Éteram estava perto da porta quando ela chegou. Tinha recebido o segundo recado e, por causa disso, conseguira permanecer no abrigo. Permanecer sentado fora outra questão. Havia levantado tantas vezes que já não encontrava motivo para se acomodar novamente.
Apari subiu o último degrau e encontrou Éteram junto à porta. Éteram a recebeu de braços abertos, antes que ela dissesse qualquer coisa. Apari o abraçou com força, prendendo o tecido de seu colete entre os dedos. Durante alguns instantes, ficou apenas respirando contra seu ombro. Ele cheirava a fumaça e à comida que preparava. Apari fechou os olhos.
— Você está bem?
Ela assentiu sem se afastar. Éteram encostou o rosto em seus cabelos e respirou fundo. Apari sentiu o perfume do bar preso à manga, misturado ao suor e à umidade da rua. Queria tirar aquela roupa, lavar-se. Por enquanto, apertou mais o abraço.
— Recebeu meu recado?
— Os dois. O primeiro era horrível.
Uma pequena risada escapou dela.
— Mas o segundo melhorou.
— Melhorou.
Éteram afastou-se o suficiente para enxergar seu rosto.
— Tem comida. Deixei perto das brasas para não esfriar.
Apari olhou por cima do ombro dele.
A panela estava sobre a chapa. Duas tigelas esperavam ao lado, uma delas com a borda lascada voltada para fora, como Éteram sempre a deixava para que ninguém machucasse a boca. O pano usado para pegar coisas quentes tinha caído sobre uma pedra. Perto da porta, uma gota escorreu pela parede e encontrou o pequeno recipiente colocado no chão.
Tudo continuava no mesmo lugar. Naquela manhã, ela saíra dali incomodada com a umidade do cobertor e com a água que precisava buscar. Agora não conseguia parar de olhar para as duas tigelas.
— Apari?
Ela voltou a encará-lo.
— Obrigada.
Éteram acompanhou seu olhar até a panela.
— Ainda nem experimentou. Pode estar horrível.
Ela balançou a cabeça e alisou o tecido que amassara em seu peito.
— Por ser tão bom comigo.
Ele ficou quieto. Apari tentou sorrir, mas a expressão não se sustentou. Baixou os olhos para as mãos dele, ainda marcadas pelos pequenos acidentes da cozinha e pelo trabalho na biblioteca. Conhecia aquelas mãos. Tinham arrancado seu casaco do fogo, remendado mal uma manga e passado noites dividindo comida em porções que nunca lhe pareciam iguais. Naquela tarde, vira outra mão afastar cabelos de uma testa. Soltou o colete. Éteram não tentou prendê-la. Apenas continuou perto.
— O que houve?
Apari olhou para a cama de palha. Uma das pontas do cobertor pendia até o chão. Ela mesma a deixara assim ao levantar, certa de que encontraria tudo de novo quando voltasse. Pensara tantas vezes em se casar com ele. Imaginara uma cozinha, uma porta, o lugar onde pendurariam as roupas. Havia discutido preços e contado moedas, como se só faltasse isso para poder confiar no futuro. Lídia já tinha uma porta.
Apari se lembrou do ferrolho pelo lado de fora e procurou a mão de Éteram.
— Eu não tinha pensado direito em como podia ser ruim.
Ele seguiu o olhar dela até as paredes.
— Aqui?
— Em outros lugares.
Éteram esperou. Ela esfregou o polegar sobre uma pequena mancha de tinta no dedo dele.
— A gente mora nessa porcaria caindo aos pedaços. Entra água, entra frio. Eu fico pensando em como vai ser quando tiver uma casa de verdade…
A voz perdeu força. Apari olhou novamente para as tigelas.
— Tem gente que já tem tudo isso. Parede inteira. Uma cama que não fica molhada. E consegue viver pior que a gente.
