Apari não jogou o desenho da casa fora.

Dobrou o papel pelas marcas antigas, alisou uma das pontas sobre o joelho e o guardou entre os tecidos que utilizava para costurar. Éteram acompanhou o movimento sem comentar. As moedas continuavam sobre o pano. Uma prata e dois cobres, exatamente como antes de começarem as contas.

Era desagradável descobrir que o dinheiro podia diminuir sem que ninguém o tocasse.

Ele recolheu as peças e tentou encontrar alguma coisa útil para dizer. Poderia explicar novamente o aluguel. Poderia mostrar quanto sobraria depois da comida ou sugerir que procurassem um quarto ainda menor. Apari já havia procurado. Sabia disso pelo estado daquele papel, pelas ruas desenhadas, pelos números corrigidos tantas vezes.

Foi até a chapa.

Ainda havia caldo no fundo da panela. Acrescentou água, raspou cuidadosamente as bordas e aproximou o recipiente das brasas. Apari observava as moedas que ele deixara num canto.

— Não põe tanta água.

Éteram parou.

— Ia render mais.

— Eu sei.

Ele retirou a caneca. Mexeu o caldo com a concha e dividiu o que havia em duas tigelas.

Apari recebeu a sua, mas não começou a comer imediatamente. Acompanhou com os olhos o vapor que desaparecia sob o teto. Pela abertura da janela, entrava o cheiro da terra molhada. O degelo havia deixado manchas escuras nas paredes e uma goteira nova junto à porta. A neve acabara encontrando uma maneira de entrar mesmo depois de desaparecer.

— Podemos continuar aqui mais um pouco — disse ela.

Éteram assentiu.

— Podemos.

— Aquela parede ainda aguenta.

Os dois olharam para a madeira torta.

— Até agora, aguentou — respondeu ele.

Apari encostou a tigela nos lábios. Bebeu um pouco e fez uma careta.

— Está quente.

— Você viu a fumaça.

— Achei que era uma sugestão.

Éteram soltou uma risada curta. Apari olhou para ele por cima da borda, satisfeita por ter conseguido arrancá-la. Só então puxou os pés para perto do fogo e começou a comer.

Naquela noite, ele demorou a adormecer. Ficou calculando o valor de coisas que nunca comprara: tábuas inteiras, uma panela sem remendos, um cobertor que bastasse para duas pessoas. Quanto mais tentava diminuir o futuro, mais caro ele parecia.

Apari encontrou sua mão debaixo do tecido.

— Para.

Éteram virou o rosto.

— Não estou fazendo nada.

— Está fazendo conta. Consigo ouvir.

Ele apertou os dedos dela.

— Vou descobrir alguma coisa.

— Amanhã.

Éteram continuou olhando para o teto. Apari puxou sua mão para junto do próprio peito e se acomodou de costas para ele, encerrando a discussão com a autoridade de quem pretendia dormir.

Por algum tempo, ele acompanhou a respiração dela. Depois fechou os olhos.


A oportunidade apareceu três dias depois, amarrada com barbante.

Havia uma pilha de jornais sobre o balcão da biblioteca, acompanhada por quatro livros e uma folha de endereços. O responsável pelo transporte faltara. Alice examinava os embrulhos por cima dos óculos, com a expressão de quem suspeitava que eles haviam escolhido pessoalmente causar aquele inconveniente.

— Você conhece a cidade?

Éteram segurava uma caixa de volumes que precisavam voltar às estantes.

— Depende de qual parte.

Ela empurrou a lista em sua direção.

Ele leu os primeiros nomes. Reconheceu uma rua próxima ao porto, outra onde costumava encontrar lenha e uma praça pela qual passava diariamente. O restante parecia pertencer a uma cidade construída em segredo enquanto ele estava ocupado carregando livros.

— Conheço algumas.

— Precisamos entregar isto hoje. Os jornais vão para os pontos de leitura e os livros têm destinatário. Nada de deixá-los numa porta e ir embora.

Éteram acomodou a caixa no chão.

— Isso faz parte do meu trabalho?

A mulher ergueu os olhos.

Ele sentiu uma vontade imediata de retirar a pergunta. Lembrou-se da casa desenhada por Apari e deixou as palavras onde estavam.

— Hoje vale mais um cobre — respondeu ela.

Éteram examinou os embrulhos com interesse renovado.

— Eu conheço alguém que sabe onde ficam essas ruas.

— Desde que os livros cheguem inteiros.

Ele passou o polegar pelo barbante. Não conseguiria fazer aquele trabalho em todos os dias da semana. Entretanto, um cobre já pagaria alguma coisa. Não precisava decidir imediatamente o quê.

— Chegam.


Apari encontrou um erro na lista antes que ele terminasse de explicar o serviço.

— Essa rua não se chama mais assim.

Éteram olhou para a linha que ela apontava.

— Você leu?

— Você acabou de falar, idiota.

Ele abaixou o papel.

Estavam perto de um poço, protegidos do movimento por uma carroça estacionada. Apari carregava o balde que pretendia levar para casa. O sol alcançava apenas a parte de cima das construções; nas pedras próximas aos seus pés, a água do degelo permanecia fria e escura.

— Mudaram quando fizeram o depósito novo — explicou ela. — Se perguntar por esse nome, vão mandar você para o outro lado da ponte.

Éteram tornou a examinar a lista.

— E como vou saber qual é a certa?

Apari abriu um sorriso.

— Vai perguntar para uma pessoa muito inteligente.

Ele ergueu os olhos.

— Conhece alguma?

Ela acertou seu tornozelo com a ponta da bota. Éteram afastou a perna, rindo.

Sentaram-se sobre a borda baixa de um muro. Ele leu os endereços em voz baixa, e Apari os reorganizou conforme lembrava dos lugares. Utilizou pedrinhas para representar os embrulhos e riscou a terra com um graveto. A praça virou um círculo; a ponte, duas linhas; um dos armazéns recebeu uma cruz que ela desenhou com particular satisfação.

— Por que aquele tem uma cruz?

— Cachorro.

— Ainda está lá?

— Maior.

Éteram moveu discretamente a pedra para longe do risco.

Quando terminaram, Apari dividiu o percurso em dois. Entregou a ele os pacotes destinados às ruas que já conhecia e puxou os outros para perto de si.

— Eu faço estes.

Éteram colocou a mão sobre o barbante.

— Rosa…

Ela reconheceu a preocupação antes que viesse a explicação.

— Não vou montar uma banca no meio da praça. Vou bater numa porta, entregar uma coisa e sair.

— Se um guarda resolver que você está trabalhando…

— Estou levando um embrulho para você. É diferente.

— Para ele, talvez não.

Apari apertou os lábios. Éteram conhecia as leis de Netcross e já discutira aquilo com ela. O prefeito não permitia que mulheres trabalhassem ou vendessem nas ruas. Lavar roupa por pagamento, negociar um cesto de comida ou anunciar um serviço podia render a perda dos objetos, uma passagem pelo posto da guarda e tudo o que dependesse da disposição dos homens que estivessem de serviço.

Isso não impedia que mulheres carregassem água, costurassem até os dedos doerem e mantivessem casas inteiras funcionando. Apenas tornava perigoso receber alguma coisa por fazê-lo.

— Vou pelas portas dos fundos — disse ela. — Sem ficar parada conversando. Você termina mais cedo, recebe o cobre e ninguém precisa saber quem carregou qual livro.

Éteram observou os pacotes. Apari se inclinou para encontrar seus olhos.

— Eu sei andar nesta cidade.

— Eu sei.

— Então deixa eu ajudar.

Ele retirou a mão do barbante.

Apari guardou os embrulhos numa bolsa de tecido, repetiu os destinos na ordem em que pretendia visitá-los e o obrigou a confirmar cada um. Para o último, pediu uma referência.

— Bar das Máscaras — leu Éteram. — Entrada lateral. Entregar ao proprietário.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Esse eu sei onde fica.

Éteram também sabia o suficiente para ficar quieto por um instante.

— Você só entrega e vai embora.

Apari o encarou.

— Ah, que bom que explicou. Eu estava pensando em comprar o lugar.

Ele suspirou. Ela prendeu a bolsa ao ombro e apontou para a lista.

— Se não me encontrar em casa, estou terminando. Se demorar mais, deixo recado com o homem do poço. Nada de sair me procurando em todas as ruas.

Éteram assentiu, embora a ideia de procurar parecesse perfeitamente razoável.

Apari ajeitou a frente do colete que havia costurado para ele. Uma das dobras começava a ceder.

— Não deixa ninguém puxar isso. Deu trabalho.

Ele baixou o rosto e lhe deu um beijo rápido.

— Volta inteira.

— Você também. E traz meu dinheiro.

— Seu?

Ela já estava se afastando.

— Estou cobrando pelo mapa!


O Distrito das Máscaras começava antes das máscaras.

Apari percebeu a mudança primeiro sob as botas. As pedras estavam mais bem assentadas; a água corria para sulcos que alguém mantinha desobstruídos. Havia lampiões protegidos por vidro e cortinas inteiras nas janelas. Os becos continuavam estreitos, mas carroças recolhiam a sujeira antes que ela secasse no meio do caminho. Nas portas, homens de casaco grosso acompanhavam quem passava sem precisar anunciar que vigiavam.

O ar mudava a cada entrada. De uma cozinha vinha gordura quente; da seguinte, sabão fervido e pano molhado. Um carregador atravessou diante dela com um saco de carvão nas costas, deixando uma faixa negra na gola. Dois homens descarregavam peças de tecido embaladas para não tocar a lama. Mais adiante, cestos de legumes esperavam junto a barris, e uma mulher conferia uma pilha de toalhas com os braços vermelhos até os cotovelos. Apari precisou se apertar contra a parede para deixar passar um carrinho de lenha. Tudo aquilo se movia para dentro das mesmas fachadas limpas.

À direita, por uma rua em declive, viu a água escura do rio entre armazéns. O som de uma corrente sendo puxada chegava do cais. O vento trouxe o cheiro úmido das margens, misturado à fumaça que saía das chaminés do distrito. As janelas dos salões podiam estar fechadas; atrás das casas, alguém continuava carregando o que elas consumiam.

Havia frequentado aquelas ruas em busca de restos de comida. Conhecia o lugar onde uma cozinha despejava água, a passagem entre duas casas e um muro pelo qual era possível sair sem atravessar a avenida. Nunca entrara no bar.

O prédio do bar subia por quatro andares. Apari acompanhou com os olhos as fileiras de janelas: luz e movimento embaixo, cortinas mais pesadas acima, panos claros secando atrás de uma abertura no último nível. Perto do chão, uma grade soltava ar morno com cheiro de carvão. A porta principal tinha metal polido e um homem que não tirava as mãos da frente do corpo. Ela seguiu pela lateral, como indicava a entrega. A aldrava era pequena, brilhante apenas onde os dedos a tocavam. Apari bateu duas vezes.

Uma mulher abriu. Usava uma máscara clara, enfeitada junto à têmpora com três contas verdes. Sob a borda, Apari viu o começo de uma ruga e uma boca de lábios finos. Os cabelos estavam presos, e o vestido de mangas compridas não deixava seus braços expostos ao frio. Examinou a bolsa, depois o rosto de Apari.

— Livros da biblioteca — explicou ela.

A mulher estendeu a mão.

— Preciso entregar ao dono.

Os olhos por trás da máscara se estreitaram um pouco. Apari sustentou o olhar. Não pretendia passar o restante da tarde explicando a Éteram por que um livro caro desaparecera depois que ela o entregara a uma pessoa cujo rosto não saberia descrever.

A mulher acabou abrindo mais a porta.

Conduziu-a por um corredor aquecido. O calor subia pelas solas úmidas de Apari e fazia a sujeira da roupa cheirar mais forte. Havia cera no piso, mas uma faixa de passadeira recebia as botas de quem vinha da entrada de serviço. Atrás de uma porta entreaberta, duas pessoas colocavam toalhas dobradas num armário. Na direção contrária, um cesto coberto seguia para uma escada que descia. A mulher esperou o cesto passar antes de continuar.

Um sino pequeno tocou junto ao teto. Mais adiante, uma corda correu numa roldana; pela abertura estreita de um monta-cargas, Apari viu a borda de uma bandeja desaparecer para o andar de cima. O rangido ficou atrás delas. Ao entrar no salão, o chão pareceu engolir os passos.

Das salas escapavam perfumes, vinho e uma fumaça adocicada que lhe dava vontade de espirrar. Tecidos vermelhos separavam os ambientes; onde uma cortina se abria, a luz revelava o brilho gasto do veludo e logo tornava a escondê-lo. Havia frutas sobre uma mesa, sem ninguém preocupado em guardá-las. Apari contou duas maçãs inteiras antes de obrigar os olhos a seguir adiante. Numa parede, uma fileira de máscaras vazias recebia a luz dos lampiões.

De perto, eram diferentes. Algumas cobriam apenas os olhos. Outras chegavam até o nariz ou escondiam quase todo o rosto. Havia penas, bordados, pequenas pedras coloridas e uma peça preta com um risco dourado semelhante a um sorriso.

Uma mulher atravessou o salão carregando uma bandeja. Um cliente tentou falar com ela. Recebeu um gesto delicado, um copo cheio e nenhuma palavra.

Apari acompanhou a cena.

Conhecia aquela regra sem precisar que alguém a explicasse. Era mais difícil reconhecer uma vizinha quando não se ouvia sua voz. Mais difícil apontar para uma mulher na rua e afirmar de qual quarto ela saíra. Os homens podiam voltar para casa contando vantagens. Para elas, até o rosto precisava ficar guardado.

O proprietário estava sentado diante de uma mesa pequena, com um livro aberto e uma taça ao alcance da mão. O colete ajustado assentava sem uma dobra solta; quando ele virou a página, Apari viu o dourado do relógio em seu pulso. Tinha as unhas curtas, limpas até nos cantos. Ela escondeu os dedos sujos na alça da bolsa.

Ele se levantou para liberar a outra cadeira. Era baixo, pouco mais alto que Apari, com o corpo compacto sob a roupa fina. Ao mover a cadeira, a manga repuxou sobre um braço bem formado; o colete estreitava na cintura, sem barriga sob o tecido. As calças caíam sobre sapatos polidos, nos quais a luz se quebrava como na superfície de água parada.

Os lados da cabeça estavam raspados. No alto, um topete curto conservava cada fio no lugar. Não havia barba nem sombra de bigode. Dois brincos de âmbar, um em cada orelha, guardavam um amarelo quente contra a pele. Apari encontrou olhos castanho-claros, um nariz pequeno e uma expressão que não se esforçava por recebê-la bem. Quando ele abriu a boca, os dentes eram brancos e inteiros.

— A biblioteca ficou interessante — comentou.

Apari colocou os embrulhos sobre a mesa.

— Ficou sem entregador.

Ele examinou o barbante, conferiu os títulos e encostou um dedo na folha de recibo que acompanhava os volumes.

— E mandou você?

— Mandou entregar. Entreguei.

O homem sorriu.

— Como se chama?

Ela demorou um pouco a responder.

— Apari.

— Henry.

Apari reconheceu o nome. Encontrava-se muito menos nas conversas da rua do que o apelido.

— O Palhaço.

A mulher que a acompanhara ficou imóvel junto à porta. Henry sorriu.

— Dependendo de quem conta, sou.

— Dizem que o senhor faz o prefeito rir.

— É uma qualidade muito útil em Netcross.

Ele assinou o recibo, mas manteve a folha sob os dedos.

— Você também poderia ganhar dinheiro aqui.

Apari olhou para as máscaras na parede. Voltou a encará-lo.

— Não.

— Nem ouviu a proposta.

— Estou vendo a proposta.

Henry seguiu seu olhar.

— Uma máscara não pesa tanto.

— Então usa duas.

A mulher junto à porta virou ligeiramente o rosto. Henry soltou uma risada baixa.

Apari não sorriu. Sobrevivera até ali sem recorrer àquele trabalho. Agora tinha alguém esperando por ela, uma casa desenhada num papel e uma vida que, apesar de continuar miserável, começara a parecer sua. Não queria experimentar quanto custaria entregar partes dela a um homem que acabara de conhecer.

— Está bem — disse Henry. — Nenhuma máscara.

Só então soltou o recibo.

Apari o guardou na bolsa.

— Você veio sozinha? — perguntou ele.

— Vim.

— Encontrou a entrada sem perguntar?

— Encontrei.

— Conhece bem as ruas?

Apari ajustou a bolsa no ombro.

— Melhor do que quem escreveu os endereços.

Henry recostou-se. Pediu que trouxessem água e indicou a cadeira diante dele. Apari permaneceu de pé por alguns instantes, desconfiada de uma conversa que havia deixado de precisar acontecer. Acabou sentando na borda.

