Durante a semana seguinte, o ouro permaneceu escondido. Utilizaram parte de uma prata para comprar comida, linha e um pequeno pedaço de sabão. Éteram trouxe os alimentos sem precisar olhar por cima do ombro. Apari o viu retirar os embrulhos da bolsa com uma solenidade que normalmente reservava aos ingredientes mais caros. Era farinha. Algumas raízes. Uma porção modesta de gordura. Mesmo assim, ele fez questão de mostrar cada coisa.
— Pagou por tudo? — perguntou ela.
Éteram ergueu o queixo.
— Inclusive pela farinha.
— E o saco?
Ele olhou para o recipiente. Apari aguardou.
— O homem deu.
Ela começou a rir antes que ele conseguisse defender a própria honestidade. Compraram também papel barato. O primeiro exercício ocupou quase uma folha inteira, embora consistisse em apenas cinco letras.
Apari segurava o instrumento de escrita como se pretendesse obrigá-lo a confessar alguma coisa. Éteram aproximou a mão para corrigir a posição dos dedos. Ela puxou a folha para mais perto num movimento brusco, e ele recolheu a mão antes que pudesse tocá-la. Apari acompanhou o movimento. Quis dizer que só estava ajeitando o papel, mas afrouxou os dedos em silêncio.
— Mostra na sua.
Ele demonstrou. Apari tentou outra vez. O primeiro A saiu grande demais. O segundo caiu para um lado. No terceiro, a ponta rasgou o papel.
— Essa porcaria está quebrada.
Éteram examinou o risco.
— Você precisa fazer menos força.
— Se fosse uma faca, já tinha terminado.
Ele aproximou a folha.
— Pensa numa agulha, então.
Apari tentou de novo. Dessa vez, o papel permaneceu inteiro. Éteram sorriu. Ela percebeu antes de olhar para o resultado.
— Não faz essa cara para uma letra torta.
— É uma letra sua.
Apari baixou a cabeça e continuou escrevendo. Na noite seguinte, Éteram levou para casa uma folha de jornal que já não ficaria exposta na biblioteca. Apari reconheceu o A em várias palavras, mas o restante da primeira coluna continuava fechado para ela. Pediu que ele lesse o trecho. Entre os nomes e títulos, um a fez interrompê-lo.
— Rei Herói era o quê?
Éteram afastou um pouco a folha. O tio começava aquela história pelas tribos, recuando cerca de dois séculos antes do calendário heroico. Falava de humanos espalhados em cidades pequenas, submetidos a povos mais fortes, pagando para atravessar terras que não controlavam. Quando pequeno, Éteram esperava a parte da magia. Agora precisou procurar um lugar para começar sem perder Apari entre as datas.
— Damon Euclides Mágos. Foi o único com esse título. Meu tio dizia que o nome tinha a ver com um mago que domina e tem grande fama.
Apari tentou repetir os três nomes. Desistiu do último.
— Ele sabia magia de verdade — continuou Éteram. — Ia de cidade em cidade resolvendo problemas. As pessoas seguiam ele. Dizia que os humanos eram mais numerosos e não tinham que continuar obedecendo a todo mundo.
— E conseguiram?
— Conseguiram vencer.
Éteram se lembrou de uma página em que o tio demorava mais do que ele gostaria. Estandartes, nomes de cidades e uma lista curta onde deveriam caber populações inteiras.
— Os livros chamam de libertação. Só que ele matava quem não era humano. Ou quem não parecia humano o suficiente. Alguns fugiram e deixaram casa, comida, tudo para trás.
— E os que não fugiram?
Éteram não respondeu. Apari baixou os olhos para o jornal, onde o título ocupava mais espaço do que as palavras à volta.
— Foram doze anos assim — disse ele. — Depois percebeu que não conseguia estar em toda parte, nem ia viver para sempre. Juntou as tribos, marcou as fronteiras e pôs gente respondendo para outra gente, até tudo chegar nele. Quem não aceitou perdeu mais do que a casa.
Contou que a ligação telepática permitia a duas pessoas partilhar o que viam e ouviam, mesmo separadas por uma distância que um cavalo levaria dias para percorrer. Conhecia os relatos; não sabia como a magia fazia aquilo.
— Então ele sabia de tudo?