Éteram apertou de leve sua mão. Ela pensou no pulso de Lídia permanecendo imóvel mesmo depois de cortada a corda. Tentou lembrar se vira uma aliança. Não conseguiu. Lembrava apenas da pele ferida e dos dedos que mal tinham força para segurar seu ombro. Um dia, ela seria a esposa de Éteram. Apari se aproximou de Éteram e apoiou a testa em seu peito.
— Eu venho para cá porque você está aqui.
Ele inclinou o rosto para ouvi-la.
— Gosto quando você reclama que estou perto demais da panela. Gosto de deitar e saber que, se eu acordar com frio, posso chegar mais perto de você.
Ela puxou o ar, incomodada por estar encontrando tanta dificuldade em dizer coisas que pareciam simples.
— Posso ficar brava. Posso falar uma besteira. Você continua deixando comida para mim.
Éteram pousou a mão em suas costas. Apari permaneceu ali até sentir o calor atravessar o tecido.
— Não tinha agradecido direito.
— Rosa, você não precisa agradecer por voltar para casa.
Ela apertou os lábios contra o colete. Ficou quieta por um instante.
— Eu quero agradecer por querer voltar.
Éteram ficou sem resposta. Abraçou-a com mais cuidado. Quando Apari levantou o rosto, seus olhos estavam úmidos. Ela os esfregou com a manga antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
— Só de ter comida, eu fico em qualquer lugar com você.
Ele abriu um pequeno sorriso.
— Até aqui?
— Até aqui.
Uma gota caiu no recipiente junto à porta. Éteram olhou para lá. Apari também.
— Mas, se conseguir arrumar aquela goteira, eu agradeço outra vez — acrescentou ela.
Ele soltou uma risada baixa. Apari conseguiu acompanhá-lo. O sorriso desapareceu aos poucos, deixando o cansaço que escondera durante o caminho. Éteram passou os olhos por seu rosto, pela manga manchada, pelo modo como ainda segurava sua mão.
— O que aconteceu hoje, Apari?
Ela demorou a responder.
— Vi uma coisa. Espiando por uma janela.
Éteram ficou imóvel.
— Aconteceu alguma coisa com você?
Ela negou com a cabeça.
— Já passou. Não quero falar disso agora.
Éteram olhou para ela por mais alguns instantes. Depois assentiu.
— Está bem.
Não fez outra pergunta. Apari tinha se preparado para precisar explicar por que não queria explicar. A facilidade com que ele aceitou a deixou sem saber o que fazer durante um instante. Acabou segurando seu rosto entre as mãos e o beijando. Foi um beijo breve. Depois outro, um pouco mais demorado. Quando se afastou, continuou perto.
— A comida vai esfriar — murmurou Éteram.
— Você disse que deixou nas brasas.
— Então vai queimar.
Apari riu contra o ombro dele. Ele esperou que ela o soltasse antes de ir até a panela. Afastou-a do calor, mexeu o conteúdo e experimentou uma pequena porção. Apari o observou fazer uma careta para a colher, procurar alguma coisa entre os temperos e mudar de ideia. Nada daquilo exigia que ela se defendesse.
Sentou-se perto do fogo e estendeu as mãos. O ombro doía. Os pés também. Aos poucos, conseguiu prestar atenção no cheiro da comida sem que a lembrança do quarto o substituísse. Só então se lembrou das moedas. Levou a mão à bolsa. Continuavam ali, guardadas sob o tecido. Poderiam pagar mantimentos e um aluguel, talvez comprar a madeira que faltava para fechar uma parte do teto. Queria mostrar a ele. Queria vê-lo sorrir por alguma coisa que ela trouxera.
— Éteram.
Ele se virou, ainda segurando a concha. Apari se levantou e estendeu a mão.
— Vem ver uma coisa.
Conduziu-o até a superfície onde costumavam separar comida. Afastou uma tigela e colocou ali as duas pratas. Éteram parou. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela acrescentou o ouro.
Éteram olhou para Apari e voltou às moedas, sem tocar em nenhuma.
— Onde conseguiu isso?
Ela sorriu. Por um instante, recuperou o entusiasmo que sentira ao receber o pagamento.
— Trabalhando.
Éteram não se mexeu.
— Para quem?