Ele fez perguntas curtas. Onde morava. O que fazia para comer. Como aprendera a circular por bairros onde quase ninguém tinha motivo para recebê-la. Apari respondeu mais do que pretendia, em parte porque Henry não parecia impressionado com nada, em parte porque era cansativo fingir respeitabilidade diante de alguém que já a avaliara dos sapatos à bolsa.

Falou das ruas, dos armazéns, das janelas. Disse que agora dividia um abrigo com um rapaz da biblioteca e que pretendiam sair dali. Não forneceu o endereço. Quando Henry perguntou pelo rapaz, limitou-se a dizer que sabia ler e cozinhava bem.

— Duas habilidades que raramente aparecem juntas numa pessoa sem dinheiro — comentou ele.

— O dinheiro ainda não ficou sabendo.

Henry tornou a sorrir. Depois fechou o livro. No corredor, passou outro cesto de roupa. Apari acompanhou o movimento.

— Quantas pessoas trabalham nisso aqui?

— Neste prédio ou para manter este prédio aberto?

Ela voltou os olhos para ele.

Henry pousou a mão sobre a toalha pequena junto à taça.

— Um cliente seca as mãos. Alguém compra o pano, corta, costura, lava, ferve água, carrega carvão. Depois outra pessoa dobra e põe no lugar. Ainda nem chegamos ao jantar.

— E o senhor fica com a parte limpa.

Ele sorriu sem se ofender.

— Este distrito movimenta perto de um terço da economia de Netcross. Não é tudo dinheiro pago por uma cama. Pergunte ao homem do carvão quanto venderia se estas portas fechassem. Ou aos cozinheiros, aos carregadores, aos professores.

— Professores?

— Também pagamos pessoas para ensinar. Há outros serviços aqui além dos que você recusou.

Apari tornou a olhar a toalha. Nunca teria escolhido um objeto tão pequeno para explicar tamanho poder. Henry afastou a mão dela e voltou ao livro fechado.

— Talvez eu tenha outro serviço para você.

Apari olhou novamente para as máscaras.

— Já respondi.

— Eu ouvi. Este exige que encontre alguém.

A atenção dela voltou à mesa.

Henry abriu uma gaveta e retirou uma máscara azul. Uma linha prateada acompanhava um dos olhos; na outra extremidade, havia um pequeno desenho de folhas.

— A mulher que usa esta não aparece há uma semana. Chama-se Lídia. Mora com o marido. Quero saber o que aconteceu.

Ele disse o nome da rua. Apari reconheceu a região.

— Por que não manda um desses homens da porta?

— Porque quero uma resposta antes que a rua inteira comece a fazer perguntas.

Ela observou a máscara. Henry a segurava pela borda, evitando o tecido que tocaria a pele.

— Achei que o senhor não soubesse quem elas são.

— Os clientes não precisam saber. Eu preciso.

Virou a peça para mostrar a costura do forro.

— Sei os rostos, as vozes e a quem pertence cada uma. Não são enfeites que podem desaparecer sem que eu perceba.

Apari não conseguiu decidir se havia cuidado ou posse naquela afirmação.

— Quanto?

— Duas pratas pela informação. Descubra se está viva, se está doente, se foi embora. Volte e me conte direito.

Ela permaneceu quieta.

Vinte cobres.

Sabia fazer aquela conta. Não precisava que Éteram deslocasse vírgula nenhuma.

Henry esperou. Apari tornou a olhar para a máscara azul antes de perguntar:

— Como reconheço a casa?

Ele lhe deu as referências: uma calha partida, uma porta escura, a oficina vizinha. Descreveu Lídia e o marido. Apari repetiu tudo, como fizera com os endereços da biblioteca.

Ao se levantar, viu o próprio copo sobre a mesa. Não havia tocado na água.

— Preciso levar o recibo primeiro.

— Naturalmente.

Henry guardou a máscara.

— E Apari…

Ela se virou.

— Quero que volte com a informação. Não preciso de uma história bonita.

Pela primeira vez desde que entrara, ela sorriu sem esforço.

— Então escolheu bem. Não sei escrever nenhuma.


Éteram terminou suas entregas com os pés doloridos e uma opinião particularmente desfavorável sobre as pessoas que moravam em escadas.

A biblioteca estava mais vazia quando voltou. Deixou os recibos sobre o balcão e encontrou o de Apari entre eles, acompanhado por um aviso transmitido pelo funcionário da entrada: ela resolveria uma coisa antes de voltar para casa. Não demoraria além do anoitecer.

Ele releu a assinatura do proprietário do bar. Havia uma mancha de tinta junto ao nome. Apari tinha cumprido a parte dela.

Restava descobrir o que significava uma coisa.

Estava guardando o barbante dos embrulhos quando dois rapazes se aproximaram. Tinham idade suficiente para não serem confundidos com alunos perdidos, embora o modo como examinavam as estantes sugerisse que nenhum dos dois conhecia aquele lugar.

O primeiro parecia um pouco mais velho que Éteram e tinha altura comum entre os homens da cidade. Os cabelos castanhos formavam cachos curtos sobre a testa. Um nariz avantajado dominava o rosto de pele clara, aquecida pelo sol, e uma barbicha acompanhava o queixo. O casaco estava marcado por viagens. Uma alça cruzava seu peito até a mochila apoiada no quadril; ele a puxou para a frente antes de se aproximar do balcão. O outro, de boca estreita e um vinco fundo entre as sobrancelhas, permaneceu meio passo atrás, observando a porta.

— Procuramos livros de idiomas — disse o primeiro.

Éteram indicou uma seção pequena.

— Qual?

O rapaz hesitou.

— Antigos.

— Idiomas antigos ou livros antigos?

— Os dois, de preferência.

Éteram esperou. O visitante passou a língua pelos lábios.

— E alguma coisa sobre magia.

Ele tornou a olhar para os dois.

Havia obras sobre a história dos magos, relatos de viagens e descrições de animais que possuíam características extraordinárias. Conhecia algumas porque gostava de descobrir quais daqueles animais poderiam ser cozinhados. Livros que ensinassem magia eram outra coisa. Custavam valores que ele dificilmente conseguiria contar sem papel e não ficavam numa estante aberta entre manuais de jardinagem.

— De ensinar, não temos.

— Pode verificar?

— Posso olhar debaixo do balcão, se ajudar.

O segundo rapaz abafou uma risada. O primeiro não pareceu satisfeito.

Retirou de dentro do casaco um pedaço de pergaminho dobrado, protegido por uma capa de couro. Não o abriu completamente. Apenas expôs um canto.

— E alguma coisa escrita assim?

Éteram inclinou a cabeça.

Viu vinagre. Viu mel. Uma referência a sal, outra a casca de ovo. As palavras pareciam claras, embora a disposição das linhas fosse estranha e alguns sinais se apertassem junto às margens.

Leu um pouco mais. Franziu a testa.

— Isso não faz sentido.

O rapaz se aproximou imediatamente.

— O quê?

— Misturar tudo desse jeito. Você estraga o sangue antes de terminar.

O visitante olhou para o companheiro.

— Sangue?

Éteram percebeu a troca de olhares. Sentiu a irritação subir. Passara o dia carregando livros pela cidade, seu almoço fora um pedaço de pão duro, e agora dois desconhecidos pareciam ter escolhido justamente o funcionário novo para uma brincadeira.

— Se estão procurando alguém para testar essa receita, procurem outro.

— Receita? — repetiu o rapaz.

Ele estendeu o braço sobre o balcão para aproximar o pergaminho do rosto de Éteram. Este se afastou. O outro insistiu, avançando pela passagem lateral quando Éteram saiu para guardar os recibos.

— Espera. Você disse que consegue…

Éteram segurou-o pelo colarinho.

O gesto surpreendeu os dois. Também surpreendeu um pouco a ele próprio.

— Eu disse que aqui não tem o que vocês querem. E que, se continuarem me seguindo, vou chamar a guarda.

O rapaz ergueu a mão livre. A outra mantinha o pergaminho cuidadosamente afastado.

— Posso pagar.

Éteram olhou para o tecido preso em seus dedos.

Lembrou-se de Apari ajeitando seu colete antes de sair.

Soltou.

— Não estou vendendo nada.

— Só precisamos que…

— Vão embora.

Sua voz saiu mais baixa. Isso pareceu funcionar melhor do que o colarinho.

O visitante guardou o pergaminho. O companheiro tocou discretamente seu braço, indicando a porta. Antes de sair, o primeiro olhou outra vez para Éteram, com uma atenção que já não parecia pertencer à mesma conversa.

Éteram ficou vendo os dois atravessarem a rua.

Depois alisou a frente do próprio colete.

Conseguira um emprego. Não pretendia perdê-lo por causa de dois idiotas e uma receita de gosto duvidoso.


A casa tinha a calha partida.

Apari reconheceu também a oficina vizinha, onde duas rodas desmontadas descansavam contra a parede. A porta escura permanecia fechada. Nenhum sinal de mudança, nenhuma trouxa abandonada, nenhuma marca recente de carroça junto à entrada.

Ela passou uma vez pela frente. Na segunda, carregava um pequeno pedaço de madeira que recolhera na rua e fingiu examinar os restos empilhados perto da oficina. O homem que trabalhava lá dentro não ergueu a cabeça.

A passagem lateral era estreita, úmida e cheirava a água de cozinha. Levava aos fundos, onde uma janela baixa estava fechada por duas folhas de madeira. Entre elas, restava uma abertura.

Apari encontrou um apoio para o pé.

Do lado de dentro, havia uma cama.

Uma mulher permanecia deitada, voltada para a parede. O lençol cobria boa parte de seu corpo. Os cabelos escuros estavam espalhados sobre o travesseiro, e um dos ombros se movia num ritmo lento.

Está viva.

Por alguns instantes, aquilo pareceu suficiente. Poderia voltar ao bar, dizer que encontrara a mulher em casa e receber as duas pratas. Talvez estivesse apenas doente. Talvez o marido já tivesse procurado alguém que soubesse cuidar dela.

Apari tornou a olhar.

Havia uma tigela no chão, fora do alcance da cama.

Isso a fez permanecer.

Encontrou um lugar entre a parede do fundo e um depósito de tábuas, de onde conseguia observar a passagem sem ficar exposta. Consultou o relógio. Guardou-o imediatamente. A luz refletida no vidro poderia ser vista da janela.

O tempo demorou a passar.

Uma vizinha jogou água na rua. Um homem entrou na oficina carregando um aro de metal. Perto do meio da tarde, o marido voltou. Correspondia à descrição de Henry, inclusive na maneira de apoiar uma das pernas antes de subir o pequeno degrau da porta.

Apari ouviu o ferrolho.

Esperou mais um pouco e tornou a alcançar a abertura entre as folhas de madeira.

O homem havia afastado o lençol.

Uma corda prendia o pulso da mulher à estrutura da cama.

Apari permaneceu tão imóvel que o apoio começou a machucar seu pé. Viu a marca roxa no braço de Lídia, outras junto ao ombro, a pele ferida sob a amarra. O marido segurava uma bacia. Limpou-a com movimentos impacientes, reclamando de alguma coisa que Apari não conseguiu distinguir.

Depois colocou a bacia no chão e começou a retirar o que restava da roupa dela. Precisou puxar o tecido preso sob suas costas. Lídia se encolheu. Ele esperou que parasse de se mexer e tornou a puxar.

Da janela, Apari viu as marcas que o lençol escondia. Manchas arroxeadas junto às costelas, outras já amareladas, um ferimento coberto por uma crosta escura perto do ombro. Havia pouco espaço entre uma e outra.

O homem deixou a roupa ao lado da cama. Em seguida, tirou a própria e a colocou sobre a cadeira.

Lídia tentou se afastar. A corda se esticou junto ao pulso.

— Não. Por favor.

Ele se deitou ao lado dela e afastou alguns fios de seu rosto. Começou a acariciar seus cabelos, passando a mão da testa para trás. Lídia permaneceu com os olhos fixos na parede. Quando o gesto se repetiu, fechou-os.

Apari apertou o cabo da faca. Procurou um ponto na madeira por onde pudesse passar depressa, mediu a distância até a cama. Teria que forçar a janela antes de entrar. Ele a ouviria.

Lídia continuava presa.

A mão tornou a passar pelos cabelos dela.

Apari virou o rosto.

Desceu do apoio e ficou encostada na parede do lado de fora. A pedra estava úmida contra suas costas. Manteve os olhos abertos, presos a um prego enferrujado na tábua à sua frente.

Ouviu a cama ranger.

Depois a madeira outra vez.

No pátio vizinho, o homem da oficina bateu um martelo. Apari esperou a pancada seguinte, mas ele parou de trabalhar. Os ruídos do quarto continuaram chegando pela fresta.

A faca permanecia em sua mão. Ela afrouxou os dedos, que começavam a doer, e tornou a fechá-los.

Quando a cama finalmente ficou quieta, Apari não se moveu. Vieram passos, o arrastar da cadeira. Só então tornou a subir o suficiente para espiar. Viu o homem recolhendo as roupas. Aguardou que ele se vestisse e saísse do quarto.

Ouviu-o mexer em alguma coisa na cozinha. Água caiu num recipiente. Ele não parecia ter pressa.

Quando o ferrolho tornou a se mover, ela precisou obrigar os dedos a soltarem um pouco a faca. O marido saiu, trancou a porta e seguiu na direção contrária à oficina. Apari contou os passos até deixarem de ser audíveis. Espiou a rua. Só então voltou à janela.

O fecho interno era simples. Levou mais tempo vencendo a madeira inchada do que encontrando um modo de levantá-lo.

A folha abriu com um ruído curto.

Lídia virou a cabeça.

O medo apareceu primeiro. Apari ergueu a mão vazia e manteve a faca junto à própria perna.

— Vim do bar — sussurrou. — Henry mandou procurar você.

A mulher olhou para a janela, depois para o corredor que levava à porta.

— Ele vai voltar.

— Eu sei. Por isso precisamos andar.

Apari passou para dentro. Seus pés tocaram o chão ao lado da tigela. De perto, o quarto cheirava a pano úmido, urina e uma mistura de comida velha com água parada. Havia uma cadeira caída junto à parede. Ela não soube se fora derrubada durante uma briga ou se alguém simplesmente não se importara em levantá-la.

Agachou-se ao lado da cama.

Lídia encolheu o braço quando viu a lâmina.

— A corda — explicou Apari. — Só a corda.

Esperou até que a mulher a olhasse. Depois encostou dois dedos na amarra, indicando onde cortaria.

A lâmina estava desgastada, mas Apari aprendera havia muito tempo a compensar aquilo. Trabalhou com cuidado para não alcançar a pele. Quando a primeira corda se rompeu, Lídia continuou com o braço na mesma posição. Olhava para a porta do quarto, esperando que o marido reaparecesse.

— Ele saiu — disse Apari. — Eu vi.

A mulher assentiu, mas não tirou os olhos da porta. Apari deixou a corda cortada sobre o lençol, onde ela pudesse enxergá-la.

— Tem outra? — perguntou Apari.

A mulher indicou o lado oposto.

Enquanto cortava, Apari tentou encontrar alguma pergunta que não fosse uma estupidez. Acabou desistindo.

— Que inferno aconteceu aqui?

Lídia observou o próprio pulso solto.

— Ele descobriu.

Apari não precisou perguntar o quê.

— O bar?

A mulher assentiu.

Demorou a continuar. Parecia escolher as palavras pelo esforço necessário para pronunciá-las.

— Não tinha trabalho. Ele passava o dia fora procurando. Pelo menos era o que dizia. A comida acabou.

Apari cortou a segunda amarra.

— E você foi para lá.

Lídia tornou a assentir.

— Eu trazia carne. Comprava lenha. Dizia que tinha conseguido com uma conhecida.

Seu olhar encontrou a tigela no chão.

— Ele comeu.

Apari parou com a faca entre os dedos.

— Comeu tudo — repetiu Lídia. — A sopa, o pão. Ficava procurando os pedaços de carne no fundo da panela. Depois que soube de onde vinha o dinheiro…

Ela não terminou.

Apari guardou a lâmina.

Sentiu uma vontade brutal de encontrar o homem. A vontade durou o tempo necessário para Lídia tentar sentar e perder a força no braço. Apari precisou ampará-la.

— Vamos fazer uma coisa de cada vez.

Encontrou um vestido pendurado atrás da porta, um par de sapatos e um pano suficientemente grande para cobrir os ombros dela. Ofereceu um pouco da água que havia num jarro, cheirando antes o conteúdo. Lídia bebeu devagar.

— Consegue ficar em pé?

— Acho que sim.

Não conseguiu na primeira tentativa.

Apari colocou o braço dela sobre os próprios ombros e procurou uma posição em que não apertasse os lugares machucados. Levar alguém ferido por uma janela era consideravelmente mais difícil do que retirar um saco de batatas. Precisou apoiar Lídia no peitoril, descer primeiro e recebê-la do outro lado.