— Sabia mais depressa. Não acho que seja a mesma coisa.
Apari acompanhou com o dedo a linha que Éteram acabara de ler. Quando ele voltou às letras, pediu que mostrasse onde terminava o nome do homem e começava o título. No dia seguinte, reconheceu a primeira letra do próprio nome num anúncio. Parou tão abruptamente que Éteram quase esbarrou nela. Não precisou dizer nada. Apontou, esperando que ele confirmasse. Ele confirmou. Apari tentou esconder o sorriso voltando os olhos para a rua.
Outras descobertas foram menos agradáveis. O preço dos vistos dependia dos documentos e do destino; obter respostas claras exigia visitar repartições em horários em que Éteram estava trabalhando. Um cavalo custava mais do que Apari desejava ouvir, e ainda precisariam de comida para o animal. Não decidiram nada antes de conhecer os valores completos. A moeda de ouro deixara de parecer um teto inteiro. Agora era estrada, papel, comida e uma distância que ainda não sabiam medir.
Em outra noite, a leitura trouxe o nome de Teneri. Quando Éteram explicou que era outro reino, ao sul, Apari deixou a folha de exercícios de lado.
— Por que aquele homem virou dono de tudo e agora tem dois?
— Porque morreu.
— Todo mundo morre.
— A família dele passou muito tempo tentando impedir.
Éteram pousou o jornal ao lado da tigela. O tio contava essa parte com impaciência, como se o rei estivesse demorando a terminar uma refeição que já não desejava. Os filhos e os parentes obrigavam Damon a receber, todos os dias, poções de cura de uma pureza extraordinária. Custavam fortunas e adiavam o fim. Com o uso contínuo, o corpo se acostumara: já não se regenerava sem elas. O tratamento exigia sempre mais uma dose.
— Chegaram a desenhar uma mochila — disse Éteram. — Para carregar o líquido o tempo todo, até quando saísse do quarto.
— Como um barril preso nas costas?
— Mais ou menos. Vi o desenho num livro. Tinha tubos. Queriam manter aquilo nele o dia inteiro.
Apari ficou com a colher parada.
— Ele quis?
— Pelo que meu tio contava, não. Um dia recusou o tratamento. Passou o dia inteiro dizendo não. Escreveram que ele se matou.
Ela olhou para a tigela, depois para Éteram.
— E os filhos ficaram com tudo.
— Dividiram. Disseram que nenhum era digno de carregar sozinho o legado dele. Um ficou ao norte, outro ao sul. Nummus e Teneri.
Apontou os nomes na folha. Contou do festival que reunia os dois reinos na fronteira todos os anos, celebrando a origem comum. Separados, mas ainda unidos, como diziam os jornais.
— Tem festival numa fronteira? Para cobrar de quem atravessa?
— Provavelmente cobram também.
Apari encostou a colher na borda da tigela.
— Eu preferia a parte em que a gente ia de cavalo.
Éteram começou a sorrir.
— Ainda estou tentando chegar nela.
— Passou por todos os mortos do reino primeiro.
Ele riu baixo e aproximou o jornal para continuar. Apari puxou a folha de exercícios para junto da dele. A palavra que tentava copiar ainda era comprida demais, mas dessa vez não pediu que a trocasse. Henry não mandou recado. Apari pensou nisso enquanto costurava, enquanto esperava Éteram e enquanto tentava distinguir letras que pareciam ter sido criadas apenas para se confundirem umas com as outras. No fim da semana, decidiu ir ao bar. Dessa vez, avisou antes.
Éteram colocou duas raízes pequenas na bolsa dela e ficou examinando o nó por tempo demais.
— Não precisa arrumar uma desculpa para falar — disse Apari.
Ele ergueu os olhos.
— Quero saber o que ele pedir.
Ela assentiu.
— Eu também.
Éteram terminou o nó. Não era exatamente a resposta que desejava. Apari percebeu, mas o beijou antes que os dois começassem a imaginar trabalhos que ainda não existiam.
O guarda apareceu pouco depois da abertura da biblioteca. Éteram o viu pela janela, conversando com o homem da loja vizinha. Não procurava um ladrão em fuga nem parecia preocupado com qualquer confusão imediata. Fazia perguntas, observava as respostas e seguia para a porta seguinte. Quando entrou, trouxe lama nas botas. Éteram olhou para o chão que acabara de limpar. Depois ergueu os olhos com a expressão mais respeitosa que conseguiu encontrar.