— O dono do bar. Aquele das máscaras. Eu levei os livros, ele começou a perguntar umas coisas…
O sorriso dele, que ainda tentava se formar, desapareceu. Apari acompanhou seu olhar até as moedas. O sorriso dela diminuiu. Éteram olhou para o dinheiro, para a manga marcada, para as roupas dela. O perfume que sentira durante o abraço pareceu adquirir uma explicação terrível. Sentiu vergonha da própria conta, mas já a havia feito.
— Apari…
Ela soltou sua mão.
— O quê?
Ele tentou escolher as palavras depressa demais.
— Você não precisa me explicar se não quiser.
Apari estreitou os olhos.
— Explicar o quê?
— Eu entendo. É muito dinheiro e a gente estava falando da casa… Não vou julgar você. Não vou deixar de amar você por causa disso.
O soco atingiu sua bochecha antes que terminasse de levantar os olhos. Éteram recuou contra a borda da mesa. Uma das tigelas tombou. Ficou segurando o rosto, sem compreender imediatamente a dor. Apari continuava com a mão fechada.
— EU NÃO FIZ ISSO!
Ele olhou para ela.
— Passei todo esse tempo me virando sem fazer isso! Agora estou com você! Falei que queria esperar, falei da gente casar, e você acha que…
A voz falhou. Ela olhou para o próprio punho. Éteram abaixou a mão. Seus olhos estavam úmidos pelo golpe.
— Você prometeu que não ia me bater de novo.
Apari ficou quieta. Não havia grito naquela frase. Ele não precisava gritar para que ela se lembrasse da outra noite, do galho, das marcas que acompanhara desaparecerem do braço dele. Abriu os dedos lentamente. Pouco antes, segurara as mãos dele agradecendo por poder voltar para casa. Agora não sabia onde pôr a sua. Recolheu-a junto à perna, mas continuou vendo o lugar em que acertara.
— Eu sei.
Éteram se sentou. Passou a língua pela parte de dentro da bochecha e fez uma careta. Apari deu um passo. Ele ergueu a mão, pedindo que esperasse. Ela parou. O ouro permanecia entre os dois. Algumas horas antes, imaginara que colocá-lo ali seria suficiente para vê-lo feliz.
— Você nem perguntou — disse ela, mais baixo.
Éteram olhou para as moedas.
— Não.
— Você decidiu o que eu tinha feito.
Ele demorou um instante a responder.
— Decidi. Desculpa.
Apari puxou a cadeira improvisada e se sentou a alguma distância. O espaço pareceu maior do que o abrigo permitia.
— Eu devia ter explicado direito.
— Eu devia ter ouvido.
Ela assentiu, olhando para as mãos.
— E não devia ter batido.
Éteram não tentou aliviar a frase. Apari precisou ficar com ela. Levantou-se para buscar um pano, molhou uma ponta e o colocou ao alcance dele. Não tentou encostar em seu rosto sem pedir. Éteram recolheu o tecido depois de alguns segundos.
— Quando eu disse que não ia julgar… — começou.
Apari ergueu os olhos. Ele pressionou o pano contra a bochecha.
— Aquela parte era verdade. Você não precisa concordar comigo. Mas eu não ia conseguir deixar de gostar de você só porque precisou sobreviver de um jeito que eu não esperava.
Ela apertou os dedos contra o joelho.
— Eu não queria que você pensasse isso de mim.
— Eu sei. Agora sei.
Ele olhou para a mancha na manga dela.
— Só que as mulheres que fazem isso também precisam comer. Alimentar alguém. Não acho que elas tenham que sentir vergonha para eu poder respeitar você.
Apari abriu a boca. Lembrou-se de Lídia olhando para a tigela no chão. Ficou em silêncio. Éteram recolheu a tigela tombada e a colocou de pé.
— Como você conseguiu o dinheiro, Apari?
Dessa vez, esperou pela resposta.
Por alguns instantes, Apari permaneceu olhando para a tigela que ele acabara de colocar de pé. Éteram esperou.