Em determinado momento, a mulher soltou um pequeno gemido.

Apari interrompeu o movimento.

— Foi o braço?

Lídia assentiu, de olhos fechados.

— Está bem. Espera. Vou mudar de lado.

Quando finalmente chegaram à passagem, as mãos de Apari tremiam pelo esforço. A janela continuou aberta. Não voltou para fechá-la.

O sol começava a baixar. Isso ajudava, mas ainda precisariam atravessar ruas com gente. Apari retirou a bolsa do ombro e a pendurou de maneira que escondesse uma das mãos feridas da mulher. Com a outra, segurou-a pela cintura.

— Se alguém perguntar, você passou mal.

Lídia olhou para ela.

Apari fez uma careta.

— Essa parte nem precisa inventar.

Conseguiu um sorriso breve. Bastou para ajudá-la a dar o primeiro passo.


O caminho de volta foi feito de pequenas distâncias.

Da janela até a oficina. Da oficina até o beco. Do beco até uma porta onde puderam parar sem que ninguém as visse da rua principal. Apari conhecia atalhos, mas alguns exigiam subir muros; outros eram estreitos demais para duas pessoas naquela posição. Pela primeira vez, precisou escolher um caminho por aquilo que alguém não conseguia fazer.

Lídia pediu desculpas quando tiveram que parar de novo.

— Não estou cobrando por passo — respondeu Apari.

A mulher respirou devagar. Apoiou a testa na parede fria.

Apari pensou em Éteram. No horário em que ele terminaria o serviço, no recado vago que deixara, em quantas vezes ele já teria olhado para a porta. Não podia levar Lídia ao abrigo. Não havia condições de cuidar daqueles ferimentos, e o marido encontraria duas pessoas sem qualquer proteção além de uma janela podre e uma faca curta.

Precisavam chegar ao bar.

Quando uma mulher carregando roupa passou pela entrada do beco, Apari perguntou se seguiria perto do poço. Reconhecera-a de vista. Pediu que avisasse ao homem que guardava os baldes: Apari estava bem, tinha encontrado uma pessoa doente e chegaria mais tarde.

— Só isso?

— Só. É para um idiota não sair procurando em tudo quanto é lugar.

A mulher olhou discretamente para Lídia. Não fez perguntas.

Apari voltou a acomodar o braço dela sobre os ombros.

— Falta pouco.

Dessa vez, era verdade.


A mulher das contas verdes abriu a porta lateral.

Viu Lídia e deixou de olhar para Apari.

Chamou outra pessoa. As duas a receberam com um cuidado prático, afastando a bolsa, segurando o peso, abrindo espaço no corredor. Uma terceira mulher apareceu com um pano limpo. Ninguém pediu explicações antes de conseguir sentá-la.

Apari ficou parada na entrada.

Seu ombro doía. Havia uma marca de sangue na manga, pequena e escura. Não sabia de qual ferimento viera.

Henry apareceu pouco depois.

O olhar passou pelo rosto de Lídia, pelos pulsos, pelas roupas colocadas às pressas. A expressão dele perdeu qualquer vestígio da diversão com que recebera Apari naquela manhã.

— Sala dos fundos, por enquanto — disse. — Água limpa. Mandem chamar a mulher da enfermaria. Depois subam com ela pelo serviço. Devagar.

Lídia segurou a manga da mulher das contas verdes antes que ela se afastasse.

— Fica comigo.

A mulher assentiu. Henry se agachou diante de Lídia.

— Ela fica. O resto você conta depois.

Não levantou a voz. Ninguém demorou a obedecer.

Apari acompanhou a mulher sendo levada pelo corredor. Um funcionário recolheu o cesto que bloqueava a passagem; a mulher das contas verdes sustentava Lídia pelo lado em que ela mal conseguia apoiar o pé. A porta dos fundos se fechou antes que um cliente, parado à entrada do salão, pudesse ver mais. Só então Henry voltou-se para Apari.

— Venha.

Na sala reservada, pediu que contasse desde o início. Apari falou da casa, das cordas e dos ferimentos. Descreveu o homem deixando a roupa de Lídia no chão e colocando a própria sobre a cadeira.

— Ela pediu que ele parasse.

Apari olhou para as mãos. Ainda sentia o apoio da janela machucando seu pé.

— Eu desci. Fiquei ouvindo até ele sair.

Henry permaneceu quieto até que ela conseguisse continuar.

Perguntou se o homem a tinha visto. Se alguém as seguira. Se Lídia dissera que havia armas na casa. Apari respondeu ao que sabia e admitiu o que não sabia.

Ele abriu a gaveta.

Colocou duas moedas de prata sobre a mesa.

Apari as observou. Ainda estava tentando acostumar os olhos àquilo quando uma terceira peça caiu ao lado.

O som foi mais pesado.

O ouro parecia guardar a luz da sala.

Ela levantou a cabeça.

— Isso está errado.

Henry examinou as moedas.

— Não costumo errar nessa parte.

— O senhor falou duas pratas.

— Pela informação. Você trouxe a informação e a mulher.

Apari continuou olhando.

— O ouro é seu — disse ele. — Um incentivo para continuar fazendo mais do que o mínimo.

Ela não tocou no dinheiro.

Henry percebeu.

— Não estou comprando uma máscara para você.

— Está comprando o quê?

Ele sorriu, satisfeito com a pergunta.

— Talvez a possibilidade de chamá-la outra vez.

Apari examinou a porta. Do corredor, chegavam passos e o ruído de uma bacia sendo pousada.

— Para procurar pessoas?

— Para resolver coisas. Levar um recado. Encontrar alguém. Entregar algo no lugar certo sem fazer perguntas no lugar errado.

Henry aproximou as moedas com a ponta do dedo.

— Serviços completos, discretos e feitos como eu pedir. Posso pagar bem a quem souber trabalhar assim.

Havia coisas naquela frase das quais Apari não gostava. Como eu pedir era uma delas. Sem fazer perguntas também.

Mas as moedas continuavam ali.

— Vou pensar.

— Pense.

Ela recolheu primeiro as pratas. O ouro precisou ser virado entre seus dedos antes que conseguisse guardá-lo. Esperara que pesasse mais. Parecia impossível que um objeto daquele tamanho pudesse exigir tantas semanas de trabalho de Éteram.

Henry acompanhou o movimento sem comentar.

Ao sair, Apari encontrou a mulher das contas verdes. Ela trazia a bolsa vazia e um pano umedecido.

— Sua manga — disse, indicando a mancha.

Apari tentou limpá-la. O sangue clareou, mas não desapareceu.

— Ela vai ficar aqui?

A mulher assentiu.

— Hoje fica.

Apari desejou perguntar sobre o dia seguinte. Sobre o marido. Sobre quanto tempo alguém podia permanecer naquele lugar sem voltar a dever alguma coisa. Acabou apenas devolvendo o pano.

Precisava ir para casa.


Éteram estava perto da porta quando ela chegou.

Tinha recebido o segundo recado e, por causa disso, conseguira permanecer no abrigo. Permanecer sentado fora outra questão. Havia levantado tantas vezes que já não encontrava motivo para se acomodar novamente.


Apari subiu o último degrau e encontrou Éteram junto à porta. Entrou com os braços abertos.

Éteram a recebeu antes que dissesse qualquer coisa. Ela o abraçou com força, prendendo o tecido de seu colete entre os dedos. Durante alguns instantes, ficou apenas respirando contra seu ombro.

Ele cheirava a fumaça e à comida que preparava.

Apari fechou os olhos.

— Você está bem?

Ela assentiu sem se afastar.

Éteram encostou o rosto em seus cabelos e respirou fundo. Apari sentiu o perfume do bar ainda preso à manga, misturado ao suor e à umidade da rua. Quis tirá-lo dali. Por enquanto, apertou mais o abraço.

— Recebeu meu recado?

— Os dois. O primeiro era horrível.

Uma pequena risada escapou dela.

— Mas o segundo melhorou.

— Melhorou.

Éteram afastou-se o suficiente para enxergar seu rosto.

— Tem comida. Deixei perto das brasas para não esfriar.

Apari olhou por cima do ombro dele.

A panela estava sobre a chapa. Duas tigelas esperavam ao lado, uma delas com a borda lascada voltada para fora, como Éteram sempre a deixava para que ninguém machucasse a boca. O pano usado para pegar coisas quentes tinha caído sobre uma pedra. Perto da porta, uma gota escorreu pela parede e encontrou o pequeno recipiente colocado no chão.

Tudo continuava no mesmo lugar.

Naquela manhã, ela saíra dali incomodada com a umidade do cobertor e com a água que precisava buscar. Agora não conseguia parar de olhar para as duas tigelas.

— Apari?

Ela voltou a encará-lo.

— Obrigada.

Éteram acompanhou seu olhar até a panela.

— Ainda nem experimentou. Pode estar horrível.

Ela balançou a cabeça e alisou o tecido que amassara em seu peito.

— Por ser tão bom comigo.

Ele ficou quieto.

Apari tentou sorrir, mas a expressão não se sustentou. Baixou os olhos para as mãos dele, ainda marcadas pelos pequenos acidentes da cozinha e pelo trabalho na biblioteca. Conhecia aquelas mãos. Tinham arrancado seu casaco do fogo, remendado mal uma manga e passado noites dividindo comida em porções que nunca lhe pareciam iguais.

Naquela tarde, vira outra mão afastar cabelos de uma testa.

Soltou o colete.

Éteram não tentou prendê-la. Apenas continuou perto.

— O que houve?

Apari olhou para a cama de palha. Uma das pontas do cobertor pendia até o chão. Ela mesma a deixara assim ao levantar, certa de que encontraria tudo de novo quando voltasse.

Pensara tantas vezes em se casar com ele. Imaginara uma cozinha, uma porta, o lugar onde pendurariam as roupas. Havia discutido preços e contado moedas, como se fossem aquelas as coisas que ainda faltavam para poder confiar no futuro.

Lídia já tinha uma porta.

Apari se lembrou do ferrolho pelo lado de fora e procurou a mão de Éteram.

— Eu não tinha pensado direito em como podia ser ruim.

Ele acompanhou seu olhar pelas paredes.

— Aqui?

— Em outros lugares.

Éteram esperou.

Ela esfregou o polegar sobre uma pequena mancha de tinta no dedo dele.

— A gente mora nessa porcaria caindo aos pedaços. Entra água, entra frio. Eu fico pensando em como vai ser quando tiver uma casa de verdade…

A voz perdeu força. Apari olhou novamente para as tigelas.

— Tem gente que já tem tudo isso. Parede inteira. Uma cama que não fica molhada. E consegue viver pior que a gente.

Éteram apertou de leve sua mão.

Ela pensou no pulso de Lídia permanecendo imóvel mesmo depois de cortada a corda. Tentou lembrar se vira uma aliança. Não conseguiu. Lembrava apenas da pele ferida e dos dedos que mal tinham força para segurar seu ombro.

Um dia, ela seria a esposa de Éteram.

Apari se aproximou de Éteram e apoiou a testa em seu peito.

— Eu venho para cá porque você está aqui.

Ele inclinou o rosto para ouvi-la.

— Gosto quando você reclama que estou perto demais da panela. Gosto de deitar e saber que, se eu acordar com frio, posso chegar mais perto de você.

Ela puxou o ar, incomodada por estar encontrando tanta dificuldade em dizer coisas que pareciam simples.

— Posso ficar brava. Posso falar uma besteira. Você continua deixando comida para mim.

Éteram pousou a mão em suas costas.

Apari permaneceu ali até sentir o calor atravessar o tecido.

— Não tinha agradecido direito.

— Rosa, você não precisa agradecer por voltar para casa.

Ela apertou os lábios contra o colete. Ficou quieta por um instante.

— Eu quero agradecer por querer voltar.

Éteram não encontrou uma resposta. Abraçou-a com mais cuidado, atento ao modo como ela protegia um dos ombros.

Quando Apari levantou o rosto, seus olhos estavam úmidos. Ela os esfregou com a manga antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

— Só de ter comida, eu fico em qualquer lugar com você.

Ele abriu um pequeno sorriso.

— Até aqui?

— Até aqui.

Uma gota caiu no recipiente junto à porta.

Éteram olhou para lá. Apari também.

— Mas, se conseguir arrumar aquela goteira, eu agradeço outra vez — acrescentou ela.

Ele soltou uma risada baixa. Apari conseguiu acompanhá-lo.

O sorriso desapareceu aos poucos, deixando o cansaço que escondera durante o caminho. Éteram passou os olhos por seu rosto, pela manga manchada, pelo modo como ainda segurava sua mão.

— O que aconteceu hoje, Apari?

Ela demorou a responder.

— Vi uma coisa. Espiando por uma janela.

Éteram ficou imóvel.

— Aconteceu alguma coisa com você?

Ela negou com a cabeça.

— Já passou. Não quero falar disso agora.

Éteram olhou para ela por mais alguns instantes. Depois assentiu.

— Está bem.

Não fez outra pergunta.

Apari tinha se preparado para precisar explicar por que não queria explicar. A facilidade com que ele aceitou a deixou sem saber o que fazer durante um instante. Acabou segurando seu rosto entre as mãos e o beijando.

Foi um beijo breve. Depois outro, um pouco mais demorado.

Quando se afastou, continuou perto.

— A comida vai esfriar — murmurou Éteram.

— Você disse que deixou nas brasas.

— Então vai queimar.

Apari riu contra o ombro dele.

Ele esperou que ela o soltasse antes de ir até a panela. Afastou-a do calor, mexeu o conteúdo e experimentou uma pequena porção. Apari o observou fazer uma careta para a colher, procurar alguma coisa entre os temperos e mudar de ideia.

Nada daquilo exigia que ela se defendesse.

Sentou-se perto do fogo e estendeu as mãos. O ombro doía. Os pés também. Aos poucos, conseguiu prestar atenção no cheiro da comida sem que a lembrança do quarto o substituísse.

Só então se lembrou das moedas.

Levou a mão à bolsa. Continuavam ali, guardadas sob o tecido. Poderiam pagar mantimentos e um aluguel, talvez comprar a madeira que faltava para fechar uma parte do teto. Queria mostrar a ele. Queria vê-lo sorrir por alguma coisa que ela trouxera.

— Éteram.

Ele se virou, ainda segurando a concha.

Apari se levantou e estendeu a mão.

— Vem ver uma coisa.

Conduziu-o até a superfície onde costumavam separar comida. Afastou uma tigela e colocou ali as duas pratas. Éteram parou. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela acrescentou o ouro.


Éteram olhou para Apari e voltou às moedas, sem tocar em nenhuma.

— Onde conseguiu isso?

Ela sorriu. Por um instante, recuperou o entusiasmo que sentira ao receber o pagamento.

— Trabalhando.

Éteram não se mexeu.

— Para quem?

— O dono do bar. Aquele das máscaras. Eu levei os livros, ele começou a perguntar umas coisas…

O sorriso dele, que ainda tentava se formar, desapareceu.

Apari acompanhou seu olhar até as moedas. O sorriso dela diminuiu.

Éteram olhou para o dinheiro, para a manga marcada, para as roupas dela. O perfume que sentira durante o abraço pareceu adquirir uma explicação terrível. Sentiu vergonha da própria conta, mas já a havia feito.

— Apari…

Ela soltou sua mão.

— O quê?

Ele tentou escolher as palavras depressa demais.

— Você não precisa me explicar se não quiser.

Apari estreitou os olhos.

— Explicar o quê?

— Eu entendo. É muito dinheiro e a gente estava falando da casa… Não vou julgar você. Não vou deixar de amar você por causa disso.

O soco atingiu sua bochecha antes que terminasse de levantar os olhos.

Éteram recuou contra a borda da mesa. Uma das tigelas tombou. Ficou segurando o rosto, sem compreender imediatamente a dor.

Apari continuava com a mão fechada.

— EU NÃO FIZ ISSO!

Ele olhou para ela.

— Passei todo esse tempo me virando sem fazer isso! Agora estou com você! Falei que queria esperar, falei da gente casar, e você acha que…

A voz falhou. Ela olhou para o próprio punho.

Éteram abaixou a mão. Seus olhos estavam úmidos pelo golpe.

— Você prometeu que não ia me bater de novo.


Apari ficou quieta.

Não havia grito naquela frase. Ele não precisava gritar para que ela se lembrasse da outra noite, do galho, das marcas que acompanhara desaparecerem do braço dele.

Abriu os dedos lentamente. Pouco antes, segurara as mãos dele agradecendo por poder voltar para casa. Agora não sabia onde pôr a sua. Recolheu-a junto à perna, mas continuou vendo o lugar em que acertara.