— Bom dia.
O guarda respondeu e apoiou a mão no balcão. Era alto; a barra do casaco ainda pingava sobre as botas. Tinha a pele amorenada, cabelos negros e lisos cortados junto à nuca e olhos muito escuros, atentos apesar do cansaço. O nariz era largo na base. Havia alguma carne nas bochechas, endurecida quando apertava a mandíbula, e uma barba curta que não fechava bem junto a um canto da boca. Uma cicatriz interrompia a sobrancelha. As unhas estavam aparadas, mas a borda de uma conservava terra seca. Quando tirou a luva da outra mão, Éteram percebeu que as articulações estavam vermelhas de frio.
— Você fica aqui todos os dias?
— Nos dias em que a biblioteca abre.
— Percebeu alguma coisa estranha na última semana? Gente de fora, procurando informação? Um grupo de rapazes, mais ou menos da sua idade.
Éteram pensou no pergaminho. A lembrança veio acompanhada pelo colarinho preso em seus dedos e pela maneira como o rapaz olhara para ele antes de sair. Baixou os olhos para a pilha de recibos. Havia várias maneiras de contar aquela história e quase nenhuma que terminasse sem outras perguntas.
— Não vi nenhum grupo.
O guarda o observou.
— São perigosos? — perguntou.
— Uns patifes. Mais trabalho do que perigo.
— Meros delinquentes, então.
O homem ergueu uma sobrancelha. Éteram desejou imediatamente ter escolhido palavras menores. O guarda, entretanto, abriu um sorriso.
— Faz jus ao lugar onde trabalha.
— Conheci a pessoa certa e aprendi as palavras certas.
— Tomara que saiba escolher quando usar.
Éteram assentiu. O guarda examinou as estantes. Perguntou se havia outra saída além da principal, recebeu a indicação do corredor de serviço e voltou ao balcão.
— Vou ficar nesta região. Se aparecer alguém fazendo perguntas esquisitas, pode me chamar.
Éteram acompanhou a mão do homem afastando-se do tampo. Uma pequena faixa de umidade permanecera sobre a madeira.
— Se precisar de ajuda com um texto chato ou algum documento, também posso ajudar.
A oferta saiu porque o silêncio estava demorando. Só depois percebeu que talvez tivesse acabado de se oferecer para ler a própria denúncia. O guarda soltou uma risada.
— Vou lembrar disso.
Deu alguns passos e tornou a virar-se.
— Amanhã vem uma pessoa falar com você sobre esse assunto. Deixe um tempo para atender.
Éteram assentiu outra vez. Quando a porta se fechou, continuou olhando para ela. Até aquela semana, a parte mais difícil de trabalhar na biblioteca havia sido encontrar um livro marrom descrito como vermelho. Começava a sentir falta daquele problema.
Apari esperou quase duas horas.
No começo, permaneceu no corredor de entrada, onde podia ver quem chegava e sair sem precisar atravessar o salão. A casa trocava de mãos diante dela: um homem deixou o posto junto à escada, outro recebeu suas chaves; saíram cestos fechados, entraram pães ainda quentes. O calor vindo de baixo não cessava. Apari ouviu uma discussão abafada sobre uma válvula e, depois, o baque de metal que a interrompeu. A mulher das contas verdes a encontrou acompanhando o percurso dos cestos e a convidou para uma sala menor.
— É melhor esperar aqui.
Apari olhou para a porta.
— Por quê?
— Os clientes reparam em quem entra e sai. Alguns gostam de imaginar o resto.
Ela indicou uma cadeira.
— Mesmo sem máscara, podem achar que veio usar os serviços da casa.
Apari sentou devagar.
— Isso não é ilegal?
A mulher ajeitou uma dobra da manga.
— Claro que é.
Não havia ironia suficiente na resposta para torná-la uma brincadeira. Apari examinou os copos limpos sobre um aparador, a madeira escura da porta e a fechadura que podia ser movimentada por dentro. Do outro lado da parede, alguém ria com uma liberdade que provavelmente não levava para a rua.
— Aqui pode?
— Aqui acontece.