— É aquela coisa da janela — disse ela.
Ele ergueu os olhos.
— Pode contar só a parte que quiser.
Apari passou os dedos pela borda do próprio joelho. Antes, queria deixar a tarde do lado de fora. Agora as lembranças já estavam entre os dois, misturadas às moedas, ao que ele imaginara e ao que ela fizera em seguida.
— Acho que quero contar.
Éteram assentiu e se acomodou para ouvi-la. Começou depressa, pelo pedido de Henry e pela casa que precisara encontrar. Ao chegar à espera entre as tábuas, suas mãos se fecharam sobre os joelhos e a voz perdeu o ímpeto. Éteram deixou o pano de lado para ouvi-la.
Apari contou das cordas, da bacia, das marcas que apareceram quando o homem retirou a roupa de Lídia. Sua voz ficou mais baixa ao chegar à mão passando pelos cabelos. Depois falou da parede fria contra as costas e da madeira que continuara rangendo enquanto esperava do lado de fora. Éteram baixou os olhos para as mãos dela. Apari as mantinha fechadas sobre os joelhos, como se ainda segurasse a faca.
— Tive que esperar ele sair.
Éteram ergueu o rosto. Ela continuou antes que ele encontrasse alguma coisa para dizer.
— Não dava para entrar. Eu olhava para aquela janela e não dava.
Sua voz saiu irritada, quase uma acusação contra a própria lembrança. Éteram não tentou dizer como teria feito. Aproximou a mão e a deixou aberta entre os dois. Apari olhou para ela, mas demorou a soltar os dedos. Depois contou que Lídia precisara descansar entre uma rua e outra e que continuava pedindo desculpas por não conseguir andar direito.
— Ele comeu da sopa dela — disse.
Éteram franziu a testa. Apari olhou para a panela que ele deixara sobre a chapa.
— Ela pagou com o dinheiro do bar. Ele comeu, reclamou quando faltou e depois fez aquilo quando descobriu de onde vinha.
Éteram acompanhou seu olhar. Durante algum tempo, nenhum dos dois falou. Apari não sabia exatamente o que esperava que ele dissesse. Talvez desejasse que ficasse furioso. Talvez quisesse apenas que soubesse por que suas roupas tinham outro cheiro e de quem era o sangue em sua manga.
— Ela está segura agora? — perguntou ele.
— Está no bar. Chamaram alguém para cuidar.
Éteram assentiu. Só então Apari explicou o pagamento, o bônus e a proposta de Henry. Empurrou as moedas na direção dele, mas Éteram manteve as mãos no colo.
— Foi você que ganhou.
— É para nós dois.
Ele olhou para ela.
— Ainda assim.
Apari recolheu o ouro e o virou entre os dedos.
— Quero aceitar.
Éteram respirou fundo. Ela se preparou para a objeção. Conhecia a expressão dele quando tentava transformar medo em conselho.
— O que mais ele quer que você faça?
— Ainda não sei.
— Então precisa saber antes. Procurar uma pessoa é uma coisa. Ele pode pedir outra.
— Eu sei, Éteram.
Ele se calou. Apari esfregou a moeda com o polegar, como se precisasse confirmar continuamente que não era uma peça pintada.
— Não sou boa com livros. Não consigo ficar fazendo essas contas que você faz. Mas sei encontrar uma casa. Sei entrar sem que me vejam. Sei quando alguém está mentindo na minha frente.
Olhou para ele.
— Hoje isso valeu alguma coisa.
Éteram baixou os olhos para o ouro.
— Valeu muito.
— Então não quero ficar aqui esperando você conseguir mais um cobre enquanto posso fazer alguma coisa. Não quero virar um peso que você carrega junto com os livros.
Ele se inclinou.
— Você não é um peso.
Apari soltou uma risada curta.
— Pergunta isso para o cobertor.
Éteram quase sorriu. O movimento repuxou sua bochecha. Ela percebeu e perdeu a vontade de rir.
— Estou falando sério — continuou ele. — Você fez o colete. Encontrou as casas. Me mostrou o caminho hoje. O fato de ninguém pagar por essas coisas não faz elas desaparecerem.