— Eu sei.

Éteram se sentou. Passou a língua pela parte de dentro da bochecha e fez uma careta.

Apari deu um passo. Ele ergueu a mão, pedindo que esperasse. Ela parou.

O ouro permanecia entre os dois. Algumas horas antes, imaginara que colocá-lo ali seria suficiente para vê-lo feliz.

— Você nem perguntou — disse ela, mais baixo.

Éteram olhou para as moedas.

— Não.

— Você decidiu o que eu tinha feito.

Ele demorou um instante a responder.

— Decidi. Desculpa.

Apari puxou a cadeira improvisada e se sentou a alguma distância. O espaço pareceu maior do que o abrigo permitia.

— Eu devia ter explicado direito.

— Eu devia ter ouvido.

Ela assentiu, olhando para as mãos.

— E não devia ter batido.

Éteram não tentou aliviar a frase. Apari precisou ficar com ela.

Levantou-se para buscar um pano, molhou uma ponta e o colocou ao alcance dele. Não tentou encostar em seu rosto sem pedir. Éteram recolheu o tecido depois de alguns segundos.

— Quando eu disse que não ia julgar… — começou.

Apari ergueu os olhos.

Ele pressionou o pano contra a bochecha.

— Aquela parte era verdade. Você não precisa concordar comigo. Mas eu não ia conseguir deixar de gostar de você só porque precisou sobreviver de um jeito que eu não esperava.

Ela apertou os dedos contra o joelho.

— Eu não queria que você pensasse isso de mim.

— Eu sei. Agora sei.

Ele olhou para a mancha na manga dela.

— Só que as mulheres que fazem isso também precisam comer. Alimentar alguém. Não acho que elas tenham que sentir vergonha para eu poder respeitar você.

Apari abriu a boca. Lembrou-se de Lídia olhando para a tigela no chão.

Ficou em silêncio.

Éteram recolheu a tigela tombada e a colocou de pé.

— Como você conseguiu o dinheiro, Apari?

Dessa vez, esperou pela resposta.


Por alguns instantes, Apari permaneceu olhando para a tigela que ele acabara de colocar de pé.

Éteram esperou.

— É aquela coisa da janela — disse ela.

Ele ergueu os olhos.

— Pode contar só a parte que quiser.

Apari passou os dedos pela borda do próprio joelho. Antes, queria deixar a tarde do lado de fora. Agora as lembranças já estavam entre os dois, misturadas às moedas, ao que ele imaginara e ao que ela fizera em seguida.

— Acho que quero contar.

Éteram assentiu e se acomodou para ouvi-la.

Começou depressa, pelo pedido de Henry e pela casa que precisara encontrar. Ao chegar à espera entre as tábuas, suas mãos se fecharam sobre os joelhos e a voz perdeu o ímpeto. Éteram deixou o pano de lado para ouvi-la.

Apari contou das cordas, da bacia, das marcas que apareceram quando o homem retirou a roupa de Lídia. Sua voz ficou mais baixa ao chegar à mão passando pelos cabelos. Depois falou da parede fria contra as costas e da madeira que continuara rangendo enquanto esperava do lado de fora.

Éteram baixou os olhos para as mãos dela. Apari as mantinha fechadas sobre os joelhos, como se ainda segurasse a faca.

— Tive que esperar ele sair.

Éteram ergueu o rosto. Ela continuou antes que ele encontrasse alguma coisa para dizer.

— Não dava para entrar. Eu olhava para aquela janela e não dava.

Sua voz saiu irritada, quase uma acusação contra a própria lembrança. Éteram não tentou dizer como teria feito. Aproximou a mão e a deixou aberta entre os dois. Apari olhou para ela, mas demorou a soltar os dedos.

Depois contou que Lídia precisara descansar entre uma rua e outra e que continuava pedindo desculpas por não conseguir andar direito.

— Ele comeu da sopa dela — disse.

Éteram franziu a testa.

Apari olhou para a panela que ele deixara sobre a chapa.

— Ela pagou com o dinheiro do bar. Ele comeu, reclamou quando faltou e depois fez aquilo quando descobriu de onde vinha.

Éteram acompanhou seu olhar.

Durante algum tempo, nenhum dos dois falou.

Apari não sabia exatamente o que esperava que ele dissesse. Talvez desejasse que ficasse furioso. Talvez quisesse apenas que soubesse por que suas roupas tinham outro cheiro e de quem era o sangue em sua manga.

— Ela está segura agora? — perguntou ele.

— Está no bar. Chamaram alguém para cuidar.

Éteram assentiu.

Só então Apari explicou o pagamento, o bônus e a proposta de Henry. Empurrou as moedas na direção dele, mas Éteram manteve as mãos no colo.

— Foi você que ganhou.

— É para nós dois.

Ele olhou para ela.

— Ainda assim.

Apari recolheu o ouro e o virou entre os dedos.

— Quero aceitar.

Éteram respirou fundo.

Ela se preparou para a objeção. Conhecia a expressão dele quando tentava transformar medo em conselho.

— O que mais ele quer que você faça?

— Ainda não sei.

— Então precisa saber antes. Procurar uma pessoa é uma coisa. Ele pode pedir outra.

— Eu sei, Éteram.

Ele se calou. Apari esfregou a moeda com o polegar, como se precisasse confirmar continuamente que não era uma peça pintada.

— Não sou boa com livros. Não consigo ficar fazendo essas contas que você faz. Mas sei encontrar uma casa. Sei entrar sem que me vejam. Sei quando alguém está mentindo na minha frente.

Olhou para ele.

— Hoje isso valeu alguma coisa.

Éteram baixou os olhos para o ouro.

— Valeu muito.

— Então não quero ficar aqui esperando você conseguir mais um cobre enquanto posso fazer alguma coisa. Não quero virar um peso que você carrega junto com os livros.

Ele se inclinou.

— Você não é um peso.

Apari soltou uma risada curta.

— Pergunta isso para o cobertor.

Éteram quase sorriu. O movimento repuxou sua bochecha.

Ela percebeu e perdeu a vontade de rir.

— Estou falando sério — continuou ele. — Você fez o colete. Encontrou as casas. Me mostrou o caminho hoje. O fato de ninguém pagar por essas coisas não faz elas desaparecerem.

Apari manteve os olhos na moeda.

Ele esperou antes de continuar.

— Quero que aprenda a ler.

Ela ergueu a cabeça, desconfiada.

— Agora?

— Aos poucos. Para ninguém poder colocar um papel na sua frente e dizer que está escrito uma coisa quando está escrito outra.

Éteram passou os olhos pelas moedas sobre a mesa.

— E para quando a gente for embora.

Apari parou de movimentar a moeda.

— Embora de onde?

— De Netcross.

Ela ficou olhando para ele.

Até aquele momento, uma casa melhor significava outra rua. Talvez um bairro onde a água não invadisse tudo, uma janela com dobradiças inteiras, uma cozinha onde coubessem duas panelas. O muro da cidade permanecera no mesmo lugar até em seus pensamentos.

— Podemos fazer isso?

Éteram assentiu.

— Com os vistos. Os guardas deixam sair quem tem os papéis certos.

— E dinheiro.

— E dinheiro. Precisamos descobrir quanto. Um cavalo ajudaria a levar nossas coisas e chegar a algum lugar onde possamos trabalhar os dois.

Apari examinou a moeda de ouro com uma atenção nova.

— Isso compra?

— Não sei.

Ela aguardou.

Éteram não inventou uma resposta.

— Vou perguntar. Visto, cavalo, comida para a estrada. Não adianta atravessar o portão e passar fome do outro lado.

— Então talvez seja melhor não alugar ainda.

Ele olhou para a parede úmida.

— Talvez.

Apari acompanhou seu olhar. Depois colocou o ouro entre as duas pratas.

— Dá para comprar comida de verdade enquanto a gente descobre.

Éteram assentiu.

— Dá.

— E linha. Acabou a linha boa.

— Também.

Ela hesitou.

— Mas você não vai aparecer com outro peixe que vale quatro porcos.

Éteram olhou para ela. Pela primeira vez naquela noite, o sorriso surgiu sem que nenhum dos dois precisasse forçá-lo.

— Comprando também não pode?

— Primeiro a linha.

Ele concordou.

Apari retirou o desenho da casa de seu esconderijo. Abriu-o sobre a mesa, alisando as dobras com cuidado. Não riscou nenhum dos quartos nem apagou os preços. No verso, desenhou duas pequenas figuras junto a uma forma que pretendia ser um cavalo.

Éteram observou.

— Esse porco está muito alto.

Ela ergueu os olhos.

Ele já estava sorrindo.

Apari sacudiu a cabeça e tornou a desenhar, acrescentando pernas compridas o suficiente para que até um homem dos livros entendesse.


A comida daquela noite passou do ponto.

Éteram não reclamou. Afastou a panela do fogo, aproveitou o que não grudara no fundo e separou duas porções. Apari esperou que ele escolhesse primeiro. Quando percebeu o motivo, Éteram se limitou a colocar a tigela habitual diante dela.

Mais tarde, guardaram as moedas num embrulho pequeno, protegido por tecido e escondido num lugar que decidiram juntos. Apari verificou a janela. Éteram colocou um recipiente sob a goteira. A riqueza não havia consertado o telhado.

Deitaram com o fogo baixo.

Apari permaneceu de costas para ele, ouvindo a água cair no recipiente. Cada gota produzia um som ligeiramente diferente conforme o fundo ia se enchendo. Tentou acompanhar esse ritmo até dormir, mas as palavras de Éteram continuavam voltando.

Não vou deixar de amar você.

Havia desejado ouvi-las em algum momento. Não imaginara que estariam entre uma moeda de ouro e um soco.

Virou-se.

— Está acordado?

Éteram abriu os olhos.

— Estou.

Apari examinou a parte de seu rosto iluminada pelas brasas. O inchaço era pequeno, mas continuava lá.

— Posso chegar mais perto?

Ele assentiu.

Ela se acomodou ao seu lado, tomando cuidado com o ombro machucado pelo esforço de carregar Lídia. Éteram percebeu a careta.

— Também se feriu?

— Só forcei. Passa.

Ele afastou um tecido enrolado, dando-lhe um apoio melhor. Apari permaneceu olhando para sua mão enquanto fazia aquilo.

— Quando você falou do bar… — começou. — Você realmente não se importaria?

Éteram demorou a responder.

— Com o quê, exatamente?

Ela apertou uma dobra do cobertor.

— Comigo dormindo com outros homens.

Ele olhou para o teto.

Apari esperou. Dessa vez, não queria uma resposta rápida que servisse apenas para terminar a conversa.

— Eu ia me importar se você estivesse sofrendo — disse ele. — Se alguém machucasse você. Se estivesse fazendo isso porque acha que me deve uma casa.

— Não foi isso que perguntei.

Éteram virou o rosto.

— Eu sei. Estou tentando responder direito.

Ela afrouxou os dedos no tecido.

Ele procurou as palavras por mais algum tempo.

— Gosto de cozinhar para você. Gosto de saber que vai estar aqui quando eu voltar. Quero que esteja segura e que goste da vida que tem comigo. Se alguma escolha sua deixasse você feliz… Eu ia tentar entender antes de dizer que acabou tudo.

Apari franziu a testa.

— Você fala como se eu pudesse fazer qualquer coisa e você só tivesse que aceitar.

— Você me bateu. Eu não gostei.

Ela abaixou os olhos.

— É diferente.

— É. Porque me machucou.

O silêncio voltou. Apari acompanhou uma sombra que se movia sobre a parede.

— E se eu quisesse ir embora?

Éteram ficou imóvel por um instante.

— Ia doer.

— Mas você deixava?

Ele tornou a olhá-la.

— A porta nunca ficou trancada para você.

Apari se lembrou da faca deixada ao alcance de sua mão, do casaco emprestado e de todas as noites em que a comida estivera pronta antes que decidisse entrar. Não conseguiu afastar inteiramente a desconfiança que sentia diante de alguém que oferecia tanto.

— Você tem medo de ficar sozinho — disse.

Éteram não respondeu imediatamente. A afirmação encontrara alguma coisa verdadeira, mas não toda a verdade.

— Tenho.

Ela ergueu os olhos.

— Então é isso?

— Não é só isso.

Ele passou a mão pelo tecido entre os dois, alisando uma dobra que não precisava ser alisada.

— Antes de você chegar, eu conseguia viver. Encontrava comida. Mantinha o fogo aceso. Se uma parede caísse, arrumava alguma coisa para pôr no lugar. No outro dia, fazia tudo de novo.

Apari acompanhou o movimento de seus dedos.

— Consigo fazer isso sem você — continuou. — Só não quero voltar a achar que é tudo o que existe.

Ela respirou devagar.

— E, se eu fosse feliz longe?

Éteram fez uma pequena careta.

— Ia preferir que estivesse feliz perto.

Apari quase sorriu.

Ele entrelaçou os dedos aos dela.

— Mas saber que estava bem seria melhor do que imaginar você passando fome em algum lugar. Eu senti sua falta antes de saber seu nome direito. Não acho que ia deixar de me importar só porque você estivesse longe demais para ouvir.

Apari permaneceu olhando para ele. Depois aproximou a mão livre de seu rosto e parou antes de tocá-lo.

— Aqui?

Éteram indicou o outro lado.

Ela pousou a palma na bochecha que não havia atingido.

— Eu quero ficar perto.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Ótimo.

— E não quero dividir a cama com outras pessoas. Nem homens, nem mulheres. Não estou esperando aparecer alguém com um quarto melhor.

Éteram tornou a abrir os olhos.

— Ainda bem. Não conseguiria competir com uma dobradiça inteira.

Apari soltou uma risada pelo nariz. Aproximou-se mais um pouco.

— Seu idiota.

Ele passou o polegar sobre seus dedos.

— É mútuo.

Ela o encarou.

— Você também acha que sou idiota?

Éteram começou a rir e se arrependeu quando a bochecha doeu.

— Não. Quer dizer que vale para os dois. O que você falou da cama. De querer ficar. Eu também quero.

Apari repetiu a palavra em voz baixa.

— Mútuo.

Pareceu testá-la, como fazia com um nó antes de confiar algum peso a ele.

— É — respondeu Éteram.

Ela ficou em silêncio por alguns instantes.

— Ainda bem que explicou antes de eu aprender errado.

— Sua definição de masoquista continua horrível.

Apari apertou os olhos.

— Cuidado. Ainda posso aprender palavras piores.

Ele sorriu. Ela se aproximou para beijá-lo, devagar, escolhendo um ângulo que não pressionasse o ferimento. Quando se afastou, permaneceu com a testa perto da dele.

— Não foi a comida que me fez ficar — murmurou.

Éteram ergueu as sobrancelhas.

— Foi um pouco a comida — corrigiu ela. — Mas não só.

Ele esperou.

— Você me deu alguma coisa para pensar além da próxima janela. Primeiro quase me matou com aquele camarão. Depois passou a noite cuidando de mim como se perder uma ladra fosse acabar com o mundo.

— Para mim, parecia.

Apari baixou os olhos.

— Eu sei.

Uma gota caiu no recipiente. Ela a ouviu, respirou e acrescentou:

— Quero ver como a gente fica depois de conseguir sair desse buraco.

Éteram puxou o cobertor sobre seu ombro.

— Eu também.


Apari continuou acordada. Depois de alguns minutos, passou o polegar pela mão que segurava.

— Você nasceu aqui?

Éteram estava quase adormecendo. Precisou abrir os olhos novamente.

— Não sei.

Ela levantou um pouco a cabeça.

— Como não sabe?

— Não lembro. Quando comecei a lembrar das coisas, já morava com meu tio.

Apari conhecia o tio pelas comidas. Uma berinjela recheada, um tempero que Éteram tentava reproduzir, uma maneira de guardar gordura sem estragar o sabor. Até então, o homem existira para ela como um par de mãos numa cozinha aquecida.

— Ele era daqui?

— Também não sei. Era mercador. Vendia um monte de coisas. Conhecia gente de fora.

Éteram se acomodou de costas, olhando para as vigas.

— Tinha homem que ia lá comprar. Outros levavam papéis, faziam perguntas e saíam sem levar nada. Eu achava estranho alguém entrar numa casa com comida e não ficar para comer.

Apari sorriu.

— Algumas coisas não mudaram.

— Ele também reclamava disso.

A lembrança lhe trouxe uma expressão que Apari não conhecia bem. Era mais quieta do que a satisfação com que falava das receitas. Éteram passou o polegar pela costura do cobertor.

— Lia para mim quase toda noite. Às vezes eram histórias. Às vezes alguma coisa que ele precisava conferir e me fazia ouvir porque eu não queria dormir. Foi assim que aprendi.

— E depois?

— Depois continuei nos jornais. O público real, principalmente. Aqueles que distribuí hoje.