A mulher deixou uma jarra de água e um prato com pão. Apari aguardou que ela se voltasse.
— E Lídia?
A expressão por trás da máscara mudou discretamente.
— Está comendo. Ainda não consegue segurar uma caneca direito. Mas está comendo.
Apari sentiu o próprio estômago relaxar.
— Ela fica onde? Num quarto desses?
— Na enfermaria, no quarto andar. Lá em cima é dos funcionários. Tem comida, banho, descanso. Quem precisa dormir uma noite pode conseguir uma cama de emergência. Morar aqui todo dia é pago.
A mulher recolheu um copo do aparador e conferiu a borda contra a luz.
— E não é passagem de cliente. Nem para os quartos de serviço. Tem até criança lá em cima.
Apari ergueu o rosto.
— Criança?
— Filhos de gravidezes iniciadas enquanto as mulheres atendiam nos quartos. Só esses podem ficar. A casa dá comida, cuidadores, ensino sem cobrar. E cama, numa emergência.
— Então elas têm filho trabalhando aqui?
A mulher pousou o copo. Apari se arrependeu do modo como a pergunta soara, mas a outra respondeu sem mudar a voz.
— Quem faz atendimento sexual tem de tomar uma poção para evitar gravidez. Não suspende o ciclo. Só dificulta a concepção. A mulher da enfermaria explica assim: na época fértil, protege em seis de cada dez casos. Fora dela, em oito. Sobram casos demais.
Apari olhou para o prato. A casca do pão se abrira numa fenda dourada. Tentou imaginar repartir aquilo com alguém menor, que ainda não pudesse sair para roubar.
— E, se ela parar de atender?
— Pode ir para a cozinha, a limpeza, outro serviço. Se continuar empregada, o filho conserva o amparo. Trabalhou cinco anos nos quartos e depois quinze lavando roupa? A criança daquela primeira época pode continuar estudando por todo esse tempo.
— Mas, se tiver outro depois?
— Uma gravidez começada quando ela já está na limpeza não entra na regra. A casa não assume esse filho. É a função na época da gravidez que conta, não a máscara que a mãe usou antes.
Apari passou o polegar por uma rachadura na unha. Duas crianças da mesma mulher. Uma podia comer ali; a outra, não. A mulher das contas verdes recolheu outro copo.
— E o que cresceu aqui tem que trabalhar aqui para pagar?
— Não. Quando adulto, escolhe. Pode procurar emprego fora, ficar na cozinha, virar segurança, atender se quiser. Ter estudado aqui não compra o corpo de ninguém. E criança não entra nos salões nem nos quartos dos clientes.
Do corredor veio o tinido de louça empilhada. Apari olhou para a porta por onde tinham levado Lídia na outra noite. Havia regras para tudo naquela casa. Ainda queria saber qual delas manteria um homem do lado de fora.
— O marido veio?
— Não chegou até ela.
A mulher não acrescentou nada. Apari também não insistiu. A porta se fechou com um clique suave, deixando-a sozinha diante da água e do pão. Dessa vez, comeu. Guardou as raízes que Éteram lhe dera. Levaria de volta para casa. Esperando ali, lembrou dos jornais que Éteram lera para ela nos últimos dias. Nunca faltavam nomes de autoridades. Apontara um dos títulos, perguntando se era mais alguém de quem precisariam conseguir uma assinatura para sair da cidade.
Ele não soubera dizer quais papéis exigiriam deles. Explicara o que conhecia: condes administravam condados; duques, ducados; grão-duques e arquiduques reuniam territórios maiores. A terra acompanhava esses títulos, que passavam aos filhos. Barões administravam cidades, mas não eram donos delas pelo título; um conde ou duque podia mudar quais cidades ficavam sob suas ordens. Os barões escolhiam prefeitos. Nenhum desses dois cargos passava automaticamente para um filho.
— E acima de todos eles, o rei — concluiu Éteram. — Tem um conselho para aconselhar, mas a vontade dele é absoluta.
— O voto dele vale mais que o dos outros juntos?
— Vale.
Apari deixou de seguir a coluna com o dedo.
— Bastava ele querer para eu poder trabalhar aqui?