Apari manteve os olhos na moeda. Ele esperou antes de continuar.
— Quero que aprenda a ler.
Ela ergueu a cabeça, desconfiada.
— Agora?
— Aos poucos. Para ninguém poder colocar um papel na sua frente e dizer que está escrito uma coisa quando está escrito outra.
Éteram passou os olhos pelas moedas sobre a mesa.
— E para quando a gente for embora.
Apari parou de movimentar a moeda.
— Embora de onde?
— De Netcross.
Ela ficou olhando para ele. Até aquele momento, uma casa melhor significava outra rua. Talvez um bairro onde a água não invadisse tudo, uma janela com dobradiças inteiras, uma cozinha onde coubessem duas panelas. O muro da cidade permanecera no mesmo lugar até em seus pensamentos.
— Podemos fazer isso?
Éteram assentiu.
— Com os vistos. Os guardas deixam sair quem tem os papéis certos.
— E dinheiro.
— E dinheiro. Precisamos descobrir quanto. Um cavalo ajudaria a levar nossas coisas e chegar a algum lugar onde possamos trabalhar os dois.
Apari examinou a moeda de ouro com uma atenção nova.
— Isso compra?
— Não sei.
Ela aguardou. Éteram não inventou uma resposta.
— Vou perguntar. Visto, cavalo, comida para a estrada. Não adianta atravessar o portão e passar fome do outro lado.
— Então talvez seja melhor não alugar ainda.
Ele olhou para a parede úmida.
— Talvez.
Apari acompanhou seu olhar. Depois colocou o ouro entre as duas pratas.
— Dá para comprar comida de verdade enquanto a gente descobre.
Éteram assentiu.
— Dá.
— E linha. Acabou a linha boa.
— Também.
Ela hesitou.
— Mas você não vai aparecer com outro peixe que vale quatro porcos.
Éteram olhou para ela. Pela primeira vez naquela noite, o sorriso surgiu sem que nenhum dos dois precisasse forçá-lo.
— Comprando também não pode?
— Primeiro a linha.
Ele concordou. Apari retirou o desenho da casa de seu esconderijo. Abriu-o sobre a mesa, alisando as dobras com cuidado. Não riscou nenhum dos quartos nem apagou os preços. No verso, desenhou duas pequenas figuras junto a uma forma que pretendia ser um cavalo. Éteram observou.
— Esse porco está muito alto.
Ela ergueu os olhos. Ele já estava sorrindo. Apari sacudiu a cabeça e tornou a desenhar, acrescentando pernas compridas o suficiente para que até um homem dos livros entendesse.
A comida daquela noite passou do ponto. Éteram não reclamou. Afastou a panela do fogo, aproveitou o que não grudara no fundo e separou duas porções. Apari esperou que ele escolhesse primeiro. Quando percebeu o motivo, Éteram se limitou a colocar a tigela habitual diante dela.
Mais tarde, guardaram as moedas num embrulho pequeno, protegido por tecido e escondido num lugar que decidiram juntos. Apari verificou a janela. Éteram colocou um recipiente sob a goteira. A riqueza não havia consertado o telhado. Deitaram com o fogo baixo. Apari permaneceu de costas para ele, ouvindo a água cair no recipiente. Cada gota produzia um som ligeiramente diferente conforme o fundo ia se enchendo. Tentou acompanhar esse ritmo até dormir, mas as palavras de Éteram continuavam voltando.
Não vou deixar de amar você.
Havia desejado ouvi-las em algum momento. Não imaginara que estariam entre uma moeda de ouro e um soco. Virou-se.
— Está acordado?
Éteram abriu os olhos.
— Estou.
Apari examinou a parte de seu rosto iluminada pelas brasas. O inchaço era pequeno, mas continuava lá.
— Posso chegar mais perto?
Ele assentiu. Ela se acomodou ao seu lado, tomando cuidado com o ombro machucado pelo esforço de carregar Lídia. Éteram percebeu a careta.