Apari levantou a cabeça.

— Os que não cobram?

— Esses.

Ela pensou no dinheiro que não possuía quando começara a viver sozinha.

— Uma coisa de graça.

— Para quem consegue ler — respondeu Éteram.

Apari ficou quieta.

Ele percebeu e apertou de leve sua mão.

— Vamos começar com seu nome. Depois as ruas. Não precisa aprender tudo numa noite.

Ela assentiu, ainda pensando nos jornais presos em lugares onde podia vê-los sem compreender uma linha.

— Seu tio falava do lado de fora?

— Bastante. Dos caminhos, das feiras. Nunca me levou, mas eu pedia para contar de novo.

Éteram sorriu ao lembrar. Apari conhecia bem o jeito com que ele repetia uma receita do tio, tentando recuperar até o cheiro da cozinha. Ficou olhando para aquele sorriso antes de continuar.

— Ele falava dos seus pais? — perguntou ela.

Éteram deixou de sorrir.

— Da minha mãe, às vezes.

Apari não se moveu.

— Dizia que era incrível. Que tinha habilidades mágicas. Depois conheceu meu pai e largou o que fazia para ficar com ele. Queria uma vida tranquila.

— E teve?

Éteram demorou a responder.

— Não sei. Meu tio só dizia que ela morreu e que meu pai me deixou.

Apari ouviu a água cair no recipiente.

— Você nunca soube o resto?

Ele negou com a cabeça.

— Perguntava. Não adiantava.

Ela segurou sua mão com um pouco mais de força.

Não disse que sentia muito. Éteram parecia já ter ouvido frases que não mudavam nada. Ficou ao lado dele até que a tensão em seus dedos diminuísse.

Então ele perguntou:

— E você?

Apari continuou olhando para a parede.

— Minha mãe ficou comigo.

Era a primeira coisa que queria que ele soubesse.

Depois contou do pai, que as deixara na cidade por um motivo que nunca compreendera. Da mãe tentando fazer comida durar mais, costurando até tarde, medindo o valor de coisas pequenas antes de dizer que não precisavam delas.

— Ela falava em ir embora — disse Apari. — Às vezes. Mas precisava comprar o visto. E, se guardasse dinheiro para o visto, faltava comida.

Éteram permaneceu quieto.

— Então ficava para o outro mês. Depois para o outro. Sempre tinha uma coisa.

Apari puxou a manga, escondendo os próprios dedos na beirada do tecido.

— Até que ela saiu e não voltou.

Não acrescentou uma explicação porque não possuía nenhuma. Não sabia se a mãe conseguira atravessar o portão, se alguém a impedira, se tivera uma chance que só servia para uma pessoa. Havia dias em que preferia imaginá-la em outra cidade, viva e distante. Em outros, a ideia de que pudesse tê-la abandonado doía mais do que todas as alternativas.

— Eu não sei, Éteram.

Ele deslizou a mão até encontrar a dela sob a manga.

— Eu ouvi.

Apari respirou fundo. O quarto pareceu muito silencioso depois disso.

— Hoje, quando vi aquela mulher… — começou.

Não terminou. Éteram tampouco tentou terminar por ela.

Ficaram deitados até o fogo diminuir. Quando ele precisou levantar para alimentá-lo, Apari soltou sua mão sem protestar. Acompanhou seus movimentos: a madeira escolhida, as brasas aproximadas, o cuidado para não lançar fumaça diretamente sobre ela.

Éteram voltou e encontrou espaço sob o cobertor.

— Você disse que a lei é diferente em outras cidades — murmurou ela.

— Algumas coisas são. Os prefeitos podem fazer regras daqui. O rei pode mudar o que quiser.

— E ninguém manda no prefeito?

— O barão escolhe quem fica no cargo. E também responde a outros, até chegar ao rei.

— Então alguém escolheu o nosso — concluiu Apari.

— Escolheu.

— Devia ter escolhido um porco. Pelo menos dava para comer depois.

Éteram abafou uma risada e olhou instintivamente para a janela.

— Mais baixo.

Apari apertou a mão dele.

— Aqui dentro também?

Ele hesitou.

— Queria que não precisasse.

Ela encostou a cabeça em seu ombro. Pensou na amiga com quem aprendera a beijar. No cuidado com que algumas lembranças precisavam ser ditas. Éteram parecera preocupado quando, naquela outra noite, soubera dos beijos; agora ela compreendia que parte do silêncio dele também conhecia os guardas.

— Meu tio dizia que, nesta cidade, podiam prender duas pessoas por quererem ficar juntas se fossem do mesmo sexo — comentou ele. — Isso também não muda o que você sentiu pela sua amiga.

Apari levantou o rosto.

— Eu sei.

Éteram assentiu.

Ela tornou a deitar.

— Procura um lugar onde eu possa ganhar dinheiro sem esconder a cara.

Ele acariciou de leve seus dedos.

— Vou procurar.

— E com uma cozinha.

— Isso já estava na lista.

Apari fechou os olhos.

Naquela noite, o sono demorou a chegar. Mas, quando veio, encontrou os dois voltados para o mesmo lado, com a mão de Éteram repousando sobre a dela.


Durante a semana seguinte, o ouro permaneceu escondido.

Utilizaram parte de uma prata para comprar comida, linha e um pequeno pedaço de sabão. Éteram trouxe os alimentos sem precisar olhar por cima do ombro. Apari o viu retirar os embrulhos da bolsa com uma solenidade que normalmente reservava aos ingredientes mais caros.

Era farinha. Algumas raízes. Uma porção modesta de gordura.

Mesmo assim, ele fez questão de mostrar cada coisa.

— Pagou por tudo? — perguntou ela.

Éteram ergueu o queixo.

— Inclusive pela farinha.

— E o saco?

Ele olhou para o recipiente.

Apari aguardou.

— O homem deu.

Ela começou a rir antes que ele conseguisse defender a própria honestidade.

Compraram também papel barato. O primeiro exercício ocupou quase uma folha inteira, embora consistisse em apenas cinco letras.

Apari segurava o instrumento de escrita como se pretendesse obrigá-lo a confessar alguma coisa. Éteram aproximou a mão para corrigir a posição dos dedos. Ela puxou a folha para mais perto num movimento brusco, e ele recolheu a mão antes que pudesse tocá-la. Apari acompanhou o movimento. Quis dizer que só estava ajeitando o papel, mas afrouxou os dedos em silêncio.

— Mostra na sua.

Ele demonstrou. Apari tentou outra vez.

O primeiro A saiu grande demais.

O segundo caiu para um lado.

No terceiro, a ponta rasgou o papel.

— Essa porcaria está quebrada.

Éteram examinou o risco.

— Você precisa fazer menos força.

— Se fosse uma faca, já tinha terminado.

Ele aproximou a folha.

— Pensa numa agulha, então.

Apari tentou de novo.

Dessa vez, o papel permaneceu inteiro.

Éteram sorriu. Ela percebeu antes de olhar para o resultado.

— Não faz essa cara para uma letra torta.

— É uma letra sua.

Apari baixou a cabeça e continuou escrevendo.

Na noite seguinte, Éteram levou para casa uma folha de jornal que já não ficaria exposta na biblioteca. Apari reconheceu o A em várias palavras, mas o restante da primeira coluna continuava fechado para ela. Pediu que ele lesse o trecho. Entre os nomes e títulos, um a fez interrompê-lo.

— Rei Herói era o quê?

Éteram afastou um pouco a folha. O tio começava aquela história pelas tribos, recuando cerca de dois séculos antes do calendário heroico. Falava de humanos espalhados em cidades pequenas, submetidos a povos mais fortes, pagando para atravessar terras que não controlavam. Quando pequeno, Éteram esperava a parte da magia. Agora precisou procurar um lugar para começar sem perder Apari entre as datas.

— Damon Euclides Mágos. Foi o único com esse título. Meu tio dizia que o nome tinha a ver com um mago que domina e tem grande fama.

Apari tentou repetir os três nomes. Desistiu do último.

— Ele sabia magia de verdade — continuou Éteram. — Ia de cidade em cidade resolvendo problemas. As pessoas seguiam ele. Dizia que os humanos eram mais numerosos e não tinham que continuar obedecendo a todo mundo.

— E conseguiram?

— Conseguiram vencer.

Éteram se lembrou de uma página em que o tio demorava mais do que ele gostaria. Estandartes, nomes de cidades e uma lista curta onde deveriam caber populações inteiras.

— Os livros chamam de libertação. Só que ele matava quem não era humano. Ou quem não parecia humano o suficiente. Alguns fugiram e deixaram casa, comida, tudo para trás.

— E os que não fugiram?

Éteram não respondeu. Apari baixou os olhos para o jornal, onde o título ocupava mais espaço do que as palavras à volta.

— Foram doze anos assim — disse ele. — Depois percebeu que não conseguia estar em toda parte, nem ia viver para sempre. Juntou as tribos, marcou as fronteiras e pôs gente respondendo para outra gente, até tudo chegar nele. Quem não aceitou perdeu mais do que a casa.

Contou da ligação telepática. Pessoas capazes de transmitir o que ouviam e viam a uma distância que um cavalo levaria dias para percorrer. Sabia dos relatos; não sabia como a magia fazia aquilo.

— Então ele sabia de tudo?

— Sabia mais depressa. Não acho que seja a mesma coisa.

Apari acompanhou com o dedo a linha que Éteram acabara de ler. Quando ele voltou às letras, pediu que mostrasse onde terminava o nome do homem e começava o título.

No dia seguinte, reconheceu a primeira letra do próprio nome num anúncio. Parou tão abruptamente que Éteram quase esbarrou nela. Não precisou dizer nada. Apontou, esperando que ele confirmasse.

Ele confirmou.

Apari prosseguiu com um sorriso que tentou esconder olhando para a rua.

Outras descobertas foram menos agradáveis. O preço dos vistos dependia dos documentos e do destino; obter respostas claras exigia visitar repartições em horários em que Éteram estava trabalhando. Um cavalo custava mais do que Apari desejava ouvir, e ainda precisariam de comida para o animal. Não decidiram nada antes de conhecer os valores completos.

A moeda de ouro deixara de parecer um teto inteiro. Agora era estrada, papel, comida e uma distância que ainda não sabiam medir.

Em outra noite, a leitura trouxe o nome de Teneri. Quando Éteram explicou que era outro reino, ao sul, Apari deixou a folha de exercícios de lado.

— Por que aquele homem virou dono de tudo e agora tem dois?

— Porque morreu.

— Todo mundo morre.

— A família dele passou muito tempo tentando impedir.

Éteram pousou o jornal ao lado da tigela. O tio contava essa parte com impaciência, como se o rei estivesse demorando a terminar uma refeição que já não desejava.

Os filhos e os parentes obrigavam Damon a receber, todos os dias, poções de cura de uma pureza extraordinária. Custavam fortunas e adiavam o fim. Com o uso contínuo, o corpo se acostumara: já não se regenerava sem elas. O tratamento exigia sempre mais uma dose.

— Chegaram a desenhar uma mochila — disse Éteram. — Para carregar o líquido o tempo todo, até quando saísse do quarto.

— Como um barril preso nas costas?

— Mais ou menos. Vi o desenho num livro. Tinha tubos. Queriam manter aquilo nele o dia inteiro.

Apari ficou com a colher parada.

— Ele quis?

— Pelo que meu tio contava, não. Um dia recusou o tratamento. Passou o dia inteiro dizendo não. Escreveram que ele se matou.

Ela olhou para a tigela, depois para Éteram.

— E os filhos ficaram com tudo.

— Dividiram. Disseram que nenhum era digno de carregar sozinho o legado dele. Um ficou ao norte, outro ao sul. Nummus e Teneri.

Apontou os nomes na folha. Contou do festival que reunia os dois reinos na fronteira todos os anos, celebrando a origem comum. Separados, mas ainda unidos, como diziam os jornais.

— Tem festival numa fronteira? Para cobrar de quem atravessa?

— Provavelmente cobram também.

Apari encostou a colher na borda da tigela.

— Eu preferia a parte em que a gente ia de cavalo.

Éteram começou a sorrir.

— Ainda estou tentando chegar nela.

— Passou por todos os mortos do reino primeiro.

Ele riu baixo e aproximou o jornal para continuar. Apari puxou a folha de exercícios para junto da dele. A palavra que tentava copiar ainda era comprida demais, mas dessa vez não pediu que a trocasse.

Henry não mandou recado.

Apari pensou nisso enquanto costurava, enquanto esperava Éteram e enquanto tentava distinguir letras que pareciam ter sido criadas apenas para se confundirem umas com as outras.

No fim da semana, decidiu ir ao bar.

Dessa vez, avisou antes.

Éteram colocou duas raízes pequenas na bolsa dela e ficou examinando o nó por tempo demais.

— Não precisa arrumar uma desculpa para falar — disse Apari.

Ele ergueu os olhos.

— Quero saber o que ele pedir.

Ela assentiu.

— Eu também.

Éteram terminou o nó.

Não era exatamente a resposta que desejava. Apari percebeu, mas o beijou antes que os dois começassem a imaginar trabalhos que ainda não existiam.


O guarda apareceu pouco depois da abertura da biblioteca.

Éteram o viu pela janela, conversando com o homem da loja vizinha. Não procurava um ladrão em fuga nem parecia preocupado com qualquer confusão imediata. Fazia perguntas, observava as respostas e seguia para a porta seguinte.

Quando entrou, trouxe lama nas botas.

Éteram olhou para o chão que acabara de limpar. Depois ergueu os olhos com a expressão mais respeitosa que conseguiu encontrar.

— Bom dia.

O guarda respondeu e apoiou a mão no balcão. Era alto; a barra do casaco ainda pingava sobre as botas. Tinha a pele amorenada, cabelos negros e lisos cortados junto à nuca e olhos muito escuros, atentos apesar do cansaço. O nariz era largo na base. Havia alguma carne nas bochechas, endurecida quando apertava a mandíbula, e uma barba curta que não fechava bem junto a um canto da boca. Uma cicatriz interrompia a sobrancelha. As unhas estavam aparadas, mas a borda de uma conservava terra seca. Quando tirou a luva da outra mão, Éteram percebeu que as articulações estavam vermelhas de frio.

— Você fica aqui todos os dias?

— Nos dias em que a biblioteca abre.

— Percebeu alguma coisa estranha na última semana? Gente de fora, procurando informação? Um grupo de rapazes, mais ou menos da sua idade.

Éteram pensou no pergaminho.

A lembrança veio acompanhada pelo colarinho preso em seus dedos e pela maneira como o rapaz olhara para ele antes de sair. Baixou os olhos para a pilha de recibos. Havia várias maneiras de contar aquela história e quase nenhuma que terminasse sem outras perguntas.

— Não vi nenhum grupo.

O guarda o observou.

— São perigosos? — perguntou.

— Uns patifes. Mais trabalho do que perigo.

— Meros delinquentes, então.

O homem ergueu uma sobrancelha.

Éteram desejou imediatamente ter escolhido palavras menores.

O guarda, entretanto, abriu um sorriso.

— Faz jus ao lugar onde trabalha.

— Conheci a pessoa certa e aprendi as palavras certas.

— Tomara que saiba escolher quando usar.

Éteram assentiu.

O guarda examinou as estantes. Perguntou se havia outra saída além da principal, recebeu a indicação do corredor de serviço e voltou ao balcão.

— Vou ficar nesta região. Se aparecer alguém fazendo perguntas esquisitas, pode me chamar.

Éteram acompanhou a mão do homem afastando-se do tampo. Uma pequena faixa de umidade permanecera sobre a madeira.

— Se precisar de ajuda com um texto chato ou algum documento, também posso ajudar.

A oferta saiu porque o silêncio estava demorando. Só depois percebeu que talvez tivesse acabado de se oferecer para ler a própria denúncia.

O guarda soltou uma risada.

— Vou lembrar disso.

Deu alguns passos e tornou a virar-se.

— Amanhã vem uma pessoa falar com você sobre esse assunto. Deixe um tempo para atender.

Éteram assentiu outra vez.

Quando a porta se fechou, continuou olhando para ela.

Até aquela semana, a parte mais difícil de trabalhar na biblioteca havia sido encontrar um livro marrom descrito como vermelho. Começava a sentir falta daquele problema.


Apari esperou quase duas horas.

No começo, permaneceu no corredor de entrada, onde podia ver quem chegava e sair sem precisar atravessar o salão. A casa trocava de mãos diante dela: um homem deixou o posto junto à escada, outro recebeu suas chaves; saíram cestos fechados, entraram pães ainda quentes. O calor vindo de baixo não cessava. Apari ouviu uma discussão abafada sobre uma válvula e, depois, o baque de metal que a interrompeu. A mulher das contas verdes a encontrou acompanhando o percurso dos cestos e a convidou para uma sala menor.