Éteram assentira, naquela noite. Agora, Apari tornou a olhar para a porta fechada. Do outro lado, um cliente chamava por vinho. Enquanto esperava, examinou o bordado de uma almofada. Contou os pontos de uma folha e descobriu onde a costureira escondera uma emenda. O trabalho era tão bem-feito que precisou tocar para ter certeza. Pensou em quanto pagariam por uma peça daquelas numa cidade onde ela pudesse receber por costurar.
Henry entrou quando Apari já havia consultado o relógio quatro vezes.
— Achei que tivesse desaparecido.
Ela levantou os olhos.
— Eu achei que o senhor mandaria me chamar.
Ele retirou as luvas com calma.
— E para onde mandaria?
Apari abriu a boca, mas lembrou-se do endereço que tivera o cuidado de esconder. Henry sorriu antes que ela encontrasse uma resposta.
— Uma parceria fica um pouco difícil quando metade dela não pode ser encontrada.
— Então vim resolver essa metade.
Ele pareceu satisfeito. Sentou-se e fez um gesto para uma empregada recolher o copo, o prato e os talheres utilizados por Apari. Esperou que a porta se fechasse antes de perguntar:
— Pensou na proposta?
— Pensei. Se o pagamento for bom como da primeira vez, quero continuar.
Henry começou a rir. Apari não gostou do som.
— Não se ganha um ouro toda vez que se atravessa uma janela — disse ele. — Aquilo foi um bônus. E um incentivo.
— Percebi a parte do incentivo.
— Ainda assim, vai ganhar mais comigo do que conseguiu nessa vida de mendiladra.
Apari ficou imóvel. Henry observou a mudança sem se apressar em corrigir nada.
— Você sabe o que faz. Eu sei quanto isso costuma render nas ruas. Estamos conversando porque pode render mais aqui.
Ela apoiou as mãos sobre os joelhos.
— Então fala do trabalho.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça. Apari sentia o calor da luz nos cabelos presos, longe do rosto. O olhar de Henry subiu de suas mãos até a testa, demorou-se nos cachos. Ela conteve a vontade de soltá-los para se esconder atrás deles. Mantinha o rosto limpo, mas reconhecia muito bem aquele modo de examiná-la. Henry apoiou os cotovelos na mesa, ainda olhando para o cabelo dela.
— Pele clara, esse cabelo… Alguns clientes pagariam muito bem por uma hora.
Apari se levantou. Ele ergueu a mão antes que ela falasse.
— Eu ouvi sua resposta na semana passada. Não estou fingindo que não ouvi. Estou dizendo quais possibilidades existem. Você continua escolhendo.
— Já escolhi.
— Ótimo. Sente.
Apari permaneceu de pé mais alguns instantes. Depois voltou à cadeira, com o corpo perto da borda. Henry examinou uma unha.
— Estou pensando em ampliar alguns serviços. Conhece algum rapaz bonito? Um amigo, talvez. Seu namorado.
A resposta veio sem hesitação.
— Não.
Ele ergueu os olhos. Apari sustentou o olhar sem acrescentar uma palavra. Henry manteve os olhos nela por mais um instante. Depois deixou o silêncio passar sem insistir. Abriu uma pequena bolsa de couro e a colocou sobre a mesa. Havia um bilhete preso ao cordão.
— Um cliente quebrou o pulso de uma das mulheres da casa. O direito.
Apari olhou para a bolsa.
— Ele está lá fora?
— Não. Foi embora. Deixou dinheiro para compensar o inconveniente.
Henry pronunciou a última palavra com cuidado, como se a examinasse antes de decidir onde cortá-la.
— Quero que devolva isto. Deixe num lugar em que ele encontre. O bilhete vai junto.
Apari aproximou a mão, mas ele manteve um dedo sobre a bolsa.
— Essa é a parte simples.
Ela ergueu os olhos.
— Qual é a outra?
— Quebre o pulso direito dele.
O ruído do salão pareceu diminuir. Apari olhou para a porta. Depois voltou a encará-lo.
— O senhor quer devolver o dinheiro e machucar o homem?
— Quero que entenda que não comprou o direito de quebrar ninguém.
Ela franziu a testa. Henry retirou o dedo da bolsa.
— Não tolero esse comportamento num ambiente familiar.
Apari examinou o rosto dele, procurando a brincadeira. Não encontrou.
— Familiar.
