Éteram, num acesso de raiva, viu sua sopa desaparecer por uma rachadura em sua panela milenar, que ele havia remendado depois de encontrá-la na rua.
Ele olhou para o vazio deixado pela sopa.
Depois para a panela.
Talvez fosse hora de admitir que aquilo não era mais uma panela.
Agora que não estava mais sozinho, ele precisava mudar de vida.
Mas que oportunidade alguém como ele poderia ter?
— Por que você não arruma um emprego na biblioteca?
— Porque eles me aceitariam?
— Por que você sabe ler! Eu nunca conheci ninguém da nossa idade na rua que soubesse ler. No máximo contar nos dedos, e olhe lá.
— Mas eu não tenho roupas e nem aparência…
— Deixa que eu cuido disso. Eu roubei algumas agulhas e linhas. Venho guardando trapos velhos pra essa ocasião faz um tempo.
— Essa ocasião? Biblioteca?
— Alguma coisa minimamente decente que não seja vender coisas roubadas. Você não é atlético, não serve pra trabalho de carga. Por isso é leve e rápido. Sem contar que não sabe lutar.
— Tá me chamando de fracote?
— Quase isso. Só destacando seus lados positivos.
Ela sorriu.
Apari passou um dia inteiro procurando no lixo de lojas de tecidos e alfaiatarias. Quando voltou, carregava uma pilha de tecidos variados que, depois de costurados, poderiam formar uma nova vestimenta de trabalho para Éteram.
Pela primeira vez, ele teria algo que poderia ser chamado de roupa de trabalho.
Por fora, um colete marrom, surrado e simples.
Por dentro…
Uma aberração.
Cores diferentes, remendos de todos os tamanhos, pedaços de tecido que não combinavam em absolutamente nada. Tudo cuidadosamente escondido, costurado e colado com cola de sapateiro — que também havia sido roubada anteriormente por Éteram.
Apesar do milagre, nada podia ser feito pelos sapatos.
Só poderiam tampar seus buracos e rasgos.
No dia seguinte, Éteram entrou na biblioteca e se apresentou no balcão.
— Olá, e…
— Xiiiu. Fale mais baixo, idiota.
— Perdão, moça. Me chamo Éteram e vi o anúncio na frente. Vim me apresentar.
— Você viu ou te falaram?
Ela franziu a sobrancelha, desconfiada.
— Eu vi com meus próprios olhos, senhora. Eu sei ler!
— Veremos se sabe o suficiente.
Respostas
Quando Éteram chegou em casa, Apari o esperava ansiosa, andando em círculos.
Bastou olhar para a expressão dele para perceber a derrota.
Éteram entrou, tirou os sapatos e se deitou, cobrindo os olhos com o braço.
— Éti, não fica assim. É só um emprego estúpido. A gente pensa em outra coisa.
— Ah… desculpa… É que minha cabeça dói muito…
— Tá tudo bem. Eu vou buscar água fresca no poço.
— Deixa eu terminar…
Ele respirou fundo.
— Minha cabeça dói porque eu tive que aprender a ver as horas. Ela me fez ler algumas coisas em voz alta e fez perguntas sobre o que estava escrito… mas eu estou dentro. Começo semana que vem.
Apari ficou em silêncio por um segundo.
Então gritou e pulou em cima de Éteram, fazendo com que ele soltasse seus últimos suspiros de ar.
— NÃO VAMOS PRECISAR ROUBAR COMIDA!
— Calma! Calma!
— Vamos poder comprar coisas! E talvez até alugar um buraco de verdade! Com teto e paredes de verdade!
— Calma, calma, minha rosa. Tais frutos advêm de um trabalho árduo e insondável que está por vir. Entretanto…
Éteram parou.
Apari estava olhando para ele com um olhar vazio.
— Quem é Rosa?
— Hehe…
Ele desviou o olhar.
— O texto era um poema sobre rosas. Aí eu pensei que, como seu cabelo é vermelho que nem as rosas, seria engraçado…
Ele olhou novamente para ela.
— Por que tá me olhando assim?
— Hmmm.
Ela estreitou os olhos.
— Seria engraçado se você tivesse falado que nem gente e não todo pomposo.
Apari se deitou ao lado de Éteram, que a abraçou.
— Eu disse que é um trabalho lento e difícil. Só podemos planejar quando tivermos o dinheiro na mão. Não podemos assumir compromissos sem essa garantia. Algumas pessoas pedem um a três aluguéis como garantia caso a gente atrase. Pretendo assinar um contrato pra evitar que façam o que quiserem com a gente.
Apari ficou alguns segundos em silêncio.
— Você é muito esperto pra morar numa casa abandonada que está caindo aos pedaços a cada estação.
— O que você ganha com isso?
Naquela noite, Apari perguntou por que ele se esforçava tanto para mantê-la por perto.
Éteram respondeu:
Me vi rodeado pelo frio.
Um frio tão morto que nem colocar as mãos nas chamas poderia aliviar. Um frio tão profundo que nenhuma bebida poderia alcançar.
Esse frio sempre esteve me espreitando, mas, com os anos, foi crescendo até me consumir. Meus músculos enrijeciam a ponto de eu mal conseguir me mover. E, se não fosse a dor da fome, talvez eu nem tivesse motivo para tentar.
Ainda assim, era somente quando a fraqueza vinha que eu encontrava forças para me mover.
Mas tudo isso mudou quando vi você comendo o pão que eu havia guardado.
Eu me vi em você.
Quando a faca voou e eu vi seus cabelos ao vento enquanto o sangue escorria, senti um calor. Pela primeira vez em muito tempo, eu me senti vivo.
Quando pude escutar você comendo o que preparei, com gosto, com fome, foi como se tudo tivesse sido apagado.
Foi a melhor noite de sono que já tive.
Ainda consigo me lembrar do sonho daquela noite.
Sonhei que estávamos em uma cozinha. O chão era de azulejos tão brancos quanto a neve, e os talheres eram tão brilhantes que podíamos enxergar nossos rostos neles.
Eu enchia uma mesa inteira somente para você.
Depois me sentava ao seu lado e apenas observava enquanto você devorava tudo.
— Nossa… Isso foi bem diferente, eu sonho com vacas em árvores e esse tipo coisa, mas pelo visto — Apari se senta em cima de Éteram — o senhor me vê como uma morta de fome a ser alimentada então essa noite eu vou te devorar…