— É melhor esperar aqui.

Apari olhou para a porta.

— Por quê?

— Os clientes reparam em quem entra e sai. Alguns gostam de imaginar o resto.

Ela indicou uma cadeira.

— Mesmo sem máscara, podem achar que veio usar os serviços da casa.

Apari sentou devagar.

— Isso não é ilegal?

A mulher ajeitou uma dobra da manga.

— Claro que é.

Não havia ironia suficiente na resposta para torná-la uma brincadeira.

Apari examinou os copos limpos sobre um aparador, a madeira escura da porta e a fechadura que podia ser movimentada por dentro. Do outro lado da parede, alguém ria com uma liberdade que provavelmente não levava para a rua.

— Aqui pode?

— Aqui acontece.

A mulher deixou uma jarra de água e um prato com pão.

Apari aguardou que ela se voltasse.

— E Lídia?

A expressão por trás da máscara mudou discretamente.

— Está comendo. Ainda não consegue segurar uma caneca direito. Mas está comendo.

Apari sentiu o próprio estômago relaxar.

— Ela fica onde? Num quarto desses?

— Na enfermaria, no quarto andar. Lá em cima é dos funcionários. Tem comida, banho, descanso. Quem precisa dormir uma noite pode conseguir uma cama de emergência. Morar aqui todo dia é pago.

A mulher recolheu um copo do aparador e conferiu a borda contra a luz.

— E não é passagem de cliente. Nem para os quartos de serviço. Tem até criança lá em cima.

Apari ergueu o rosto.

— Criança?

— Filhos que as mulheres tiveram por uma gravidez começada enquanto atendiam nos quartos. Só esses podem ficar. A casa dá comida, cuidadores, ensino sem cobrar. E cama, numa emergência.

— Então elas têm filho trabalhando aqui?

A mulher pousou o copo. Apari se arrependeu do modo como a pergunta soara, mas a outra respondeu sem mudar a voz.

— Quem faz atendimento sexual tem de tomar uma poção para evitar. Não suspende o ciclo. Só dificulta a gravidez. A mulher da enfermaria explica assim: na época fértil, protege em seis de cada dez casos. Fora dela, em oito. Sobram casos demais.

Apari olhou para o prato. A casca do pão se abrira numa fenda dourada. Tentou imaginar repartir aquilo com alguém menor, que ainda não pudesse sair para roubar.

— E, se ela parar de atender?

— Pode ir para a cozinha, a limpeza, outro serviço. Se continuar empregada, o filho conserva o amparo. Trabalhou cinco anos nos quartos e depois quinze lavando roupa? A criança daquela primeira época pode continuar estudando por todo esse tempo.

— Mas, se tiver outro depois?

— Uma gravidez começada quando ela já está na limpeza não entra na regra. A casa não assume esse filho. É a função na época da gravidez que conta, não a máscara que a mãe usou antes.

Apari passou o polegar por uma rachadura na unha. Duas crianças da mesma mulher. Uma podia comer ali; a outra, não. A mulher das contas verdes recolheu outro copo.

— E o que cresceu aqui tem que trabalhar aqui para pagar?

— Não. Quando adulto, escolhe. Pode procurar emprego fora, ficar na cozinha, virar segurança, atender se quiser. Ter estudado aqui não compra o corpo de ninguém. E criança não entra nos salões nem nos quartos dos clientes.

Do corredor veio o tinido de louça empilhada. Apari olhou para a porta por onde tinham levado Lídia na outra noite. Havia regras para tudo naquela casa. Ainda queria saber qual delas manteria um homem do lado de fora.

— O marido veio?

— Não chegou até ela.

A mulher não acrescentou nada. Apari também não insistiu. A porta se fechou com um clique suave, deixando-a sozinha diante da água e do pão.

Dessa vez, comeu.

Guardou as raízes que Éteram lhe dera. Levaria de volta para casa.

Esperando ali, lembrou dos jornais que Éteram lera para ela nos últimos dias. Nunca faltavam nomes de autoridades. Apontara um dos títulos, perguntando se era mais alguém de quem precisariam conseguir uma assinatura para sair da cidade.

Ele não soubera dizer quais papéis exigiriam deles. Explicara o que conhecia: condes administravam condados; duques, ducados; grão-duques e arquiduques reuniam territórios maiores. A terra acompanhava esses títulos, que passavam aos filhos. Barões administravam cidades, mas não eram donos delas pelo título; um conde ou duque podia mudar quais cidades ficavam sob suas ordens. Os barões escolhiam prefeitos. Nenhum desses dois cargos passava automaticamente para um filho.

— E acima de todos eles, o rei — concluiu Éteram. — Tem um conselho para aconselhar, mas a vontade dele é absoluta.

— O voto dele vale mais que o dos outros juntos?

— Vale.

Apari deixou de seguir a coluna com o dedo.

— Bastava ele querer para eu poder trabalhar aqui?

Éteram assentira, naquela noite. Agora, Apari tornou a olhar para a porta fechada. Do outro lado, um cliente chamava por vinho.

Enquanto esperava, examinou o bordado de uma almofada. Contou os pontos de uma folha e descobriu onde a costureira escondera uma emenda. O trabalho era tão bem-feito que precisou tocar para ter certeza.

Pensou em quanto pagariam por uma peça daquelas numa cidade onde ela pudesse receber por costurar.

Henry entrou quando Apari já havia consultado o relógio quatro vezes.

— Achei que tivesse desaparecido.

Ela levantou os olhos.

— Eu achei que o senhor mandaria me chamar.

Ele retirou as luvas com calma.

— E para onde mandaria?

Apari abriu a boca, mas lembrou-se do endereço que tivera o cuidado de esconder. Henry sorriu antes que ela encontrasse uma resposta.

— Uma parceria fica um pouco difícil quando metade dela não pode ser encontrada.

— Então vim resolver essa metade.

Ele pareceu satisfeito. Sentou-se e fez um gesto para uma empregada recolher o copo, o prato e os talheres utilizados por Apari. Esperou que a porta se fechasse antes de perguntar:

— Pensou na proposta?

— Pensei. Se o pagamento for bom como da primeira vez, quero continuar.

Henry começou a rir.

Apari não gostou do som.

— Não se ganha um ouro toda vez que se atravessa uma janela — disse ele. — Aquilo foi um bônus. E um incentivo.

— Percebi a parte do incentivo.

— Ainda assim, vai ganhar mais comigo do que conseguiu nessa vida de mendiladra.

Apari ficou imóvel.

Henry observou a mudança sem se apressar em corrigir nada.

— Você sabe o que faz. Eu sei quanto isso costuma render nas ruas. Estamos conversando porque pode render mais aqui.

Ela apoiou as mãos sobre os joelhos.

— Então fala do trabalho.

Ele inclinou ligeiramente a cabeça. Apari sentia o calor da luz nos cabelos presos, longe do rosto. O olhar de Henry subiu de suas mãos até a testa, demorou-se nos cachos. Ela conteve a vontade de soltá-los para se esconder atrás deles. Mantinha o rosto limpo, mas reconhecia muito bem aquele modo de examiná-la.

Henry apoiou os cotovelos na mesa, ainda olhando para o cabelo dela.

— Pele clara, esse cabelo… Alguns clientes pagariam muito bem por uma hora.

Apari se levantou.

Ele ergueu a mão antes que ela falasse.

— Eu ouvi sua resposta na semana passada. Não estou fingindo que não ouvi. Estou dizendo quais possibilidades existem. Você continua escolhendo.

— Já escolhi.

— Ótimo. Sente.

Apari permaneceu de pé mais alguns instantes. Depois voltou à cadeira, com o corpo perto da borda.

Henry examinou uma unha.

— Estou pensando em ampliar alguns serviços. Conhece algum rapaz bonito? Um amigo, talvez. Seu namorado.

A resposta veio sem hesitação.

— Não.

Ele ergueu os olhos.

Apari sustentou o olhar sem acrescentar uma palavra.

Henry manteve os olhos nela por mais um instante. Depois deixou o silêncio passar sem insistir.

Abriu uma pequena bolsa de couro e a colocou sobre a mesa. Havia um bilhete preso ao cordão.

— Um cliente quebrou o pulso de uma das mulheres da casa. O direito.

Apari olhou para a bolsa.

— Ele está lá fora?

— Não. Foi embora. Deixou dinheiro para compensar o inconveniente.

Henry pronunciou a última palavra com cuidado, como se a examinasse antes de decidir onde cortá-la.

— Quero que devolva isto. Deixe num lugar em que ele encontre. O bilhete vai junto.

Apari aproximou a mão, mas ele manteve um dedo sobre a bolsa.

— Essa é a parte simples.

Ela ergueu os olhos.

— Qual é a outra?

— Quebre o pulso direito dele.

O ruído do salão pareceu diminuir.

Apari olhou para a porta. Depois voltou a encará-lo.

— O senhor quer devolver o dinheiro e machucar o homem?

— Quero que entenda que não comprou o direito de quebrar ninguém.

Ela franziu a testa.

Henry retirou o dedo da bolsa.

— Não tolero esse comportamento num ambiente familiar.

Apari examinou o rosto dele, procurando a brincadeira. Não encontrou.

— Familiar.

— As pessoas passam mais tempo aqui do que em muitas casas. Entenda a palavra como preferir.

Ele encostou-se na cadeira.

— Foi a segunda vez. Na primeira, deixei a advertência muito clara. Algumas coisas admito corrigir com uma conversa. Na segunda, o preço precisa ser outro. Na terceira, a pessoa perde o bem mais precioso que possui.

Apari não perguntou qual.

Apari olhou para a mão que Henry retirara da bolsa. Era a mesma que pusera o ouro diante dela depois de mandar cuidar de Lídia. Agora ele especificava um osso quebrado como quem encomendava o conserto de uma porta.

— Por que eu?

— Porque sabe esperar, observar e entrar onde não a convidaram. Porque não precisa fazer isso no meio da rua. E porque quero saber se posso confiar em você quando a tarefa não termina com agradecimentos.

Apari olhou para o bilhete.

— O que está escrito?

Henry a observou por um instante. Depois leu. O texto devolvia o pagamento, lembrava o aviso anterior e dizia que aquela era a última oportunidade de entender as regras da casa.

Não mencionava Apari.

Ela tocou o cordão da bolsa.

— Quanto pelo serviço?

— Três pratas, concluído. Se fizer direito, podemos conversar sobre uma quantia fixa para ficar disponível e receber por trabalhos adicionais.

Três pratas.

Apari pensou no salário de Éteram. O pensamento a irritou. Não queria medir um pulso pelo número de caixas que ele precisaria carregar.

— E se eu não conseguir?

Henry não mudou de expressão.

— Devolve a bolsa. Não precisa voltar procurando outro serviço; vou chamar alguém que consiga. As outras possibilidades continuam existindo.

Apari lançou um olhar curto às máscaras penduradas do lado de fora da sala.

Ele acompanhou.

— Você perguntou.

Ela se levantou com a bolsa na mão.

O couro era macio. As moedas dentro dela pertenciam a um homem que quebrara alguém e esperara ir embora mais leve. Apari não gostava de perceber o quanto essa parte tornava fácil guardar a encomenda.

Henry descreveu o cliente: alto, pesado, cabelo curto, barba aparada junto ao queixo, marcas profundas ao redor da boca. Deu-lhe os lugares em que costumava ser encontrado e uma referência da casa.

Apari repetiu as informações.

Quando terminou, Henry assentiu.

— Discreta. Completa. Como foi pedido.

Ela saiu antes de descobrir o que teria vontade de responder.

No corredor, a mulher das contas verdes a esperava com uma capa escura dobrada sobre o braço.

— Leva.

Apari tocou o tecido. Havia um capuz largo, costuras resistentes e uma pequena faixa interna para prendê-lo sem deixar as mãos ocupadas.

— Faz parte do pagamento?

— Faz parte de não precisar explicar seu rosto depois.

Ela ajudou Apari a acomodar a peça sobre os ombros.

— Usa o que sabe fazer. Não tenta resolver do jeito que um homem do dobro do seu tamanho resolveria.

Apari levantou os olhos.

— Você sabe o que ele pediu?

A mulher acertou a dobra do capuz.

— Sei qual das nossas ainda não consegue se vestir sozinha.

Apari guardou a bolsa por dentro da capa.

Na rua, o tecido pesou menos do que imaginara. O trabalho, mais.


Encontrou o homem perto do fim da tarde.

Estava sentado diante de um estabelecimento, ocupando a cadeira com o conforto de quem nunca precisava pensar se a madeira suportaria seu peso. A descrição combinava. Quando se levantou para pagar alguma coisa, Apari viu o tamanho das mãos.

Olhou para as próprias.

Não conseguiria imobilizá-lo numa briga. Se o surpreendesse e errasse, talvez tivesse apenas uma tentativa. A faca resolveria outro tipo de problema, mas Henry fora específico. Ela também não queria descobrir como seria carregar a lembrança de um homem morto por causa de três pratas.

Permaneceu do outro lado da rua até ele ir embora.

Seguiu-o a uma distância confortável, mudando de calçada quando necessário. O capuz escondia os cabelos, mas não a tornava invisível. Precisava continuar sendo uma pessoa que tinha motivo para andar.

A casa possuía uma janela de cozinha voltada para um pátio estreito. Apari encontrou um ponto de observação junto ao muro. Viu o homem entrar, retirar o casaco e examinar alguns recipientes sobre a mesa.

Havia muitos.

Potes pequenos, garrafas, um recipiente tampado por tecido. Uma xícara de cerâmica descansava perto da mão direita dele. O homem bebeu o que havia ali, fez uma careta e colocou a xícara de volta.

Apari esperou.

Ele tornou a sair algum tempo depois, levando uma sacola vazia. A porta fechou. Seus passos atravessaram o pátio e desapareceram.

Ela contou mais um intervalo antes de se aproximar.

A janela não estava trancada.

Isso a deixou desconfiada o suficiente para abri-la apenas um pouco e escutar. Nenhuma respiração. Nenhum ruído de cadeira. Do outro lado, o cheiro era amargo e lembrava casca molhada.

Apari entrou.

Encontrou primeiro a xícara. Restava no fundo um líquido marrom, turvo, com partículas grudadas na cerâmica. Não tocou. Aproximou o rosto o suficiente para sentir o cheiro e se afastou fazendo uma careta.

Os potes possuíam rótulos.

Apari reconheceu uma letra em um deles. Um A, talvez. Sentiu uma raiva curta e precisa de saber tão pouco.

Examinou o conteúdo através do vidro. Folhas enroladas, pequenas raízes, alguma coisa semelhante a sementes. No último recipiente, havia besouros.

Inteiros.

Escuros, com pernas finas e cascos que refletiam a luz da janela.

Apari inclinou a cabeça. Nenhum se moveu. Não conseguiu determinar se estavam secos ou conservados de alguma outra forma.

Olhou novamente para a xícara.

Pensou em Éteram, no modo como ele identificava uma erva pelo cheiro e imediatamente começava a explicar onde poderia utilizá-la.

Ouviu um ruído do lado de fora.

Ficou imóvel.

Uma porta se fechou no pátio vizinho. Alguém chamou uma criança. Apari esperou até que os passos se afastassem.

Não procurou nada que pudesse roubar. A bolsa de moedas permaneceu sob a capa, com o bilhete preso. Não faria a parte fácil antes de compreender se conseguiria cumprir a outra.

Repassou mentalmente os objetos: xícara, potes, besouros. A janela. A cadeira em que o homem se sentara. A posição da porta.

Depois saiu pelo mesmo lugar.


Éteram percebeu a capa antes de perceber a expressão dela.

— Isso é novo.

Apari soltou o fecho.

— Emprestaram.

Ele tocou a borda do tecido com a ponta dos dedos.

— É boa.

— Eu sei.

Ela a pendurou longe do fogo e retirou as raízes da bolsa. Colocou-as junto aos ingredientes que ele havia separado.

Éteram olhou para os alimentos devolvidos.

— Você comeu?

— Pão. Tinha lá.

Ele assentiu, mas continuou observando-a.

— E o serviço?

Apari demorou um pouco mais do que deveria.

— Tem outro.

— De quê?

Ela encostou a bolsa de couro na superfície, sem soltar o cordão.

— Devolver um dinheiro. Para um homem que machucou uma mulher do bar.

Éteram examinou o bilhete.

— E só?

Apari pensou no pulso. Na cara que ele faria. Em quanto tempo levariam para chegar à parte em que Éteram desejaria ir junto, convencido de que a própria preocupação bastava para transformar um corpo magro em proteção.

— Tem uma coisa que preciso descobrir antes.

Ele permaneceu olhando para ela.

Apari sabia que não havia respondido. Sentiu isso com particular clareza porque passara tempo demais ensinando a ele como era desagradável ficar do outro lado de uma resposta incompleta.