— As pessoas passam mais tempo aqui do que em muitas casas. Entenda a palavra como preferir.
Ele encostou-se na cadeira.
— Foi a segunda vez. Na primeira, deixei a advertência muito clara. Algumas coisas admito corrigir com uma conversa. Na segunda, o preço precisa ser outro. Na terceira, a pessoa perde o bem mais precioso que possui.
Apari não perguntou qual. Apari olhou para a mão que Henry retirara da bolsa. Era a mesma que pusera o ouro diante dela depois de mandar cuidar de Lídia. Agora ele especificava um osso quebrado como quem encomendava o conserto de uma porta.
— Por que eu?
— Porque sabe esperar, observar e entrar onde não a convidaram. Porque não precisa fazer isso no meio da rua. E porque quero saber se posso confiar em você quando a tarefa não termina com agradecimentos.
Apari olhou para o bilhete.
— O que está escrito?
Henry a observou por um instante. Depois leu. O texto devolvia o pagamento, lembrava o aviso anterior e dizia que aquela era a última oportunidade de entender as regras da casa. Não mencionava Apari. Ela tocou o cordão da bolsa.
— Quanto pelo serviço?
— Três pratas, concluído. Se fizer direito, podemos conversar sobre uma quantia fixa para ficar disponível e receber por trabalhos adicionais.
Três pratas.
Apari pensou no salário de Éteram. O pensamento a irritou. Não queria medir um pulso pelo número de caixas que ele precisaria carregar.
— E se eu não conseguir?
Henry não mudou de expressão.
— Devolve a bolsa. Não precisa voltar procurando outro serviço; vou chamar alguém que consiga. As outras possibilidades continuam existindo.
Apari lançou um olhar curto às máscaras penduradas do lado de fora da sala. Ele acompanhou.
— Você perguntou.
Ela se levantou com a bolsa na mão. O couro era macio. As moedas dentro dela pertenciam a um homem que quebrara alguém e esperara ir embora mais leve. Apari não gostava de perceber o quanto essa parte tornava fácil guardar a encomenda.
Henry deu-lhe o nome: Dorian. Era alto e pesado, tinha o cabelo curto, já ralo no alto da cabeça, e a barba aparada junto ao queixo. As marcas ao redor da boca o faziam parecer sempre contrariado. Indicou os lugares em que costumava ser encontrado e uma referência da casa. Apari repetiu as informações. Quando terminou, Henry assentiu.
— Discreta. Completa. Como foi pedido.
Ela saiu antes de descobrir o que teria vontade de responder. No corredor, a mulher das contas verdes a esperava com uma capa escura dobrada sobre o braço. Por cima dela havia uma máscara de tecido, sem enfeites.
— Leva.
Apari tocou o tecido. Havia um capuz largo, costuras resistentes e uma pequena faixa interna para prendê-lo sem deixar as mãos ocupadas.
— Faz parte do pagamento?
— Faz parte de não precisar explicar seu rosto depois.
Ela ajudou Apari a acomodar a peça sobre os ombros.
— Usa o que sabe fazer. Não tenta resolver do jeito que um homem do dobro do seu tamanho resolveria.
Apari levantou os olhos.
— Você sabe o que ele pediu?
A mulher acertou a dobra do capuz.
— Sei qual das nossas ainda não consegue se vestir sozinha.
Apari guardou a bolsa por dentro da capa. Na rua, o tecido pesou menos do que imaginara. O trabalho, mais.
Encontrou o homem perto do fim da tarde. Estava sentado diante de um estabelecimento, ocupando a cadeira com o conforto de quem nunca precisava pensar se a madeira suportaria seu peso. A descrição combinava. Quando se levantou para pagar alguma coisa, Apari viu o tamanho das mãos. Olhou para as próprias.
Não conseguiria imobilizá-lo numa briga. Se o surpreendesse e errasse, talvez tivesse apenas uma tentativa. A faca resolveria outro tipo de problema, mas Henry fora específico. Ela também não queria descobrir como seria carregar a lembrança de um homem morto por causa de três pratas. Permaneceu do outro lado da rua até ele ir embora.
