou encontrar uma resposta. Não conseguiu imediatamente. Apari o observou durante alguns segundos. Depois seu sorriso diminuiu.
— Não precisa ficar nervoso.
Éteram ergueu os olhos. Ela continuou:
— Só quero saber.
Ele respirou profundamente. Desviou o rosto.
— Não.
Apari inclinou a cabeça.
— Não?
Éteram apertou os lábios.
— Não.
Ela ficou observando-o. Depois sorriu discretamente.
— Entendi.
Éteram examinou sua expressão.
— O que foi?
Apari balançou a cabeça.
— Nada.
Ele estreitou os olhos.
— Você está pensando alguma coisa!
Ela começou a rir novamente.
— Estou!
— O QUÊ?!
Apari não respondeu. Aproximou-se. Éteram interrompeu imediatamente as reclamações. Ela segurou delicadamente seu queixo.
— Escuta.
Ele permaneceu imóvel. Apari olhou diretamente para seus olhos.
— Eu gosto de você.
Éteram sentiu o rosto esquentar. Ela continuou:
— Você pode até imaginar o que quiser — disse, aproximando o rosto do dele. — Mas me deitar com você como marido e mulher, só depois que a gente se casar.
Éteram assentiu tão depressa que ela começou a rir.
— EU NÃO PERGUNTEI NADA!
Éteram cobriu o rosto.
— EU SEI!
Apari afastou delicadamente suas mãos.
— Então vai ter que se contentar com isto por enquanto…
Ele olhou para ela. Apari sorriu. Aproximou-se e lhe deu um beijo. Quando se afastou, examinou seu rosto. Éteram permaneceu olhando para ela. O molho havia deixado uma pequena mancha dourada próxima ao canto de sua boca. Apari percebeu.
— Beijinho gorduroso… Gostei. É saboroso!
Antes que ele entendesse a observação, ela lhe deu uma pequena lambida no canto da boca, limpando o restinho de molho, e começou a rir da cara que ele fez. Éteram ficou vermelho. Apari começou a rir. Ele tentou recuperar a própria expressão. Não conseguiu. Ela se aproximou novamente.
— E outra coisa…
Éteram imediatamente desconfiou.
— O quê?
Apari abriu um sorriso malicioso.
— Eu sabia que aquela história da concha no barril era mentira!
Éteram congelou. Ela começou a rir. Ele abriu a boca e tornou a fechá-la. Seu rosto adquiriu uma tonalidade extraordinária.
— POR QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO ISSO AGORA?!
Apari riu ainda mais. Éteram cobriu o rosto.
— PELOS DEUSES!
Ela precisou se apoiar nele para continuar sentada. Quando finalmente conseguiu recuperar a respiração, aproximou-se de seu ouvido.
— Porque eu ainda estou chateada com você.
Éteram afastou as mãos do rosto. Olhou para ela. Apari sorriu.
— E, até a neve derreter…
Fez uma pequena pausa.
— Sua vida vai ser um inferno.
Éteram soltou um suspiro. Examinou o próprio prato. Depois a quantidade absurda de carne que ainda precisava cozinhar. Olhou novamente para Apari. Ela continuava sorrindo. Por alguns instantes, permaneceu observando-a. Então começou a sorrir também.
— Está bem.
Apari ergueu uma sobrancelha.
— Está bem?
Éteram assentiu. Pegou a concha. Apontou para a costela.
— Quer mais?
Apari abriu um sorriso ainda maior.
— Quero!
Ele se levantou. Voltou para a fogueira. Enquanto procurava a melhor porção para sua namorada, tentou imaginar a primeira refeição que prepararia com o dinheiro de um trabalho. Escolheria a carne à luz do dia. Poderia gastar o tempo que quisesse diante da banca e voltar contando a ela o que havia comprado.
O último amanhecer do inverno
As semanas passaram, e, com elas, desapareceram os últimos pedaços de carne, quase toda a lenha e a maior parte da comida.
Naquela manhã, Apari acordou antes dele. Havia um cheiro diferente entrando pelas juntas da janela: terra molhada, pedra lavada, a água suja que o degelo arrastava dos becos. Desfez o nó da cordinha e afastou uma folha. O frio tocou seu rosto. Embaixo, o teto do banheiro escorria pelas bordas; além dele, entre as pedras da rua, voltava a aparecer a terra escura. A neve tinha ido embora.
Olhou para o lugar onde Éteram dormia. Durante semanas, contara com o inverno para adiar perguntas. Agora podia chamar aquele homem de namorado, mas ainda sentiu um aperto ao ver o cobertor amontoado e a roupa que teria de vestir para sair. Havia se acostumado demais à presença dele. Aquilo lhe dava mais medo do que queria admitir.
— Éteram. Vem ver.
Ele resmungou e puxou o cobertor. Apari chamou outra vez. Quando finalmente se sentou, o tecido descobriu parte de suas costas. Ela reconheceu a pinta do lado esquerdo, atrás de onde imaginava o coração. Lembrou-se de Éteram tentando contar as sardas nas costas dela enquanto procurava a camisa; perdera a conta quando ela se virara para reclamar. Apari quase sorriu.
Ele vestiu a camisa. Os cabelos negros e lisos caíam sobre a testa, amassados de um lado. Tinha a pele mais amorenada que a dela e alguma carne nas bochechas, apesar dos braços compridos e magros. Quando se apoiava para levantar, apareciam músculos que a roupa folgada escondia. Apari sabia quanto trabalho aqueles braços aguentavam. Também sabia que ele, por alguma teimosia, continuava colocando mais comida no prato dela.
Parou à sua frente, alto o bastante para obrigá-la a erguer o rosto. Os olhos pretos ainda estavam semicerrados de sono. Havia uma sombra falha de barba junto ao queixo; o nariz mais largo e a boca pequena lhe davam um ar sério que durou apenas até ele enxergar a rua.
— Acabou — disse.
Apari assentiu. Sentiu as mãos dele em sua cintura antes de sentir o queixo pousar sobre seu ombro. Afastou um cacho que se prendera à boca dele e ficou quieta. Dali via o teto em que pisara para roubar pão, a descida pela qual fugira com a faca. Podia lembrar a fome sem esforço. Era mais difícil reconhecer a mulher que tivera tanta pressa de ir embora.
Virou-se entre os braços dele. A pequena cicatriz que deixara na bochecha continuava ali, sob seus dedos. Mais adiante, a pinta escura da face direita. Éteram se inclinou; ela o segurou pela gola antes que terminasse de se aproximar. Queria beijá-lo sem esperar que a coragem se transformasse numa piada. Quando se afastou, ele ainda sorria com a testa encostada na sua. Um completo idiota. Apari percebeu a própria boca fazendo o mesmo e não tentou corrigir.
O sol subia entre as construções, iluminando poças e as tábuas inchadas do peitoril. Não tinham dinheiro, quase não tinham comida. Logo precisariam sair e descobrir como atravessar o próximo dia. Ela apertou a cintura dele antes que se afastasse. O inverno terminara. Apari podia ficar.
Éteram sentiu a mão dela prendê-lo por mais um instante. Durante meses, temera que o desaparecimento da neve a levasse junto. Agora o nó da janela estava solto, a rua aberta diante deles, e Apari o puxava de volta. Beijou-a outra vez. A primavera já não estava apenas do outro lado daquela janela.