— Ainda não fiz nada — acrescentou.

Éteram soltou o ar.

— Me conta antes de fazer.

Ela assentiu, guardando a bolsa junto à capa. A promessa pequena encontrou imediatamente o peso daquilo que ainda não dissera.

Por algum tempo, ajudou a limpar as raízes. Éteram falou de um guarda que fizera perguntas sobre rapazes de fora e de uma visita prevista para o dia seguinte. Apari ouviu enquanto tirava terra de uma dobra da casca. Ela própria escolhera cuidadosamente o que contar. Mesmo assim, ao vê-lo hesitar antes de voltar ao trabalho, sentiu vontade de perguntar o que faltava na tarde dele. Não perguntou.

Apari lavou uma raiz. Esfregou a terra com força desnecessária.

— Besouro serve para alguma coisa?

Éteram parou com a faca sobre a tábua.

— Vivo?

— Sei lá. Besouro.

Ele examinou os ingredientes, como se precisasse ter certeza de que nenhum acabara de aparecer ali.

— Depende do besouro.

— Num pote.

Éteram ergueu a cabeça.

— Isso melhorou bastante a pergunta.

Apari lhe mostrou a língua. Ele voltou a cortar.

— Tem gente que coleciona insetos. Vi um homem procurando um livro sobre isso. Asas, pernas, nomes difíceis. Ficou muito ofendido quando perguntei se dava para comer algum.

Ela apoiou os cotovelos na beirada.

— E se a pessoa só tiver besouros?

— Talvez goste mais de besouros.

— Por quê?

Éteram levantou os olhos.

— Rosa, você está pedindo para eu explicar o gosto de um desconhecido por besouros.

Apari quase sorriu.

— O mundo é grande — acrescentou ele. — Tem gente que gosta de coisas muito estranhas.

Ela examinou a concha que ele acabara de colocar ao alcance da mão.

Éteram percebeu o olhar.

— A concha tem utilidade.

Apari começou a rir.

Ele balançou a cabeça, satisfeito por ouvi-la outra vez, e levou as raízes para a panela.

Ela esperou até que ele voltasse.

— E uma bebida marrom? Meio suja, com coisa no fundo?

— Uma descrição assustadora de metade do que já bebemos aqui.

— Éteram.

Ele apoiou as mãos na superfície.

— Pode ser chá. Casca, raiz, folha. Depende do cheiro e do que colocaram.

— As pessoas tomam por quê?

— Porque gostam. Porque alguém disse que faz bem. Porque estão tentando dormir ou ficar acordadas. Tem planta que ajuda, tem planta que faz mal. Não dá para saber pela cor.

Apari ficou olhando para a panela.

Éteram acompanhou sua expressão e inclinou a cabeça.

— Você não está pensando em tomar alguma coisa que encontrou por aí, está?

— Não.

A resposta foi verdadeira. Ele pareceu se tranquilizar um pouco.

Recolheu os restos das raízes e limpou a superfície onde pretendia colocar o papel.

— Acho que você está encontrando assuntos para não começar a aula.

Apari se endireitou.

— Não estou!

Éteram trouxe a folha.

— Ontem eram cavalos. Antes de ontem, você precisava entender como o ponteiro sabia a hora. Hoje são besouros.

Ela cruzou os braços.

— Minha curiosidade incomoda você.

— Sua curiosidade aparece sempre que eu pego o papel.

Apari examinou as letras que fizera na noite anterior. Algumas já pareciam menos inimigas.

— Você consegue trazer um livro de chás?

Éteram parou.

Ela percebeu o efeito e continuou:

— Um que mostre as coisas. Para eu saber que folha é qual. Talvez tenha os nomes.

O rosto dele se iluminou com um entusiasmo que fez Apari sentir a bolsa de couro mesmo estando longe dela.

— Tem um de ervas de cozinha e infusões. Posso pedir para levar. Os desenhos são bons.

Ela assentiu.

Éteram se sentou ao seu lado e aproximou a folha.

— Então hoje vamos fazer uma coisa diferente.

Escreveu duas palavras. Apontou a primeira.

— Água.

Apari reconheceu o A.

Ele indicou a outra.

— Fogo.

Ela olhou para a panela, depois para o papel.

— Você vai me ensinar a ler uma cozinha inteira?

— É um bom começo.

Apari segurou o instrumento de escrita, dessa vez fazendo menos força.

O braço dele encostou no seu enquanto demonstrava a primeira curva. Éteram cheirava a farinha, fumaça e ao sabão que tinham comprado. Apari acompanhou a mão deslizando sobre o papel e pensou no homem que guardava besouros, nas moedas que precisava devolver e em tudo o que não caberia naquela mesa quando finalmente contasse.

Escreveu água.

O G saiu torto.

Éteram mostrou como corrigir sem rasgar a folha.

Ela tentou de novo.


Na manhã seguinte, Apari saiu com Éteram até a esquina.

Precisava buscar água e queria conferir uma das ruas que Henry mencionara. Disse apenas a primeira parte. Éteram levava consigo a folha da aula, dobrada com tanto cuidado que ela reclamou.

— Não precisa mostrar isso para ninguém.

— Não vou mostrar.

— Então por que está levando?

Ele tocou o bolso do colete.

— Para copiar outras palavras quando tiver tempo.

Apari tentou parecer indiferente.

Não conseguiu inteiramente.

Antes de se separarem, aproximou os dedos da gola dele e ajeitou a dobra que sempre insistia em ficar para fora. A marca em sua bochecha já estava menos evidente. Ela a viu mesmo assim.

Éteram percebeu o olhar.

Não disse nada. Apenas segurou sua mão por um instante antes que a retirasse.

— O livro de chás — lembrou Apari.

— Eu lembro.

— Com desenhos.

— Eu lembro disso também.

Ela se inclinou e o beijou.


Éteram acompanhou-a com os olhos até desaparecer atrás da carroça próxima ao poço. Depois seguiu para a biblioteca.

O visitante chegou antes do meio-dia.

Era alto o suficiente para fazer Éteram reparar na altura da porta. Mesmo acostumado a olhar por cima de muita gente, precisou erguer um pouco o rosto para encará-lo. O homem vestia azul-escuro, quase preto onde a luz não alcançava. A mão fechada no cabo de uma bengala precedia cada passo; uma perna acompanhava a outra com um atraso discreto. A ponta batia na pedra antes da sola.

Os cabelos, loiros tomados de grisalho, estavam amarrados e desciam até as costas. Não usava chapéu. A testa descoberta trazia um bindi roxo, o sinal do terceiro olho da magia; sob os olhos azuis, o delineado da mesma cor prolongava a sombra das pálpebras. Éteram reparou no nariz empinado e na barba rala por fazer. Aquele rosto parecia cuidadosamente preparado para ser visto, com exceção dos pelos curtos espalhados pelo queixo.

Éteram saiu de trás do balcão.

— Posso ajudar?

O homem ergueu dois dedos, indicando que não precisava se aproximar.

— Fique onde estava. Não vim exigir cerimônia.

Éteram parou.

O visitante examinou o colete, as mãos manchadas de tinta e o livro de registros aberto sobre o tampo.

— Embora aprecie a intenção.

Aproximou-se por conta própria.

Havia um cheiro discreto de ervas secas em suas roupas. Não parecia o perfume do bar que Éteram sentira em Apari; lembrava os armários onde a biblioteca guardava materiais para afastar insetos.

— Um soldado avisou que eu viria?

Éteram assentiu.

— Sobre os rapazes?

— Exatamente.

O homem passou os olhos pela sala antes de continuar. Não havia outros leitores perto o suficiente para ouvir sem demonstrar interesse.

— Eles levaram algumas escrituras que me pertencem. Materiais de estudo, de grande valor. Preciso recuperá-los antes que a ignorância cause algum estrago.

Éteram se lembrou do pergaminho.

— São perigosos?

— Os rapazes ou os textos?

Ele hesitou.

— Os dois, talvez.

O visitante abriu um sorriso pequeno.

— Pessoas que não compreendem o que carregam podem ser perigosas de maneiras muito tediosas. Quanto às escrituras, não servem para a população comum. São material de magos e feiticeiros.

Éteram apoiou a mão no balcão.

— Magia?

Falou mais alto do que pretendia.

O homem observou sua expressão com interesse.

— Sim, meu jovem. Magia.

Éteram olhou para os cabelos compridos, para os punhos do casaco, para as mãos pousadas sobre a madeira. Não viu chama, luz ou qualquer coisa que distinguisse aqueles dedos dos seus. Isso tornou a presença do homem ainda mais desconcertante.

— O senhor é…

O visitante inclinou a cabeça, permitindo que completasse a ideia sozinho.

Éteram sentiu uma vontade absurda de fazer perguntas. Sobre o ardélio. Sobre as ligações que permitiam ouvir alguém do outro lado de um reino. Sobre a mãe, embora não houvesse razão para aquele homem saber qualquer coisa a respeito dela.

Conseguiu permanecer quieto.

O visitante apontou para o registro aberto.

— Você lê com facilidade?

— Leio.

— Teve instrução?

— Meu tio ensinou. Depois continuei por conta própria.

O homem examinou uma das anotações no livro.

— Alguma letragem. Mais do que encontro em muitos lugares.

Éteram resistiu à vontade de endireitar o colete.

— Se me ajudar a recuperar o que foi levado — continuou o visitante —, posso fazer um teste. Ver se possui algum talento além da vista.

Ele ergueu os olhos.

— Um teste para magia?

— Para saber se há algo que mereça ser desenvolvido.

O homem falou com a tranquilidade de quem oferecia uma informação comum. Para Éteram, entretanto, a sala pareceu mudar de tamanho. As estantes continuavam no mesmo lugar, mas as coisas que poderiam existir depois delas se multiplicaram de repente.

Pensou em Apari reconhecendo a primeira letra de seu nome.

Pensou que talvez houvesse uma versão daquela alegria que ainda não conhecia.

— Posso ajudar — disse.

O visitante assentiu, satisfeito.

Explicou que bastava avisar ao guarda se os rapazes voltassem. Não pediu que Éteram os seguisse nem tentasse retirar deles qualquer objeto. Se apresentassem textos, deveria lembrar do aspecto da capa, dos selos, de tudo o que permitisse reconhecê-los.

Éteram ouviu com atenção.

Oportunidades como aquela provavelmente não chegavam duas vezes ao mesmo balcão.

Ainda assim, não contou da visita anterior.

A cada momento em que poderia fazê-lo, precisava começar explicando por que não falara ao guarda. Depois teria que admitir que segurara um cliente pelo colarinho, lera uma parte do pergaminho e o mandara embora.

Quando encontrou uma frase possível, o homem já estava se despedindo.

Éteram acompanhou-o até a porta com os olhos.

O visitante saiu sem precisar se curvar, embora parecesse que deveria.

Durante o restante da manhã, Éteram guardou três livros na ordem errada e precisou conferir o próprio trabalho duas vezes.


Conseguiu autorização para levar o livro de infusões no fim do expediente.

Era um volume gasto, com uma mancha antiga na capa e desenhos de plantas suficientes para manter Apari interessada, pelo menos enquanto não percebesse a quantidade de palavras entre eles. O funcionário responsável pelo empréstimo anotou o título, a data e o nome de Éteram.

— Devolve seco.

Éteram olhou para a mancha.

— Já está assim.

— Então não acrescente outra.

Ele envolveu o volume num pano e o acomodou contra o peito. Levava também a folha de Apari, algumas sobras de papel em que poderia preparar os exercícios e um pequeno frasco de tinta bem fechado.

Saiu pensando no teste.

Não sabia quanto custava estudar magia. Provavelmente mais do que possuíam. Também não sabia se um resultado favorável significava alguma coisa concreta. Talvez precisasse de anos, de livros impossíveis de comprar, de uma família que pudesse sustentar alguém enquanto aprendia.

Mesmo assim, imaginou contar a Apari.

Ela faria perguntas. Chamaria de idiota se o visse sorrindo sem conseguir explicar. Depois perguntaria se ele conseguiria aquecer a panela sem lenha, porque era exatamente o tipo de utilidade que lhe ocorreria primeiro.

Éteram sorriu sozinho.

Foi assim que esbarrou no rapaz.

O impacto aconteceu no encontro de duas ruas, perto de um carrinho de mercadorias. Éteram apertou o livro contra o corpo para impedir que caísse. O outro segurou seu braço, aparentemente ajudando-o a recuperar o equilíbrio.

— Desculpa — começou Éteram.

Ergueu os olhos.

Reconheceu primeiro a alça atravessada no peito, depois a barbicha e os cachos castanhos curtos. O rapaz dos idiomas antigos sorriu.

— Está com pressa?

Éteram tentou afastar o braço. A mão do desconhecido continuou ali por um instante a mais do que deveria.

— Estou indo para casa.

— Então vou ser rápido. Notou alguma movimentação diferente? Guardas procurando pessoas, alguém fazendo perguntas?

Éteram olhou para a rua atrás dele.

Ainda havia gente passando. Uma mulher negociava alguma coisa na porta de uma casa; dois carregadores discutiam sobre uma caixa. Nenhum deles prestava atenção àquela conversa.

— Não sei de nada.

O rapaz manteve o sorriso.

Éteram sentiu vontade de arrancá-lo de seu rosto.

— E não mencionei nenhum cliente estranho procurando livros de magia — acrescentou.

O sorriso diminuiu.

Por um instante, Éteram se sentiu satisfeito.

Depois percebeu que acabara de confirmar tudo o que tentava negar.

O rapaz soltou seu braço.

— Obrigado.

— Não fiz por você.

— Imaginei.

Éteram ajustou o livro sob o braço. Poderia encerrar ali. Deveria encerrar ali.

— Para que querem aquelas coisas? — perguntou. — Disseram que não servem para quem não é mago ou feiticeiro.

O outro o observou com uma atenção nova.

— Disseram?

Éteram fechou a boca.

— Conheci alguém recentemente que talvez consiga aproveitar — respondeu o rapaz.

Um homem se aproximou pela lateral. Éteram o reconheceu como o segundo visitante da biblioteca. Outro parou perto do carrinho. Ao olhar para trás, encontrou mais dois.

Quatro, além daquele à sua frente.

Nenhum levantou uma arma. Também nenhum deixou um caminho particularmente convidativo.

Éteram sentiu o peso do livro contra as costelas.

— Se não tentar correr, ninguém vai machucar você — disse o rapaz.

A frase fez o estômago de Éteram afundar.

Lembrou-se de Apari esperando diante de uma fogueira apagada. Da promessa de avisar. Do modo como seria difícil mandar um recado se terminasse no fundo de um beco com os dentes quebrados.

— É assim que costuma pedir ajuda?

O rapaz sustentou seu olhar por um instante.

Depois fez um gesto curto. Os outros se afastaram o suficiente para que Éteram conseguisse ver a rua novamente.

— Quero conversar onde ninguém fique ouvindo.

Éteram olhou para a passagem indicada. Era um pequeno recuo entre um depósito fechado e uma parede de pedra. A saída permanecia visível.

— Não vou entrar em casa nenhuma.

— Não precisa.

Ele hesitou.

Poderia gritar. O guarda estava naquela região, em algum lugar. Mas a distância entre a intenção de pedir socorro e alguém chegar parecia bastante grande quando havia cinco desconhecidos ao redor.

Acompanhou-os até o recuo.

Continuou segurando o livro.


O rapaz se apresentou como Remy.

Éteram não ofereceu a mão. Remy pareceu aceitar aquilo como uma consequência razoável da apresentação anterior.

— E você?

— Éteram.

— Éteram. Preciso que olhe uma coisa.

Retirou a capa de couro de dentro do casaco.

Dessa vez, abriu o pergaminho por inteiro.

Éteram reconheceu a borda, a dobra que escondia parte das instruções e uma pequena mancha próxima ao lugar em que lera a palavra vinagre. Havia mais texto do que imaginara, distribuído ao redor de um desenho estreito de recipiente. Um selo escuro ocupava a extremidade inferior.

Remy manteve as duas mãos nas bordas.

— Consegue ler?

Éteram percorreu a primeira linha antes de responder:

— Consigo.

O rapaz soltou o ar devagar.

Um dos homens atrás dele se aproximou. Remy o impediu com um gesto, sem tirar os olhos de Éteram.

— Foi o que achei.

Éteram sentiu a irritação superar um pouco o medo.

— Vocês me cercaram para perguntar isso?

— Na biblioteca, você me pôs para fora antes de eu conseguir explicar.

— Você também não explicou que estava carregando coisa roubada.

O silêncio durou o suficiente.

Remy dobrou ligeiramente uma das bordas.

— Quem disse que é roubada?

Éteram ergueu as sobrancelhas.