Seguiu-o a uma distância confortável, mudando de calçada quando necessário. O capuz escondia os cabelos, mas não a tornava invisível. Precisava continuar sendo uma pessoa que tinha motivo para andar. A casa possuía uma janela de cozinha voltada para um pátio estreito. Apari encontrou um ponto de observação junto ao muro. Viu o homem entrar, retirar o casaco e examinar alguns recipientes sobre a mesa. Havia muitos.
Potes pequenos, garrafas, um recipiente tampado por tecido. Uma xícara de cerâmica descansava perto da mão direita dele. O homem bebeu o que havia ali, fez uma careta e colocou a xícara de volta. Apari esperou. Ele tornou a sair algum tempo depois, levando uma sacola vazia. A porta fechou. Seus passos atravessaram o pátio e desapareceram. Ela contou mais um intervalo antes de se aproximar. A janela não estava trancada.
Isso a deixou desconfiada o suficiente para abri-la apenas um pouco e escutar. Nenhuma respiração. Nenhum ruído de cadeira. Do outro lado, o cheiro era amargo e lembrava casca molhada. Apari entrou. Encontrou primeiro a xícara. Restava no fundo um líquido marrom, turvo, com partículas grudadas na cerâmica. Não tocou. Aproximou o rosto o suficiente para sentir o cheiro e se afastou fazendo uma careta. Os potes possuíam rótulos.
Apari reconheceu uma letra em um deles. Um A, talvez. Sentiu uma raiva curta e precisa de saber tão pouco. Examinou o conteúdo através do vidro. Folhas enroladas, pequenas raízes, alguma coisa semelhante a sementes. No último recipiente, havia besouros. Inteiros. Escuros, com pernas finas e cascos que refletiam a luz da janela. Apari inclinou a cabeça. Nenhum se moveu. Não conseguiu determinar se estavam secos ou conservados de alguma outra forma. Olhou novamente para a xícara.
Pensou em Éteram, no modo como ele identificava uma erva pelo cheiro e imediatamente começava a explicar onde poderia utilizá-la. Ouviu um ruído do lado de fora. Ficou imóvel. Uma porta se fechou no pátio vizinho. Alguém chamou uma criança. Apari esperou até que os passos se afastassem. Não procurou nada que pudesse roubar. A bolsa de moedas permaneceu sob a capa, com o bilhete preso. Não faria a parte fácil antes de compreender se conseguiria cumprir a outra.
Repassou mentalmente os objetos: xícara, potes, besouros. A janela. A cadeira em que o homem se sentara. A posição da porta. Depois saiu pelo mesmo lugar.
Éteram percebeu a capa antes de perceber a expressão dela.
— Isso é novo.
Apari soltou o fecho.
— Emprestaram.
Ele tocou a borda do tecido com a ponta dos dedos.
— É boa.
— Eu sei.
Ela a pendurou longe do fogo e retirou as raízes da bolsa. Colocou-as junto aos ingredientes que ele havia separado. Éteram olhou para os alimentos devolvidos.
— Você comeu?
— Pão. Tinha lá.
Ele assentiu, mas continuou observando-a.
— E o serviço?
Apari demorou um pouco mais do que deveria.
— Tem outro.
— De quê?
Ela encostou a bolsa de couro na superfície, sem soltar o cordão.
— Devolver um dinheiro. Para um homem que machucou uma mulher do bar.
Éteram examinou o bilhete.
— E só?
Apari pensou no pulso. Na cara que ele faria. Em quanto tempo levariam para chegar à parte em que Éteram desejaria ir junto, convencido de que a própria preocupação bastava para transformar um corpo magro em proteção.
— Tem uma coisa que preciso descobrir antes.
Ele permaneceu olhando para ela. Apari sabia que não havia respondido. Sentiu isso com particular clareza porque passara tempo demais ensinando a ele como era desagradável ficar do outro lado de uma resposta incompleta.
— Ainda não fiz nada — acrescentou.
Éteram soltou o ar.
— Me conta antes de fazer.
Ela assentiu, guardando a bolsa junto à capa. A promessa pequena encontrou imediatamente o peso daquilo que ainda não dissera.
Por algum tempo, ajudou a limpar as raízes. Éteram falou de um guarda que fizera perguntas sobre rapazes de fora e de uma visita prevista para o dia seguinte. Apari ouviu enquanto tirava terra de uma dobra da casca. Ela própria escolhera cuidadosamente o que contar. Mesmo assim, ao vê-lo hesitar antes de voltar ao trabalho, sentiu vontade de perguntar o que faltava na tarde dele. Não perguntou.