— Também se feriu?
— Só forcei. Passa.
Ele afastou um tecido enrolado, dando-lhe um apoio melhor. Apari permaneceu olhando para sua mão enquanto fazia aquilo.
— Quando você falou do bar… — começou. — Você realmente não se importaria?
Éteram demorou a responder.
— Com o quê, exatamente?
Ela apertou uma dobra do cobertor.
— Comigo dormindo com outros homens.
Ele olhou para o teto. Apari esperou. Dessa vez, não queria uma resposta rápida que servisse apenas para terminar a conversa.
— Eu ia me importar se você estivesse sofrendo — disse ele. — Se alguém machucasse você. Se estivesse fazendo isso porque acha que me deve uma casa.
— Não foi isso que perguntei.
Éteram virou o rosto.
— Eu sei. Estou tentando responder direito.
Ela afrouxou os dedos no tecido. Ele procurou as palavras por mais algum tempo.
— Gosto de cozinhar para você. Gosto de saber que vai estar aqui quando eu voltar. Quero que esteja segura e que goste da vida que tem comigo. Se alguma escolha sua deixasse você feliz… Eu ia tentar entender antes de dizer que acabou tudo.
Apari franziu a testa.
— Você fala como se eu pudesse fazer qualquer coisa e você só tivesse que aceitar.
— Você me bateu. Eu não gostei.
Ela abaixou os olhos.
— É diferente.
— É. Porque me machucou.
O silêncio voltou. Apari acompanhou uma sombra que se movia sobre a parede.
— E se eu quisesse ir embora?
Éteram ficou imóvel por um instante.
— Ia doer.
— Mas você deixava?
Ele tornou a olhá-la.
— A porta nunca ficou trancada para você.
Apari se lembrou da faca deixada ao alcance de sua mão, do casaco emprestado e de todas as noites em que a comida estivera pronta antes que decidisse entrar. Não conseguiu afastar inteiramente a desconfiança que sentia diante de alguém que oferecia tanto.
— Você tem medo de ficar sozinho — disse.
Éteram não respondeu imediatamente. A afirmação encontrara alguma coisa verdadeira, mas não toda a verdade.
— Tenho.
Ela ergueu os olhos.
— Então é isso?
— Não é só isso.
Ele passou a mão pelo tecido entre os dois, alisando uma dobra que não precisava ser alisada.
— Antes de você chegar, eu conseguia viver. Encontrava comida. Mantinha o fogo aceso. Se uma parede caísse, arrumava alguma coisa para pôr no lugar. No outro dia, fazia tudo de novo.
Apari acompanhou o movimento de seus dedos.
— Consigo fazer isso sem você — continuou. — Só não quero voltar a achar que é tudo o que existe.
Ela respirou devagar.
— E, se eu fosse feliz longe?
Éteram fez uma pequena careta.
— Ia preferir que estivesse feliz perto.
Apari quase sorriu. Ele entrelaçou os dedos aos dela.
— Mas saber que estava bem seria melhor do que imaginar você passando fome em algum lugar. Eu senti sua falta antes de saber seu nome direito. Não acho que ia deixar de me importar só porque você estivesse longe demais para ouvir.
Apari permaneceu olhando para ele. Depois aproximou a mão livre de seu rosto e parou antes de tocá-lo.
— Aqui?
Éteram indicou o outro lado. Ela pousou a palma na bochecha que não havia atingido.
— Eu quero ficar perto.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Ótimo.
— E não quero dividir a cama com outras pessoas. Nem homens, nem mulheres. Não estou esperando aparecer alguém com um quarto melhor.
Éteram tornou a abrir os olhos.
— Ainda bem. Não conseguiria competir com uma dobradiça inteira.
Apari soltou uma risada pelo nariz. Aproximou-se mais um pouco.
— Seu idiota.
Ele passou o polegar sobre seus dedos.
— É mútuo.
Ela o encarou.
— Você também acha que sou idiota?
Éteram começou a rir e se arrependeu quando a bochecha doeu.