— O homem que está procurando vocês não parece sentir falta de uma receita de sopa.

Remy passou a língua pelos lábios. Seus companheiros trocaram um olhar que Éteram não gostou de presenciar.

— Não estou pedindo que decida de quem é — disse por fim. — Estou pedindo que leia.

Éteram olhou para a saída.

— Você não sabe?

Remy retirou do bolso um papel comum, onde havia anotações curtas. Leu uma delas em voz alta, sem dificuldade, e tornou a guardá-lo.

— Sei. Só não consigo ler isso.

Apontou para o pergaminho.

Éteram examinou as linhas outra vez.

Continuavam claras.

— Está na mesma língua.

Remy balançou a cabeça.

— Para você.

Éteram permaneceu quieto.

O rapaz aproximou o texto e pediu que lesse a primeira linha. Éteram obedeceu, mais interessado do que desejava demonstrar.

— Preparo de reserva térmica para administração em pequenas porções.

Remy ouviu até o fim.

— É isso que você vê escrito?

— Foi o que acabei de dizer.

Um dos outros soltou uma risada nervosa. Não parecia estar zombando dele.

Remy indicou os sinais da margem.

— A escrita responde a quem tem certa sensibilidade. Quando a pessoa chega perto, consegue compreender numa forma que caiba na própria cabeça. Precisa saber ler em alguma língua. Não ensina alguém do nada. Mas muda a maneira como o texto chega até você.

Éteram examinou as próprias mãos e voltou ao pergaminho, esperando que alguma letra se movesse. Nenhuma se moveu.

— Para mim, são sinais — continuou Remy. — Posso copiar as formas. Não sei o que querem dizer. Existem maneiras de aprender a escrita original. Por isso estávamos procurando livros de idiomas.

— E você não tem essa sensibilidade.

Remy sorriu sem alegria.

— Não é tão rara quanto gostaria de usar como desculpa. Mas não tenho.

Éteram lembrou-se do visitante de azul-escuro.

Algum talento além da vista.

A vontade de sorrir veio acompanhada por outra sensação, menos agradável. O teste que desejara naquela manhã parecia ter acontecido sem pedir licença, num recuo de rua, diante de pessoas que talvez devesse denunciar.

Não sabia sequer se Remy dizia a verdade.

— Isso faz de mim um mago?

— Faz de você alguém que consegue ler esse pergaminho. O resto eu não sei.

Éteram sustentou o olhar dele. A falta de uma promessa o fez escutar o restante.

Remy retirou uma moeda de prata e a colocou sobre uma pedra larga junto à parede.

— Pelo seu tempo.

Éteram olhou para o dinheiro.

Dez cobres. Mais de três semanas carregando livros. Quase tudo o que conseguira no primeiro mês.

Pensou em Apari segurando o ouro e dizendo que naquele dia o que sabia fazer valera alguma coisa.

Agora compreendia melhor a maneira como ela olhara para a moeda.

— Só para ler? — perguntou.

— Ler e explicar o que conseguir.

Éteram examinou a saída novamente. Remy percebeu.

— Eles ficam ali — disse, indicando a rua. — Você pode ir embora quando terminar.

Os quatro se afastaram. Um continuou perto o suficiente para ouvir, mas já não havia ninguém atrás de Éteram.

Ele se sentou sobre a pedra, com o livro de Apari no colo.

— Então abre direito. Na biblioteca, você escondeu metade.

Remy obedeceu.


Vista inteira, a receita parecia menos absurda.

Não muito menos.

Éteram começou pela lista de ingredientes. Água limpa. Vinagre claro. Casca de ovo lavada e reduzida a pó. Mel. Sal comum. Sangue de ardélio, recolhido enquanto o animal ainda conservasse calor, resfriado e mantido longe do fogo até o momento de uso.

Parou nessa parte.

Remy inclinou-se.

— Algum problema?

Éteram tornou a ler a palavra.

Ardélio.

Viu a tina fumegante, o cordão vermelho, as linhas acobreadas sob as escamas. Lembrou-se do órgão que retirara do ventre e colocara sobre uma pedra enquanto Apari esperava impacientemente pela comida.

Lembrou-se também do sangue que escorrera durante a limpeza.

Não o guardara. Naquela noite, estava ocupado demais tentando preparar a melhor refeição da vida dela para imaginar que alguma parte do peixe poderia valer mais fora da panela.

— Conheço o animal — respondeu.

Remy se aproximou um pouco mais.

— Já viu um?

Éteram hesitou.

— Já preparei.

O rapaz olhou para seu colete remendado. Teve o bom senso de não comentar.

— É difícil conseguir?

Éteram soltou uma pequena risada.

— Depende de quantos porcos você tem para trocar.

Remy não riu.

Ele voltou ao pergaminho.

Havia uma nota ao lado do ingrediente. O sangue deveria ser recolhido fresco; o calor prolongado antes do preparo consumiria parte de sua utilidade. A receita também advertia que sangue escurecido, alterado ou deixado tempo demais fora das condições indicadas tornava o resultado imprevisível.

Éteram acompanhou a linha com o dedo, sem tocar na tinta.

— Não pode ser qualquer resto de peixe morto.

— Está escrito isso?

— Com mais palavras.

O vento atravessou a entrada do recuo. Remy segurou uma ponta do pergaminho que começava a se levantar.

Éteram tornou ao começo.

— É uma poção para conservar calor no corpo por algum tempo. Para suportar frio. Pelo menos é o que diz o título e essa parte aqui.

Remy olhou para os companheiros na rua.

— Quanto tempo?

— Ainda não cheguei.

Continuou lendo.

As instruções distinguiam a preparação da base e a incorporação do sangue. Na primeira, a casca de ovo era trabalhada com o vinagre num recipiente aberto. O pó deveria ser adicionado devagar, até a espuma diminuir e a mistura deixar de reagir da mesma maneira. Depois era necessário esperar que os resíduos assentassem e aproveitar apenas a parte líquida indicada pelo texto.

Éteram franziu a testa.

— Aqui já muda tudo.

Remy ergueu os olhos.

— O quê?

— Quando mostrou o canto dobrado, parecia que estavam mandando pôr o sangue no vinagre quente. Não estão. Primeiro preparam isto. Depois deixam esfriar.

Ele voltou algumas linhas, conferindo a ordem.

Pensou em massa fermentando, em gordura separada do caldo, em receitas que pareciam simples até alguém inverter duas tarefas. Reconhecia o tipo de atenção exigida, embora não compreendesse o motivo de cada ingrediente.

— Casca de ovo moída? — perguntou o rapaz que permanecera por perto.

Éteram olhou para ele.

— Não é para ficar mastigando os pedaços. É para reagir com o vinagre. Depois aproveita uma parte e deixa o restante.

— Para quê?

Ele tornou a examinar a anotação.

Encontrou palavras que conseguia ler, mas não explicar sem apenas repeti-las. Compatibilidade. Meio de reação. Retenção.

— Não sei ainda.

A resposta pareceu surpreender Remy.

— Ler não faz eu entender tudo. Se alguém escrever por que um barco flutua, continuo sem saber construir um.

Remy assentiu, e Éteram voltou às instruções.

A parte líquida preparada com o vinagre receberia água e mel. O texto descrevia uma base ligeiramente espessa, sem grumos, à qual seria acrescentada uma quantidade pequena de sal. Só depois de estar fria o suficiente seria incorporado o sangue.

O aquecimento final vinha por fora do recipiente, numa segunda vasilha com água morna. Nada de fogo direto. Nada de levantar fervura. A receita insistia nessa diferença com uma linha sublinhada.

Éteram leu-a duas vezes.

— Calor para começar. Não calor para gastar tudo antes de beber.

Remy observava o desenho estreito.

— Como você sabe?

— Essa parte está escrita. E o peixe fazia isso.

Éteram aproximou o livro de infusões do corpo, impedindo que escorregasse de seu colo.

— Mesmo depois de morto, continuava quente. Retirei uma coisa daqui — indicou o próprio ventre —, cheia de filamentos da cor de cobre. O calor não sumiu na hora. Ainda tinha nos tecidos.

Lembrou-se de Apari aproximando o rosto da pedra.

Mesmo morto?

— Se o sangue também carrega parte disso, pode ser o que a receita está tentando aproveitar — continuou. — Só que, no peixe, tudo já está no lugar certo. Aqui estão tentando guardar num frasco e fazer funcionar depois.

Remy apoiou o cotovelo sobre o joelho.

— Então não precisa ser mago para preparar?

Éteram examinou novamente as instruções.

— Não encontrei nenhuma parte mandando tirar magia de você. Só do sangue. Mas preciso terminar de ler antes de afirmar.

A receita previa uma mudança de cor. A mistura vermelha deveria perder a aparência de sangue diluído e adquirir um tom de âmbar escuro, avermelhado quando observado contra a luz. Uma opacidade fina se manteria suspensa no líquido, sem descer rapidamente para o fundo. Quando o preparo alcançasse esse estado, o recipiente deveria ser retirado do aquecimento e resfriado para interromper o processo.

Éteram observou o desenho do frasco.

Havia indicações para deixá-lo protegido da luz e do calor. O líquido não continuaria útil indefinidamente. O prazo dependia da condição do sangue e da qualidade do preparo, e o texto apresentava sinais pelos quais reconhecer uma poção que perdera estabilidade.

Ele apontou uma nota.

— Se continuar quente dentro do frasco, alguma coisa deu errado. Está gastando ali o que devia usar depois.

Remy se inclinou para ver, embora o texto permanecesse indecifrável para ele.

— E depois de beber?

Éteram leu a descrição do efeito.

O calor começaria no tronco e alcançaria gradualmente as extremidades. Não se tratava de fazer a boca arder nem de provocar suor: a reserva deveria ser liberada aos poucos, enquanto durasse o Magi incorporado ao preparo. O sangue do ardélio fornecia essa reserva. Os outros componentes permitiam preparar, distribuir e limitar a reação fora do corpo do peixe.

Tudo era descrito com palavras secas, mas Éteram não conseguiu ler sem imaginar Apari durante o inverno. Os dedos endurecidos ao segurar o balde. A ponta do nariz avermelhada. O modo como escondia as mãos sob o cobertor depois de fingir que não estava com tanto frio.

Uma pequena porção daquilo teria mudado algumas noites.

Lembrou-se do preço do peixe.

O pensamento perdeu parte do encanto.

— Não dura para sempre — disse.

Remy assentiu.

— Quanto?

— Depende da força do sangue. O texto usa essa expressão, mas não explica aqui como medir. Depende também de quanto conseguiu conservar no preparo. Não vou inventar uma duração só porque tem espaço na pergunta.

O rapaz soltou uma risada breve. Éteram manteve o dedo sobre as palavras força do sangue.

Continuou até a última nota. Acrescentar mais mel não criava uma reserva nova. Aquecer a poção repetidamente não a recarregava. Uma mistura gasta exigia outro preparo e outra fonte de Magi. Doses maiores também não significavam simplesmente um efeito mais longo; havia um limite de calor que o corpo podia receber sem sofrer.

— Aqui manda tomar pouco — resumiu. — Não beber o frasco inteiro porque ainda está sentindo frio.

Remy observou o pergaminho por alguns instantes.

— É tudo coisa de cozinha.

— Quase tudo.

Éteram indicou o sangue.

— Esse pedaço custa caro justamente porque faz uma coisa que as outras não fazem.

O rapaz permaneceu quieto.

Éteram tornou à parte do sal. Conhecia seu uso na comida e na conservação. Ali, a nota atribuía à pequena quantidade uma função no controle da mistura, mas distinguia o sal usado na base dos minerais especializados citados numa referência lateral. Sal de cozinha não se transformava em material alquímico raro apenas por receber um nome importante.

Isso o deixou um pouco mais tranquilo.

Também encontrou proporções, sinais de preparo e abreviações cuja leitura não resolvia o significado. Uma indicação remetia a uma explicação que não estava naquela folha. A margem junto ao desenho mostrava três marcas e uma palavra curta que reconheceu como uma medida, mas não sabia converter para as canecas que utilizava.

Leu novamente o começo.

Agora via menos uma receita ruim e mais uma receita que não sabia cozinhar.

A diferença o incomodou o suficiente para querer continuar.


— Tem papel? — perguntou Remy, percebendo que ele procurava alguma coisa entre os objetos no colo.

Éteram retirou as folhas que trouxera da biblioteca.

— Tenho.

A primeira se abriu com o nome de Apari escrito várias vezes. Algumas letras grandes, outras inclinadas. Remy baixou os olhos, mas Éteram dobrou a folha antes que pudesse examiná-la.

Escolheu outra.

Colocou o livro de infusões entre o papel e a pedra, protegendo a capa com o pano. Abriu o frasco de tinta e conferiu a ponta de escrita. Remy segurou o pergaminho numa posição mais confortável.

Éteram começou pelo nome do preparo.

Copiou os ingredientes um a um. Ao lado do sangue, acrescentou ardélio — brasa-do-gelo, porque conhecia os dois nomes e não queria esquecer que se tratava do mesmo animal. Separou a preparação do vinagre e da casca, a mistura da base e o momento em que o sangue seria incorporado.

Remy tentou interromper na terceira linha.

Éteram ergueu um dedo.

Terminou a palavra antes de olhar para ele.

— Se eu errar aqui, você pode preparar errado depois. Espera.

O rapaz fechou a boca.

Éteram retomou o trabalho.

Copiou as proporções como estavam, sem converter o que ainda não compreendia. Desenhou o recipiente, reproduziu as três marcas e anotou a referência incompleta com um sinal ao lado. Depois escreveu, numa coluna separada, as dúvidas: o que significava a medida; como reconhecer a força do sangue; quanto tempo podia permanecer guardado; qual era exatamente o estado que a mistura deveria alcançar antes de ser retirada da água morna.

Não colocou suas suposições entre as instruções.

Remy acompanhava o movimento da mão, olhando de vez em quando para o próprio pergaminho. Parecia incomodado com a facilidade com que palavras apareciam numa folha comum enquanto continuavam escondidas dele no original.

— Essa cópia eu vou conseguir ler?

Éteram levantou o papel, deixando a tinta secar.

— Vai. Aqui sou eu escrevendo.

Remy aproximou os olhos da primeira linha. Seus lábios se moveram, acompanhando o título.

Leu.

A satisfação em seu rosto foi tão imediata que Éteram reconheceu alguma coisa. Apari, na rua, apontando para um A. A expressão era diferente, mas o alívio de finalmente encontrar uma passagem estava ali.

Baixou o papel outra vez.

— Só não confunde conseguir ler com estar pronto para fazer.

Remy assentiu.

— Você acha que consegue entender o resto?

Éteram olhou para o livro que servia de apoio.

Entre aquelas páginas havia explicações sobre infusões, repouso, filtragem, conservação e cuidados no aquecimento. Não ensinavam a trabalhar o sangue de um peixe mágico. Mas talvez ajudassem a separar o que já conhecia daquilo que precisaria procurar em outro lugar.

Havia também descrições de criaturas na biblioteca. Relatos sobre o ardélio que ignorara depois de descobrir que não traziam instruções culinárias. Agora começava a suspeitar que teria encontrado outras coisas úteis se não houvesse passado diretamente às páginas sobre carne.

Éteram olhou para a entrada do recuo. O homem de azul mandara que chamasse o guarda se os rapazes voltassem. Remy continuava esperando.

— Posso estudar — respondeu Éteram.

Remy aceitou a resposta e aproximou a moeda de prata.

Éteram a recolheu e guardou no bolso. Em seguida, tornou a conferir a cópia, acompanhando cada linha do pergaminho. Verificou principalmente os trechos que mandavam esperar, resfriar e não aquecer de novo.

Era fácil ignorar uma espera quando se estava com fome. Imaginou que, com magia, a pressa encontrasse maneiras piores de cobrar.

Quando terminou, deixou o papel aberto sobre o pano até a tinta perder o brilho. A rua começava a escurecer. Em casa, Apari provavelmente examinava a panela, decidindo se conseguiria terminar a refeição antes que ele chegasse ou se era melhor esperar para reclamar.

Éteram precisava voltar.

Remy começou a enrolar o pergaminho.

— Onde encontramos você?

Éteram protegeu as anotações entre as folhas limpas e as guardou junto ao livro de chás. Separou a folha de Apari para que a tinta recente não alcançasse suas letras.

Só depois se levantou.

— Na biblioteca, antes de eu sair. Sem me cercar no caminho.

Remy assentiu.

— Amanhã?

Éteram pensou nas estantes que precisaria consultar, nas medidas que não conhecia e na palavra retenção, que conseguia ler perfeitamente sem ainda saber o que exigia de um cozinheiro.

Apertou o livro contra o corpo.

— Em dois dias — respondeu. — Procurem por mim em dois dias. Vou estudar isso com calma.