Apari lavou uma raiz. Esfregou a terra com força desnecessária.
— Besouro serve para alguma coisa?
Éteram parou com a faca sobre a tábua.
— Vivo?
— Sei lá. Besouro.
Ele examinou os ingredientes, como se precisasse ter certeza de que nenhum acabara de aparecer ali.
— Depende do besouro.
— Num pote.
Éteram ergueu a cabeça.
— Isso melhorou bastante a pergunta.
Apari lhe mostrou a língua. Ele voltou a cortar.
— Tem gente que coleciona insetos. Vi um homem procurando um livro sobre isso. Asas, pernas, nomes difíceis. Ficou muito ofendido quando perguntei se dava para comer algum.
Ela apoiou os cotovelos na beirada.
— E se a pessoa só tiver besouros?
— Talvez goste mais de besouros.
— Por quê?
Éteram levantou os olhos.
— Rosa, você está pedindo para eu explicar o gosto de um desconhecido por besouros.
Apari quase sorriu.
— O mundo é grande — acrescentou ele. — Tem gente que gosta de coisas muito estranhas.
Ela examinou a concha que ele acabara de colocar ao alcance da mão. Éteram percebeu o olhar.
— A concha tem utilidade.
Apari começou a rir. Ele balançou a cabeça, satisfeito por ouvi-la outra vez, e levou as raízes para a panela. Ela esperou até que ele voltasse.
— E uma bebida marrom? Meio suja, com coisa no fundo?
— Uma descrição assustadora de metade do que já bebemos aqui.
— Éteram.
Ele apoiou as mãos na superfície.
— Pode ser chá. Casca, raiz, folha. Depende do cheiro e do que colocaram.
— As pessoas tomam por quê?
— Porque gostam. Porque alguém disse que faz bem. Porque estão tentando dormir ou ficar acordadas. Tem planta que ajuda, tem planta que faz mal. Não dá para saber pela cor.
Apari ficou olhando para a panela. Éteram acompanhou sua expressão e inclinou a cabeça.
— Você não está pensando em tomar alguma coisa que encontrou por aí, está?
— Não.
A resposta foi verdadeira. Ele pareceu se tranquilizar um pouco. Recolheu os restos das raízes e limpou a superfície onde pretendia colocar o papel.
— Acho que você está encontrando assuntos para não começar a aula.
Apari se endireitou.
— Não estou!
Éteram trouxe a folha.
— Ontem eram cavalos. Antes de ontem, você precisava entender como o ponteiro sabia a hora. Hoje são besouros.
Ela cruzou os braços.
— Minha curiosidade incomoda você.
— Sua curiosidade aparece sempre que eu pego o papel.
Apari examinou as letras que fizera na noite anterior. Algumas já pareciam menos inimigas.
— Você consegue trazer um livro de chás?
Éteram parou. Ela percebeu o efeito e continuou:
— Um que mostre as coisas. Para eu saber que folha é qual. Talvez tenha os nomes.
O rosto dele se iluminou com um entusiasmo que fez Apari sentir a bolsa de couro mesmo estando longe dela.
— Tem um de ervas de cozinha e infusões. Posso pedir para levar. Os desenhos são bons.
Ela assentiu. Éteram se sentou ao seu lado e aproximou a folha.
— Então hoje vamos fazer uma coisa diferente.
Escreveu duas palavras. Apontou a primeira.
— Água.
Apari reconheceu o A. Ele indicou a outra.
— Fogo.
Ela olhou para a panela, depois para o papel.
— Você vai me ensinar a ler uma cozinha inteira?
— É um bom começo.
Apari segurou o instrumento de escrita, dessa vez fazendo menos força. O braço dele encostou no seu enquanto demonstrava a primeira curva. Éteram cheirava a farinha, fumaça e ao sabão que tinham comprado. Apari acompanhou a mão deslizando sobre o papel e pensou no homem que guardava besouros, nas moedas que precisava devolver e em tudo o que não caberia naquela mesa quando finalmente contasse. Escreveu água. O G saiu torto. Éteram mostrou como corrigir sem rasgar a folha.
Ela tentou de novo.