— Não. Quer dizer que vale para os dois. O que você falou da cama. De querer ficar. Eu também quero.
Apari repetiu a palavra em voz baixa.
— Mútuo.
Pareceu testá-la, como fazia com um nó antes de confiar algum peso a ele.
— É — respondeu Éteram.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes.
— Ainda bem que explicou antes de eu aprender errado.
— Sua definição de masoquista continua horrível.
Apari apertou os olhos.
— Cuidado. Ainda posso aprender palavras piores.
Ele sorriu. Ela se aproximou para beijá-lo, devagar, escolhendo um ângulo que não pressionasse o ferimento. Quando se afastou, permaneceu com a testa perto da dele.
— Não foi a comida que me fez ficar — murmurou.
Éteram ergueu as sobrancelhas.
— Foi um pouco a comida — corrigiu ela. — Mas não só.
Ele esperou.
— Você me deu alguma coisa para pensar além da próxima janela. Primeiro quase me matou com aquele camarão. Depois passou a noite cuidando de mim como se perder uma ladra fosse acabar com o mundo.
— Para mim, parecia.
Apari baixou os olhos.
— Eu sei.
Uma gota caiu no recipiente. Ela a ouviu, respirou e acrescentou:
— Quero ver como a gente fica depois de conseguir sair desse buraco.
Éteram puxou o cobertor sobre seu ombro.
— Eu também.
Apari continuou acordada. Depois de alguns minutos, passou o polegar pela mão que segurava a dela.
— Você nasceu aqui?
Éteram estava quase adormecendo. Precisou abrir os olhos novamente.
— Não sei.
Ela levantou um pouco a cabeça.
— Como não sabe?
— Não lembro. Quando comecei a lembrar das coisas, já morava com meu tio.
Apari conhecia o tio pelas comidas. Uma berinjela recheada, um tempero que Éteram tentava reproduzir, uma maneira de guardar gordura sem estragar o sabor. Até então, o homem existira para ela como um par de mãos numa cozinha aquecida.
— Ele era daqui?
— Também não sei. Era mercador. Vendia um monte de coisas. Conhecia gente de fora.
Éteram se acomodou de costas, olhando para as vigas.
— Tinha homem que ia lá comprar. Outros levavam papéis, faziam perguntas e saíam sem levar nada. Eu achava estranho alguém entrar numa casa com comida e não ficar para comer.
Apari sorriu.
— Algumas coisas não mudaram.
— Ele também reclamava disso.
A lembrança lhe trouxe uma expressão que Apari não conhecia bem. Era mais quieta do que a satisfação com que falava das receitas. Éteram passou o polegar pela costura do cobertor.
— Lia para mim quase toda noite. Às vezes eram histórias. Às vezes alguma coisa que ele precisava conferir e me fazia ouvir porque eu não queria dormir. Foi assim que aprendi.
— E depois?
— Depois continuei nos jornais. O público real, principalmente. Aqueles que distribuí hoje.
Apari levantou a cabeça.
— Os que não cobram?
— Esses.
Ela pensou no dinheiro que não possuía quando começara a viver sozinha.
— Uma coisa de graça.
— Para quem consegue ler — respondeu Éteram.
Apari ficou quieta. Ele percebeu e apertou de leve sua mão.
— Vamos começar com seu nome. Depois as ruas. Não precisa aprender tudo numa noite.
Ela assentiu, ainda pensando nos jornais presos em lugares onde podia vê-los sem compreender uma linha.
— Seu tio falava do lado de fora?
— Bastante. Dos caminhos, das feiras. Nunca me levou, mas eu pedia para contar de novo.
Éteram sorriu ao lembrar. Apari conhecia bem o jeito com que ele repetia uma receita do tio, tentando recuperar até o cheiro da cozinha. Ficou olhando para aquele sorriso antes de continuar.
— Ele falava dos seus pais? — perguntou ela.
Éteram deixou de sorrir.
— Da minha mãe, às vezes.
Apari não se moveu.
— Dizia que era incrível. Que tinha habilidades mágicas. Depois conheceu meu pai e largou o que fazia para ficar com ele. Queria uma vida tranquila.
— E teve?
Éteram demorou a responder.
— Não sei. Meu tio só dizia que ela morreu e que meu pai me deixou.
Apari ouviu a água cair no recipiente.
— Você nunca soube o resto?
Ele negou com a cabeça.
— Perguntava. Não adiantava.
Ela segurou sua mão com um pouco mais de força. Não disse que sentia muito. Éteram parecia já ter ouvido frases que não mudavam nada. Ficou ao lado dele até que a tensão em seus dedos diminuísse. Então ele perguntou:
— E você?
Apari continuou olhando para a parede.
— Minha mãe ficou comigo.
Era a primeira coisa que queria que ele soubesse. Depois contou do pai, que as deixara na cidade por um motivo que nunca compreendera. Da mãe tentando fazer comida durar mais, costurando até tarde, medindo o valor de coisas pequenas antes de dizer que não precisavam delas.
— Ela falava em ir embora — disse Apari. — Às vezes. Mas precisava comprar o visto. E, se guardasse dinheiro para o visto, faltava comida.
Éteram permaneceu quieto.
— Então ficava para o outro mês. Depois para o outro. Sempre tinha uma coisa.
Apari puxou a manga, escondendo os próprios dedos na beirada do tecido.
— Até que ela saiu e não voltou.
Não acrescentou uma explicação porque não possuía nenhuma. Não sabia se a mãe conseguira atravessar o portão, se alguém a impedira, se tivera uma chance que só servia para uma pessoa. Havia dias em que preferia imaginá-la em outra cidade, viva e distante. Em outros, a ideia de que pudesse tê-la abandonado doía mais do que todas as alternativas.
— Eu não sei, Éteram.
Ele deslizou a mão até encontrar a dela sob a manga.
— Eu ouvi.
Apari respirou fundo. O quarto pareceu muito silencioso depois disso.
— Hoje, quando vi aquela mulher… — começou.
Não terminou. Éteram tampouco tentou terminar por ela. Ficaram deitados até o fogo diminuir. Quando ele precisou levantar para alimentá-lo, Apari soltou sua mão sem protestar. Acompanhou seus movimentos: a madeira escolhida, as brasas aproximadas, o cuidado para não lançar fumaça diretamente sobre ela. Éteram voltou e encontrou espaço sob o cobertor.
— Você disse que a lei é diferente em outras cidades — murmurou ela.
— Algumas coisas são. Os prefeitos podem fazer regras daqui. O rei pode mudar o que quiser.
— E ninguém manda no prefeito?
— O barão escolhe quem fica no cargo. E também responde a outros, até chegar ao rei.
— Então alguém escolheu o nosso — concluiu Apari.
— Escolheu.
— Devia ter escolhido um porco. Pelo menos dava para comer depois.
Éteram abafou uma risada e olhou instintivamente para a janela.
— Mais baixo.
Apari apertou a mão dele.
— Aqui dentro também?
Ele hesitou.
— Queria que não precisasse.
Ela encostou a cabeça em seu ombro. Pensou na amiga com quem aprendera a beijar. No cuidado com que algumas lembranças precisavam ser ditas. Éteram parecera preocupado quando, naquela outra noite, soubera dos beijos; agora ela compreendia que parte do silêncio dele também conhecia os guardas.
— Meu tio dizia que, nesta cidade, podiam prender duas pessoas por quererem ficar juntas se fossem do mesmo sexo — comentou ele. — Isso também não muda o que você sentiu pela sua amiga.
Apari levantou o rosto.
— Eu sei.
Éteram assentiu. Ela tornou a deitar.
— Procura um lugar onde eu possa ganhar dinheiro sem esconder a cara.
Ele acariciou de leve seus dedos.
— Vou procurar.
— E com uma cozinha.
— Isso já estava na lista.
Apari fechou os olhos. Naquela noite, o sono demorou a chegar. Mas, quando veio, encontrou os dois voltados para o mesmo lado, com a mão de Éteram repousando sobre a dela.